{"id":94959,"date":"2018-11-03T15:00:32","date_gmt":"2018-11-03T18:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=94959"},"modified":"2018-11-03T13:35:50","modified_gmt":"2018-11-03T16:35:50","slug":"circulo-fechado-desmatamento-criacao-de-gado-e-abate-pelas-mesmas-maos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/circulo-fechado-desmatamento-criacao-de-gado-e-abate-pelas-mesmas-maos\/","title":{"rendered":"C\u00edrculo fechado: Desmatamento, cria\u00e7\u00e3o de gado e abate pelas mesmas m\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gado.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-94960\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gado-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gado-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/gado.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Boca do Acre tem pouco mais de 30 mil habitantes. A cidade do Sul do Amazonas, como o pr\u00f3prio nome indica, faz fronteira com o estado vizinho. \u00c9 um munic\u00edpio pacato, onde predomina a cor do barro vermelho que ainda cobre a maioria das ruas. No final da tarde, quando o calor d\u00e1 uma tr\u00e9gua, os moradores v\u00e3o para a beira do Rio Purus, que naquele ponto recebe as \u00e1guas do Rio Acre.<\/p>\n<p>Apesar da precariedade das vias e da simplicidade da maioria das casas, Boca do Acre tem o 26<sup>o<\/sup>\u00a0maior PIB\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0entre as 62 cidades do Amazonas: R$ 8.543,42. A maior parte dessa riqueza vem da pecu\u00e1ria. Segundo o IBGE, Boca do Acre \u00e9 dona do segundo maior rebanho bovino do estado, atr\u00e1s apenas da vizinha de L\u00e1brea. Juntas, as cidades contam 510 mil cabe\u00e7as de gado, 38% do rebanho do Amazonas. S\u00e3o 6,4 bois para cada habitante.<\/p>\n<p>O rebanho do estado do Amazonas bateu 1,3 milh\u00e3o de cabe\u00e7as, uma alta de 37% desde 2000.\u00a0 Com esse tipo de crescimento, os munic\u00edpios da regi\u00e3o come\u00e7am a despontar nos radares do desmatamento. Segundo o\u00a0<u><a href=\"http:\/\/www.obt.inpe.br\/OBT\/assuntos\/programas\/amazonia\/prodes\">Monitoramento da Floresta Amaz\u00f4nica Brasileira por Sat\u00e9lite (Prodes)<\/a><\/u>, L\u00e1brea est\u00e1 em 4\u00ba lugar entre os munic\u00edpios da Amaz\u00f4nia Legal que registraram maior avan\u00e7o do desmatamento nos \u00faltimos 5 anos. Entre 2010 e 2017, a taxa de desmatamento cresceu por ano 21,7%. No ano passado, 4.459,4 km\u00b2 j\u00e1 haviam sido desmatados, uma \u00e1rea 3,4 vezes maior do que a de 2010.<\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"https:\/\/imazon.org.br\/slide\/desmatamento\/\" rel=\"noopener\">SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento)<\/a>, do\u00a0<a href=\"https:\/\/imazon.org.br\/\" rel=\"noopener\">Imazon<\/a>, publicou neste ano 8 boletins com os rankings dos 10 munic\u00edpios que mais desmatam na Amaz\u00f4nia Legal. L\u00e1brea apareceu 5 vezes no ranking, e Boca do Acre duas vezes<\/p>\n<p>Gabriel Carrero, pesquisador s\u00eanior-associado do\u00a0<u><a href=\"https:\/\/idesam.org\/\">Idesam (Instituto de Conserva\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Amaz\u00f4nia)<\/a><\/u>, afirma que o desmatamento no sul do Amazonas est\u00e1 diretamente associado \u00e0 pecu\u00e1ria. A derrubada da floresta segue o tra\u00e7ado das BRs 317, 364, 319 e 230, passando por Boca do Acre, L\u00e1brea, Humait\u00e1, Manicor\u00e9 e Apu\u00ed.