{"id":93644,"date":"2018-10-11T14:30:03","date_gmt":"2018-10-11T17:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=93644"},"modified":"2018-10-11T10:02:37","modified_gmt":"2018-10-11T13:02:37","slug":"o-lixo-esta-na-moda-consciencia-ambiental-e-sustentabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-lixo-esta-na-moda-consciencia-ambiental-e-sustentabilidade\/","title":{"rendered":"O &#8220;lixo&#8221; est\u00e1 na moda: Consci\u00eancia ambiental e sustentabilidade"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-93645\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O aproveitamento de res\u00edduos combina responsabilidade ambiental e desenvolvimento social na ind\u00fastria t\u00eaxtil e de confec\u00e7\u00f5es, que fatura 45 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano.<\/em><span id=\"more-3439\"><\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">O\u00a0<\/span>vestu\u00e1rio j\u00e1 foi uma quest\u00e3o de necessidade b\u00e1sica, mas hoje faz parte da economia global industrializada. O mercado mundial da moda est\u00e1 avaliado em\u00a0<a href=\"https:\/\/fashionunited.com\/global-fashion-industry-statistics\">tr\u00eas trilh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a>\u00a0e j\u00e1 \u00e9 respons\u00e1vel por 2% da economia global. Com uma demanda crescente ao longo das d\u00e9cadas, a ind\u00fastria da moda contou com a ajuda da tecnologia para tornar a produ\u00e7\u00e3o cada vez mais eficiente e barata. Produzir mais com menos custo foi um avan\u00e7o que fomentou o\u00a0<em>fast fashion<\/em>, marcado pela superprodu\u00e7\u00e3o e exig\u00eancia constante por novos estilos. Mas o pre\u00e7o das r\u00e1pidas mudan\u00e7as de cole\u00e7\u00e3o \u00e9 bem maior do que aquele vis\u00edvel nas etiquetas. \u00c9 preciso contabilizar tamb\u00e9m os custos ambientais de produ\u00e7\u00e3o, processamento e transporte das mercadorias. Isso sem falar nas milhares de toneladas de roupas descartadas todos os anos.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria da moda hoje depende fortemente de recursos n\u00e3o-renov\u00e1veis, como fertilizantes para cultura de algod\u00e3o, petr\u00f3leo para produ\u00e7\u00e3o de fibras sint\u00e9ticas e corantes para tinturarias. No total s\u00e3o cerca de 98 milh\u00f5es de toneladas de recursos n\u00e3o-renov\u00e1veis consumidos por ano. Al\u00e9m disso, a cadeia produtiva t\u00eaxtil \u00e9 uma das maiores consumidoras de \u00e1gua do mundo, utilizando anualmente 93 trilh\u00f5es de litros. Os dados s\u00e3o do relat\u00f3rio \u201c<a href=\"https:\/\/www.ellenmacarthurfoundation.org\/assets\/downloads\/publications\/A-New-Textiles-Economy_Full-Report_Updated_1-12-17.pdf\">Uma nova economia t\u00eaxtil<\/a>\u201c, produzido pela Funda\u00e7\u00e3o Ellen Macarthur. O texto destaca que n\u00e3o \u00e9 apenas quando falamos em mat\u00e9ria-prima que a moda deixa fortes impactos negativos. Os efeitos sobre a qualidade da \u00e1gua e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m s\u00e3o severos: 20% da polui\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica global \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 colora\u00e7\u00e3o e tratamento de fibras e tecidos e a ind\u00fastria t\u00eaxtil emite na atmosfera mais de 1 bilh\u00e3o de toneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico por ano. Isso \u00e9 mais do que a emiss\u00e3o combinada de todos os voos internacionais e de transporte mar\u00edtimo do mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3440\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3440\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01.jpg\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" srcset=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01.jpg 420w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01-244x300.jpg 244w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01-300x369.jpg 300w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01-19x24.jpg 19w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01-29x36.jpg 29w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_01-39x48.jpg 39w\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"431\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Crescimento dos impactos negativos da ind\u00fastria t\u00eaxtil estimado para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Fonte: Funda\u00e7\u00e3o Ellen Macarthur.