{"id":93542,"date":"2018-10-09T13:36:43","date_gmt":"2018-10-09T16:36:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=93542"},"modified":"2018-10-09T13:36:43","modified_gmt":"2018-10-09T16:36:43","slug":"amazonia-uma-conversa-com-gabriele-lonardi-o-medico-dos-indios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/amazonia-uma-conversa-com-gabriele-lonardi-o-medico-dos-indios\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia. Uma conversa com Gabriele Lonardi. O m\u00e9dico dos \u00edndios"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/indio.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-93543\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/indio-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/indio-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/indio.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Para chegar at\u00e9 seus pacientes, leva de quinze a vinte dias. Depende do estado dos rios. De avi\u00e3o at\u00e9 Manaus, depois cinco dias de barco para chegar a L\u00e1brea e pelo menos mais 11 para chegar aos \u00edndios\u00a0<strong>Suruwah\u00e1<\/strong>.\u00a0<strong>Gabriele Lonardi<\/strong>\u00a0escolheu exercer assim a sua profiss\u00e3o, m\u00e9dico de Verona formado em P\u00e1dua e especialista em\u00a0<strong>doen\u00e7as tropicais\u00a0<\/strong>em Lisboa.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de\u00a0<strong>Gianpaolo Romanato<\/strong>, publicada por\u00a0<strong>L&#8217;Osservatore Romano<\/strong>. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Luisa Rabolini<\/strong>.<\/p>\n<p>Sessenta e cinco anos muito bem aproveitados, mudou-se para o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0logo que terminou seus estudos com um projeto de coopera\u00e7\u00e3o gerido pela<strong>\u00a0Ong Aes\u00a0<\/strong>de<strong>\u00a0P\u00e1dua<\/strong>. Ele trabalhou em\u00a0<strong>Anchieta<\/strong>, no<strong>\u00a0Esp\u00edrito Santo<\/strong>, a cidade onde viveu e morreu\u00a0Jos\u00e9 de Anchieta, o primeiro evangelizador do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, e, depois, no\u00a0<strong>Piau\u00ed<\/strong>, no nordeste, na esteira de\u00a0<strong>Umberto Pietrogrande<\/strong>, jesu\u00edta, que morreu em 2015, um pedagogo que importou para o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0o m\u00e9todo das\u00a0<strong>escolas agr\u00edcolas familiares<\/strong>\u00a0e que mereceria ser mais conhecido tamb\u00e9m na\u00a0<strong>It\u00e1lia<\/strong>. Quando a diocese de Vit\u00f3ria tornou-se co-irm\u00e3 da\u00a0<strong>Prelazia<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>, no outro extremo do<strong>\u00a0Brasil<\/strong>, no interior da\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, concordou em se mudar para l\u00e1 e trabalhar como m\u00e9dico entre os\u00a0<strong>\u00edndios<\/strong>. H\u00e1 anos que\u00a0<strong>Lonardi<\/strong>\u00a0realiza essas longas viagens, que duram meses, nessas terras remotas e inacess\u00edveis, para tratar da sa\u00fade de popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o paradas na pr\u00e9-hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Eu pergunto por que ele faz isso. &#8220;Porque s\u00e3o seres humanos, como n\u00f3s, s\u00e3o filhos de Deus, tamb\u00e9m t\u00eam seu direito \u00e0 sa\u00fade e se a vida quase que acidentalmente me levou at\u00e9 eles, como m\u00e9dico eu tenho o dever de cuidar deles. E eles tamb\u00e9m merecem a nossa admira\u00e7\u00e3o por terem conseguido sobreviver na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, que \u00e9 o triunfo da natureza, uma terra incr\u00edvel, mas tamb\u00e9m a mais in\u00f3spita para o homem&#8221;. Ele cita\u00a0<strong>Euclides da Cunha<\/strong>, que no final do s\u00e9culo XIX, foi o primeiro a explorar o\u00a0<strong>Alto Purus<\/strong>: &#8220;Nesta natureza suprema e primitiva, que aqui liberta a sua energia mais poderosa e incontrol\u00e1vel, o homem s\u00f3 \u00e9 um intruso.