{"id":93850,"date":"2018-10-15T11:00:22","date_gmt":"2018-10-15T14:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=93850"},"modified":"2018-10-15T09:52:07","modified_gmt":"2018-10-15T12:52:07","slug":"os-desafios-de-ser-mulher-e-trabalhar-com-conservacao-em-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/os-desafios-de-ser-mulher-e-trabalhar-com-conservacao-em-campo\/","title":{"rendered":"Os desafios de ser mulher e trabalhar com conserva\u00e7\u00e3o em campo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/campo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-93851\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/campo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/campo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/campo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Um profissional vai para o trabalho. Mas n\u00e3o sem antes conseguir a companhia de uma outra pessoa para fazer sua seguran\u00e7a pessoal. Por vezes, esse profissional tem que conversar com algumas pessoas, mas estas respondem se dirigindo somente ao \u201cseguran\u00e7a\u201d, ao motorista ou at\u00e9 ao estagi\u00e1rio. Mesmo possuindo todo o\u00a0<em>know-how<\/em>, for\u00e7a f\u00edsica, intelectual e dom\u00ednio dos m\u00e9todos, esse profissional precisar pagar uma outra pessoa para fazer boa parte do servi\u00e7o. Esse profissional tem filhos. Isso faz com que seja preterido em oportunidades de trabalho. Esse profissional ama o que faz, mas tem que enfrentar o medo para conseguir trabalhar. Ele sofre preconceitos castradores, constrangimentos, amea\u00e7as, intimida\u00e7\u00e3o. Quem \u00e9 esse profissional? Que trabalho seria esse?<\/p>\n<p>Estamos falando de bi\u00f3logas, ge\u00f3grafas, ec\u00f3logas, engenheiras, veterin\u00e1rias e tantas outras profissionais que trabalham com meio ambiente e realizam pesquisa em campo no Brasil. S\u00e3o mulheres que, em muitas situa\u00e7\u00f5es, saem para trabalhar antes do sol raiar ou quando a noite cai. Precisam ser corajosas e guerreiras para exercer sua profiss\u00e3o. Mas n\u00e3o deveria ser assim. Infelizmente vivemos numa sociedade insegura, desigual, machista e paternalista.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">&#8220;Inspiradas por movimentos como o Parent in Science e o internacional Women in Science e dispostas a \u201cp\u00f4r o dedo na ferida\u201d nesse assunto que provavelmente nunca foi discutido abertamente, um grupo de profissionais resolveu discutir os percal\u00e7os enfrentados no decorrer de suas atividades em campo\u201d \u2013 Carolina Franco Esteves, bi\u00f3loga, pesquisadora do Programa Amigos da On\u00e7a.\u201d.<\/div>\n<p>Inspiradas por movimentos como o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.parentinscience.com\/\"><em>Parent in Science<\/em><\/a>\u00a0e o internacional\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.sciencemag.org\/careers\/2018\/02\/celebrating-women-science\">Women in Science<\/a><\/em>\u00a0e dispostas a \u201cp\u00f4r o dedo na ferida\u201d nesse assunto que provavelmente nunca foi discutido abertamente, um grupo de profissionais resolveu discutir os percal\u00e7os enfrentados no decorrer de suas atividades em campo, al\u00e9m de expor situa\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias pessoais. A ideia surgiu de um di\u00e1logo entre as pesquisadoras Cl\u00e1udia Martins e Liana Sena. Concordando que o tema merecia ter visibilidade, elas contactaram outras colegas pesquisadoras e formaram um grupo onde cada uma p\u00f4de contar suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, elas elencaram quatro grandes quest\u00f5es que s\u00e3o entraves para as mulheres que atuam em campo:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>O \u201cdamo de companhia\u201d:<\/strong>\u00a0Quando se trata de coleta em campo, geralmente \u00e9 preciso conseguir homens para o papel de\u2026 \u201chomens\u201d. Seja mateiro, auxiliar de campo, guias de campo ou mesmo colegas ou familiares. Isso porque, em muitas ocasi\u00f5es, basta a simples presen\u00e7a masculina para inibir comportamentos masculinos indesejados por parte de outros homens.