{"id":96743,"date":"2018-12-05T12:00:13","date_gmt":"2018-12-05T15:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=96743"},"modified":"2018-12-04T18:03:22","modified_gmt":"2018-12-04T21:03:22","slug":"se-os-oceanos-ficarem-mais-quentes-e-acidos-o-bacalhau-ira-tornar-se-um-refugiado-climatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/se-os-oceanos-ficarem-mais-quentes-e-acidos-o-bacalhau-ira-tornar-se-um-refugiado-climatico\/","title":{"rendered":"Se os oceanos ficarem mais quentes e \u00e1cidos, o bacalhau ir\u00e1 tornar-se um refugiado clim\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/oceano_acido.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-96744\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/oceano_acido-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/oceano_acido-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/oceano_acido.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Cozinhado de infinitas formas, o bacalhau \u00e9 um h\u00e1bito em muitas mesas portuguesas. Mas, devido \u00e0 pesca excessiva, polui\u00e7\u00e3o e ao aquecimento global, tem vindo a ficar cada vez mais vulner\u00e1vel. Preocupados (sobretudo) com as consequ\u00eancias das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas no bacalhau-do-atl\u00e2ntico \u2013 o que se consome mais em Portugal \u2013 e no bacalhau-do-\u00e1rctico, cientistas da Alemanha e Noruega criaram cen\u00e1rios sobre o que lhes acontecer\u00e1 caso as emiss\u00f5es de gases com efeito de estufa continuem a subir. Os resultados n\u00e3o deixam d\u00favidas: caso essas emiss\u00f5es continuem a aumentar, as popula\u00e7\u00f5es de bacalhau poder\u00e3o diminuir e mudar o seu habitat mais para norte. Ou seja, podem tornar-se refugiados clim\u00e1ticos, como ilustra esta equipa de cientistas.<\/p>\n<div class=\"mh-content-ad\"><\/div>\n<p>Viajemos at\u00e9 \u00e0s \u00e1guas do Atl\u00e2ntico Norte e do \u00c1rctico. Nelas encontramos o bacalhau-do-atl\u00e2ntico (<em>Gadus morhua<\/em>) e o bacalhau-do-\u00e1rctico (<em>Boreogadus saida<\/em>). Ambos gostam de \u00e1guas bem frias durante a sua reprodu\u00e7\u00e3o: o bacalhau-do-\u00e1rctico reproduz-se em \u00e1guas entre os zero e os 1,5 graus Celsius, j\u00e1 o bacalhau-do-atl\u00e2ntico prefere \u00e1guas um pouco mais quentes (mesmo assim muito frias para n\u00f3s) entre os tr\u00eas e os sete graus Celsius.<\/p>\n<p>Como gostam de \u00e1guas t\u00e3o geladas, estas esp\u00e9cies ficam vulner\u00e1veis \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, que podem tornar as \u00e1guas do Atl\u00e2ntico Norte e do \u00c1rctico mais quentes como resultado da emiss\u00e3o de gases com efeito de estufa. H\u00e1 ainda o problema da acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos: quanto mais di\u00f3xido de carbono (CO2) houver na atmosfera, mais di\u00f3xido de carbono se dissolve nos oceanos. Simplificando: o CO2 e a \u00e1gua ligam-se e formam \u00e1cido carb\u00f3nico, o que acidifica os oceanos.<\/p>\n<p>\u201cIsto significa que o bacalhau-do-atl\u00e2ntico e o bacalhau-do-\u00e1rctico poder\u00e3o ter um stress duplo no futuro: o seu habitat ficar\u00e1 simultaneamente mais quente e mais \u00e1cido\u201d, aponta Flemming Dahlke, ec\u00f3logo marinho do Instituto Alfred Wegener (Alemanha) e autor do trabalho\u00a0publicado na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Science Advances<\/em>, num comunicado da sua institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"story__callout story__callout--image media media--image story__callout--inline\" data-media-action=\"modal\"><figcaption class=\"caption caption--image\"><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Ovos mais vulner\u00e1veis<\/h2>\n<p>Foi\u00a0com estas preocupa\u00e7\u00f5es\u00a0que Flemming Dahlke e a sua equipa iniciaram uma investiga\u00e7\u00e3o para saber quais as consequ\u00eancias das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas nessas duas esp\u00e9cies. Para isso, fizeram experi\u00eancias com ovos do bacalhau-do-atl\u00e2ntico e do bacalhau-do-\u00e1rctico. Primeiro, apanharam peixes j\u00e1 adultos no mar de Barents e transportaram-nos para instala\u00e7\u00f5es no Norte da Noruega. Atrav\u00e9s deles, tentarem perceber como o bacalhau reage \u00e0 acidifica\u00e7\u00e3o e ao aumento da temperatura dos oceanos.