{"id":91733,"date":"2018-09-07T22:36:31","date_gmt":"2018-09-08T01:36:31","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=91733"},"modified":"2018-09-07T22:36:31","modified_gmt":"2018-09-08T01:36:31","slug":"dezessete-anos-de-luta-pela-criacao-da-reserva-extrativista-rio-branco-jauaperi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/dezessete-anos-de-luta-pela-criacao-da-reserva-extrativista-rio-branco-jauaperi\/","title":{"rendered":"Dezessete anos de luta pela cria\u00e7\u00e3o da Reserva Extrativista Rio Branco-Jauaperi"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_1205-abertura.jpg\" width=\"640\" height=\"423\" \/><\/p>\n<p>No dia do Meio Ambiente, 05 de junho, o governo publicou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.icmbio.gov.br\/portal\/images\/stories\/biodiversidade\/UC-RPPN\/decreto_9401_5jun2018_cria_resex_baixo_rio_branco_jauaperi.pdf\" rel=\"noopener\">um decreto<\/a>\u00a0criando a Reserva Extrativista Rio Branco-Jauaperi. A publica\u00e7\u00e3o no Di\u00e1rio Oficial deu fim a uma espera de 17 anos em que a comunidade de Xixua\u00fa, atrav\u00e9s da Associa\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia, solicitou ao governo federal a cria\u00e7\u00e3o de uma reserva extrativista, como forma de se defender da pesca de preda\u00e7\u00e3o intensiva e \u00e0 ca\u00e7a aos quel\u00f4nios (ovos e carne de tartarugas e tracaj\u00e1s), que vinham comprometendo a vida da comunidade.<\/p>\n<p>O conceito de \u201cResex\u201d surgiu para assegurar e melhorar a perman\u00eancia e a subsist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es tradicionais em suas regi\u00f5es, transferindo o controle dos \u201cpatr\u00f5es\u201d para a condi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de terra pertencente \u00e0 Uni\u00e3o, formando uma \u201cunidade de conserva\u00e7\u00e3o\u201d destinada ao usufruto exclusivo de seus moradores. Essa express\u00e3o, \u201cpopula\u00e7\u00f5es tradicionais\u201d, tornou-se corrente a partir das mobiliza\u00e7\u00f5es de seringueiros e castanheiros, a exemplo do l\u00edder Chico Mendes. O termo \u201creserva\u201d veio a p\u00fablico em 1985, em Bras\u00edlia, lida por ele no encontro Nacional de Seringueiros, onde se propunha o direito de igualdade entre terra ind\u00edgena e dos seringais.<\/p>\n<div id=\"attachment_62906\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62906\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/resex_jauaperi.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/resex_jauaperi.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/resex_jauaperi-296x300.jpg 296w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"406\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Mapa da Resex Rio Branco-Jauaperi. Cr\u00e9dito: ISA.<\/p>\n<\/div>\n<p>Situada entre Rorain\u00f3polis (RR) e Novo Air\u00e3o (AM), a \u00e1rea totaliza 581.173 hectares, no chamado CCA \u2014 Corredor Central da Amaz\u00f4nia. Dentro desse territ\u00f3rio, a reserva popular Xixua\u00fa-Xiparin\u00e3, foi demarcada em 1997 pelos pr\u00f3prios ribeiros, e somava 179 mil hectares \u2013 ou 33 mil km2, formados por terra firme, igap\u00f3s e campinas.<\/p>\n<p>Em 2011, o fot\u00f3grafo Maur\u00edcio de Paiva esteve em Xixua\u00fa e documentou a vida dos moradores da comunidade, agora finalmente pertencente ao povo que ali escolher fincar ra\u00edzes. Esse trabalho nunca foi publicado. No dia da Amaz\u00f4nia, 05 de setembro, decidimos publicar essa hist\u00f3ria, com pequenas modifica\u00e7\u00f5es e atualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Comunidade Xixua\u00fa-Xiparin\u00e3<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cComo todo ribeirinho na Amaz\u00f4nia, N\u00e1dia \u00e9 um reposit\u00f3rio de conhecimentos emp\u00edricos constru\u00eddos na rela\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica com a natureza, que s\u00e3o transmitidos oralmente atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es.