<\/li>\n<li><strong>Custos extras:<\/strong>\u00a0A necessidade de destinar recursos financeiros para pagar homens para exercer o papel de \u201chomens\u201d em campo faz com que se deixe de aplicar um recurso precioso em coisas essenciais como equipamentos, combust\u00edvel ou mais dias em campo. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso adequar o cronograma para encaixar essas pessoas, que muitas vezes t\u00eam outras ocupa\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<li><strong>Medo:<\/strong>\u00a0Do ponto de vista psicol\u00f3gico, o estresse da inseguran\u00e7a atrapalha muito o trabalho. Ir a campo com o medo constante de ser atacada por homens \u00e9 desestimulador.<\/li>\n<li><strong>Racionaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia:<\/strong>\u00a0Em muitas regi\u00f5es do pa\u00eds, a quest\u00e3o da viol\u00eancia direcionada \u00e0 mulher \u00e9 vista com naturalidade, inclusive pelas pr\u00f3prias mulheres.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Depoimentos<\/strong><\/p>\n<p>Elencamos a seguir alguns depoimentos das pesquisadoras sobre situa\u00e7\u00f5es pontuais ou cotidianas em que foram v\u00edtimas de machismo, paternalismo, discrimina\u00e7\u00e3o, intimida\u00e7\u00e3o ou medo.<\/p>\n<p><strong>Perigos que elas enfrentam em campo<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_63534\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-63534\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Pesquisadora-Liana-Sena-em-trabalho-de-campo.-Foto-Liana-Sena-2.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Pesquisadora-Liana-Sena-em-trabalho-de-campo.-Foto-Liana-Sena-2.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Pesquisadora-Liana-Sena-em-trabalho-de-campo.-Foto-Liana-Sena-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Pesquisadora-Liana-Sena-em-trabalho-de-campo.-Foto-Liana-Sena-2-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A pesquisadora Liana Sena em trabalho de campo. Foto: Arquivo Pessoal.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cTrabalho no interior do Piau\u00ed, Estado com n\u00fameros elevados de viol\u00eancia contra a mulher, incluindo a sexual. Quando passo em uma cidade em que sei que ocorreu um estupro recente, tenho cuidado dobrado. Recentemente, ap\u00f3s ter conhecimento de v\u00e1rios casos de estupro na regi\u00e3o do sul do Piau\u00ed, um funcion\u00e1rio de um \u00f3rg\u00e3o federal fez um alerta direto:\u00a0<em>n\u00e3o ande mais sozinha em campo<\/em>. Desde ent\u00e3o, eu deixo de ir a campo quando n\u00e3o tenho a companhia de um homem. Acho surreal ter que ir trabalhar com medo de estupro. Mas, apesar do sentimento revolta e injusti\u00e7a, temo pela minha seguran\u00e7a e da minha equipe, atualmente composta somente por mulheres, e tenho que ceder \u00e0s circunst\u00e2ncias. A necessidade extra de destinar recursos financeiros para pagar homens para exercer o papel de acompanhantes em campo faz com que se deixe de aplicar um recurso precioso, captado com muito custo, em coisas essenciais como equipamentos, combust\u00edvel ou mais dias de coleta. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso fazer manobras para encaixar essas pessoas, que muitas vezes t\u00eam outras ocupa\u00e7\u00f5es, afetando tamb\u00e9m o cronograma.\u201d \u2013\u00a0<u>Liana Sena<\/u>, bi\u00f3loga, doutoranda em Ecologia, Conserva\u00e7\u00e3o e Manejo da Vida Silvestre na UFMG.<\/p>\n<p>\u201cAtualmente estou fazendo um trabalho de campo que necessita de monitoramento \u00e0 noite em \u00e1reas urbana e rural, e recebi recomenda\u00e7\u00f5es da empresa para\u00a0<em>n\u00e3o ficar at\u00e9 muito tarde, por ser perigoso para mulheres<\/em>. Isso, com certeza, afeta o trabalho\u201d.