{"id":96176,"date":"2018-11-25T13:43:00","date_gmt":"2018-11-25T16:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=96176"},"modified":"2018-11-25T13:40:41","modified_gmt":"2018-11-25T16:40:41","slug":"o-coracao-sangrado-da-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-coracao-sangrado-da-floresta\/","title":{"rendered":"O cora\u00e7\u00e3o sangrado da floresta"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"align_center\" src=\"http:\/\/revistaecologico.com.br\/site\/assets\/files\/1926\/reveco_edi113_062_olavo_rufino.685x0-is.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"393\" \/>Por Dalva Lazaroni*<\/p>\n<p>Chico Mendes, como era conhecido Francisco Alves Mendes Filho, brasileiro, nasceu nortista e ecologista, no dia 15 de dezembro de 1944. Proveniente de fam\u00edlia humilde, cresceu nos seringais de Porto Rico, no munic\u00edpio de Xapuri, Acre. Este territ\u00f3rio foi palco de grandes lutas hist\u00f3ricas, tendo pertencido \u00e0 Bol\u00edvia e ao Peru, sendo incorporado ao Brasil ap\u00f3s as lutas travadas entre brasileiros e bolivianos.<\/p>\n<p>Por for\u00e7a da necessidade, ainda crian\u00e7a, Chico tornou-se seringueiro, aos nove anos de idade, acompanhando o pai. Sem ter tido nenhuma educa\u00e7\u00e3o formal, sem frequentar escola, aprendeu a ler e escrever aos 24 anos e vestiu o primeiro terno aos 40.<\/p>\n<p>Chico Mendes tinha a cor morena do homem da floresta. Trazia no rosto, al\u00e9m do vasto bigode, um ar tristonho e as marcas dos tempos dif\u00edceis. Conhecia os sofrimentos do povo e vivenciava de perto as quest\u00f5es da terra. Tinha consci\u00eancia da necessidade e da urg\u00eancia em se estabelecer uma pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s florestas e aos seus habitantes. Esta realidade passou a ser o ideal de sua vida.<\/p>\n<p><strong>A luta e o conflito<\/strong><\/p>\n<p>Em nenhum momento Chico se afastou da luta, nem diante do descaso das autoridades, da ambi\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios e fazendeiros e da impunidade acobertada pelas for\u00e7as governamentais. Os inimigos da floresta amea\u00e7avam a todos com suas armas, desde machado e fac\u00f5es a modernas motosserras e tratores, derrubando \u00e1rvores, provocando queimadas, destruindo a fauna e a flora amaz\u00f4nicas, afetando o ecossistema do Planeta Terra. Inconformado com a situa\u00e7\u00e3o, Chico Mendes abra\u00e7ou a causa, que n\u00e3o era apenas sua, mas de todos n\u00f3s, levantando a bandeira em prol da defesa das matas.<\/p>\n<p>Em 1975, tornou-se l\u00edder sindical e, no mesmo ano, com a funda\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasil\u00e9ia, foi eleito secret\u00e1rio da entidade. A partir de ent\u00e3o, Chico passou a fazer um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Um delegado da Pol\u00edcia Federal no Acre, Mauro Sp\u00f3sito, acusou Chico Mendes de manter rela\u00e7\u00f5es com uma entidade \u201ccomunista\u201d: a Funda\u00e7\u00e3o Ford, dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Foi em 1976 que Chico Mendes passou a ser um ativista ecol\u00f3gico, juntando-se aos seringueiros na luta contra os desmatamentos. Surgia o empate, um m\u00e9todo de resist\u00eancia pac\u00edfica, que consiste em reunir grande n\u00famero de pessoas, entre elas seringueiros, trabalhadores rurais, \u00edndios e pescadores, com suas mulheres e filhos, todos desarmados, com a finalidade de impedir os criminosos desmatamentos.<\/p>\n<p>No ato de realiza\u00e7\u00e3o do empate, as pessoas d\u00e3o as m\u00e3os, formando uma corrente humana, impedindo a derrubada das \u00e1rvores. O empate \u00e9 um enfrentamento desigual, onde os povos da floresta, desarmados, lutam contra pe\u00f5es dos fazendeiros e seringalistas armados at\u00e9 os dentes.