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m dos impactos negativos da produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o, existe o problema dos res\u00edduos. O sistema produtivo que ainda domina a ind\u00fastria da moda \u00e9 basicamente linear: uma quantidade enorme de recursos \u00e9 empregada na produ\u00e7\u00e3o de roupas e acess\u00f3rios, que ser\u00e3o usados poucas vezes e depois descartados em aterros ou incinerados. Com esse modelo, a taxa de desperd\u00edcio no setor de confec\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio varia de 15 a 20% e mais de 50% da produ\u00e7\u00e3o em massa na moda \u00e9 descartada em menos de um ano. O preju\u00edzo associado ao descarte n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ambiental, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mico. No Reino Unido, por exemplo, o gasto anual com disposi\u00e7\u00e3o de res\u00edduos t\u00eaxteis \u00e9 de cerca de 108 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Uma das solu\u00e7\u00f5es para esses problemas seria a reciclagem, mas de todo esse material, somente 13% \u00e9 reciclado ou reaproveitado para outras finalidades. A Uni\u00e3o Europeia tem dado o exemplo na redu\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio e melhoria do descarte. O grupo de pa\u00edses aprovou uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.europarl.europa.eu\/news\/pt\/press-room\/20180411IPR01518\/pe-aprova-regras-para-aumentar-reciclagem-e-reduzir-deposicao-em-aterros-na-ue\">nova legisla\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0para o setor, com leis que exigem que a ind\u00fastria da moda adote um modelo de economia circular, de modo a eliminar o descarte de materiais t\u00eaxteis nos aterros at\u00e9 2025. Os efeitos dessa medida podem ser sentidos em toda a cadeia, at\u00e9 no contato direto com os consumidores: algumas marcas de grande porte, como a Adidas, j\u00e1 disponibilizam pontos de coleta de roupas em suas lojas.<\/p>\n<p>No Brasil, existe legisla\u00e7\u00e3o parecida. \u00c9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2010\/lei\/l12305.htm\">Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos<\/a>, em vigor desde 2010. Segundo essa pol\u00edtica, nenhum res\u00edduo pass\u00edvel de ser reciclado pode ser destinado a aterros. Mas a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 cumprida. A consultora em gest\u00e3o socioambiental e pesquisadora de design de moda, Gabriela Marcondes, explica que a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo e de fiscaliza\u00e7\u00e3o favorece a ilegalidade. \u201cAs empresas n\u00e3o querem pagar pela deposi\u00e7\u00e3o adequada de res\u00edduos. Isso porque a prefeitura continua pegando esse res\u00edduo e aterrando. A prefeitura n\u00e3o est\u00e1 cumprindo o papel dela, que \u00e9 seguir a pol\u00edtica nacional. Ent\u00e3o por que a ind\u00fastria de confec\u00e7\u00e3o vai pagar para descartar se a prefeitura est\u00e1 pegando de gra\u00e7a? Isso envolve pol\u00edtica p\u00fablica, o cumprimento da lei federal, a fiscaliza\u00e7\u00e3o\u201d, diz ela.<\/p>\n<p><strong>Alternativas ao descarte envolvem tecnologia e criatividade<\/strong><\/p>\n<p>Uma medida que pode ajudar a solucionar o problema de descarte de res\u00edduos t\u00eaxteis \u00e9 o\u00a0<em>upcycling<\/em>(\u201creutiliza\u00e7\u00e3o criativa\u201d), que prop\u00f5e que os res\u00edduos sejam utilizados na fabrica\u00e7\u00e3o de novos produtos. O\u00a0<em>upcycling<\/em>\u00a0faz parte da economia circular e tem crescido no Brasil e no mundo. Mas esse tipo de reaproveitamento n\u00e3o se limita a reutilizar um tecido em outra roupa. \u00c9 poss\u00edvel gerar produtos completamente novos. Suzana Barreto, professora de design de moda na Universidade Estadual de Londrina (UEL), destaca que a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica tem um papel chave nesse processo. \u201cN\u00f3s come\u00e7amos a usar a