\u201d<\/div>\n<p>Era hora do crep\u00fasculo \u00e0 beira do rio Jauaperi, afluente do Rio Negro, na fronteira de Roraima com Amazonas. Eu estava em Xixua\u00fa, comunidade ribeirinha de cerca de 20 palafitas onde vive um povo tenaz que se diz \u201cfilho do rio\u201d ou \u201cfilho do Jauaperi\u201d. Chovia muito e eu sustentava-me de p\u00e9 no jiral da casa de Carlito, caboclo morador dos mais antigo, uma das lideran\u00e7as locais. Tinha sofrido uma queda no mato e a sensa\u00e7\u00e3o era de agonia, com brutas dores no quadril direito. Sozinho, eu recebi a apari\u00e7\u00e3o de N\u00e1dia, morena forte e direta, uma das sete filhas de Jos\u00e9 Alves, esp\u00e9cie de\u00a0<em>Tuxaua<\/em>\u00a0local na coleta da castanha.<\/p>\n<p>Ao saber do meu acidente, N\u00e1dia fez um diagn\u00f3stico baseado em pura sabedoria cabocla: \u201cO senhor est\u00e1 \u00e9\u00a0<em>desmentido<\/em>, com esse baque a\u00ed. N\u00e3o \u00e9 rasgadura, n\u00e3o. A mam\u00e3e faz um \u00f3leo quente pra massagem com a gordura da cobra sucurij\u00fa, mistura sebo de Holanda, semente de sucupira e gel da castanha com casca de murur\u00e9, da mata\u201d.<\/p>\n<p>Recostada ali, tran\u00e7ando o cabelo, vinda da casa de farinha, N\u00e1dia solidarizava-se com meu sofrimento. Afora o esp\u00edrito amig\u00e1vel, sua for\u00e7a e benignidade me fizeram pensar nas lend\u00e1rias guerreiras \u201camazonas\u201d, aquelas que o explorador Francisco de Orellana, em 1541, julgou ver nas margens do grande rio, manejando flechas.<\/p>\n<p>Como todo ribeirinho na Amaz\u00f4nia, N\u00e1dia \u00e9 um reposit\u00f3rio de conhecimentos emp\u00edricos constru\u00eddos na rela\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica com a natureza, que s\u00e3o transmitidos oralmente atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es. Ela poderia ter me receitado frasco de\u00a0<em>Andiroba<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Jamburandi<\/em>. Os ribeirinhos possuem a singularidade no dialeto, ao qual j\u00e1 me habituei, ap\u00f3s anos de viagens. A bi\u00f3loga italiana Emanuela Evangelista, que viaja para a Amaz\u00f4nia desde 2000, acabou apreendendo o linguajar, conhecendo a mentalidade e rituais caboclos e adquiriu uma vis\u00e3o hol\u00edstica sobre a floresta e o bioma: enxerga a natureza como um \u201cser vivo (Gaia- M\u00e3e terra), que tem sistema imunol\u00f3gico e cria suas defesas\u201d. Emanuela veio fazer mestrado sobre ariranhas (<em>pteronura brasiliensis<\/em>), mam\u00edfero em risco de extin\u00e7\u00e3o, e acabou envolvendo-se na vida dos jauaperinos. Eles, sempre altivos, h\u00edbridos, emanam de sua aura algo como se a dignidade do simples ar do mundo tivesse acabado de nascer, ali.<\/p>\n<div id=\"attachment_62757\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62757\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/N%C3%A1dia.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/N\u00e1dia.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/N\u00e1dia-300x215.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"287\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">N\u00e1dia, em p\u00e9, de vestido florido, \u00e9 observada pela bi\u00f3loga Emanuela Evangelista (sentada, de blusa preta) enquanto coloca um bracelete. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/p>\n<\/div>\n<p>Uma noite cedo, Na\u00edsa, na \u00e9poca com 16 anos, irm\u00e3 de N\u00e1dia, entrou em trabalho de parto. Do baixo igap\u00f3, N\u00e1dia embarcou na proa da canoa montaria e partiu em busca da italiana, que n\u00e3o era parteira nem sequer viu na vida prole nascer. Apesar de Evangelista dizer que n\u00e3o era mais esperta do que as caboclas de Xixua\u00fa, N\u00e1dia insistiu em contar com seu aux\u00edlio. \u201cEu trouxe luvas, algod\u00e3o, rede&#8230; mas foi trabalho in\u00fatil de gringa\u201d, comentou a italiana, \u201cporque o menino Mateus nasceu nos meus bra\u00e7os. Cortei o cord\u00e3o umbilical dele!\u201d. A bi\u00f3loga de veia ambientalista, com a clorofila de \u201clinf\u00f3cito\u201d, ajudou a defender e trazer ao mundo mais um filho do Jauaperi. H\u00e1 7 anos havia mais de 60 crian\u00e7as, dos 130 que viviam em Xixua\u00fa.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de luta pela Reserva<\/strong><\/p>\n<p>Em Roraima h\u00e1 oito unidades de conserva\u00e7\u00e3o: 3 parques nacionais, 2 esta\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e 2 florestas nacionais. A reserva extrativista \u201cBaixo Rio Branco\/ Jauaperi\u201d \u00e9 a primeira no estado.<\/p>\n<p>Em 1992, por um misto de nacionalidades, foi criada a Associa\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia (AA), com a participa\u00e7\u00e3o dos moradores do rio (20 fam\u00edlias fizeram abaixo- assinados), e de outros ativistas, como o escoc\u00eas Christopher Clark, um cofundador da ONG e dos primeiros a entusiasmar a fus\u00e3o de terras para se criar a reserva comunit\u00e1ria (popular). Em 2011, a resex possu\u00eda 179 mil hectares. Com o apoio da AA e de outras entidades na \u00e9poca, foi poss\u00edvel introduzir uma s\u00e9rie de melhoramentos na comunidade: \u201cNo in\u00edcio, a nossa Associa\u00e7\u00e3o, com a ajuda dos italianos, botou po\u00e7o, caixa d\u2019\u00e1gua, gerador e posto de sa\u00fade. Aqui nesse rio a gente sabe o que \u00e9 viver isolado. Para preservar, a primeira coisa \u00e9 a uni\u00e3o de todos. N\u00e3o almejo ir pra outro canto, aqui me sinto mais reconhecido. A gente tira pela nossa vis\u00e3o, tem que cuidar da mata, da \u00e1gua, do bicho\u201d, diz Justino Marinho, ex-l\u00edder de Xixua\u00fa. H\u00e1bil capit\u00e3o de embarca\u00e7\u00e3o, Justino tem apelido \u201cTabaco\u201d por ser fumante inveterado, cotidiano \u201csui generis\u201d em seu caso, ele sonha que est\u00e1 a fumar.<\/p>\n<div id=\"attachment_62760\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62760\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9783.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9783.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9783-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9783-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">O &#8220;Tabaco&#8221; fumando. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/p>\n<\/div>\n<p>Em 2002, a Associa\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia instalou pain\u00e9is de energia solar e a conex\u00e3o \u00e0 internet via sat\u00e9lite, alimentada pelo sol. Os moradores ainda s\u00e3o parcimoniosos no uso da internet, embora o acesso seja livre na casa de alvenaria, mas h\u00e1 poucos computadores dispon\u00edveis, os quais, ali\u00e1s, t\u00eam vida curta na inclemente umidade amaz\u00f4nica. Esse projeto de vanguarda na Amaz\u00f4nia foi patrocinado pela Funda\u00e7\u00e3o Kleinwort Trust, de Londres, e implementado pela americana SELF \u2014\u00a0<em>Solar Electrical Light Fund<\/em>, que forneceu e instalou os pain\u00e9is solares. J\u00e1 os pain\u00e9is menores de malocas destinadas ao ecoturismo, foram fornecidos pela BR Eletron, de Manaus. Cinco malocas de madeira