<\/p>\n<p>O objetivo do empate \u00e9 tentar neutralizar a a\u00e7\u00e3o dos predadores e conscientiz\u00e1-los sobre os perigos e as desastrosas consequ\u00eancias da pr\u00e1tica criminosa da destrui\u00e7\u00e3o ambiental, chamando a aten\u00e7\u00e3o para as atitudes inconsequentes e agressivas dos devastadores da terra. Alguns empates conseguiram impedir ou atrasar as a\u00e7\u00f5es de empres\u00e1rios e fazendeiros inescrupulosos, mas muitos seringueiros pagaram com a vida.<\/p>\n<p>Chico se orgulhava de ter criado o empate e de ter liderado 45 deles, todos vitoriosos, que culminaram por salvar cerca de 1,2 milh\u00e3o de hectares de florestas no Acre. No entanto, os empates tiveram triste saldo: 400 detidos, 40 torturados e muitos mortos, pois tais a\u00e7\u00f5es se chocavam com os interesses dos grandes latifundi\u00e1rios. Certa vez, Chico disse: \u201cXapuri se tornou o ponto de partida para uma frente verde na Amaz\u00f4nia, fato que devemos \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o dos seringueiros. Os fazendeiros tinham como meta desmatar 10 mil hectares de florestas prim\u00e1rias, mas os empates conseguiram reduzir para dez hectares de selva destru\u00edda no ano passado\u201d.<\/p>\n<p>Durante uma entrevista, Chico lamentou: \u201cEm quase 50 anos de Amaz\u00f4nia, nunca vi tantas queimadas. Est\u00e3o incendiando tudo. Todos os aeroportos, no ano passado, ficaram interditados durante uma semana. Este ano, a interdi\u00e7\u00e3o foi al\u00e9m de um m\u00eas. A Amaz\u00f4nia vista de cima \u00e9 s\u00f3 fuma\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Em 1977, ele participou da Funda\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. No mesmo ano foi eleito vereador do seu munic\u00edpio, pelo Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB) e, em 1979, organizou um f\u00f3rum de debates, realizado na C\u00e2mara Municipal, com a presen\u00e7a de lideran\u00e7as sindicais, comunit\u00e1rias, pol\u00edticas e religiosas.<\/p>\n<p><strong>A morte<\/strong><\/p>\n<p>Com tantas interfer\u00eancias, Chico Mendes despertou o \u00f3dio de muita gente. Acabou sendo acusado de subvers\u00e3o, foi torturado e passou a receber amea\u00e7as de morte. Sem se deixar intimidar, ao lado de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 1980, Chico Mendes fundou o Partido dos Trabalhadores (PT). Inteiramente dedicado \u00e0 vida p\u00fablica, participou de com\u00edcios e movimentos populares, fazendo inflamados discursos, na tentativa de conscientizar os companheiros trabalhadores a lutar e a defender seus direitos.<\/p>\n<p>O seringueiro se transformou em sindicalista, de sindicalista em ecologista, de ecologista em militante pol\u00edtico. Em 1988, o Partido Verde se expandiu Brasil afora alcan\u00e7ando muitas regi\u00f5es, especialmente na Amaz\u00f4nia. Chico Mendes, um aliado verde, participou de diversos encontros, congressos e reuni\u00f5es, discutindo a possibilidade de se filiar ao PV e discutir uma vaga para deputado no Acre nas elei\u00e7\u00f5es de 1990. Foi assassinado antes de concretizar seu sonho pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Em um dos seus discursos, Chico citou nominalmente os criminosos e apontou caminhos para o desenvolvimento da regi\u00e3o, sem devasta\u00e7\u00e3o. Disse: \u201cOs seringueiros, os \u00edndios e os ribeirinhos h\u00e1 mais de 100 anos ocupam as florestas. Nunca a amea\u00e7aram. Quem amea\u00e7a s\u00e3o os projetos agropecu\u00e1rios, os grandes madeireiros e as hidrel\u00e9tricas, com suas inunda\u00e7\u00f5es criminosas\u201d.