poliamida, material usado em roupas de gin\u00e1stica e dif\u00edcil de reciclar, e come\u00e7amos a investir em inova\u00e7\u00e3o. Conseguimos desenvolver uma parceria com o Departamento de Qu\u00edmica da UEL e dissolvemos a poliamida com res\u00edduo de biodiesel, que \u00e9 um res\u00edduo tamb\u00e9m com muito impacto ambiental, e criamos novos materiais. Criamos um material r\u00edgido que pode ser usado na arquitetura, para m\u00f3veis e design de interiores. Criamos tamb\u00e9m um material flex\u00edvel, com amido. E isso gerou patentes de inven\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que ainda n\u00e3o est\u00e1 no mercado porque no Brasil infelizmente o processo de concess\u00e3o de patentes \u00e9 demorado\u201d, explica.<\/p>\n<p>Outro exemplo bem sucedido de\u00a0<em>upcycling\u00a0<\/em>\u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/revoada.com.br\/\">Revoada<\/a>, empresa que nasceu em 2013 com o nome \u201cVuelo\u201d e foi pensada pela comunicadora Adriana Tubino e a estilista Itiana Pasetti. As duas decidiram empreender no campo da moda sustent\u00e1vel e tiveram a ideia de utilizar c\u00e2maras de pneus e nylon de guarda-chuvas descartados para produzir bolsas e mochilas. \u201cT\u00ednhamos a pergunta: por que colocar mais um produto no mundo, se o mundo j\u00e1 est\u00e1 cheio de excessos? Achamos na pr\u00f3pria pergunta a resposta, que \u00e9 trabalhar com os excessos\u201d, conta Tubino. Elas descobriram na c\u00e2mara de pneu e no tecido de guarda-chuvas os materiais ideais para o seu neg\u00f3cio. \u201cA borracha tem um aspecto parecido com o do couro, al\u00e9m de ser imperme\u00e1vel. E o tecido de guarda-chuvas \u00e9 usado como forro de nossos produtos, e por serem tecidos coloridos e com v\u00e1rias estampas, t\u00eam um \u00f3timo contraste com o preto da borracha\u201d.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria cadeia de produ\u00e7\u00e3o teve de ser pensada n\u00e3o apenas levando em conta os aspectos ambientais de sustentabilidade, mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es de trocas com fornecedores e parceiros, de modo que ela seja vantajosa para todas as partes envolvidas. Tubino e Pasetti procuraram borracharias e centros de triagem de lixo recicl\u00e1vel para serem fornecedores de mat\u00e9ria-prima e negociaram o pre\u00e7o do que, para eles, era um res\u00edduo quase sem valor. \u201cPara voc\u00eas terem uma ideia, quando come\u00e7amos esse trabalho, o pre\u00e7o da sucata (que \u00e9 para onde iriam os guarda-chuvas) era de cinco centavos o quilo. Oferecemos pagar cinquenta centavos a unidade. Isso fez com que ficasse muito atrativo para as unidades de triagem se engajarem no projeto\u201d, explica Tubino. Os produtos tamb\u00e9m s\u00e3o feitos em pequenos ateli\u00eas e cooperativas de costura, gerando renda e ajudando esses grupos a crescerem. \u201cO produto finalizado recebe uma etiqueta, contando toda a hist\u00f3ria e a cadeia produtiva deste produto e instruindo para que ele n\u00e3o seja descartado ap\u00f3s seu uso e vire um res\u00edduo novamente. Ao final da vida \u00fatil, os produtos s\u00e3o devolvidos \u00e0 Revoada, onde parte \u00e9 reaproveitada para a confec\u00e7\u00e3o de novos produtos, e o restante \u00e9 destinado para a fabrica\u00e7\u00e3o de subprodutos, como isolamento ac\u00fastico, asfalto e para-choques de autom\u00f3veis\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Revoada trabalha com um sistema de produ\u00e7\u00e3o em lotes. Um per\u00edodo para a realiza\u00e7\u00e3o dos pedidos \u00e9 aberto, e as pe\u00e7as s\u00e3o produzidas sob demanda. O consumidor \u00e9 informado sobre todo o processo de produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 receber seu produto finalizado. Esta \u00e9 uma maneira de repensar o consumo e de se estabelecer uma conex\u00e3o entre o produto e o consumidor, e todas as rela\u00e7\u00f5es envolvidas nesse processo. Isso reflete uma mudan\u00e7a no perfil dos consumidores, que est\u00e3o ficando cada vez mais atentos e demandando das empresas este tipo de comprometimento, tanto ecol\u00f3gico como social, no processo produtivo. \u201cNos novos valores da moda, os