\u00a0<u>Carolina Franco Esteves<\/u>\u00a0\u2013 bi\u00f3loga, pesquisadora do Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEm 2006 realizei um grande sonho: trabalhar no em um importante centro de pesquisa e conserva\u00e7\u00e3o do governo. Minha fun\u00e7\u00e3o era ir atr\u00e1s das on\u00e7as-pardas e on\u00e7as-pintadas no interior da Bahia, na regi\u00e3o hoje conhecida como Boqueir\u00e3o da On\u00e7a, que na \u00e9poca fazia parte do\u00a0<em>pol\u00edgono da maconha<\/em>. Eram 9000 km\u00b2 com duas estradas de ch\u00e3o de um lado a outro e centenas de quil\u00f4metros de trilhas e n\u00e3o trilhas, para caminhar com o cuidado de n\u00e3o pisar em uma ro\u00e7a de maconha e garantir a volta para casa. Fiquei conhecida na regi\u00e3o como\u00a0<em>a mulher das on\u00e7as<\/em>,\u00a0<em>a mulher do Ibama<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>a Cl\u00e1udia das on\u00e7as<\/em>. Mas isso n\u00e3o reduziu o perigo, pois para eles era eu quem fiscalizava as ca\u00e7adas. Assim, logo veio o recado:\u00a0<em>diga para a Cl\u00e1udia n\u00e3o andar sozinha<\/em>. Certa de que podia contar com a seguran\u00e7a da institui\u00e7\u00e3o que eu trabalhava, ouvi:\u00a0<em>hum, mas isso \u00e9 comum para quem trabalha em campo, principalmente com fauna<\/em>. Traduzindo: se vira nos 30, Cl\u00e1udia! Acho que minha teimosia, minha responsabilidade em terminar o trabalho e a paix\u00e3o pela regi\u00e3o me fizeram continuar. Mas da\u00ed para frente sempre acompanhada por um ou pelos dois dos meus guias e auxiliares de campo, mesmo sabendo que logo atr\u00e1s dos tratores que abriam quil\u00f4metros de estradas ilegalmente, e que eu ia passar em seguida, estava uma caminhonete cheia de capangas armados.\u201d \u2013\u00a0<u>Cl\u00e1udia B. Campos<\/u>, bi\u00f3loga, pesquisadora do Instituto para Conserva\u00e7\u00e3o dos Carn\u00edvoros Neotropicais \u2013 Pr\u00f3-Carn\u00edvoros.<\/p>\n<div id=\"attachment_63545\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-63545\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-trabalhando-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-trabalhando-1.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-trabalhando-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-trabalhando-1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A bi\u00f3loga Josi Cerqueira, em campo. Foto: Arquivo pessoal.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cEm meu primeiro trabalho envolvendo entrevistas em campo, precisei ir junto com um colega homem numa comunidade de pescadores,\u00a0<em>porque era mais seguro e ele tinha mais credibilidade com os pescadores<\/em>. Em meu segundo trabalho, precisei ir acompanhada de um homem\u00a0<em>por quest\u00f5es de seguran\u00e7a<\/em>. \u00c9 simplesmente imposs\u00edvel fazer campo sozinha no Brasil. Hoje estou fazendo meu doutorado e, pela primeira vez, a pesquisa n\u00e3o \u00e9 no Brasil, mas no Canad\u00e1. Vou entrevistar pessoas de novo, batendo nas portas e pedindo licen\u00e7a. Aqui n\u00e3o preciso ir acompanhada de ningu\u00e9m! O sentimento \u00e9 outro. Me sinto segura, empoderada e respons\u00e1vel pela minha pesquisa. Mas o mais interessante \u00e9 que meu professor pagou para n\u00f3s mulheres fazermos um curso de autodefesa,\u00a0<em>just in case.<\/em>\u201d\u2013\u00a0<u>Monica Tais Engel<\/u>, bi\u00f3loga, doutoranda na Memorial University of Newfoundland.<\/p>\n<p>\u201cRecordei do dia em que um caminh\u00e3o parou bruscamente na estrada, depois do motorista me avistar recolhendo umas armadilhas. Desceram correndo tr\u00eas caras na minha dire\u00e7\u00e3o, um deles gritando:\u00a0<em>hoje tu n\u00e3o me escapa<\/em>. Fiquei im\u00f3vel, segurando quatro gaiolas em cada m\u00e3o, enquanto surgia atr\u00e1s de mim o meu colega de campo, que perguntou:\u00a0<em>algum problema aqui?<\/em>\u00a0A\u00ed os caras apontaram o dedo pra mim e disseram:\u00a0<em>dessa vez tu escapou, s\u00f3 dessa vez.<\/em>\u201d \u2013\u00a0<u>Josi Cerveira<\/u>, bi\u00f3loga, doutora em Ecologia Aplicada pela ESALQ\/USP.