&#8221;<\/p>\n<p>Nas margens desse rio e suas in\u00fameras ramifica\u00e7\u00f5es, se estende a prelazia de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>, em dire\u00e7\u00e3o ao<strong>\u00a0Peru<\/strong>, perto da fronteira com a\u00a0<strong>Bol\u00edvia<\/strong>. \u00c9 apenas um pouco menor que a\u00a0<strong>It\u00e1lia<\/strong>\u00a0(230.000 quil\u00f4metros quadrados) e n\u00e3o vivem ali mais de 80.000 pessoas. \u00c9 uma terra anf\u00edbia &#8211;\u00a0<strong>Lonardi<\/strong>\u00a0me explica &#8211; porque o alto\u00a0<strong>Purus<\/strong>\u00a0\u201c\u00e9 infinitamente rico de curvas e reentr\u00e2ncias, com um percurso mut\u00e1vel, que se transforma conforme as esta\u00e7\u00f5es do ano, quando a \u00e1gua sobe ou diminui por causa do degelo das neves da\u00a0<strong>Cordilheira dos Andes<\/strong>\u00a0e invade a floresta at\u00e9 por trinta quil\u00f4metros, formando enormes lagos, pois a inclina\u00e7\u00e3o do rio \u00e9 m\u00ednima e as \u00e1guas, \u00e0s vezes, em vez de descer, param e se espalham. Nesta terra impressionante, a geografia est\u00e1 em constante muta\u00e7\u00e3o\u201d. Em setembro, o m\u00eas mais quente, a temperatura pode chegar a 40 graus com 90 por cento de umidade, um clima que permite \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o explodir, faz as \u00e1rvores crescerem at\u00e9 50 metros, preenche o ar com insetos mortais e a\u00a0<strong>floresta<\/strong>\u00a0com todos os tipos de animais. Apenas os<strong>\u00edndios<\/strong>\u00a0se adaptaram a esse\u00a0<strong>ambiente extremo<\/strong>.<\/p>\n<p>&#8220;Viver aqui, onde tudo \u00e9 inimigo do homem &#8211; conta-me\u00a0<strong>Lonardi<\/strong>\u00a0&#8211; \u00e9 uma luta tit\u00e2nica, inclusive pelo baix\u00edssimo potencial agr\u00edcola da<strong>\u00a0floresta<\/strong>. A economia \u00e9 miser\u00e1vel, de mera subsist\u00eancia. Por esta raz\u00e3o, as<strong>\u00a0popula\u00e7\u00f5es locais<\/strong>\u00a0s\u00e3o pequenos grupos semin\u00f4mades, isolados uns dos outros, que se alimentam de ca\u00e7a e pesca e para sobreviver precisam de vastos territ\u00f3rios. O \u00fanico produto verdadeiro da terra \u00e9 a\u00a0<strong>mandioca<\/strong>, mas tem um teor prot\u00e9ico muito baixo e aumenta a desnutri\u00e7\u00e3o. Na minha regi\u00e3o de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>, identificamos 13 grupos populacionais, muito diferentes em termos de caracter\u00edsticas som\u00e1ticas, culturais, lingu\u00edsticas e alimentares. Mas cada um conta no m\u00e1ximo com 2500 pessoas, geralmente menos de mil. Em outras \u00e1reas da\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, onde podem contar com territ\u00f3rios maiores, superam pouco mais de vinte mil indiv\u00edduos, como os<strong>\u00a0Yanomami<\/strong>\u00a0em dire\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Venezuela<\/strong>. A\u00a0FUNAI, \u00f3rg\u00e3o brasileiro que protege as\u00a0popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, recenseou 220\u00a0<strong>grupos \u00e9tnicos<\/strong>\u00a0diferentes. E lembre-se \u2013 acrescenta ele \u2013 estou me referindo apenas \u00e0\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia brasileira<\/strong>, enquanto o imenso\u00a0<strong>territ\u00f3rio amaz\u00f4nico<\/strong>\u00a0penetra uma dezena de estados e se estende em mais de 7 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados, pouco menos do que a\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0inteira, como os\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>\u00a0sem o\u00a0<strong>Alaska<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Pergunto se \u00e9 f\u00e1cil se aproximar dos<strong>\u00a0\u00edndios<\/strong>. &#8220;Nem um pouco &#8211; responde ele &#8211; Eles se defendem com\u00a0arcos e flechas\u00a0no seu territ\u00f3rio e na sua solid\u00e3o, que \u00e9 o resultado de experi\u00eancias distantes de lutas com estranhos pelo<strong>\u00a0territ\u00f3rio<\/strong>\u00a0e de doen\u00e7as trazidas de fora, pelo que eles aprenderam a se esconder para sobreviver. Eu consegui entrar nas aldeias