{"id":93058,"date":"2018-09-30T21:18:11","date_gmt":"2018-10-01T00:18:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=93058"},"modified":"2018-09-30T21:18:11","modified_gmt":"2018-10-01T00:18:11","slug":"temos-a-obrigacao-etica-de-aliviar-o-sofrimento-dos-animais-diz-filosofo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/temos-a-obrigacao-etica-de-aliviar-o-sofrimento-dos-animais-diz-filosofo-2\/","title":{"rendered":"Temos a obriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica de aliviar o sofrimento dos animais, diz fil\u00f3sofo"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"resumo-conteudo\">Autor argumenta que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a moral entre ajudar um indiv\u00edduo humano e um de outra esp\u00e9cie<\/h2>\n<p>Steven Nadler*<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/urso-polar.jpg\" width=\"640\" height=\"320\" \/><\/p>\n<p>Autor argumenta, com base no pensamento do fil\u00f3sofo Peter Singer, que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a relevante entre ajudar um indiv\u00edduo humano e um de outra esp\u00e9cie capaz de sentir dor.<\/p>\n<p>No inverno passado, imagens inesquec\u00edveis circularam pela internet mostrando um urso polar faminto que enfrentava dificuldade para sobreviver em seu territ\u00f3rio de ca\u00e7a no \u00c1rtico. Por conta do aquecimento global, o gelo estava fino, e o suprimento de comida era escasso.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo despertou grande compaix\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento da pobre criatura e revigorou os apelos por esfor\u00e7os mais vigorosos de combate \u00e0 mudan\u00e7a do clima \u2014e com toda raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses esfor\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 fauna costumam se concentrar em determinadas esp\u00e9cies e nos efeitos que a mudan\u00e7a do clima provocada pelos seres humanos exerce sobre sua sobreviv\u00eancia e bem-estar, j\u00e1 que os ecossistemas dos quais os animais dependem passam por mudan\u00e7as dr\u00e1sticas. Assim, dever\u00edamos salvar o urso polar \u2014ou seja, sua esp\u00e9cie\u2014 fazendo todo o poss\u00edvel para preservar seu ecossistema natural.<\/p>\n<p>Defendo totalmente esse tipo de ativismo. Quem quer que se preocupe com o futuro de nosso planeta e de seus habitantes deveria fazer o mesmo.<\/p>\n<p>Mas eu tamb\u00e9m gostaria de fazer um apelo n\u00e3o s\u00f3 em benef\u00edcio dos ursos polares que vivem na natureza em geral, e sim em nome desse urso polar espec\u00edfico \u2014o urso do v\u00eddeo.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cLiberta\u00e7\u00e3o Animal\u201d (1975), o fil\u00f3sofo Peter Singer argumenta que \u00e9 moralmente errado tratar os animais n\u00e3o humanos de certas maneiras desumanas. Para ser exato, n\u00e3o dever\u00edamos trat\u00e1-los de maneiras que os fa\u00e7am sofrer. Como seres sencientes \u2014capazes de experimentar prazer e dor\u2014, eles t\u00eam um interesse evidente e defens\u00e1vel em serem poupados de dor e sofrimento desnecess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ao discutir quem e o que deveria ser inclu\u00eddo em nossa esfera de preocupa\u00e7\u00e3o moral, Singer cita Jeremy Bentham, um fil\u00f3sofo do s\u00e9culo 19: \u201cA quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se eles s\u00e3o capazes de raciocinar ou se s\u00e3o capazes de falar, mas se s\u00e3o capazes de sofrer\u201d.<\/p>\n<p>Para rebater o que ele define como suposi\u00e7\u00f5es baseadas em \u201cespeciesismo\u201d, Singer argumenta que n\u00e3o pode existir justificativa moral para encarar a dor que os animais sentem como menos importante que uma dor de intensidade semelhante sentida por um ser humano.