<\/p>\n<p>\u201cTenho 42 anos, m\u00e3e, solteira, e trabalho em campo com aves desde 1995. J\u00e1 enfrentei muitos desafios, preconceitos e dificuldades por ser mulher em campo. J\u00e1 fiz v\u00e1rios campos sozinha, por n\u00e3o conseguir aceitar o fato de que n\u00e3o posso fazer meu trabalho sozinha. E a \u00faltima vez, h\u00e1 pouco tempo, confesso que fiquei com bastante medo, pensava na minha filha. Muitas pessoas me dizem que n\u00e3o posso lutar sozinha contra uma sociedade. Concordo.\u201d \u2013\u00a0<u>Fl\u00e1via de Campos Martins<\/u>, bi\u00f3loga, doutora em Ecologia pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p><strong>Machismo e situa\u00e7\u00f5es de constrangimento<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_63549\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-63549\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Nadia.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Nadia.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Nadia-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Nadia-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">N\u00e1dia Ros\u00e1rio e Manuela Pereira realizam Inventario florestal em \u00e1reas em diferentes est\u00e1gios de pousio. Foto: Gabriella Ribeiro.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cDurante minha primeira campanha de captura de on\u00e7as, fui acompanhada por mais cinco profissionais homens e, infelizmente, fui obrigada a ouvir piadas machistas de todo o tipo, e a frase:\u00a0<em>ah, agora est\u00e1 bom!<\/em>, vinda de algu\u00e9m se referindo ao tipo de blusa que eu estava usando, mais justa do que o de costume. Recentemente fiz um trabalho de campo de 30 dias de acampamento em barracas sem energia el\u00e9trica, sem \u00e1gua corrente e num calor de quase 40 \u00baC, e precisava cuidar para que oito homens ficassem bem at\u00e9 o fim. Nesse per\u00edodo houve uma sequ\u00eancia de atitudes machistas inesperadas e crescentes: isolamento, conversas paralelas sem dividir o assunto, n\u00e3o conversa, n\u00e3o divis\u00e3o de tarefas j\u00e1 pr\u00e9-estabelecidas. Quando percebi isso, eu j\u00e1 estava quebrada e arrasada. O machismo veio de dire\u00e7\u00f5es que eu esperava, mas o mais surpreendente foi de onde eu n\u00e3o esperava. N\u00e3o foi uma situa\u00e7\u00e3o de perigo f\u00edsico, mas um ataque psicol\u00f3gico dolorido.\u201d \u2013\u00a0<u>Cl\u00e1udia B. Campos<\/u>, bi\u00f3loga, pesquisadora do Instituto para Conserva\u00e7\u00e3o dos Carn\u00edvoros Neotropicais \u2013 Pr\u00f3-Carn\u00edvoros.<\/p>\n<p>\u201cEstamos focando em casos acontecidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa profiss\u00e3o, mas sabemos que o machismo ocorre no nosso dia a dia, sempre! Lembro de um caso acontecido comigo em per\u00edodo de trabalho. Estava em uma fazenda de eucalipto para monitorar a fauna com uma equipe de cinco pessoas e apenas eu de mulher. Fomos informados que dormir\u00edamos num local totalmente sem estrutura. O banheiro n\u00e3o tinha tranca, ficava pelo lado de fora e era compartilhado com os funcion\u00e1rios da fazenda, que chegavam de \u00f4nibus para trabalhar. Meus colegas, solid\u00e1rios, n\u00e3o se sentiram confort\u00e1veis com a situa\u00e7\u00e3o e ficavam vigiando a porta sempre que eu ia tomar banho ou fazer xixi. Na hora da refei\u00e7\u00e3o, eu tentava ir bem desleixada para o refeit\u00f3rio, pois assim achava que n\u00e3o chamaria tanta aten\u00e7\u00e3o. Eu era a \u00fanica mulher do local, me sentia numa situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel!\u201d \u2013\u00a0<u>Carolina Franco Esteves<strong>,<\/strong><\/u>\u00a0bi\u00f3loga, pesquisadora do Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cEm um trabalho em que eu era coordenadora de monitoramento de mastofauna do Projeto de Integra\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional \u2013 PISF, estavam eu, o motorista e os mateiros no carro oficial para pedir autoriza\u00e7\u00e3o para entrar numa propriedade particular. O propriet\u00e1rio s\u00f3 se dirigia ao motorista em sua fala. N\u00e3o se conformava que eu era a encarregada.\u201d \u2013 Carolina Franco Esteves, bi\u00f3loga, pesquisadora do Programa Amigos da On\u00e7a.\u201d.