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/u\/4\/embed?mid=1q9QX9RnkaDQNW6BYCR-iVl6L8mUmirYk\" width=\"640\" height=\"480\"><\/iframe><\/p>\n<p>Gabriel coordenou um estudo lan\u00e7ado em 2015 sobre a cadeia da pecu\u00e1ria no Amazonas. Ele explica que a produ\u00e7\u00e3o de L\u00e1brea se divide em duas partes. Uma pequena parte do rebanho, 23%, est\u00e1 localizada na regi\u00e3o sul do munic\u00edpio, acessada atrav\u00e9s de Vista Alegre do Abun\u00e3, e \u00e9 escoada para abate em Porto Velho. Os 77% restantes est\u00e3o em fazendas acess\u00edveis por &#8220;ramais&#8221; &#8212; estradas de terra &#8211;, que saem de Boca do Acre e adentram a por\u00e7\u00e3o oeste do territ\u00f3rio de L\u00e1brea. A integra\u00e7\u00e3o territorial com o munic\u00edpio vizinho \u00e9 tanta, que por muitos anos o pr\u00f3prio IBGE contabilizou este rebanho como pertencente a Boca do Acre em vez de L\u00e1brea.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o da proximidade, o gado desta regi\u00e3o \u00e9 levado para abate no Frizam\/Agropam, o \u00fanico frigor\u00edfico de Boca do Acre que tem Servi\u00e7o de Inspe\u00e7\u00e3o Federal (SIF). Segundo um levantamento do Idesam, de 2013, o Frizam\/Agropam era o principal destino do gado abatido dentro do estado do Amazonas, respondendo por 31,3% do total.<\/p>\n<p>O Frizam\/Agropam afirma que abate uma m\u00e9dia de 250 cabe\u00e7as de gado por dia. A carne \u00e9 toda destinada a Manaus. Para chegar \u00e0 capital do Amazonas, o produto \u00e9 transportado por 670 km de estrada at\u00e9 Porto Velho, de onde precisa viajar mais 1.200 km pelas \u00e1guas do rio Madeira.<\/p>\n<p><strong>Ibama estima que 50% do gado abatido venha de \u00e1reas embargadas<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cBoca do Acre tem 374 \u00e1reas embargadas, que somam 4.032 hectares. Em L\u00e1brea, os embargos atingem 716 propriedades que ocupam 27.177 hectares\u201d<\/div>\n<p>Quando ((o))eco chegou em Boca do Acre, no in\u00edcio de setembro, o Ibama conduzia mais uma opera\u00e7\u00e3o no sul do Amazonas. Quando o Ibama constata que um pecuarista derrubou floresta sem autoriza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o est\u00e1 respeitando a \u00e1rea de\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/dicionario-ambiental\/27492-o-que-e-reserva-legal\/\">reserva legal<\/a><\/u>\u00a0de 80% da propriedade &#8211;, o fiscal embarga a \u00e1rea irregular da fazenda, e o dono fica proibido de colocar gado nela.<\/p>\n<p>Segundo dados do Ibama, Boca do Acre tem 374 \u00e1reas embargadas, que somam 4.032 hectares. Em L\u00e1brea, os embargos atingem 716 propriedades que ocupam 27.177 hectares (embargos registrados entre 22\/06\/2008, data de corte do novo C\u00f3digo Florestal, e 29\/09\/2018).<\/p>\n<p>O Frizam\/Agropam assinou um TAC da Carne com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, que o obriga a verificar, para cada fazenda de quem compra gado, se l\u00e1 ocorreu desmatamento ilegal. Entretanto, apesar das centenas de \u00e1reas embargadas pelo Ibama na regi\u00e3o, estranhamente isso n\u00e3o afetou a oferta de gado a este frigor\u00edfico. Pelo contr\u00e1rio, at\u00e9 o 1<sup>o<\/sup>\u00a0semestre de 2019, o Frizam\/Agropam pretende aumentar a atual capacidade de 250 para 400 abates por dia.