<\/p>\n<p>Ele admite que pode haver outras raz\u00f5es para dar primazia \u00e0 vida humana ante a vida animal. Mas, na aus\u00eancia de considera\u00e7\u00f5es convincentes e baseadas em princ\u00edpios, dever\u00edamos evitar causar sofrimento a todas as criaturas capazes de experiment\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Parece-me claro que, \u00e0 luz do aquecimento global, \u00e9 preciso emendar os argumentos de Singer. De acordo com sua aplica\u00e7\u00e3o da doutrina utilit\u00e1ria ao bem-estar dos animais n\u00e3o humanos, o sofrimento deles deve ser considerado quando ponderamos o valor utilit\u00e1rio de diversas a\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas. Mas as implica\u00e7\u00f5es da mudan\u00e7a no clima significam que o escopo das a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o proscritas \u2014e, especialmente, prescritas\u2014 com base na considera\u00e7\u00e3o do sofrimento animal deve ser expandido.<\/p>\n<p>Do uso da doutrina em quest\u00e3o por Singer deveria derivar n\u00e3o s\u00f3 que n\u00e3o devemos, especificamente, tratar animais de determinadas maneiras, mas tamb\u00e9m que temos a obriga\u00e7\u00e3o moral de aliviar seu sofrimento, sempre que pudermos faz\u00ea-lo sem perda compar\u00e1vel de nossa parte. At\u00e9 onde sei, Singer n\u00e3o prop\u00f5e de modo expl\u00edcito a extens\u00e3o dessa obriga\u00e7\u00e3o aos animais n\u00e3o humanos, mas seus princ\u00edpios a indicam.<\/p>\n<p>No ensaio \u201cFamine, affluence, and morality\u201d (fome, abund\u00e2ncia e moralidade), de 1972, ele prop\u00f5e que temos a obriga\u00e7\u00e3o moral de prover assist\u00eancia a outros seres humanos que vivam na pobreza e a v\u00edtimas de desastres naturais ou que foram causados pelo homem, n\u00e3o importa a que dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica estejam de n\u00f3s, desde que nossa contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos cause perdas significativas (por exemplo, uma pessoa n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de se empobrecer para aliviar a pobreza dos outros).<\/p>\n<p>\u201cSe est\u00e1 em nosso poder impedir que algo de ruim aconte\u00e7a, sem que para isso precisemos sacrificar qualquer coisa de import\u00e2ncia moral compar\u00e1vel, temos a obriga\u00e7\u00e3o moral de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Por \u2018precisemos sacrificar qualquer coisa de import\u00e2ncia moral compar\u00e1vel\u2019 quero dizer causar qualquer outra coisa comparavelmente t\u00e3o ruim, ou fazer algo de intrinsecamente errado, ou deixar de promover um dado bem moral, compar\u00e1vel em import\u00e2ncia \u00e0 coisa ruim que podemos prevenir.\u201d<\/p>\n<p>O princ\u00edpio \u201cincontroverso\u201d do altru\u00edsmo, diz Singer, \u201crequer apenas que impe\u00e7amos o mal\u2026 e s\u00f3 exige isso de n\u00f3s quando pudermos faz\u00ea-lo sem sacrificar alguma coisa de import\u00e2ncia compar\u00e1vel, do ponto de vista moral\u201d.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o existe desculpa moral para n\u00e3o fazemos o que pudermos para aliviar o sofrimento de pessoas que estejam morrendo por falta de comida, abrigo e assist\u00eancia m\u00e9dica, n\u00e3o importa sua proximidade ou sua dist\u00e2ncia de n\u00f3s, em termos geogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>O fato de que estejam a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, por exemplo, n\u00e3o significa que n\u00e3o tenhamos a obriga\u00e7\u00e3o de doar a uma ag\u00eancia internacional de assist\u00eancia o dinheiro que de outra forma gastar\u00edamos em um produto de luxo.<\/p>\n<p>\u00c0 luz das vis\u00f5es gerais de Singer sobre a considera\u00e7\u00e3o moral devida ao sofrimento de animais n\u00e3o humanos, a extens\u00e3o do princ\u00edpio do altru\u00edsmo a essas criaturas \u2014n\u00e3o a esp\u00e9cies, mas a animais individuais\u2014 parece ser trivial. Afinal, uma vez mais, n\u00e3o existe diferen\u00e7a moralmente relevante em termos de capacidade de sofrer. Em outras palavras, temos a obriga\u00e7\u00e3o de ajudar o urso polar faminto.<\/p>\n<p>O que aconteceu ao animal em quest\u00e3o? Aqueles que testemunharam seu sofrimento intervieram? O c\u00e2mera e sua equipe tomaram alguma provid\u00eancia para salv\u00e1-lo? Normalmente, esfor\u00e7os desse tipo em benef\u00edcio de um bicho espec\u00edfico geram resist\u00eancia e s\u00e3o at\u00e9 desencorajados, com a afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o devemos interferir quando a \u201cnatureza segue seu curso\u201d.