<\/div>\n<p>\u201c<em>Por que voc\u00ea n\u00e3o porta uma arma? Por que n\u00e3o anda com uma faca? Compra um spray de pimenta e fica de boa! A m\u00eddia est\u00e1 exagerando! Hoje em dia tudo \u00e9 mimimi!\u00a0<\/em>\u00c9 o que se escuta daqueles que nunca tiveram que pensar do ponto de vista feminino. Eles se surpreendem e soltam respostas prontas, muitas delas carregadas de preconceito. As pessoas n\u00e3o entendem que as mulheres que v\u00e3o a campo n\u00e3o querem passar por uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, nem como v\u00edtima nem para se defender.\u201d \u2013\u00a0<u>Liana Sena<\/u>, bi\u00f3loga, doutoranda em Ecologia, Conserva\u00e7\u00e3o e Manejo da Vida Silvestre na UFMG<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 t\u00e3o comum esse machismo que uma autoridade te chama\u00a0<em>minha filha<\/em>\u00a0em evento p\u00fablico e \u00e9 socialmente aceito, depois de todo o teu percurso acad\u00eamico e profissional. Tamb\u00e9m \u00e9 comum no\u00a0<em>como assim, vais viajar desacompanhada, isso \u00e9 perigoso, chama um colega pelo menos para te fazer companhia<\/em>, significando que ter\u00e1s o dobro da despesa \u2013 e provavelmente do t\u00e9dio \u2013, apenas para ter um homem viajando contigo no carro. E por a\u00ed vai.\u201d \u2013\u00a0<u>Cl\u00e1udia Martins<\/u>, eng.\u00aa agr\u00f4noma, pesquisadora Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Conversa com intermedi\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEm um trabalho em que eu era coordenadora de monitoramento de mastofauna do Projeto de Integra\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional \u2013 PISF, estavam eu, o motorista e os mateiros no carro oficial para pedir autoriza\u00e7\u00e3o para entrar numa propriedade particular. O propriet\u00e1rio s\u00f3 se dirigia ao motorista em sua fala. N\u00e3o se conformava que eu era a encarregada.\u201d \u2013\u00a0<u>Carolina Franco Esteves<strong>,<\/strong><\/u>\u00a0bi\u00f3loga, pesquisadora do Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cCentenas de vezes senti os olhares masculinos desviando dos meus e se dirigindo para o motorista do carro do Ibama que me acompanhava para responder as perguntas que\u00a0<em>eu<\/em>\u00a0fazia. As mulheres ficavam de longe, olhando curiosas. At\u00e9 que o motorista um dia disse:\u00a0<em>pode falar com ela, \u00e9 ela quem vai atr\u00e1s das on\u00e7as<\/em>. Somando uma incurs\u00e3o para cima da serra, que dava para chegar somente a cavalo, isso quebrou um pouco os olhares machistas, tornando-os curiosos.\u201d \u2013\u00a0<u>Cl\u00e1udia B. Campos<\/u>, bi\u00f3loga, pesquisadora do Instituto para Conserva\u00e7\u00e3o dos Carn\u00edvoros Neotropicais \u2013 Pr\u00f3-Carn\u00edvoros.<\/p>\n<p><strong>Discrimina\u00e7\u00e3o e desigualdade de oportunidades<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_63546\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-63546\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-e-ajudante-em-campo.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-e-ajudante-em-campo.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-e-ajudante-em-campo-264x300.jpg 264w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"455\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Josi Cerveira e o ajudante em campo. Foto: Arquivo Pessoal.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cJ\u00e1 ganhei uma bolsa de 800 reais enquanto dois caras, t\u00e3o formados quanto eu, ganhavam em carteira assinada 3.500 pela mesma tarefa, todos n\u00f3s contratados ao mesmo tempo.\u201d \u2013\u00a0<u>Josi Cerveira<\/u>, bi\u00f3loga, doutora em Ecologia Aplicada pela ESALQ\/USP.<\/p>\n<p>\u201cFui m\u00e3e no meio do doutorado e tive que ouvir do pai da minha filha:\u00a0<em>o seu doutorado n\u00e3o \u00e9 igual ao meu<\/em>! Hoje estou tendo que trabalhar 26 horas por dia para tentar \u2018recuperar\u2019 o curr\u00edculo e a produ\u00e7\u00e3o, por ter tido que cuidar e sustentar uma filha com a ajuda quase que exclusivamente de outra mulher: minha m\u00e3e.