estavam em constru\u00e7\u00e3o desde 2008 para alojar ecoturistas, gra\u00e7as \u00e0 doa\u00e7\u00e3o de 75 mil euros feita pela ONG\u00a0<em>Trentino Insieme<\/em>, de Trento, It\u00e1lia. TI ganhou patroc\u00ednio por Edital p\u00fablico e escolheu a brasileira AA como ONG benefici\u00e1ria. A Associa\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia foi incorporada, mais tarde, pela CoopXixua\u00fa, que luta para tirar do papel o projeto de cria\u00e7\u00e3o do Centro e Esta\u00e7\u00e3o de Pesquisa da Universidade Estadual de Roraima, que seria alimentado com a energia limpa e renov\u00e1vel, abastecendo a comunidade Xixua\u00fa.<\/p>\n<p>Desde 2006, o projeto para a cria\u00e7\u00e3o da resex estava em Bras\u00edlia; foi recomendado por um estudo socioecon\u00f4mico feito pelo IBAMA, pelo CNPT \u2014 Centro Nacional do Desenvolvimento Sustentado das Popula\u00e7\u00f5es Tradicionais e pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente (MMA). Demorou 17 anos para o gabinete da Casa Civil aprov\u00e1-la como a Resex \u201cBaixo Rio Branco\/Jauaperi\u201d por decreto.<\/p>\n<p>As \u00e1reas reservadas para o extrativismo somam 66 unidades na Amaz\u00f4nia. Somente na reserva de Xixua\u00fa, vivem, ali, 42 esp\u00e9cies de mam\u00edferos, 10 deles amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o, como a on\u00e7a, o tamandu\u00e1, peixe-boi e o tatu, e as singulares ariranhas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_0062-painel-solar.jpg\" width=\"640\" height=\"420\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_62762\" class=\"wp-caption aligncenter\">Thiago, o &#8220;Taco&#8221;, em meio as placas de gera\u00e7\u00e3o de energia solar na comunidade de Xixua\u00fa. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/div>\n<p><strong>Patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cA mandioca \u00e9 o principal produto extrativista da regi\u00e3o, praticamente o \u201cp\u00e3o do caboclo\u201d. Uma lenda do povo aruaque, herdada pelos tupis, conta que essa planta de raiz amarga e miraculosa brotou do t\u00famulo da jovem \u00edndia Mani, regado pelas l\u00e1grimas de sua m\u00e3e\u201d.<\/div>\n<p>Al\u00e9m da preserva\u00e7\u00e3o ambiental e do manejo controlado dos recursos, h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o antiga, antr\u00f3pica. Em 2009, um relat\u00f3rio de arqueologia enviado ao IPHAN ressaltou a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea em vista do rico patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico (18 s\u00edtios) prospectado ao curso do rio, ainda incipiente nos estudos. No que abrange a \u00e1rea da resex, no rio Jauaperi, h\u00e1 oito comunidades \u2014 Floresta, Tanaua\u00fa, Sama\u00fama, Palestina, S\u00e3o Pedro, Itaquera e Xixua\u00fa. No baixo rio Branco s\u00e3o duas as inclu\u00eddas: Remanso e Vila Cota. Elas mostram vest\u00edgios de objetos pr\u00e9-colombianos, como cer\u00e2mica, pontas de machado de pedra polida, gravuras rupestres e cer\u00e2micas em \u201cterra preta\u201d, est\u00e1, um substrato arqueol\u00f3gico anterior h\u00e1 2.500 anos. Os sinais de ocupa\u00e7\u00e3o humana milenar s\u00e3o evidentes e o povo abria clareiras a machado. No s\u00edtio rupestre \u201cPedra da Vov\u00f3\u201d &#8211; termo elucidado pelos moradores, em Floresta, h\u00e1 cravado numa ponta de rocha um singular grafismo zoom\u00f3rfico que ilustra um primata de cauda enrolada tocando flauta ou empunhando uma\u00a0<em>zarabatana<\/em>. Conectando- se, de certa forma, o antigo artista ind\u00edgena que gravou a imagem \u201creinventada\u201d na pedra sonhava decerto com a perpetua\u00e7\u00e3o de seu modo de vida dilatado num reconhecimento