<\/p>\n<p>O frigor\u00edfico n\u00e3o pode, por exemplo, comprar gado de nove fazendas embargadas pelo Ibama e que pertencem ao pr\u00f3prio dono do Frizam\/Agropam, Jos\u00e9 Lopes. Geovani Neves, gerente administrativo do abatedouro, recebeu ((o))eco na sede da empresa em Boca do Acre. Ele n\u00e3o quis gravar entrevista em v\u00eddeo, mas afirmou que o acordo com o MPF \u00e9 cumprido \u00e0 risca: &#8220;A gente n\u00e3o compra gado de \u00e1reas embargadas&#8221;, afirma Geovani.<\/p>\n<p>Entretanto, para Jos\u00e9 Alberto Rodrigues, analista ambiental do Ibama, que coordenava a opera\u00e7\u00e3o em Boca do Acre, a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o para que a pecu\u00e1ria continue se expandindo na regi\u00e3o \u00e9 que os embargos n\u00e3o s\u00e3o cumpridos. Ele vai al\u00e9m, e afirma acreditar que 50% do gado comercializado na regi\u00e3o venha de \u00e1reas embargadas.<\/p>\n<p>Para Rodrigues, a triangula\u00e7\u00e3o ou lavagem do gado \u00e9 o grande escape do Termo de Ajustamento de Conduta firmado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal com frigor\u00edficos que atuam na Amaz\u00f4nia Legal. Na hora de vender um lote ao matadouro, o produtor tem que apresentar a Guia de Tr\u00e2nsito Animal (GTA), que mostra de que fazenda aquele gado saiu. Como sabe que o frigor\u00edfico n\u00e3o pode aceitar animais de \u00e1reas embargadas, o pecuarista emite o GTA em nome de outra fazenda, que esteja &#8220;limpa&#8221; com os \u00f3rg\u00e3os ambientais.<\/p>\n<p>A triangula\u00e7\u00e3o permite aos produtores com embargos e desmatamentos ilegais &#8220;lavar&#8221; e vender seu gado como se estivessem dentro da lei. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o temos como fiscalizar o pecuarista. Se ele traz um documento pra n\u00f3s que o gado t\u00e1 vindo da fazenda &#8216;A&#8217;, infelizmente o que vale \u00e9 o documento que ele t\u00e1 trazendo pra gente&#8221;, justifica o gerente Geovani Neves. &#8220;Como o frigor\u00edfico vai fiscalizar todos os pecuaristas de uma regi\u00e3o? N\u00e3o consegue\u201d.<\/p>\n<p>O Ibama, por sua vez, admite n\u00e3o conseguir fiscalizar o cumprimento dos embargos: &#8220;N\u00e3o temos gente suficiente para fiscalizar nem as \u00e1reas que est\u00e3o sendo desmatadas agora, imagina as que foram embargadas&#8221;, justifica Rodrigues. Sem concurso p\u00fablico desde 2012, o Ibama conta com cerca de 900 fiscais para atuar em todos os biomas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dilermando Melo, presidente do Sindicato Rural de Boca do Acre, nega que os produtores da regi\u00e3o desrespeitem os embargos do Ibama. Ao mesmo tempo, desconhece que o TAC firmado pelo Frizam\/Agropam tenha criado qualquer obst\u00e1culo aos produtores que vendem para o frigor\u00edfico: &#8220;N\u00e3o chegou nenhuma informa\u00e7\u00e3o no Sindicato sobre isso&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Dono do frigor\u00edfico \u00e9 tamb\u00e9m fazendeiro com embargos<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DR_hs-nAu-k\" width=\"100%\" height=\"478\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Poucas horas peregrinando de carro pelos ramais que saem de Boca do Acre e avan\u00e7am pelo territ\u00f3rio de L\u00e1brea bastam para flagrar situa\u00e7\u00f5es de descuprimento dos embargos. Durante o trajeto, foi poss\u00edvel registrar tr\u00eas fazendas nesta situa\u00e7\u00e3o. Uma delas em nome de Jos\u00e9 Lopes, dono do Frizam\/Agropam. No total, existem nove \u00e1reas em nome do empres\u00e1rio embargadas pelo Ibama em L\u00e1brea e Boca do Acre.