\u201d \u2013\u00a0<u>Fl\u00e1via de Campos Martins<\/u>, bi\u00f3loga, doutora em Ecologia pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>\u201cExperienciei a orienta\u00e7\u00e3o de um professor que, diante da aprova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a maternidade para bolsistas, chamou as orientandas numa reuni\u00e3o para expor claramente que era contra,\u00a0<em>por que dever\u00edamos saber o que quer\u00edamos da vida: sermos pesquisadoras respeitadas ou encostar a barriga no fog\u00e3o e gastar o dinheiro p\u00fablico em v\u00e3o<\/em>. Me questiono se a falta de enfrentamento \u00e0 opini\u00e3o do professor seria fruto do medo ou se minhas colegas estavam apenas habituadas aos coment\u00e1rios discriminat\u00f3rios.\u201d \u2013\u00a0<u>Josi Cerveira<\/u>, bi\u00f3loga, doutora em Ecologia Aplicada pela ESALQ\/USP.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 tive alguns conflitos com colegas na academia. Em v\u00e1rios piores momentos, me queriam fazer crer que eu devia ser grata por qualquer pouca coisa \u2013 me pergunto se usariam do mesmo discurso se eu fosse homem, sendo que nenhum se candidatou a fazer o que eu fa\u00e7o. Uma vez perguntei a um colega: tu que rotulas minha braveza de grosseria e ingratid\u00e3o, se eu fosse homem, n\u00e3o me elogiarias pela ambi\u00e7\u00e3o e pelo merecimento? Estou at\u00e9 hoje \u00e0 espera da resposta.\u201d\u2013\u00a0<u>Cl\u00e1udia Martins<\/u>, eng.\u00aa agr\u00f4noma, pesquisadora Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o raro o professor expunha o grupo de pesquisa a muitas situa\u00e7\u00f5es humilhantes e discriminat\u00f3rias. O grupo se rachava em opini\u00f5es, por que alguns n\u00e3o viam problema nisso e era not\u00e1vel que, pouco a pouco, ele arrecadava v\u00e1rios arremedos de disc\u00edpulos. O\u00a0<em>macho alfa<\/em>\u00a0do grupo estava cercado dos mini-machos de confian\u00e7a, enquanto as mulheres eram permanentemente classificadas como\u00a0<em>bonita, feia, louca,<\/em>\u00a0<em>que me respeita, sabe at\u00e9 ler um artigo<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>s\u00f3 serve pra passar caf\u00e9<\/em>. Tristemente, soube recentemente sobre uma colega que, ap\u00f3s a defesa do doutorado, quis se mudar pra casa dos pais por causa do t\u00e9rmino da bolsa. Como solu\u00e7\u00e3o, o orientador ofereceu a ela um emprego de carteira assinada de 20h, para que nas outras 20h ela pudesse se dedicar a escrever os artigos e ficar morando na cidade. Ele ofereceu pra ela o cargo de\u00a0<em>faxineira\u00a0<\/em>do laborat\u00f3rio.<em>\u201d<\/em>\u00a0\u2013\u00a0<u>Josi Cerveira<\/u>, bi\u00f3loga, doutora em Ecologia Aplicada pela ESALQ\/USP.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Josi-Cerveira-em-campo.jpg\" width=\"640\" height=\"426\" \/>Josi Cerveira em campo. Foto: Arquivo Pessoal.<\/p>\n<div id=\"attachment_63553\" class=\"wp-caption aligncenter\"><\/div>\n<p><strong>A resposta delas<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de todas as quest\u00f5es aqui expostas, muitas mulheres t\u00eam conquistado espa\u00e7o e respeito em v\u00e1rias esferas, conseguindo lidar com os desafios de ser mulher e realizar trabalho de campo utilizando estrat\u00e9gias para minimizar situa\u00e7\u00f5es de risco ou combater injusti\u00e7as. Algumas delas relataram como se sentem e o que esperam do futuro:<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos fazer com que esse assunto deixe de ser um tabu na sociedade, as mulheres est\u00e3o conquistando seu espa\u00e7o cada vez mais, ainda com muita dificuldade de conciliar o \u2018ser mulher\u2019 com o trabalho de pesquisa. A jornada come\u00e7a a ser dupla quando nos tornamos m\u00e3es, com mais preconceito, olhares tortos, frustra\u00e7\u00f5es e dificuldade de retornar \u00e0 rotina acad\u00eamica. Precisamos falar sobre isso!