produtos devem ter linguagem est\u00e9tica bem demarcada, ser originais, produzir significado \u2013 para as pessoas se relacionarem com esse produto, terem uma conex\u00e3o emocional \u2013, al\u00e9m de ter qualidade competitiva e ser sustent\u00e1vel. Aquele conceito antigo do luxo j\u00e1 n\u00e3o existe mais\u201d, explica Barreto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3441\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3441\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02.jpg 1024w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02-768x512.jpg 768w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02-24x16.jpg 24w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02-36x24.jpg 36w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_02-48x32.jpg 48w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"266\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Bolsas e mochilas produzidas pela Revoada. Imagem: reprodu\u00e7\u00e3o do site da marca<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m do\u00a0<em>upcycling<\/em>, \u00e9 necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de empresas que coletem e organizem esses res\u00edduos para destin\u00e1-los a outras aplica\u00e7\u00f5es. \u00c9 o caso das empresas de coprocessamento, que utilizam res\u00edduos t\u00eaxteis como combust\u00edvel nos fornos de cimenteiras. Atualmente, os fornos usados na produ\u00e7\u00e3o de cimentos s\u00e3o alimentados majoritariamente por petr\u00f3leo e carv\u00e3o, dois combust\u00edveis n\u00e3o renov\u00e1veis que contribuem com impactos ambientais negativos. O uso dos res\u00edduos t\u00eaxteis \u00e9, ent\u00e3o, uma alternativa que mant\u00e9m alta capacidade de gera\u00e7\u00e3o de calor ao mesmo tempo que economiza recursos naturais. Mas essas empresas t\u00eam um custo, como destaca Marcondes: \u201cAs empresas de coprocessamento conseguiram criar uma tecnologia que alimenta fornos com res\u00edduos. Ent\u00e3o essa ind\u00fastria teve custos para desenvolver essa tecnologia, ela tem custos para estar dentro de uma cimenteira, ela paga aluguel. Ela n\u00e3o pode fazer de gra\u00e7a. A gente precisa de mais empresas desse tipo, mas elas s\u00f3 existir\u00e3o quando a prefeitura n\u00e3o recolher mais [os res\u00edduos], quando o aterro n\u00e3o receber mais. \u00c9 a necessidade que vai fazer surgir essa empresa. Hoje ela n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o do produto como primeiro passo da mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do aproveitamento de res\u00edduos, iniciativas que objetivam minimizar a produ\u00e7\u00e3o de lixo t\u00eaxtil t\u00eam ganhado destaque. Um exemplo \u00e9 o movimento \u201cdesperd\u00edcio zero\u201d (do ingl\u00eas,\u00a0<em>zero waste<\/em>), em que as pe\u00e7as de vestu\u00e1rio e acess\u00f3rios j\u00e1 s\u00e3o pensadas de forma a se utilizar todo o material, sem gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos. Essa mudan\u00e7a na concep\u00e7\u00e3o dos produtos \u00e9 fundamental. Barreto destaca que uma moda mais sustent\u00e1vel envolve o uso de materiais de maior qualidade, modelos atemporais, assim como conforto e usabilidade da pe\u00e7a, caracter\u00edsticas que aumentam sua vida \u00fatil.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso analisar tamb\u00e9m o ciclo de vida do produto, desde a extra\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria-prima, o transporte, a produ\u00e7\u00e3o e o comportamento durante o uso, at\u00e9 o que vai acontecer com esse material na hora do descarte. No caso ic\u00f4nico do jeans, por exemplo, o tipo de fibra \u00e9 basicamente algod\u00e3o, muitas vezes visto como natural e sustent\u00e1vel. Mas o plantio de algod\u00e3o utiliza muitos pesticidas e fertilizantes e o processo de tingimento e processamento do tecido requer muita \u00e1gua. \u201cO pior do jeans \u00e9 o processo de beneficiamento dele, as lavagens, que s\u00e3o as lavanderias que fazem. Porque o jeans sai do processo de tecelagem como um papel\u00e3o mesmo, um tecido duro, super-resistente. Depois ele \u00e9 mandado para as lavanderias para fazer todo o processo de lavagem, de desgaste, desbotamento. Tudo isso \u00e9 feito com muita \u00e1gua, produtos qu\u00edmicos, \u00e1cidos. S\u00f3 que eu acho muito dif\u00edcil que se deixe de usar o jeans. A vantagem \u00e9 que o jeans \u00e9 uma pe\u00e7a extremamente dur\u00e1vel, tem o ciclo de vida longo\u201d, afirma Barreto.