<\/p>\n<p>A segunda fazenda pertence a Adamir Hosoda Monteiro, outro grande pecuarista da regi\u00e3o. O terceiro caso \u00e9 o de uma propriedade em nome de Emerson Nascimento Acosta, embargada em mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n<p>Destaque-se que esses flagrantes foram feitos a partir da an\u00e1lise visual feita da beira da estrada, com base nos dados do Ibama, que permitem a localiza\u00e7\u00e3o por georreferenciamento das \u00e1reas embargadas. Assim, foi poss\u00edvel confirmar que o gado observado nestes locais era irregular.<\/p>\n<p>Gabriel Carrero afirma que os grandes fazendeiros da regi\u00e3o usam diversas estrat\u00e9gias para expandirem suas cria\u00e7\u00f5es sem se responsabilizarem por danos ambientais. As pr\u00e1ticas incluem arrendar ou meiar pastos de outros propriet\u00e1rios. A meia \u00e9 o sistema de produ\u00e7\u00e3o compartilhada entre o dono do gado e o da terra. Outro recurso comum \u00e9 o uso de &#8220;laranjas&#8221;, em geral gente simples que assume o falso papel de propriet\u00e1rio de uma fazenda de outrem.<\/p>\n<p>Para o pesquisador do Idesam, o trabalho do Ibama \u00e9 de enxugar gelo, dada a falta de t\u00edtulos fundi\u00e1rios, das enormes extens\u00f5es de terras da regi\u00e3o e da articula\u00e7\u00e3o entre atores pol\u00edticos e econ\u00f4micos: &#8220;Os caras sabem com anteced\u00eancia quando o Ibama vai chegar na regi\u00e3o e o que vai fazer. \u00c9 dif\u00edcil algu\u00e9m ser preso de surpresa, at\u00e9 porque quando o fiscal chega na fazenda normalmente s\u00f3 encontra pe\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, para Gabriel, o reconhecimento do estado do Amazonas como \u00e1rea livre de\u00a0<u><a href=\"http:\/\/www.agricultura.gov.br\/assuntos\/sanidade-animal-e-vegetal\/saude-animal\/programas-de-saude-animal\/febre-aftosa\">febre aftosa<\/a><\/u>\u00a0deve incentivar o crescimento do desmatamento na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Frigor\u00edfico tem investimento do governo do Estado<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-direita\">&#8220;Al\u00e9m de criador de gado e empres\u00e1rio, Jos\u00e9 Lopes circula com discri\u00e7\u00e3o no meio pol\u00edtico amazonense. Seu nome chegou a ser citado no ano passado na Lava Jato\u201d<\/div>\n<p>Jos\u00e9 Lopes, o propriet\u00e1rio do Frizam\/Agropam e de 9 fazendas na regi\u00e3o com embargos do Ibama, \u00e9 um nome recorrente na Justi\u00e7a Federal do Amazonas, onde responde a quatro processos por desmatamento ilegal. Foi condenado em tr\u00eas. Tamb\u00e9m \u00e9 r\u00e9u em uma a\u00e7\u00e3o penal por invas\u00e3o de terras p\u00fablicas e em outras duas por tratar seus trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de criador de gado e empres\u00e1rio, Jos\u00e9 Lopes circula \u2012 com discri\u00e7\u00e3o \u2012 no meio pol\u00edtico amazonense. Seu nome chegou a ser citado no ano passado na Lava Jato, na dela\u00e7\u00e3o de Arnaldo Cumplido de Souza e Silva, ex-executivo da Odebrecht. Segundo essa dela\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Lopes intermediou o pagamento de propina de empreiteiras ao ent\u00e3o governador do estado Omar Aziz (PSD). O inqu\u00e9rito contra Aziz foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal. A Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica tenta reabrir o caso.