cultural e na pr\u00e1tica ambiental. \u00a0\u00a0\u00a0<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Trabalhadores da floresta<\/strong><\/p>\n<p>A mandioca \u00e9 o principal produto extrativista da regi\u00e3o, praticamente o \u201cp\u00e3o do caboclo\u201d. Uma lenda do povo aruaque, herdada pelos tupis, conta que essa planta de raiz amarga e miraculosa brotou do t\u00famulo da jovem \u00edndia Mani, regado pelas l\u00e1grimas de sua m\u00e3e. A pr\u00f3pria palavra \u201caruaque\u201d significa \u201cpovo comedor de mandioca\u201d, segundo o pesquisador Evaristo de Miranda, no livro\u00a0<em>Quando o Amazonas corria para o Pac\u00edfico<\/em>.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 \u00e1rdua e trabalhosa, N\u00e1dia Alves era vida na casa de farinha, um dos s\u00edmbolos t\u00edpico agro ribeirinho. Torrando com p\u00e1 de remo farinha e suando muito perto do forno de barro e ferro, N\u00e1dia morena ensinou-me segredos dessa tecnologia atemporal que permanece basicamente igual h\u00e1 quatro mil anos: \u201cSe a mandioca for cevada por pouco tempo, ap\u00f3s sair do\u00a0<em>tipiti,\u00a0<\/em>e depois torrada com pressa, embola. Se usar s\u00f3 farinha dura, ela fica bem seca; se usar s\u00f3 mole, ela amarga\u201d. Dali, observo que, indo longe, as t\u00e9cnicas antigas domesticadas de subsist\u00eancia conservam modos de cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o. Como legado.<\/p>\n<div id=\"attachment_62765\" class=\"wp-caption alignright\"><\/div>\n<p>Em 2008 a comunidade escolheu uma \u00e1rea de ro\u00e7a de\u00a0<em>maniva\u00a0<\/em>para fazer malocas tur\u00edsticas, j\u00e1 feita a coivara. Sem licen\u00e7a, sem uma cooperativa criada, sem assessoria jur\u00eddica e burocr\u00e1tica para regularizar a extra\u00e7\u00e3o de madeira, autoridades de Roraima acharam o trabalho irregular e aplicaram multas exageradas. \u201cUma ONG n\u00e3o pode tirar madeira por causa do conceito de preserva\u00e7\u00e3o<em>.\u00a0<\/em>Hoje, o nome da Cooperativa autoriza; a multa foi injusta, mas parece que 8 m c\u00fabicos de madeira apodreceram<em>.\u201d,<\/em>\u00a0diz Francilane Alves, professor e neto de Teodorico, o primeiro agricultor do Xixua\u00fa, pai de Carlito.<\/p>\n<p>\u201cA lei ampara o extrativismo de sobreviv\u00eancia deles, mesmo dentro de uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o, como uma APA\u201d, se eri\u00e7a Emanuela Evangelista. \u201cEssa madeira \u00e9 usada para a constru\u00e7\u00e3o das malocas, que visa sim, neste caso, a uma atividade comercial, o ecoturismo, mas os ribeirinhos da cooperativa CoopXixua\u00fa tem licen\u00e7a para esse uso da madeira.\u201d<\/p>\n<p>Dia s\u00f3brio de clima nublado, Paulo, que estampava na moderna camiseta o dizer \u201cOriginal\u201d, escolheu um \u201ccedrinho\u201d (<em>Scleronema micranthum<\/em>) &#8211; esp\u00e9cie do\u00a0<em>DOF- Documento de Origem Florestal\/Ibama<\/em>, madeira preferida para t\u00e1buas, pranchas e forros de casa. Est\u00e1 entre as mais de 200 esp\u00e9cies comercializadas em S\u00e3o Paulo. Paulo ligou a motosserra e fez um entalhe geom\u00e9trico no tronco, uma cava, definindo a dire\u00e7\u00e3o da queda da \u00e1rvore, mas a din\u00e2mica no mato \u00e9 imprecisa. Eu me aproximei dele para fotograf\u00e1-los. Uma saraivada de lascas e p\u00f3 de serragem rodopiou no ar, enquanto formigas e insetos em disparate escalavam minhas pernas. Quando a \u00e1rvore estalou ainda alta, prestes a tombar magn\u00e2nima, Paulo correu, e eu disparei atr\u00e1s dele sem rumo com duas c\u00e2meras, afetado. Mas havia uma pedra no meio do caminho: tropecei aos cotovelos, ca\u00ed e sofri uma tor\u00e7\u00e3o violenta na perna