<\/p>\n<p>Os problemas dessa produ\u00e7\u00e3o podem ser amenizados com materiais mais sustent\u00e1veis. Na busca por esses materiais, a empresa Levi Strauss, famosa produtora de cal\u00e7as jeans, fez uma parceria com a startup Evernu para criar uma nova fibra de qualidade a partir da dissolu\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de roupas usadas. A Levi tem utilizado ainda o Econyl, material sint\u00e9tico feito de res\u00edduos de nylon derivados de redes de pesca descartadas. O Econyl foi desenvolvido pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aquafil.com\/\">Aquafil<\/a>, empresa italiana fabricante de nylon. A legisla\u00e7\u00e3o ambiental tamb\u00e9m tem um papel importante nessa hist\u00f3ria e, com isso, as lavanderias est\u00e3o procurando localidades onde as leis ambientais n\u00e3o sejam t\u00e3o restritivas quanto ao uso da \u00e1gua e ao descarte de corantes como o \u00edndigo. \u201cEm v\u00e1rios estados do Brasil, a legisla\u00e7\u00e3o tem sido efetiva. As lavanderias de S\u00e3o Paulo est\u00e3o mudando para o Paran\u00e1 por causa das leis ambientais, que s\u00e3o muito r\u00edgidas. A It\u00e1lia tamb\u00e9m n\u00e3o tem tantas lavanderias de jeans. As pe\u00e7as s\u00e3o lavadas em pa\u00edses perif\u00e9ricos\u201d, diz Barreto, ao evidenciar que muitas vezes o preju\u00edzo ambiental fica a cargo de lugares menos desenvolvidos economicamente.<\/p>\n<p><strong>Pesquisas favorecem a redistribui\u00e7\u00e3o de material<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m das pesquisas na \u00e1rea de reaproveitamento dos res\u00edduos, \u00e9 preciso levantar dados sobre materiais e formas de descarte mais sustent\u00e1veis. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria T\u00eaxtil e de Confec\u00e7\u00f5es (ABIT), o Brasil \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.abit.org.br\/cont\/perfil-do-setor\">\u00faltima cadeia t\u00eaxtil completa<\/a>\u00a0do ocidente, incluindo desde a produ\u00e7\u00e3o das fibras at\u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o em varejo e desfiles. Apesar disso, Marcondes ressalta que n\u00e3o h\u00e1 um mapeamento adequado no pa\u00eds sobre onde os res\u00edduos da moda s\u00e3o produzidos, quais s\u00e3o os tipos e quem pode processar. Pensando nisso, ela e a pesquisadora em moda Geanneti Salomon criaram a\u00a0<a href=\"https:\/\/gabrielamarcondes.com.br\/eco-materioteca-pesquisa-e-inovacao-em-materiais-sustentaveis\/\">Ecomaterioteca<\/a>, que visa disponibilizar todos os ecomateriais dispon\u00edveis na ind\u00fastria t\u00eaxtil e na ind\u00fastria qu\u00edmica nacional para que jovens estilistas, designers e a pr\u00f3pria ind\u00fastria de confec\u00e7\u00e3o possam ter acesso. Mais do que um cat\u00e1logo de materiais ecol\u00f3gicos, a Ecomaterioteca inclui um sistema de classifica\u00e7\u00e3o das empresas que os utilizam e incentiva essas empresas a informarem sobre as pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis que adotam. Isso agrega valor ao produto e favorece a rastreabilidade dos materiais e atores envolvidos em uma cadeia produtiva voltada para a sustentabilidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_03.jpg\" width=\"637\" height=\"454\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_3442\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 647px;\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ecomaterioteca e suas idealizadoras, Gabriela Marcondes e Geanneti Salomon, no canto superior esquerdo. Imagem: Gabriela Marcondes<\/figcaption><\/figure>\n<p>A redistribui\u00e7\u00e3o de res\u00edduos tamb\u00e9m tem muito a ganhar com os chamados mercados de res\u00edduos. Afinal, o que \u00e9 res\u00edduo para um pode ser material para o outro. O grupo da pesquisadora Suzana Barreto est\u00e1 montando um banco de res\u00edduos t\u00eaxteis para Londrina e regi\u00e3o, no norte do Paran\u00e1. Eles foram inspirados pelo Banco de Vestu\u00e1rio de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, que est\u00e1 em funcionamento h\u00e1 mais de 10 anos e \u00e9 uma parceria de sucesso entre universidade, prefeitura e empresas. Um projeto semelhante, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sinditextilsp.org.br\/cont\/retalho-fashion\">Retalho Fashion<\/a>, tem sido desenvolvido em S\u00e3o Paulo, na regi\u00e3o do Bom Retiro.