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lopes tamb\u00e9m foi tesoureiro das campanhas ao governo do Estado de Aziz, Eduardo Braga (MDB) e Amazonino Mendes (PDT), derrotado no \u00faltimo domingo, 28\/10, ao tentar um quarto mandato. Em 2000, durante um dos mandatos de Amazonino Mendes, o governo do Amazonas investiu no frigor\u00edfico de Jos\u00e9 Lopes, atrav\u00e9s da Ciama (Companhia de Desenvolvimento do Estado do Amazonas).<\/p>\n<p>O caso foi trazido \u00e0 tona em 2013 em\u00a0<u><a href=\"http:\/\/amazoniareal.com.br\/amazonas-investiu-r-99-milhoes-em-frigorifico-durante-eleicoes\/\">reportagem de K\u00e1tia Brasil<\/a><\/u>, do site\u00a0<u><a href=\"http:\/\/amazoniareal.com.br\/\">Amaz\u00f4nia Real<\/a><\/u>. A jornalista revelou que a Ciama fez dois aportes ao Frizam\/Agropam. O maior deles, de R$ 9,9 milh\u00f5es, ocorreu em 28 de setembro de 2010, conforme\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Comprovante.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comprovante do investimento localizado pela rep\u00f3rter junto \u00e0 A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica<\/a>\u00a0movida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal contra o Frizam\/Agropam:<\/p>\n<p>Na \u00e9poca deste segundo aporte, o ent\u00e3o governador Omar Aziz (PSD) tentava a reelei\u00e7\u00e3o. Ele havia assumido o cargo depois que Eduardo Braga (MDB) deixou o governo do estado para disputar uma vaga ao Senado. Ambos sa\u00edram vitoriosos. Com o investimento, o governo do Estado acumulou 49% das a\u00e7\u00f5es do frigor\u00edfico. A Ciama n\u00e3o quis se manifestar sobre o assunto e tampouco informou se foram feitos novos aportes ao Frizam\/Agropam.<\/p>\n<p><strong>Frigor\u00edfico s\u00f3 assinou TAC depois de den\u00fancia do MPF<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Fachada_Frizam-1024x684.jpg\" width=\"639\" height=\"427\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_63912\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p>Fachada do Frigor\u00edfico Frizam\/Agropam. Foto: Marcio Isensee e S\u00e1<\/p>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o foi f\u00e1cil para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal convencer o Frizam\/Agropam a assinar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), ferramenta jur\u00eddica que busca a regulariza\u00e7\u00e3o ambiental da cadeia da carne. O acordo s\u00f3 foi fechado depois que a Procuradoria da Rep\u00fablica no Amazonas pediu, em 11 de abril de 2013, a condena\u00e7\u00e3o do Frizam\/Agropam ao pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 262,5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A den\u00fancia teve como base uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica que conclui que o Frizam\/Agropam contribu\u00eda com o desmatamento na regi\u00e3o de L\u00e1brea e Boca do Acre. A investiga\u00e7\u00e3o revelou que, entre 2010 e 2011, o frigor\u00edfico havia abatido e comercializado 25.516 cabe\u00e7as de gado provenientes de \u00e1reas embargadas. Destas, 20.027 pertenciam a Jos\u00e9 Lopes. O TAC com o Frizam\/Agropam foi firmado em agosto de 2014, em troca da extin\u00e7\u00e3o do processo. O mesmo acordo j\u00e1 foi firmado com 10 dos 11 maiores frigor\u00edficos do estado .