direita, deslocando a boca do f\u00eamur. Terminada a \u201ctira\u00e7\u00e3o\u201d de madeira, a tora n\u00e3o serviu; roli\u00e7a, mas teve o \u2018\u00e2mago\u2019 (miolo mais escuro) de m\u00e1 qualidade. Hora do peixe moqueado, trazido de cuia na canoa e assado \u00e0 grelha de graveto, e fogo, no famoso \u201cavoado\u201d &#8211; servido rapidamente, com meios lim\u00f5es e Chib\u00e9 (farinha com \u00e1gua). Dobrado de dor no quadril- virilha, ainda liberando endorfina, eu esperava o avoado findar; de soslaio olhava os homens ali, divertid\u00edssimos, coletivos no bem comum, t\u00e3o acess\u00edveis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/8.jpg\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_62768\" class=\"wp-caption aligncenter\">Saraivada de lascas. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/div>\n<p><strong>A festa da coleta<\/strong><\/p>\n<p>Tirar a\u00e7a\u00ed (<em>Euterpe oleracea<\/em>) \u00e9 pegar a canoa e serpentear pelo caminho das \u00e1guas nos igap\u00f3s. \u00c9 repetir ritualmente um ato praticado h\u00e1 milhares de anos pelos habitantes da Amaz\u00f4nia antiga. O fruto\u00a0<em>in natura\u00a0<\/em>comp\u00f5e vitaminas A, B1, B2, C e E, Ferro, C\u00e1lcio, F\u00f3sforo, Pot\u00e1ssio e Antocianina. Chegamos ao lugar onde um camarada escalar\u00e1 o a\u00e7a\u00edzeiro de 20 metros de altura para debulhar o cacho de frutos. O guia, o jovem Tiago dos Santos Marinho, chamado \u201cTaco\u201d, \u00e9 escalador consciente. Sobre seus p\u00e9s, a\u00a0<em>envira<\/em>, a \u201ccorda\u201d para trepar na fina \u00e1rvore, amarrada ali nos tornozelos, na hora, com fibra de palmeira. Sob os p\u00e9s, a \u2018terra preta\u2019, e debaixo dela prov\u00e1veis dep\u00f3sitos de cer\u00e2mica art\u00edstica, ossos de peixes e de bichos misturados com caro\u00e7os de a\u00e7a\u00ed \u2014 desde a \u00e9poca de Cristo. Dentro da floresta, s\u00f3 podemos ter um sentimento de gratid\u00e3o pelos amer\u00edndios horticultores que domesticaram as plantas que hoje nos alimentam. Taco, de fortes tra\u00e7os ind\u00edgenas, \u00e9 um promissor bot\u00e2nico aprendiz, \u00e0 frente do projeto de Bot\u00e2nica Comunit\u00e1ria de Xixua\u00fa: herdou de seu pai, o curandeiro Manoel, um talento natural para identificar plantas e suas aplica\u00e7\u00f5es medicinais.<\/p>\n<p>\u201cAcho poss\u00edvel conseguir pela internet mais recursos e aten\u00e7\u00e3o para os nossos projetos\u201d, diz ele, j\u00e1 ansioso por achar-se logado. \u201cQuero ser especialista em plantas e fazer aqui um herb\u00e1rio em parceria com o pessoal de Manaus. \u201cTransportar\u201d o que sei pra fora, renovar, ter o meu computador.\u201d<\/p>\n<p>O projeto \u2018Bot\u00e2nica Comunit\u00e1ria Xixua\u00fa-Xiparin\u00e3\u2019 tem apoio da ONG\u00a0<em>Amazon Charitable Trust<\/em>, de Londres, em parceria com o INPA \u2014 Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, de Manaus, uma refer\u00eancia na biologia tropical, e o Royal Botanic Gardens, de Londres. Taco, como um \u201cbot\u00e2nico pr\u00e1tico\u201d, j\u00e1 sabe que a prote\u00edna da castanheira est\u00e1 sendo estudada em laborat\u00f3rio como agente na preven\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer de pr\u00f3stata. Na Amaz\u00f4nia central existe um pico da riqueza vegetal, creem as pesquisas, e alguns extratos j\u00e1 mostraram hip\u00f3teses contra ao menos cinco tipos de c\u00e2ncer (mama, ov\u00e1rio, pulm\u00e3o, leucemia).