<\/p>\n<p>E porqu\u00ea fazer esta experi\u00eancia durante o desenvolvimento embrion\u00e1rio? Porque nesta fase o bacalhau est\u00e1 particularmente sens\u00edvel \u00e0 mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es ambientais. Por exemplo, o bacalhau-do-atl\u00e2ntico adulto aguenta temperaturas dentro dos 20 graus Celsius, enquanto os seus ovos s\u00f3 suportam temperaturas por volta dos tr\u00eas graus Celsius. J\u00e1 o bacalhau-do-\u00e1rctico adulto tolera tr\u00eas graus Celsius, mas os seus ovos ficam-se pelos zero e os 1,5 graus.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 experi\u00eancia. Os cientistas observaram como os ovos de bacalhau s\u00e3o sens\u00edveis: um pequeno aumento na temperatura pode provocar a morte de ovos ou causar deforma\u00e7\u00f5es nas larvas. A situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 mais preocupante quando a \u00e1gua \u00e9 \u00e1cida. Se a \u00e1gua tiver um n\u00edvel de pH de 7,7 (mesmo quando as temperaturas s\u00e3o mais baixas), o n\u00famero de embri\u00f5es que n\u00e3o sobrevive aumenta entre 20% e 30%.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/imagens.publicocdn.com\/imagens.aspx\/1310647?tp=UH&amp;db=IMAGENS&amp;type=JPG&amp;w=718\" alt=\"P\u00c3\u009aBLICO -\" width=\"640\" height=\"502\" \/><\/p>\n<figure class=\"story__callout story__callout--image media media--image story__callout--inline\" data-media-action=\"modal\">\n<div class=\"flex-media\">\n<figure class=\"wp-caption alignnone\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Embri\u00f5es de bacalhau-do-atl\u00e2ntico com um mil\u00edmetro e meio de di\u00e2metro\u00a0INSTITUTO ALFRED WEGENER\/FLEMMING DAHLKE<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><figcaption class=\"caption caption--image\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas a experi\u00eancia n\u00e3o terminou aqui. A equipa criou tr\u00eas cen\u00e1rios clim\u00e1ticos para prever como \u00e9 que os ovos de bacalhau sobreviver\u00e3o nos oceanos em 2100. No cen\u00e1rio mais gravoso (RCP8.5) n\u00e3o haver\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o de gases com efeito de estufa at\u00e9 ao final do s\u00e9culo. Por sua vez, no cen\u00e1rio interm\u00e9dio (RCP4.5) existir\u00e1 uma ligeira redu\u00e7\u00e3o desses gases. J\u00e1 num cen\u00e1rio menos gravoso (RCP2.6) os gases com efeito de estufa ser\u00e3o fortemente reduzidos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNo cen\u00e1rio mais gravoso, ambas as esp\u00e9cies ser\u00e3o muito afectadas porque o aquecimento e acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos exceder\u00e3o os limites de toler\u00e2ncia dos ovos. As esp\u00e9cies n\u00e3o se poder\u00e3o reproduzir mais nos s\u00edtios onde agora habitualmente o fazem\u201d, diz ao P\u00daBLICO Flemming Dahlke. \u201cEstas esp\u00e9cies ser\u00e3o for\u00e7adas a movimentarem-se para regi\u00f5es mais frias, o que ser\u00e1 dif\u00edcil para o bacalhau-do-\u00e1rctico porque prefere temperaturas \u00e0 volta dos zero graus Celsius.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<h2>Paris em Katovice<\/h2>\n<p>Relativamente ao cen\u00e1rio interm\u00e9dio, os impactos no bacalhau-do-atl\u00e2ntico poder\u00e3o ser minimizados, mas o bacalhau-do-\u00e1rctico continuar\u00e1 em perigo. As duas esp\u00e9cies s\u00f3 ficar\u00e3o a salvo no cen\u00e1rio menos gravoso, ou seja, se a temperatura m\u00e9dia global n\u00e3o ultrapassar os 1,5 graus Celsius em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial e at\u00e9 ao final do s\u00e9culo (tal como apontado\u00a0no relat\u00f3rio divulgado em Outubro do Painel Intergovernamental para as Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas) e ficar bem abaixo dos dois graus Celsius (como sugerido no Acordo de Paris de 2015, durante a 21\u00aa Confer\u00eancia das Partes, COP21, da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas).<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, come\u00e7ou no \u00faltimo domingo e termina a 14 de Dezembro a COP24 em Katovice, na Pol\u00f3nia. As novas tecnologias favor\u00e1veis ao clima, a popula\u00e7\u00e3o humana como factor de mudan\u00e7a, o papel da floresta e a adop\u00e7\u00e3o de uma decis\u00e3o que garanta a plena execu\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris s\u00e3o alguns dos assuntos em cima da mesa. \u201cO pacote de implementa\u00e7\u00e3o dar\u00e1 ao Acordo de Paris uma forma realista, definindo um caminho que cada pa\u00eds decidir\u00e1 seguir para intensificar os esfor\u00e7os para proteger o clima. Para simplificar, n\u00e3o h\u00e1 Acordo de Paris sem Katovice\u201d, diz a organiza\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia citada pela ag\u00eancia Lusa.