<\/p>\n<p>O Procurador da Rep\u00fablica Rafael Rocha admite a exist\u00eancia de mecanismos para burlar as regras do TAC. Entre eles, a retirada do gado de uma \u00e1rea embargada para outra sem embargo para ent\u00e3o vend\u00ea-lo ao frigor\u00edfico. Nesse caso, o procurador destaca que o frigor\u00edfico n\u00e3o pode ser responsabilizado: &#8220;Ele n\u00e3o tem como checar. Quando olha na GTA que veio da \u00e1rea B, e ele cruzou com os bancos de dados p\u00fablicos e n\u00e3o encontrou nenhuma restri\u00e7\u00e3o. Se compra esse gado, n\u00e3o deixa de cumprir nenhuma das obriga\u00e7\u00f5es do TAC&#8221;.<\/p>\n<p>Rafael Rocha tamb\u00e9m afirma ter informa\u00e7\u00f5es &#8220;extra-oficiais&#8221; sobre produtores que simplesmente fraudam o GTA, colocando como origem outra fazenda que n\u00e3o a embargada. Neste caso, os produtores podem responder pelos crimes de falsidade ideol\u00f3gica e falsifica\u00e7\u00e3o de documento p\u00fablico. &#8220;Em tese \u00e9 poss\u00edvel que isso aconte\u00e7a, mas eu preciso de dados mais concretos para pelo menos provocar os \u00f3rg\u00e3os a fazerem uma investiga\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o procurador.<\/p>\n<p>No caso, os \u00f3rg\u00e3os a serem provocados s\u00e3o os respons\u00e1veis pela sanidade animal e pela emiss\u00e3o do GTA. Em Boca do Acre, isso \u00e9 feito pela Adaf (Ag\u00eancia de Defesa Agropecu\u00e1ria e Florestal do Estado do Amazonas). J\u00e1 no sudoeste de L\u00e1brea, que tamb\u00e9m abastece o Frizam\/Agropam, existe uma parceria como o estado de Rond\u00f4nia, e\u00a0 este trabalho \u00e9 feito pela Idaron (Ag\u00eancia de Defesa Sanit\u00e1ria Agrosilvopastoril do Estado de Rond\u00f4nia).<\/p>\n<p>O GTA \u00e9 um documento auto-declarat\u00f3rio. Ou seja, o pr\u00f3prio produtor rural preenche o local de origem do gado, o que aumenta as chances de fraude. Mas para Rafael Rocha, a prioridade agora \u00e9 resolver uma quest\u00e3o muito mais simples: a vincula\u00e7\u00e3o do CAR ao GTA. Segundo Rafael Rocha, isso agilizaia a fiscaliza\u00e7\u00e3o tanto dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos como dos frigor\u00edficos: &#8220;Isso foi previsto em um acordo formal com o governo do Estado, mas n\u00e3o foi cumprido, e est\u00e1 sendo exigido judicialmente&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o Procurador, o governo do estado alega que existe um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/ModelodeGTA-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">modelo \u00fanico de GTA<\/a>\u00a0para todo o territ\u00f3rio nacional, que n\u00e3o pode ser alterado. Mas o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio P\u00fablico j\u00e1 encontrou uma solu\u00e7\u00e3o para isso. Basta que os produtores insiram o CAR no campo &#8220;observa\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>O procurador afirma que o TAC da Carne n\u00e3o pode ser o \u00fanico instrumento contra o desmatamento, e cobra o comprometimento de outros \u00f3rg\u00e3o p\u00fablicos: &#8220;O que ser\u00e1 que a Secretaria Municipal de Boca do Acre est\u00e1 fazendo para coibir o desmatamento? N\u00e3o quero ser injusto, mas eu n\u00e3o tenho conhecimento de nenhuma medida concreta que tenha sido adotada por eles. A mesma coisa com o\u00a0\u00a0<u><a href=\"http:\/\/www.ipaam.am.gov.br\/\">IPAAM [Instituto de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Amazonas]<\/a><\/u>, que \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o estadual.