\u201d\u00a0<u>Carolina Franco Esteves<\/u>\u00a0\u2013 bi\u00f3loga, pesquisadora do Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cSomos metade dos acad\u00eamicos e a maioria em muitos dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o. Aos poucos estamos conquistando espa\u00e7o e rompendo com as correntes que nos faziam ficar fadadas a um destino preestabelecido culturalmente. Contudo, ainda estamos distantes do ideal. N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de esgotar o tema ou fazer uma generaliza\u00e7\u00e3o. Nem todas as mulheres passam por &#8216;perrengues&#8217; dessa natureza em campo. Muito menos temos inten\u00e7\u00e3o de criar v\u00edtimas ou m\u00e1rtires. Contudo, as quest\u00f5es levantadas s\u00e3o\u00a0<em>reais.\u00a0<\/em>Amea\u00e7as como ass\u00e9dio sexual, preconceito de g\u00eanero, discrimina\u00e7\u00e3o e oportunidades desiguais existem e merecem aten\u00e7\u00e3o. Reconhecer e tratar o assunto com seriedade \u00e9 um caminho para diminuir a invisibilidade e estimular a participa\u00e7\u00e3o de todos. \u00c9 preciso olhar de forma mais atenta e cr\u00edtica para situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o enfrentadas por professoras, pesquisadoras, profissionais, estudantes e\/ou cientistas mulheres, que para al\u00e9m da sua liberdade e direito, exercem um trabalho de extrema urg\u00eancia: a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade no Brasil. \u00c9 uma \u00e1rea que tem muitos desafios intr\u00ednsecos e vem enfrentando diversas crises. \u00c9 necess\u00e1rio que todos possam se dedicar a esta tarefa caso desejem, independente do g\u00eanero.\u201d \u2013\u00a0<u>Liana Sena<\/u>, bi\u00f3loga, doutoranda em Ecologia, Conserva\u00e7\u00e3o e Manejo da Vida Silvestre na UFMG<strong>.<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_63551\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-63551\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Claudia-Campos-Claudia-Martins-e-Carolina-Esteves.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Claudia-Campos-Claudia-Martins-e-Carolina-Esteves.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Claudia-Campos-Claudia-Martins-e-Carolina-Esteves-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Claudia-Campos-Claudia-Martins-e-Carolina-Esteves-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Claudia Campos e Claudia Martins instalam c\u00e2mera para monitoramento de fauna. Foto: Carolina Esteves.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cPartilho minha experi\u00eancia de ser uma mulher estrangeira trabalhando e morando no sert\u00e3o. Como diz uma de minhas autoras favoritas, Chimamanda Adichie,\u00a0<em>nossas hist\u00f3rias se agarram a n\u00f3s, somos moldados pelo lugar de onde viemos<\/em>. De onde eu vim, tamb\u00e9m existe machismo (onde n\u00e3o existe?). Mas nossa hist\u00f3ria \u00e9 antiga, e as mulheres ali t\u00eam orgulho de serem mulheres e n\u00e3o permitem que outros escrevam sua hist\u00f3ria. Isso significa decidir e sustentar suas decis\u00f5es, verbaliz\u00e1-las e ser intransigente, se \u00e9 isso que acredita. Significa arriscar e n\u00e3o temer as consequ\u00eancias de ser livre em decidir e fazer o que deseja fazer. Se o outro se incomoda e nos rotula de\u00a0<em>inconvenientes<\/em>, faz parte do voo livre da mulher. Conhe\u00e7o muitas colegas que encontram em seus\u00a0<em>papers<\/em>, palestras, aulas, semin\u00e1rios, cursos, oficinas, escapes dessa pris\u00e3o em que tentam mant\u00ea-las, que \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que a ci\u00eancia, principalmente a que demanda que fa\u00e7am pesquisa em campo, \u00e9 um territ\u00f3rio exclusivamente masculino, perigoso e duro, que uma mulher, com ou sem marido, m\u00e3e ou n\u00e3o, n\u00e3o consegue aguentar por conta de sua fragilidade. A ambos, homens machistas e mulheres resignadas, ofere\u00e7o um excerto do poema de Sunni Patterson, de &#8216;Wild women&#8217;:\u00a0<em>Tomem cuidado porque mulheres selvagens n\u00e3o devem ser domadas, apenas admiradas<\/em>.\u201d\u2013\u00a0<u>Cl\u00e1udia Martins<\/u>, eng.\u00aa agr\u00f4noma, pesquisadora Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um profissional vai para o trabalho. 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