<\/p>\n<p>Finda a coleta, Taco e Artem\u00edzia, a agente de sa\u00fade, v\u00e3o debulhando os grandes cachos empilhados no ch\u00e3o, ajeitando no paneiro e na saca os frutos negros do a\u00e7a\u00ed. Sentado em palmas da palmeira ubim \u2014 palha utilizada para cobrir casas \u2014, eu sinto a floresta como um lugar sagrado, imemorial. Igualit\u00e1rio at\u00e9. Em meio \u00e0 zoada febril do bando de macacos guariba, percebo o quanto esse alimento (A\u00e7a\u00ed) representa um tempo m\u00edtico, ainda mais se bebido amassado com pil\u00e3o, \u00e0 moda tradicional. \u00c9 prova estimulante que me agu\u00e7a em usufruir a fruta sempre desse jeito, sem dissabor. Taco trabalha e vira e mexe se mancha na face como camuflagem, sem querer se pinta da tinta arroxeada do a\u00e7a\u00ed, artesanalmente.<\/p>\n<p>Mais tarde, em Xixua\u00fa, as mulheres v\u00e3o pilar o a\u00e7a\u00ed coletado no\u00a0<em>flutuante<\/em>\u00a0da beira; o flutuante \u00e9 um conjunto de toras armadas como \u201cestrado\u201d na margem do rio. Uma tora de cupi\u00faba, j\u00e1 de rubro polida de tanto uso, servir\u00e1 de pil\u00e3o; de t\u00e3o pesada, ter\u00e1 que ser manejada por uma mulher robusta. Com alarido, erguendo cantorias, elas se juntam em roda viva, labutando j\u00e1 ao crep\u00fasculo. A meninada reboli\u00e7a na \u00e1gua em algazarra, enquanto as m\u00e3es alertam sobre um jacar\u00e9-a\u00e7\u00fa, um rebojo n\u2019\u00e1gua costumeiro ali.<\/p>\n<p><strong>Sabedoria amaz\u00f4nida<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cA vida de caboclo ribeirinho que o filho reproduz teve sua origem \u00e0 hist\u00f3ria colonial da Amaz\u00f4nia, mas foi a puls\u00e3o e demanda pelos excedentes da borracha que levou a migra\u00e7\u00e3o de nordestinos desde o s\u00e9c. 20. Como bom exemplo, a massa nordestina ajudou o Acre \u2013 onde est\u00e1 a primeva resex Alto Juru\u00e1 \u2013 na conquista de ser territ\u00f3rio nacional.\u201d.<\/div>\n<p>Carlos Alberto Nascimento, o popular Carlito, famigerado pelas muitas mal\u00e1rias nas costas, \u00e9 filho do velho patriarca Teodorico, enterrado na barranca junto ao rio nos anos 70. Respeitador, v\u00ea na l\u00e1pide de madeira de seu pai, autenticidade. A vida de caboclo ribeirinho que o filho reproduz teve sua origem \u00e0 hist\u00f3ria colonial da Amaz\u00f4nia, mas foi a puls\u00e3o e demanda pelos excedentes da borracha que levou a migra\u00e7\u00e3o de nordestinos desde o s\u00e9c. 20. Como bom exemplo, a massa nordestina ajudou o Acre \u2013 onde est\u00e1 a primeva\u00a0<a href=\"https:\/\/uc.socioambiental.org\/uc\/177\">resex Alto Juru\u00e1<\/a>\u00a0\u2013 na conquista de ser territ\u00f3rio nacional. Com o fim do ciclo da borracha, ficaram eles, nas calhas de rios e lagos, como novos, misturando-se aos descendentes de \u00edndios. Carlito cresceu no alto Jauaperi, acompanhando o pai na explora\u00e7\u00e3o da seringa e da castanha, e no plantio do cupua\u00e7u e da andiroba. A fam\u00edlia trabalhava num castanhal dentro do mato e vendia o produto para os\u00a0<em>regat\u00f5es<\/em>, os negociantes que sobem os rios para trocar mantimentos, vasculhantes. Aos nove anos, \u201cque nem\u00a0<em>parambol\u00e9u<\/em>\u201d (na m\u00e3o de uma ou de outro), Carlito j\u00e1 comandava a proa da\u00a0<em>montaria<\/em>\u00a0(canoa) ou uma rabetinha e se revelou prod\u00edgio pescador de pacus, piranha, tucunar\u00e9, pirarucu e dourada. Hoje, do alto de seus 66 anos, vislumbra um horizonte \u201csustent\u00e1vel\u201d para Xixua\u00fa: \u201cPr\u00f3prio morador daqui mesmo j\u00e1 me disse que hoje entende como uma on\u00e7a\u00a0<em>viva<\/em>\u00a0vale muito mais do que uma morta\u201d.