<\/p>\n<p>Na parte final da confer\u00eancia, Portugal estar\u00e1 representado pelo ministro do Ambiente e da Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica, Jo\u00e3o Pedro Matos Fernandes. Ao longo da iniciativa tamb\u00e9m participar\u00e3o especialistas e ambientalistas portugueses. A ind\u00fastria, os transportes, os oceanos, as zonas costeiras energia, uso da terra, finan\u00e7as, consumo respons\u00e1vel, inova\u00e7\u00e3o, desporto ao turismo s\u00e3o alguns dos temas que estes especialistas discutir\u00e3o. Temas que \u2013 por estarem relacionados com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u2013 ter\u00e3o influ\u00eancia na situa\u00e7\u00e3o do habitat e reprodu\u00e7\u00e3o do bacalhau.<\/p>\n<h2>Proteger o habitat<\/h2>\n<blockquote><p>\u201cA toler\u00e2ncia reduzida dos ovos representa um problema cr\u00edtico para a reprodu\u00e7\u00e3o do bacalhau-do-atl\u00e2ntico e do bacalhau-do-\u00e1rctico quando est\u00e3o sob influ\u00eancia das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d, alerta Flemming Dahlke. \u201cSe as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas n\u00e3o forem combatidas, a probabilidade de sobreviv\u00eancia dos ovos destas esp\u00e9cies\u00a0poder\u00e1 reduzir-se em mais de 50%, levando possivelmente a mudan\u00e7as na distribui\u00e7\u00e3o e abund\u00e2ncia [das suas popula\u00e7\u00f5es]. Mas uma ambiciosa redu\u00e7\u00e3o dos efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas poder\u00e1 evitar impactos perigosos nestas importantes esp\u00e9cies.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Portanto, o bacalhau tem um desafio fulcral: encontrar \u00e1guas com uma temperatura que lhe permita desenvolver os seus ovos. Actualmente, o bacalhau-do-atl\u00e2ntico reproduz-se perto do arquip\u00e9lago de Lofoten, no Noroeste da Noruega. Depois, as correntes d\u00e3o uma ajudinha e levam os ovos e as larvas mais para norte, onde h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de vida ideais para o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/imagens.publicocdn.com\/imagens.aspx\/1310649?tp=UH&amp;db=IMAGENS&amp;type=JPG&amp;w=718\" alt=\"P\u00c3\u009aBLICO -\" width=\"640\" height=\"425\" \/><\/p>\n<figure class=\"story__callout story__callout--image media media--image story__callout--inline\" data-media-action=\"modal\">\n<div class=\"flex-media\">\n<figure class=\"wp-caption alignnone\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Bacalhau-do-atl\u00e2ntico\u00a0FELIX MARK\/INSTITUTO ALFRED WEGENER<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/figure>\n<blockquote><p>\u201cSe as popula\u00e7\u00f5es de bacalhau-do-atl\u00e2ntico e as suas zonas de reprodu\u00e7\u00e3o mudarem no futuro mais para nordeste, este peixe ir\u00e1 reproduzir-se, muito provavelmente, num sistema de correntes completamente diferente\u201d, prev\u00ea o ec\u00f3logo marinho. \u201cIsso pode acontecer, mas ainda n\u00e3o podemos avaliar esses efeitos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao longo dos tempos, o bacalhau tem tido uma import\u00e2ncia determinante. O bacalhau-do-\u00e1rctico \u00e9 o peixe mais abundante no \u00c1rctico e \u00e9 um recurso alimentar essencial para aves, focas e baleias. J\u00e1 o bacalhau-do-atl\u00e2ntico tem um elevado valor comercial e, em cada ano, s\u00e3o capturadas um milh\u00e3o de toneladas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, uma descri\u00e7\u00e3o da pesca (e import\u00e2ncia para os portugueses) deste peixe foi feita por Alan Villiers, especialista em assuntos n\u00e1uticos,\u00a0no livro\u00a0<em>A Campanha do Argus<\/em>. \u201cJ\u00e1 s\u00f3 temos isco para mais um dia \u2013 disse o capit\u00e3o Adolfo, fixando o\u00a0<em>Creoula<\/em>, ancorado perto de n\u00f3s. Finalmente, fazia bom tempo e havia bacalhau com fartura\u201d, l\u00ea-se numa edi\u00e7\u00e3o de 2014 da Cavalo de Ferro.<\/p>\n<p>Para que o bacalhau n\u00e3o se torne um refugiado clim\u00e1tico \u2013 al\u00e9m de reduzirmos as emiss\u00f5es de gases com efeito de estufa \u2013, Flemming Dahlke aponta que se deve fazer uma gest\u00e3o sustent\u00e1vel das pescas para se evitar assim uma pesca excessiva. \u201cDevemos ainda proteger potenciais habitats de ref\u00fagio no \u00c1rctico da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e de outras formas de interven\u00e7\u00e3o humana\u201d, avisa o ec\u00f3logo antes que seja demasiado tarde.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cozinhado de infinitas formas, o bacalhau \u00e9 um h\u00e1bito em muitas mesas portuguesas. 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