<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o com as condi\u00e7\u00f5es sociais<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da parte tecnol\u00f3gica e ambiental da produ\u00e7\u00e3o, a moda sustent\u00e1vel valoriza as pessoas envolvidas e o consumo consciente. Por isso, al\u00e9m de mat\u00e9rias-primas menos poluentes, essa nova vertente da ind\u00fastria da moda tem se preocupado com uma produ\u00e7\u00e3o mais humanizada, com remunera\u00e7\u00e3o e jornadas de trabalho justas, se opondo aos empregos sazonais e informais que mant\u00eam o baixo custo da produ\u00e7\u00e3o no\u00a0<em>fast fashion<\/em>.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o da sustentabilidade no mercado tem crescido com o trabalho de ateli\u00eas, cooperativas e oficinas de pequeno porte, muitas vezes situadas em comunidades carentes. Com isso, a moda sustent\u00e1vel tem agregado tamb\u00e9m conceitos da economia solid\u00e1ria, contribuindo para o desenvolvimento de localidades tradicionalmente exclu\u00eddas pelo processo hegem\u00f4nico de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra contribui\u00e7\u00e3o importante \u00e9 o resgate da identidade cultural de grupos artesanais, cujos saberes e pr\u00e1ticas t\u00eam sido reconhecidos e incorporados nessa nova forma de se pensar e produzir moda. S\u00f3 \u00e9 preciso cuidado para que a valoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja convertida em explora\u00e7\u00e3o, como foi o caso da Dior,\u00a0<a href=\"https:\/\/metro.co.uk\/2018\/07\/05\/dior-copied-traditional-romanian-clothing-romanians-getting-back-7686135\/\">acusada de apropria\u00e7\u00e3o cultural<\/a>\u00a0pela comunidade romena Bihor. Em 2017, a pr\u00e9-cole\u00e7\u00e3o de outono da Dior tinha um\u00a0<em>design\u00a0<\/em>muito semelhante ao vestu\u00e1rio tradicional de Bihor e, embora as pe\u00e7as tenham sido vendidas por valores em torno de 25.000 libras, nenhum cr\u00e9dito ou compensa\u00e7\u00e3o financeira foi dada \u00e0 comunidade romena.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/mamb_04.jpg\" width=\"641\" height=\"361\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_3443\" class=\"wp-caption alignnone\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o de Bihor Couture<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 importante lembrar tamb\u00e9m que n\u00e3o basta ser sustent\u00e1vel, \u00e9 preciso que seja economicamente acess\u00edvel. Hoje em dia, os esfor\u00e7os para encontrar medidas e tecnologias que reduzam os danos \u00e0 natureza durante a produ\u00e7\u00e3o e transporte, associado ao\u00a0<em>status<\/em>\u00a0de ecologicamente correta, acabam tornando a moda sustent\u00e1vel mais cara do que a convencional. Somente com a amplia\u00e7\u00e3o da acessibilidade tecnol\u00f3gica e com revis\u00e3o do valor agregado pelo\u00a0<em>status<\/em>\u00a0que os benef\u00edcios que a tecnologia traz para o mundo da moda, haver\u00e1 utiliza\u00e7\u00e3o em larga escala e contribui\u00e7\u00e3o para a real conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aproveitamento de res\u00edduos combina responsabilidade ambiental e desenvolvimento social na ind\u00fastria t\u00eaxtil e de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":93645,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/jixo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O aproveitamento de res\u00edduos combina responsabilidade ambiental e desenvolvimento social na ind\u00fastria t\u00eaxtil e de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93644"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93644\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93645"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}