{"id":9420,"date":"2014-10-29T10:58:14","date_gmt":"2014-10-29T10:58:14","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=9420"},"modified":"2014-10-29T11:05:10","modified_gmt":"2014-10-29T11:05:10","slug":"visoes-do-carcere-a-recuperacao-dos-presidiarios-atraves-da-reciclagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/visoes-do-carcere-a-recuperacao-dos-presidiarios-atraves-da-reciclagem\/","title":{"rendered":"Vis\u00f5es do c\u00e1rcere: a recupera\u00e7\u00e3o dos presidi\u00e1rios atrav\u00e9s da reciclagem"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/reciclagem_presos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-9421\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/reciclagem_presos.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>O Pres\u00eddio Central de Porto Alegre vive uma situa\u00e7\u00e3o desconexa. Por tr\u00e1s das grades e do isolamento, a cadeia \u00e9 um organismo vivo. O local \u00e9 uma verdadeira cidade, e, como tal, enfrenta problemas de natureza socioambiental como superlota\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, moradia prec\u00e1ria e exclus\u00e3o social. Existem lados e percep\u00e7\u00f5es que somente os moradores dessa localidade conhecem bem. Os projetos sociais que acontecem l\u00e1 dentro s\u00e3o exemplos disso.<\/p>\n<p>A oportunidade de praticar um of\u00edcio, a possibilidade de reintegra\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o da pena motivam os presos a participarem e mudarem a rotina no c\u00e1rcere. Ademilson, Jos\u00e9 Alberto e Roberto Carlos (foi utilizado apenas o primeiro nome dos presidi\u00e1rios por recomenda\u00e7\u00e3o da Brigada Militar) fazem parte dos 10% que trabalham no pres\u00eddio, de acordo com relat\u00f3rio do Mutir\u00e3o Carcer\u00e1rio do Estado do Rio Grande do Sul realizado em 2011 pelo Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ). Eles e outros cinco presos s\u00e3o respons\u00e1veis pela reciclagem de parte do lixo produzido pelas galerias do Central. O trabalho rende 80 reais de sal\u00e1rio, mas a mudan\u00e7a gerada vale muito mais. \u201cA gente sai uma pessoa melhor pra se reintegrar na sociedade\u201d, acredita Ademilson.<\/p>\n<p>Em 2014, segundo o CNJ, a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria chega a mais de 27 mil pessoas no Rio Grande do Sul. Somente no Pres\u00eddio Central de Porto Alegre s\u00e3o 4.419 homens confinados. O n\u00famero esconde uma mistura de cren\u00e7as, personalidades, mentalidades e delitos. Em meio a tanta diversidade concentrada, iniciativas como o Centro de Triagem de Res\u00edduos S\u00f3lidos d\u00e3o uma outra vis\u00e3o de mundo aos que vivem no c\u00e1rcere.<\/p>\n<p><strong>Da galeria \u00e0 reciclagem<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/jornalismoambiental.uniritter.edu.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"310\" \/><\/p>\n<p>Tudo o que se consome gera lixo. E na \u201ccidade\u201d Pres\u00eddio Central n\u00e3o seria diferente. Parte dos res\u00edduos como garrafas PET e vasilhas de pl\u00e1stico s\u00e3o recolhidos nas galerias em grandes sacos de r\u00e1fia para serem levados at\u00e9 o galp\u00e3o, que fica cerca de 30 metros de dist\u00e2ncia dos pavilh\u00f5es, ainda dentro do per\u00edmetro do Central, onde \u00e9 feita a classifica\u00e7\u00e3o do material. Todo o processo \u00e9 realizado por meio da m\u00e3o de obra dos detentos. De acordo com o sargento Agnaldo Garcia, que supervisiona o servi\u00e7o, existe uma galeria campe\u00e3 de reciclagem. \u201cS\u00e3o duas galerias do pavilh\u00e3o C, da fac\u00e7\u00e3o Unidos pela Paz, que s\u00e3o bem organizados e juntam o dobro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras todas\u201d, informa. Pap\u00e9is oriundos da administra\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m vindos da Refinaria Alberto Pasqualini da Petrobras s\u00e3o reciclados atrav\u00e9s de uma picotadeira.<\/p>\n<p>Com a ajuda de uma prensa, o trabalho \u00e9 finalizado em forma de fardos, com cada tipo de item devidamente separado. Assim, ao juntar cerca de 70 fardos ao total, o que equivale a 13 toneladas, o material \u00e9 revertido em renda. S\u00e3o 5 mil reais por m\u00eas que h\u00e1 mais de dois anos v\u00eam sendo investidos em melhorias e ajustes na cozinha geral e no pavilh\u00e3o onde ficam os trabalhadores.<\/p>\n<p>O trabalho de coopera\u00e7\u00e3o ultrapassa o galp\u00e3o de reciclagem e chega aos demais presos com o Vale PET, um pequeno peda\u00e7o de papel que pode ser utilizado como uma recompensa pela separa\u00e7\u00e3o do pl\u00e1stico. O n\u00famero de garrafas que o preso devolve para a reciclagem \u00e9 registrado e possibilita a compra de novas garrafas para o consumo. Dessa maneira, conforme o sargento, a conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 incentivada, o que de modo volunt\u00e1rio n\u00e3o aconteceria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalismoambiental.uniritter.edu.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/11.