{"id":9649,"date":"2014-11-01T12:41:36","date_gmt":"2014-11-01T12:41:36","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=9649"},"modified":"2014-11-01T12:43:09","modified_gmt":"2014-11-01T12:43:09","slug":"o-clamor-dos-indigenas-que-precisamos-ainda-ouvir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-clamor-dos-indigenas-que-precisamos-ainda-ouvir\/","title":{"rendered":"O clamor dos ind\u00edgenas que precisamos ainda ouvir"},"content":{"rendered":"<div class=\"ico_colunista\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"photo\" src=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/userphoto\/leonardoboff.thumbnail.jpg\" alt=\"Leonardo Boff\" width=\"80\" height=\"58\" \/><\/p>\n<p class=\"autor-interna\">Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/henrique_indios_rio-20_500.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-95384\" src=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/henrique_indios_rio-20_500.jpg\" alt=\"Foto: Henrique Andrade Camargo\/ Mercado \u00c9tico\" width=\"640\" height=\"455\" \/><\/a><\/p>\n<p>A causa ind\u00edgena nunca foi resolvida no Brasil. A toda hora se ouvem invas\u00f5es de terras ind\u00edgenas para dar lugar ao agroneg\u00f3cio. Homologa\u00e7\u00e3o de suas terras s\u00e3o proteladas. E h\u00e1 assassinatos e suic\u00eddios misteriosos entre os guarani.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, deram-se alguns avan\u00e7os que cabe reconhecer como a demarca\u00e7\u00e3o e homologa\u00e7\u00e3o em \u00e1rea cont\u00ednua da terra Yanomami contra a press\u00e3o de meia d\u00fazia de arrozeiros, apoiados pelo latif\u00fandio pelo agroneg\u00f3cio; a devolu\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena xavante Mar\u00e3iwats\u00e9d\u00e9 na Prelazia de S\u00e3o Felix do Araguaia, de onde haviam sido arrancados \u00e0 for\u00e7a h\u00e1 40 anos atr\u00e1s. A mesma coisa n\u00e3o ocorreu com a terra dos Guarani Kaiow\u00e1, Guyraroka, que o STF com os votos dos ministros Celso Mello e Carmen L\u00facia rejeitaram o voto de relator do processo o ministro Ricardo Lewandoski. Em nenhum momento a comunidade ind\u00edgena foi consultada e o latifundi\u00e1rio que as ocupou, ganhou o direito sobre os 12 mil hecatares das terras tradicionais.<\/p>\n<p>Casos como estes s\u00e3o frequentes, por mais que a Funai e o CIMI (Centro indigenista mission\u00e1rio da Igreja Cat\u00f3lica) se empenhem em sua defesa. Neste contexto vale recordar O Manifesto da Comiss\u00e3o Ind\u00edgena 500 anos (1999) expressando o clamor de 98 diferentes povos origin\u00e1rios. Eles denunciaram com veem\u00eancia:<\/p>\n<p>\u201dOs conquistadores chegaram com fome de ouro e de sangue, empunahando em uma das m\u00e3os armas e na outra a cruz, para aben\u00e7oar e recomendar as almas de nossos antepassados, o que daria lugar ao desenvolvimento, ao cristianismo, \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o das riquezas naturais. Estes fatores foram determinantes para o exterm\u00ednio de nossos antepassados\u2026.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO dia 22 de abril de 1500 representa a origem de uma longa e dolorosa hist\u00f3ria\u2026Afirmamos nossa diverg\u00eancia clara e transparente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es festivas do V centen\u00e1rio, por atentar e desrespietar nossos antepassados, mortos em defesa de seus filhos, netos e gera\u00e7\u00f5es futuras. E por negarem nosso direito \u00e0 vida como povos culturalmente diferenciados\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cPretendemos sim, celebrar as conquistas ao longo dos s\u00e9culos, plenas de her\u00f3is an\u00f4nimos, que a hist\u00f3ria se nega a reconhecer. Celebramos sim, as vit\u00f3rias que nos custaram tantas vidas e sofrimentos, por\u00e9m trouxeram a determina\u00e7\u00e3o e a esperan\u00e7a de um mundo mais humano, de solidariedade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCelebraremos tamb\u00e9m o futuro, herdeiros que somos de um passado de valoriza\u00e7\u00e3o da vida, de ideais, de sonhos deixados por nossos antepassados. Apesar das desigualdades e injusti\u00e7as, estamos cientes da import\u00e2ncia de contribuir para a consolida\u00e7\u00e3o de uma humanidade livre e justa, aonde \u00edndios, negros e brancos vivam com dignidade\u201d(Jornal do Brasil de 31 de maio de 1999). Na campanha presidencial nunca se abordou com seriedade esta demanda hist\u00f3rica dos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O que poder\u00edamos esperar dos portugueses que durante quinze s\u00e9culos passaram pela educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3? Que ao verem aqueles belos corpos na praia, espreitando curiosamente a chegada das caravelas, exclamassem: \u201cQue bom! Descobrimos mais irm\u00e3os e irm\u00e3s. Vamos abra\u00e7\u00e1-los e beij\u00e1-los como membros da grande fam\u00edlia de Deus, representantes diferentes do corpo m\u00edstico de Cristo\u201d. Nada disso ocorreu.<\/p>\n<p>Depois do primeiro encontro pac\u00edfico, cheio de lirismo descrito pela carta de Pero Vaz de Caminha, tudo mudou. Vieram com a cobi\u00e7a pelas riquezas da terra. Moveram-lhes guerras, chegaram a negar-lhes a humanidade e, apesar de sua inoc\u00eancia e bondade natural, atestadas por todos os primeiros mission\u00e1rios, consideraram-nos faltos de salva\u00e7\u00e3o. E os subjugaram e os batizaram sob medo.<\/p>\n<p>Alguma coisa falhou no processo de educa\u00e7\u00e3o e de evangeliza\u00e7\u00e3o dos europeus, notadamente dos espanh\u00f3is e dos portugueses que impediu que ocorresse verdadeiramente um encontro de pessoas e de culturas. O que houve foi uma nega\u00e7\u00e3o pura e simples da alteridade.<\/p>\n<p>O assim chamado \u201cdescobrimento\u201d equivaleu a um encobrimento e a um apagamento do outro, da hist\u00f3ria dos povos origin\u00e1rios do Brasil e de \u00c1frica. Tamb\u00e9m n\u00e3o significou um \u201cencontro\u201d de culturas mas uma invas\u00e3o. O que de fato ocorreu foi um imenso desencontro, um verdadeiro choque de civiliza\u00e7\u00f5es com o submetimento completo dos negros e dos ind\u00edgenas mais fracos. At\u00e9 hoje fica a marca deste ato fundacional nas formas como discriminamos os ind\u00edgenas, n\u00e3o respeitando suas terras sagradas e mantendo preconceitos contra os afrodescendentes, aqueles que constru\u00edram quase tudo do Brasil.<\/p>\n<p>Fonte: Mercado \u00c9tico<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Boff &nbsp; A causa ind\u00edgena nunca foi resolvida no Brasil. 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