<\/p>\n<p>Chico Mendes ajudou a implantar e a difundir o conceito de \u201creserva extrativista\u201d. Dizia ele: \u201cA reserva deveria utilizar a selva de forma racional, sem destru\u00ed-la, oferecendo condi\u00e7\u00f5es aos seringueiros para comercializar e at\u00e9 industrializar os seus produtos, sem intermedi\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Durante o \u201c1\u00ba Encontro Nacional dos Seringueiros\u201d, Chico Mendes apresentou o manifesto \u201cUni\u00e3o dos Povos da Floresta\u201d, que conclamava \u00e0 uni\u00e3o das for\u00e7as dos \u00edndios, trabalhadores rurais e seringueiros em defesa da preserva\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica e das reservas extrativistas em terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das reinvindica\u00e7\u00f5es, o documento fazia graves den\u00fancias sobre o massacre dos \u00edndios e o desmatamento e teve o efeito de uma bomba, atraindo o interesse de organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais. V\u00e1rios dirigentes vieram ao Brasil constatar a veracidade das den\u00fancias.<\/p>\n<p>Em 1987, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) enviou seus representantes, que sa\u00edram do Acre convencidos de que algumas provid\u00eancias tinham de ser tomadas para conter os absurdos cometidos contra a natureza amaz\u00f4nica e os povos da floresta.<\/p>\n<p>Meses depois, Chico Mendes ganhou o pr\u00eamio \u201cGlobal 500\u201d e a Better World Society lhe outorgou outro pr\u00eamio pela defesa do meio ambiente. Um ano depois, ele foi assassinado.<\/p>\n<p>Poucos dias antes de morrer, o ambientalista declarou: \u201cSe descesse um enviado dos c\u00e9us e me garantisse que minha morte facilitaria nossa luta, ent\u00e3o valeria a pena morrer. Mas a experi\u00eancia me ensinou o contr\u00e1rio. As manifesta\u00e7\u00f5es ou os enterros n\u00e3o salvar\u00e3o a Amaz\u00f4nia. Quero viver\u201d.<\/p>\n<p><strong>Marcado para morrer<\/strong><\/p>\n<p>Chico Mendes previu a pr\u00f3pria morte. Denunciou as amea\u00e7as que vinha recebendo e apontou os nomes dos criminosos. \u201cO fazendeiro Darli Alves da Silva e seu filho Darcy s\u00f3 se entregam \u00e0 Justi\u00e7a depois de verem o meu cad\u00e1ver\u201d, disse ele em uma entrevista, no dia 09 de dezembro, ao Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ). A entrevista foi concedida ao jornalista Ed\u00edlson Martins 13 dias antes de Chico ser assassinado. E s\u00f3 foi publicada depois do crime.<\/p>\n<p>Chico tinha tanta certeza de sua morte que declarou ao rep\u00f3rter Randau Marques, do Jornal da Tarde: \u201cQuero apenas que meu assassinato sirva para acabar com a impunidade dos jagun\u00e7os sob a prote\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal do Acre, que de 1975 para c\u00e1 mataram 50 pessoas como eu, l\u00edderes seringueiros empenhados em defender a Floresta Amaz\u00f4nica e fazer dela um exemplo de que \u00e9 poss\u00edvel progredir sem destruir. Adeus, foi um prazer\u201d.<\/p>\n<p>As amea\u00e7as e persegui\u00e7\u00f5es foram uma constante na vida de Chico Mendes durante todo o ano de 1988. Jurado de morte, ele sabia que por tr\u00e1s de tudo estavam pol\u00edticos, fazendeiros e exploradores de madeira da floresta. Ali\u00e1s, o mundo sabia, mas ningu\u00e9m foi capaz de deter o \u00f3dio e a rea\u00e7\u00e3o furiosa dos incomodados. Chico Mendes alertou todas as autoridades brasileiras, escreveu cartas denunciando, pedindo ajuda e prote\u00e7\u00e3o, endere\u00e7ando-as ao presidente da Rep\u00fablica, ao