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"310\" \/><\/p>\n<p>O sistema do Centro de Triagem teve origem em 2011 atrav\u00e9s de uma parceria entre pres\u00eddio, Minist\u00e9rio P\u00fablico e financiamento de 31,5 mil reais do Instituto Vonpar. Inicialmente, come\u00e7ou suas atividades enviando para a reciclagem uma tonelada de res\u00edduos e avan\u00e7ou dentro da cadeia conforme a demanda e necessidade. Hoje, s\u00e3o 13 toneladas que saem do Central, um aumento de 1200%, o que comprova o bem-sucedido projeto.<\/p>\n<p>A EPR Consultoria, uma empresa j\u00fanior do curso de Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), colaborou com a iniciativa. Os estudantes de engenharia, hoje engenheiros, Cassiano Tonheca e Thom\u00e1z Schuch, foram respons\u00e1veis por definirem o processo de separa\u00e7\u00e3o e prensa do Centro, al\u00e9m da log\u00edstica de coleta e estoque. Para Tonheca, o projeto \u00e9 de grande import\u00e2ncia para a qualidade de vida no Central, \u201cmediante estrutura adequada foi poss\u00edvel gerenciar de forma melhor os res\u00edduos gerados pelo pres\u00eddio e reverter os recursos em benef\u00edcios para o Pres\u00eddio Central\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) apontou em 2009 a casa prisional como a pior do pa\u00eds, o Centro de Triagem \u00e9 um projeto que parece mostrar o inverso. A reportagem pode perceber que esse pequeno quadro do organismo do pres\u00eddio parece ser tamb\u00e9m a reciclagem dos presos, como uma verdadeira casa de corre\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, que devolve os infratores para al\u00e9m dos port\u00f5es como cidad\u00e3os renovados.<\/p>\n<p><strong>As viv\u00eancias da rua podem gerar possibilidades de recome\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>O n\u00famero de vagas dispon\u00edveis nos projetos sociais do Pres\u00eddio Central de Porto Alegre (RS) \u00e9 limitado devido \u00e0 estrutura. O \u201ccurr\u00edculo\u201d do preso \u00e9 levado em conta. Os detentos que est\u00e3o com a pena no final t\u00eam prioridade, mas a ficha policial e o hist\u00f3rico desde que chegou \u00e0 cadeia s\u00e3o avaliados. As habilidades de cada um tamb\u00e9m s\u00e3o um fator positivo a ser considerado. Quem tem viv\u00eancia da rua, como catadores de material recicl\u00e1vel, sai na frente. Em alguns setores, como o da marcenaria, os trabalhadores trazem o conhecimento de fora, mas para quem tem vontade de aprender, h\u00e1 projetos de capacita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Presos que trabalham no Centro de Triagem do Pres\u00eddio Central conversam com os estudantes de jornalismo da UniRitter. Foto: B\u00e1rbara Barros<br \/>\nPara o tenente Renato Dias, que gerencia alguns projetos como obras e marcenaria, h\u00e1 um aprendizado m\u00fatuo entre brigadianos e detentos. \u201cA gente acaba aprendendo coisas que podem ser usadas na vida particular. Aprendi aqui como colocar piso e fazer massa corrida\u201d, revela.<\/p>\n<p>O preso Jos\u00e9 Alberto trabalha no galp\u00e3o do Centro de Triagem n\u00e3o apenas para conseguir dinheiro, mas tamb\u00e9m para sair do pavilh\u00e3o e ter contato com um ambiente diferente. \u201cAqui \u00e9 bom de trabalhar, \u00e9 quieto e n\u00e3o tem aquele monte de gente. \u00c9 bem melhor do que outros setores e mais organizado\u201d, constata. Ainda que existam registros de mais presos que gostariam de ingressar nos projetos, a Brigada Militar afirma que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel devido \u00e0 quantidade limitada de pessoas permitidas por quest\u00e3o de seguran\u00e7a. At\u00e9 o momento, os n\u00fameros s\u00e3o animadores: nos \u00faltimos dois anos de projeto, nenhum dos detentos que passaram por ali reincidiu.<\/p>\n<p>Se esse tipo de atividade \u00e9 atraente por reduzir um dia da pena a cada tr\u00eas dias trabalhados, por outro lado, \u00e9 motivo para comprar briga com alguns detentos. Conforme o capit\u00e3o e analista de log\u00edstica Hermes Volker, integrar os projetos sociais \u00e9 estar contra algumas regras informais do Central. \u201cTodo trabalhador \u00e9 visto com outros olhos aqui. Os outros presos veem como se estivessem contra o sistema deles, ent\u00e3o a gente separa\u201d, informa. Volker explica ainda que h\u00e1 um pavilh\u00e3o especifico para os que trabalham, que \u00e9 o pavilh\u00e3o G. Para evitar conflitos, o ex-trabalhador tamb\u00e9m tem um pavilh\u00e3o separado.<\/p>\n<p><strong>Atividades que ocupam m\u00e3os e mentes<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de sugerir que os pr\u00f3prios presos cuidem do lugar que habitam atrav\u00e9s da reciclagem, o Pres\u00eddio Central tamb\u00e9m possui iniciativas que contribuem para o desenvolvimento social. Em plena era digital, os detentos compartilham aspectos do seu dia-a-dia atrav\u00e9s de v\u00eddeos no VlogLiberdade e de postagens no blog Direito no C\u00e1rcere desde 2011. A iniciativa foi idealizada pela advogada Carmela Gr\u00fcne e \u00e9 parte integrante do projeto Direito no C\u00e1rcere. Atrav\u00e9s dos v\u00eddeos \u00e9 poss\u00edvel acompanhar as atividades culturais e de integra\u00e7\u00e3o que contrastam com a realidade atr\u00e1s das grades superlotadas.<\/p>\n<p><strong><strong>Anderson Mello, B\u00e1rbara Barros, Daniela Fragomeni e Let\u00edcia Bonato, da UniRitter<\/strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pres\u00eddio Central de Porto Alegre vive uma situa\u00e7\u00e3o desconexa. 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