dos<strong>\u00a0Suruwaha<\/strong>\u00a0(mas o nome pode ser escrito de v\u00e1rias formas), um dos menores grupos, identificados apenas alguns anos atr\u00e1s, ou seja, nas sua<strong>\u00a0malocas<\/strong>\u00a0&#8211; habita\u00e7\u00f5es coletivas, cada uma das quais constitui uma\u00a0<strong>aldeia<\/strong>\u00a0&#8211; s\u00f3 porque conseguiu salvar um deles picado por uma cobra e o trouxe de volta \u00e0 sua maloca. Desde ent\u00e3o me acolhem como um deles, e quando chego, depois de pelo menos dez dias de navega\u00e7\u00e3o nos rios al\u00e9m de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>, eu convivo com eles, na maloca, dormindo ao lado deles em uma rede. Existe o obst\u00e1culo da l\u00edngua, mas me ajuda uma \u00edndia que conhece o portugu\u00eas. E quando digo que eles est\u00e3o longe, que \u00e9 dif\u00edcil chegar at\u00e9 eles, eles me respondem que eu \u00e9 que estou longe deles, rompendo com todas as minhas categorias mentais etnoc\u00eantricas. Quando eu retorno para\u00a0<strong>Verona<\/strong>\u00a0e assisto aos grandes espet\u00e1culos da Arena, n\u00e3o posso deixar de pensar com alguma consterna\u00e7\u00e3o nesses<strong>\u00a0\u00edndios<\/strong>, para quem sua maloca \u00e9 o centro do mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Que patologias voc\u00ea encontra entre seus<strong>\u00a0\u00edndios<\/strong>? &#8220;De tudo.\u00a0Mal\u00e1ria,\u00a0tuberculose,\u00a0<strong>anemia<\/strong>\u00a0agravada por\u00a0<strong>parasitose intestinal<\/strong>,\u00a0verminose\u00a0que\u00a0destr\u00f3i principalmente crian\u00e7as. As piores\u00a0doen\u00e7as tropicais, algumas bem conhecidas, outras menos, todas prosperam aqui, \u00e0s vezes evoluem para formas imprevis\u00edveis, transmitidas por insetos, agravadas pelo\u00a0<strong>clima tropical<\/strong>, pela higiene inexistente, pela falta de medicamentos e hospitais. Para chegar ao mais pr\u00f3ximo, o de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>, \u00e9 preciso navegar por dias e dias. A\u00a0mal\u00e1ria\u00a0\u00e9 um flagelo. N\u00f3s diagnosticamos sete mil casos apenas nos primeiros cinco meses deste ano em uma \u00e1rea ocupada por cerca de 40.000 pessoas. Depois, h\u00e1 a\u00a0<strong>febre negra<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>, ou\u00a0<strong>hepatite delta<\/strong>, presente quase exclusivamente na minha \u00e1rea com um v\u00edrus muito agressivo, que com os colegas da\u00a0<strong>Medicina Tropical de Manaus<\/strong>estamos tentando isolar, evitando que se espalhe para outras regi\u00f5es. A\u00a0<strong>filariose<\/strong>\u00a0\u00e9 quase end\u00eamica, dado que, de acordo com meus c\u00e1lculos, afeta 70% da popula\u00e7\u00e3o. Garanto-lhe que um m\u00e9dico na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0s\u00f3 tem a aprender! Estudei na\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0em famosas escolas especializadas, mas meu mestrado eu fiz aqui, cuidando dentro do poss\u00edvel dessas pessoas que n\u00e3o sabe te dizer quantos anos t\u00eam porque lhe falta a no\u00e7\u00e3o de tempo e vivem em um eterno presente, e n\u00e3o sabem te dizer como se chamam\u201d, porque n\u00e3o existe individualidade pessoal onde tudo \u00e9 coletivo.<\/p>\n<p>&#8220;E depois &#8211; continua\u00a0<strong>Lonardi<\/strong>\u00a0&#8211; h\u00e1 a<strong>\u00a0hansen\u00edase<\/strong>, que se estende por toda a\u00a0Amaz\u00f4nia, da qual se fala muito pouco. O munic\u00edpio de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>\u00a0foi considerado por muito tempo o local de maior concentra\u00e7\u00e3o de\u00a0hansen\u00edase\u00a0em toda a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, junto com \u00e1reas do\u00a0<strong>Mato Grosso<\/strong>. Lembro-me que um s\u00e9culo atr\u00e1s o grande explorador e antrop\u00f3logo italiano<strong>\u00a0Ermanno Stradelli<\/strong>, uma celebridade no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, mas ainda muito pouco conhecido na\u00a0<strong>It\u00e1lia<\/strong>, aqui mesmo contraiu a\u00a0<strong>hansen\u00edase<\/strong>\u00a0de que morreu em 1926. No bairro de S\u00e3o L\u00e1zaro, registramos 3623 casos de\u00a0hansen\u00edase. A patologia, afinal de contas, est\u00e1 sob o controle, mas deixa no paciente estigmas indel\u00e9veis. Aqui se veem muitos pacientes com o corpo marcado\u201d.