ministro da Justi\u00e7a e ao delegado-chefe da Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>Era quinta-feira, 22 de dezembro de 1988, e faltavam 15 miutos para as seis horas da tarde. Chico Mendes avisou aos seus guarda-costas, dois soldados da PM, que ia tomar banho. Estava escuro e ele voltou para pegar uma lanterna. Mal p\u00f4s os p\u00e9s no quintal, um tiro de escopeta, calibre 12, estourou seu peito. Arrastando-se pelo ch\u00e3o, perdendo muito sangue, Chico murmurou: \u201cDessa vez, me acertaram\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"align_center\" src=\"http:\/\/revistaecologico.com.br\/site\/assets\/files\/1926\/chico_mendes_2_olavo_rufino.650x0-is.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"414\" \/><\/p>\n<p>Acabava de morrer o l\u00edder dos seringueiros da Amaz\u00f4nia, o defensor dos povos da floresta. O ch\u00e3o do Acre se tingiu de sangue. O Brasil, envergonhado, se cobriu de luto. Assassinando Chico Mendes, na verdade, os criminosos deram um tiro no cora\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n<p><strong>Ideais vivos<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9: a morte de Chico Mendes foi em v\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 certeza se a resposta \u00e9 sim ou n\u00e3o. \u00c9 certo que seu assassinato atraiu a aten\u00e7\u00e3o internacional sobre a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e sobre a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a morte de Chico serviu para diminuir a impunidade absoluta que reinava no Acre. Tamb\u00e9m \u00e9 do conhecimento de todos que sua morte possibilitou a cria\u00e7\u00e3o das reservas extrativistas, oficialmente transformadas em lei.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o podemos negar, a resposta tamb\u00e9m passa pela an\u00e1lise da realidade atual. Hoje, diminuiu consideravelmente o n\u00famero de seringueiros e a floresta est\u00e1 cada vez menor. Muitos trabalhadores da regi\u00e3o, sem qualquer alternativa, acabaram por atuar na extra\u00e7\u00e3o de madeira, atra\u00eddos e patrocinados por empres\u00e1rios gananciosos e criminosos. Outros tantos partiram para a pecu\u00e1ria, desertificando imensas \u00e1reas de terras pensadas para a reforma agr\u00e1ria, para o extrativismo, transformadas em pastos. A extra\u00e7\u00e3o de madeira predat\u00f3ria agrava a situa\u00e7\u00e3o. E os seringueiros que ainda resistem est\u00e3o cada vez mais empobrecidos.<\/p>\n<p>Infelizmente o governo ainda n\u00e3o implantou uma pol\u00edtica destinada a subsidiar a borracha amaz\u00f4nica, agregando o seu valor ecol\u00f3gico. Sem esta pol\u00edtica, o produto da Amaz\u00f4nia continua incapaz de competir com planta\u00e7\u00f5es mais bem localizadas e com as importa\u00e7\u00f5es, tornando-se comercialmente invi\u00e1vel. As reservas extrativistas entraram em crise e agonizam, pois seus produtos s\u00e3o vendidos a pre\u00e7os infinitamente baixos em um mercado desigual, n\u00e3o oferecendo vida digna aos seus habitantes.<\/p>\n<p>Chico Mendes morreu e a economia continua investindo e apostando contra a ecologia. Sem apoio, os seringueiros se desmobilizaram, outros movimentos e ganhos sociais retrocederam, voltando \u00e0 estaca zero. Ningu\u00e9m conseguiu sufocar as a\u00e7\u00f5es dos devastadores e dos predadores da Floresta Amaz\u00f4nica. Os direitos humanos continuam a ser violados.<\/p>\n<p>Isso tudo sem contar com os inc\u00eandios criminosos que descaracterizam a Amaz\u00f4nia, prejudicando os povos da floresta, causando irrecuper\u00e1veis danos ambientais, provocando consider\u00e1vel perda da biodiversidade, alterando os ciclos das \u00e1guas, aumentando a eros\u00e3o e a emiss\u00e3o exagerada de carbono.