<\/p>\n<p>Deixemos de lado o fato de que a natureza s\u00f3 est\u00e1 tomando esse curso porque foi alterada, talvez de maneira irrevog\u00e1vel, por atividades humanas irrespons\u00e1veis, que prejudicaram membros de outras esp\u00e9cies (isso sem falar da nossa).<\/p>\n<p>Mesmo assim, que peso dever\u00edamos atribuir ao argumento em favor de \u201cdeixar a natureza seguir seu curso\u201d? Eis um animal que est\u00e1 sofrendo. Ser\u00e1 que n\u00f3s, ou as pessoas que gravam esse tipo de v\u00eddeo, dever\u00edamos fazer alguma coisa para ajud\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Da perspectiva \u00e9tica, a resposta parece-me muito clara: sim, com certeza. Al\u00e9m disso, a variedade de utilitarismo proposta por Singer e sua extens\u00e3o aos animais n\u00e3o humanos requerem essa resposta.<\/p>\n<p>Quem quer que aceite os argumentos de Singer de que temos a obriga\u00e7\u00e3o moral de a) n\u00e3o tratar os animais de determinadas maneiras, por conta de sua capacidade de sofrer (semelhante \u00e0 nossa), e b) de aliviar o sofrimento de seres humanos (desde que isso n\u00e3o envolva perda compar\u00e1vel de nossa parte), precisa igualmente reconhecer que c) temos a obriga\u00e7\u00e3o moral de aliviar o sofrimento dos animais n\u00e3o humanos sempre que isso for poss\u00edvel sem perda compar\u00e1vel para n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, com frequ\u00eancia, reconhecemos esse dever de ajudar os animais que estejam sofrendo, sobretudo quando fica claro que esse sofrimento se relaciona de modo direto com a atividade humana. Costumamos ajudar aves marinhas prejudicadas por vazamentos de petr\u00f3leo, mam\u00edferos marinhos incapacitados por pl\u00e1stico flutuando nos oceanos e animais feridos por ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Mas eis o problema: por que o tratamento deveria ser diferente no caso de animais cujo sofrimento \u00e9 relacionado de maneira menos \u00f3bvia ou direta com a atividade humana \u2014ou totalmente n\u00e3o relacionado a ela? Por que deveria haver diferen\u00e7a nos casos em que o sofrimento n\u00e3o \u00e9 responsabilidade clara ou direta dos seres humanos \u2014ou mesmo nos casos pelos quais n\u00e3o temos responsabilidade alguma?<\/p>\n<p>N\u00e3o ajudar o urso polar \u2014ou qualquer animal individual em situa\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel, independentemente de nossa responsabilidade (direta ou indireta) por seu sofrimento\u2014 \u00e9 insens\u00edvel e errado do ponto de vista moral. E a ina\u00e7\u00e3o tampouco pode ser defendida com base em uma suposta preocupa\u00e7\u00e3o com o curso da natureza (\u201cn\u00e3o devemos interferir!\u201d), ou com o pool de genes da esp\u00e9cie (\u201cdeixar morrer os mais fracos!\u201d).<\/p>\n<p>Considere o caso de uma pessoa que usasse esses mesmos argumentos para justificar a n\u00e3o interfer\u00eancia para ajudar a aliviar o sofrimento de seres humanos espec\u00edficos durante uma onda de fome, ou depois de um tsunami, ou imagine algu\u00e9m que usasse esse tipo de argumento para n\u00e3o ministrar antibi\u00f3ticos a uma crian\u00e7a com pneumonia.<\/p>\n<p>Atitudes desse tipo, que trazem \u00e0 mem\u00f3ria diversos personagens de Charles Dickens, seriam rejeitadas de imediato como imorais. Se o \u00fanico fator moralmente relevante \u00e9 \u201celes s\u00e3o capazes de sofrer?\u201d, n\u00e3o existe diferen\u00e7a moral relevante quando animais passam por sofrimentos que somos capazes de aliviar.<\/p>\n<p><strong>*Steven Nadler<\/strong>\u00a0\u00e9 professor de filosofia na Universidade de Wisconsin em Madison. \u00c9 autor de \u201cUm Livro Forjado no Inferno\u201d (ed. Tr\u00eas Estrelas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor argumenta que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a moral entre ajudar um indiv\u00edduo humano e um de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Autor argumenta que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a moral entre ajudar um indiv\u00edduo humano e um de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93058"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93058"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93058\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}