<\/p>\n<p>Em nota, o Instituto de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Amazonas (Ipaam) afirma que o sul do estado \u00e9 uma das \u00e1reas priorit\u00e1rias das a\u00e7\u00f5es de combate ao desmatamento, em especial os munic\u00edpios de Humait\u00e1, Apu\u00ed, Novo Aripuan\u00e3 e Boca do Acre, que fazem parte do\u00a0<u><a href=\"http:\/\/ipam.org.br\/glossario\/arco-do-desmatamento\/\">Arco do Desmatamento<\/a><\/u>. Ainda segundo o Ipaam, entre agosto e outubro foram aplicadas multas que somam mais de R$ 9 milh\u00f5es em a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental na regi\u00e3o. Por\u00e9m, o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o respondeu sobre o atraso na vincula\u00e7\u00e3o do CAR ao GTA.<\/p>\n<p>A reportagem tamb\u00e9m questionou as prefeituras de Boca do Acre e de L\u00e1brea sobre poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es de combate ao desmatamento, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n<p><strong>Respostas<\/strong><\/p>\n<p>A reportagem procurou Jos\u00e9 Lopes em seu escrit\u00f3rio em Boca do Acre. A secret\u00e1ria disse que ele n\u00e3o estava na cidade e que n\u00e3o tinha autoriza\u00e7\u00e3o para repassar seus telefones de contato. ((o))eco tamb\u00e9m tentou, sem sucesso, contato com Adamir Hosoda Monteiro e telefonou para dois de seus filhos, Miro e Amaz\u00f4nia. Miro n\u00e3o atendeu \u00e0s liga\u00e7\u00f5es, enquanto Amaz\u00f4nia n\u00e3o quis dar entrevista. ((o))eco tampouco conseguiu contato com Emerson Nascimento Acosta.<\/p>\n<p>Sobre a possibilidade de fraudes no GTA, a Adaf afirma que &#8220;a utiliza\u00e7\u00e3o da Guia de Tr\u00e2nsito Animal no Estado do Amazonas segue estritamente a normatiza\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (MAPA), vigente em todo o territ\u00f3rio nacional&#8221;, e que a implementa\u00e7\u00e3o da GTA-eletr\u00f4nica est\u00e1 em execu\u00e7\u00e3o e deve come\u00e7ar ainda neste ano. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o, a Adaf afirma que utiliza &#8220;as ferramentas padronizadas em todo o territ\u00f3rio nacional, entre as quais o controle do tr\u00e2nsito de animais, produtos e subprodutos, vigil\u00e2ncia ativa, entre outros&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Idaron afirma que a emiss\u00e3o da GTA s\u00f3 \u00e9 autorizada caso a origem e o destino do gado estejam cadastrados no sistema informatizado da ag\u00eancia. Sobre a veracidade das informa\u00e7\u00f5es declaradas pelos pecuaristas, o \u00f3rg\u00e3o respondeu: &#8220;somente podemos garantir a fiscaliza\u00e7\u00e3o da forma que estamos fazendo: s\u00f3 se emite GTA caso ele tenha saldo na faixa et\u00e1ria e sexo que esteja querendo movimentar e tamb\u00e9m se a origem e destino existirem para o sistema&#8221;. Ainda segundo a Idaron, a checagem s\u00f3 \u00e9 feita\u00a0<em>in loco<\/em>, &#8220;quando, atrav\u00e9s de alguns indicadores nossos, h\u00e1 alguma diverg\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<div><a class=\"wpptopdfenh\" title=\"Download PDF\" href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/reportagens\/circulo-fechado-desmatamento-criacao-de-gado-e-abate-pelas-mesmas-maos\/?format=pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noindex,nofollow\"><img src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/plugins\/wp-post-to-pdf-enhanced\/asset\/images\/pdf.png\" alt=\"Download PDF\" \/><\/a><\/div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/16fHjGCFOjM\" width=\"100%\" height=\"478\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boca do Acre tem pouco mais de 30 mil habitantes. 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