<\/p>\n<p>Anos depois do assassinato de Chico Mendes, sem entrar no m\u00e9rito da resposta \u00e0 pergunta de seu sacrif\u00edcio ou n\u00e3o em v\u00e3o, chego \u00e0 conclus\u00e3o de que os ideais de sua vida, que o conduziram \u00e0 morte, continuam hoje mais necess\u00e1rios do que nunca. Apesar de seu assassinato ter fortalecido a luta dos povos da floresta, melhor seria se Chico Mendes estivesse vivo. No entanto, percebo que ele continua entre n\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1 tiro que mate essa lembran\u00e7a. Seus ideais continuam mais vivos do que nunca.<\/p>\n<p><strong>A morte pela vida<\/strong><\/p>\n<p>Conheci Chico Mendes em 1988, quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro. Naquela \u00e9poca, o l\u00edder sindical j\u00e1 estava sofrendo amea\u00e7as por parte dos fazendeiros. Ainda assim, n\u00e3o se intimidava. A morte n\u00e3o apenas fora cumprida, mas anunciada para ele, que dedicou praticamente toda a sua vida \u00e0 defesa dos trabalhadores e dos povos da floresta. O impacto de sua morte revelou ao mundo o car\u00e1ter de um homem de extrema sabedoria, que vivia com a simplicidade de seringueiro e defendia a uni\u00e3o.<\/p>\n<p>A minha rela\u00e7\u00e3o com a floresta vem desde a inf\u00e2ncia. Aquibad\u00e1 \u00e9 o nome da comunidade seringalista, situada a 1.300 km de Manaus, onde eu e meus 11 irm\u00e3os nascemos e fomos criados. Subir em \u00e1rvores, andar de canoa, comer frutas e pescar foram momentos ing\u00eanuos de uma vida em que o recreio e a sala de aula eram a floresta. De fotografia, passei a gostar na adolesc\u00eancia, quando minha fam\u00edlia se transferiu para Manaus.<\/p>\n<p>Mais tarde, tornei-me profissional e nunca mais parei. De l\u00e1 para c\u00e1, foram in\u00fameras experi\u00eancias marcantes em minha carreira. Uma delas aconteceu em 1988, quando fui escalado pelo Jornal do Brasil para cobrir o vel\u00f3rio e, mais tarde, o julgamento dos assassinos do l\u00edder sindical Chico Mendes, em Xapuri, Acre. Durante dois meses, adotei aquela comunidade como minha \u201cresid\u00eancia\u201d. Foram dias de muita correria e o ritmo era intenso por causa da diferen\u00e7a de fuso hor\u00e1rio com rela\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro: eu fotografava, revelava o filme, selecionava as melhores fotos e transmitia tudo com tr\u00eas horas a menos, sempre concorrendo com a TV. Apesar do clima tenso, o resultado foi extremamente positivo, tanto pessoal quanto profissionalmente.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia fotografado conflitos de greves, viol\u00eancia na Baixada Fluminense, enchentes, Copa do Mundo e posses presidenciais. Mas nenhuma dessas coberturas me comoveu tanto quanto os dias em que morei em Xapuri.<\/p>\n<p>Dos povos da floresta e que, com uma vis\u00e3o cr\u00edtica do progresso, revelava para a opini\u00e3o p\u00fablica as mazelas dos grandes latifundi\u00e1rios e pol\u00edticos deste pa\u00eds. \u00c9 esse homem que merece a nossa homenagem.\u201d<\/p>\n<p>* Dalva Lazaroni (1945-2016), fundadora do Partido Verde, advogada e curadora do livro \u201cChico Mendes 15 Anos \u2013 O Cora\u00e7\u00e3o da Floresta\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dalva Lazaroni* Chico Mendes, como era conhecido Francisco Alves Mendes Filho, brasileiro, nasceu nortista<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Dalva Lazaroni* Chico Mendes, como era conhecido Francisco Alves Mendes Filho, brasileiro, nasceu nortista","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}