<\/p>\n<p>Mas na\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0n\u00e3o existem apenas os<strong>\u00a0\u00edndios<\/strong>, conta-me ainda\u00a0<strong>Lonardi<\/strong>. Existem os brasileiros, geralmente &#8220;nordestinos&#8221;, descendentes daqueles que emigraram para c\u00e1 no s\u00e9culo passado, quando a\u00a0extra\u00e7\u00e3o de borracha\u00a0parecia abrir possibilidades de enriquecimento. O\u00a0<strong>ciclo da borracha<\/strong>\u00a0n\u00e3o durou muito tempo, mas deixou marcas profundas.\u00a0<strong>Manaus<\/strong>, atual capital do\u00a0<strong>Amazonas<\/strong>, que est\u00e1 a 1800 quil\u00f4metros por rio de\u00a0<strong>L\u00e1brea<\/strong>\u00a0(900 em linha reta), tornou-se uma cidade grande, com o famoso teatro da \u00f3pera, onde se diz que tamb\u00e9m se apresentou\u00a0<strong>Caruso<\/strong>. Foi naqueles anos que muitas\u00a0popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u00a0escaparam da\u00a0<strong>escraviza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0dos\u00a0<strong>senhores da borracha<\/strong>, que procuravam m\u00e3o-de-obra, refugiando-se na floresta mais profunda. Seu terror pelos estrangeiros remonta \u00e0quele per\u00edodo. A\u00a0<strong>borracha amaz\u00f4nica<\/strong>\u00a0logo perdeu o seu valor e hoje\u00a0<strong>Manaus<\/strong>\u00a0conseguiu sobreviver tornando-se zona franca, enquanto muitos descendentes brasileiros que, na \u00e9poca, invadiram a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, os\u00a0<strong>seringueiros<\/strong>, levam uma vida dura, n\u00e3o muito melhor do que a dos<strong>\u00a0\u00edndios<\/strong>. Inclusive essas pessoas pobres fazem parte dos pacientes do m\u00e9dico de\u00a0<strong>Verona<\/strong>.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma \u00faltima pergunta que n\u00e3o posso deixar de fazer a\u00a0<strong>Lonardi<\/strong>. Por que voc\u00ea continua vindo aqui? &#8220;Porque eu sou m\u00e9dico, ele me responde, e aqui h\u00e1 uma necessidade desesperada de m\u00e9dicos. Porque a\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>, como eu disse, ensina mais que uma faculdade de medicina. E porque essas pessoas, que parecem estar no degrau mais baixo da humanidade, possuem valores que nunca deixam de me surpreender e de minar o meu sentido de superioridade de homem europeu: a sociabilidade, a solidariedade m\u00fatua, o sentido comunit\u00e1rio, a gratid\u00e3o por aqueles que fazem algo por eles, apesar do terror pelos estranhos, pelos estrangeiros. Eles n\u00e3o t\u00eam nada e n\u00e3o desejam nada. E eles s\u00e3o indefesos, inofensivos, n\u00e3o machucam ningu\u00e9m enquanto todos, come\u00e7ando pela natureza, sempre os machucam. Eles s\u00f3 querem viver como sempre viveram, ou melhor, sobreviver. E eu tento ajud\u00e1-los. Quando eu durmo em suas malocas, bem protegido pelo meu mosquiteiro, \u00e0s vezes penso que eu poderia ser um profissional de sucesso e morar em uma bela vila nas colinas de Verona. Mas n\u00e3o me arrependo, acredite em mim. Aqui me sinto realmente \u00fatil, para os outros e para mim mesmo\u201d.<\/p>\n<p>E conclui: &#8220;Sou imensamente grato a\u00a0Francisco\u00a0pela sugest\u00e3o do\u00a0s\u00ednodo sobre a Amaz\u00f4nia. Finalmente, um grande do nosso tempo coloca os olhos sobre esta terra e chama a aten\u00e7\u00e3o de todos. No ano que vem as\u00a0<strong>malocas<\/strong>\u00a0desses pobres<strong>\u00a0\u00edndios<\/strong>esquecidos e tratados com frequ\u00eancia pior que os animais ser\u00e3o realmente, por um momento, o centro do mundo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para chegar at\u00e9 seus pacientes, leva de quinze a vinte dias. 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