{"id":95733,"date":"2018-11-17T17:32:32","date_gmt":"2018-11-17T20:32:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=95733"},"modified":"2018-11-17T17:32:32","modified_gmt":"2018-11-17T20:32:32","slug":"a-jacutinga-e-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-jacutinga-e-as-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"A jacutinga e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<h2><span class=\"author_alias\">Por Mauro Galetti*<\/span><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Jacutinga.jpg\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<div class=\"post-content\">\n<div id=\"attachment_64078\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p class=\"wp-caption-text\">\u00a0Ilustra\u00e7\u00e3o da Jacutinga. Arte: Kitty Harvill.<\/p>\n<\/div>\n<p>No passado a jacutinga vivia em bandos enormes e realizava grandes migra\u00e7\u00f5es subindo as serras no ver\u00e3o e descendo no inverno. Por ser t\u00e3o abundante e parecida com uma galinha bem mansa, a ave tamb\u00e9m come\u00e7ou a ser alvo f\u00e1cil de ca\u00e7adores. E assim foi o destino da jacutinga. Mataram milhares delas anualmente. Em Blumenau, Santa Catarina, as jacutingas eram t\u00e3o comuns que chamou at\u00e9 a aten\u00e7\u00e3o de um m\u00e9dico alem\u00e3o, Fritz M\u00fcller. Ele escreveu para o amigo Charles Darwin \u201c<em>O inverno de 1866 foi incomumente frio e as jacutingas vieram da serra em t\u00e3o grande n\u00famero que em poucas horas foram abatidas no Itaja\u00ed aproximadamente 50.000<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Fritz M\u00fcller n\u00e3o era de contar vantagens para Darwin e \u00e9 bem prov\u00e1vel que a jacutinga tenha sido uma das aves de grande porte mais comuns de toda a Mata Atl\u00e2ntica. Elas n\u00e3o chegavam a ser como os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/noticias\/video-o-que-aconteceu-com-a-ave-mais-abundante-do-seculo-xix-por-fernando-fernandez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pombos passageiros (<em>Ectopistes migratorius<\/em>)<\/a><em>,<\/em>\u00a0uma esp\u00e9cie de pombo norte americano que possu\u00eda uma popula\u00e7\u00e3o estimada em v\u00e1rios bilh\u00f5es de indiv\u00edduos e que foram ca\u00e7ados at\u00e9 sua extin\u00e7\u00e3o em 1914. Mas a jacutinga certamente devia ser a ave com maior biomassa na Mata Atl\u00e2ntica. Se cada jacutinga morta em Itaja\u00ed pesasse 1,5 quilo, 75 toneladas de jacutingas foram mortas em uma \u00fanica manh\u00e3. Um ditado catarinense diz \u201cNingu\u00e9m resiste a jacutinga com arroz\u201d. Hoje, tanto a jacutinga como esse ditado est\u00e3o amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o. Em Blumenau, n\u00e3o existe mais nenhuma jacutinga.<\/p>\n<p>Os ornit\u00f3logos estimam que exista menos de 4 mil indiv\u00edduos em toda a Mata Atl\u00e2ntica. Em S\u00e3o Paulo ocorre somente em treze cidades; em Santa Catarina, cinco; no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro ocorre em apenas uma. Em Minas Gerais, somente uma popula\u00e7\u00e3o reintroduzida; na Bahia e Esp\u00edrito Santo a jacutinga est\u00e1 extinta h\u00e1 muitos anos. As jacutingas deviam ser t\u00e3o comuns que em Minas Gerais uma cidade foi batizada de Jacutinga. Hoje, n\u00e3o existem mais jacutingas em Jacutinga.<\/p>\n<p>Mas e da\u00ed que a jacutinga est\u00e1 sendo extinta? Sabe aquele seu tio chato que te pergunta: mas para que serve o mosquito? Acho que todo bi\u00f3logo j\u00e1 deve ter sido questionado com esse tipo de pergunta. Por que gastar para conservar a jacutinga se existem tantos problemas como desemprego, sa\u00fade, viol\u00eancia e habita\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds? Por que um cidad\u00e3o comum deveria se preocupar com a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies que ele nunca viu e provavelmente nunca ver\u00e1? Certamente na \u00e9poca de Fritz M\u00fcller as pessoas achavam que tinha tanta jacutinga que mesmo ca\u00e7ando muitas, ela nunca iria acabar. Assim, vamos matando e aniquilando uma, duas, dezenas, centenas de esp\u00e9cies, sem descobrir porque essa ou aquela esp\u00e9cie \u201cservia\u201d.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">&#8220;Por que gastar para conservar a jacutinga se existem tantos problemas como desemprego, sa\u00fade, viol\u00eancia e habita\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds?\u201d<\/div>\n<p>Para minha sorte, as jacutingas n\u00e3o eram t\u00e3o raras no Saibadela, onde fiz meu doutorado na d\u00e9cada de 90. Com o tempo, fui descobrindo que a jacutinga \u00e9 um mega dispersor de sementes, uma m\u00e1quina de comer frutos e plantar \u00e1rvores. Eu e meu colega ornit\u00f3logo Alexandre Aleixo registramos mais de 40 \u00e1rvores que s\u00e3o plantadas pelas jacutingas, entre elas, v\u00e1rias plantas medicinais como a espinheira-santa (<em>Maytenus ilicifolia<\/em>), popularmente utilizada no tratamento de gastrite, \u00falcera e azia. Tenho certeza que voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar do ch\u00e1 da espinheira santa. D\u00ea gra\u00e7as a jacutinga de termos muita espinheira santa na mata. Se extinguirmos as aves dispersoras de sementes como a jacutinga, estaremos perdendo n\u00e3o apenas uma ave, mas o que os cientistas chamam de \u201cservi\u00e7o ambiental\u201d, ou seja, algo que o ser humano utiliza\u00a0<em>de gra\u00e7a<\/em>\u00a0e que adv\u00e9m da natureza.<\/p>\n<p>Recentemente, juntamente com a professora Laurence Culot, do Departamento de Zoologia da UNESP de Rio Claro, e minha aluna de doutorado Carolina Bello, calculamos quanto vale o servi\u00e7o da jacutinga em plantar uma \u00fanica \u00e1rvore na Mata Atl\u00e2ntica. Escolhemos uma \u00e1rvore que captura muito carbono da atmosfera, a canela n\u00f3s moscada (<em>Cryptocarya mandioccana<\/em>). \u00c1rvores \u201cde lei\u201d ou de madeira dura, s\u00e3o particularmente importantes de serem plantadas porque retiram mais carbono da atmosfera. Como o ser humano libera muito carbono na forma de gases CO<sub>2<\/sub>\u00a0com a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis na atmosfera, as esp\u00e9cies de \u00e1rvores que absorvem bastante carbono podem nos ajudar a reverter mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Pois bem, n\u00f3s quantificamos quantas canelas s\u00e3o potencialmente produzidas pelas jacutingas. Como o carbono \u00e9 uma\u00a0<em>commodity<\/em>, ou seja, uma mercadoria que voc\u00ea pode comprar e vender na bolsa de valores, estimar quanto vale uma jacutinga \u00e9 at\u00e9 simples. Primeiro tivemos que quantificar quantas sementes uma jacutinga come, quantas dessas sementes viram pl\u00e2ntulas e qual a chance dessas pequenas pl\u00e2ntulas virarem uma \u00e1rvore adulta. Depois medimos a quantidade de canelas na floresta e calculamos quanto de carbono cada \u00e1rvore estoca.<\/p>\n<p>Para nossa surpresa, descobrimos que somente uma popula\u00e7\u00e3o de algumas dezenas de jacutingas vale 12,50 d\u00f3lares por hectare (um hectare \u00e9 um campo de futebol) por seus servi\u00e7os de\u00a0<em>plantadora<\/em>\u00a0de carbono advindos da canela. Pode parecer pouco n\u00e3o \u00e9 mesmo? mas somente em um \u00fanico parque na Mata Atl\u00e2ntica a jacutinga vale mais de 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares. Isso plantando apenas canelas, sem contar com a espinheira santa do seu ch\u00e1, ou o plantio de outras \u00e1rvores que ajudam a estabilizar o solo \u00edngreme das Serras. Ainda bem que a jacutinga n\u00e3o est\u00e1 cobrando nada por esse servi\u00e7o. Nem a jacutinga, nem o mono carvoeiro, nem o tangar\u00e1, nem o sair\u00e1-sete-cores. A natureza n\u00e3o cobra nada. N\u00e3o cobra o carbono que absorve e que deixa o planeta menos quente, n\u00e3o cobra pela \u00e1gua limpa que tomamos, nem pelos rem\u00e9dios produzidos para curar nossas doen\u00e7as. Talvez damos pouco valor a ela simplesmente por isso. Por isso quando seu tio chato te perguntar para que serve o mosquito, a r\u00e3, a cobra, conte para ele sobre a jacutinga. Talvez depois de te ouvir, ele diga aos amigos que tem orgulho de ter um sobrinho bi\u00f3logo.<\/p>\n<p><em>*Mauro Galetti \u00e9\u00a0 um Naturalista no Antropoceno.\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.maurogaletti.com\/\" rel=\"noopener\">www.maurogaletti.com)<\/a>.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mauro Galetti* \u00a0Ilustra\u00e7\u00e3o da Jacutinga. Arte: Kitty Harvill. No passado a jacutinga vivia em<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Mauro Galetti* \u00a0Ilustra\u00e7\u00e3o da Jacutinga. Arte: Kitty Harvill. No passado a jacutinga vivia em","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95733"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95733"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95733\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}