<\/p>\n<p>Carlito \u00e9 atencioso no conhecimento do ambiente em que vive, e se adianta: \u201cEsse ano (2011) n\u00e3o deu castanha, tava escasso. Quando vai dar, o\u00a0<em>ouri\u00e7o<\/em>\u00a0(a casca inv\u00f3lucro que cont\u00e9m as castanhas) fica vermelhinho. Eu t\u00f4 aqui de pescador oficial de voc\u00eas &#8211; TV RAI e eu, fot\u00f3grafo, posso garantir que trago qualquer peixe, todo dia, uns 60. Agora, colher castanha depende de muita coisa: se tiver muita arara, acaba estragando, porque arara come no ouri\u00e7o, da\u00ed\u00a0<em>extravia<\/em>; macaco-prego tamb\u00e9m se farta, ent\u00e3o ajuda a falhar.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_62770\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62770\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9710-a%C3%A7ai-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9710-a\u00e7ai-1.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9710-a\u00e7ai-1-300x204.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"272\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/p>\n<\/div>\n<p>Quem vive da coleta e do extrativismo, como os catadores de fibras, os beneficiadores do cip\u00f3, seringueiros, artes\u00e3s e tecel\u00f5es, sabe que tem de lidar com uma ocasional ou sazonal falta de recursos. Assim, o ecoturismo se projeta como perspectiva relativamente inescap\u00e1vel, tendo em vista a riqueza da biodiversidade: \u201cA gorjeta que um visitante d\u00e1 pra gente aqui pra ir ver uma on\u00e7a \u00e9 no m\u00ednimo 50 reais, ent\u00e3o, on\u00e7a viva vale mais! As pessoas s\u00f3 aceitam o jacar\u00e9 a\u00ed na beirada das crian\u00e7as porque os turistas querem ver.\u201d<\/p>\n<p>Essa consci\u00eancia de que \u201con\u00e7a viva \u00e9 mais neg\u00f3cio\u201d j\u00e1 se disseminou pelo Xixua\u00fa, os mateiros e pescadores j\u00e1 est\u00e3o naturalmente capacitados para serem guias dos ecoturistas. E sempre elucubram, \u201co guia \u00e9 o remo do visitante\u201d.<\/p>\n<p>Reelaborando sua pr\u00f3pria cultura, a sabedoria de Carlito n\u00e3o deixa de aparecer, sempre. No igarap\u00e9, preparando um peixe matrinx\u00e3 (<em>Brycon hilarii)<\/em>\u00a0\u00e0 luz do candeeiro, enrolando sob espreita fumo de corda na barriga, surpreende: \u201cEst\u00e1s ouvindo? Presta aten\u00e7\u00e3o&#8230; \u00e9 uma\u00a0<em>surucucu<\/em>\u00a0cantando\u201d. Com Carlito se aprende que a floresta brada, e que at\u00e9 cobra canta. Depende de saber escutar. Esperar. Feixe de luz amarelado no rosto, quando ele reflete sobre seu passado no Xixua\u00fa, olhando-se desajeitado medita: \u201cMeu pai morreu, era ele o\u00a0<em>\u201cesteio do meio\u201d\u00a0<\/em>da fam\u00edlia, dava conselho, ajeitava as ideias; dizia que uma anta ou uma lontra iam ficar mais longe se Xixua\u00fa ficasse mais populoso, entende?\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_1528.jpg\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_62772\" class=\"wp-caption aligncenter\">Conv\u00edvios das pessoas na beira de Xixua\u00fa. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/div>\n<p><strong>Escola do rio \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Uma das amea\u00e7as \u00e0 pesca na reserva \u00e9 a concorr\u00eancia dos \u201cgeleiros\u201d de rio, que pescam em abund\u00e2ncia e estocam por dias os peixes com gelo, para levar \u00e0s cidades. Em 2006, os pescadores artesanais jauaperinos e geleiros fecharam um acordo de \u2018cessar pesca\u2019, por tr\u00eas anos, para permitir a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes no per\u00edodo de \u201cdefeso\u201d (suspens\u00e3o da pesca), que vai de outubro a mar\u00e7o. Por\u00e9m, a pesca de explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria prosseguiu, o que amea\u00e7a a seguran\u00e7a alimentar das pessoas. E al\u00e9m, h\u00e1 os coletores de tartarugas e ovos, que agem \u00e0 secura da noite, no per\u00edodo da seca, na praia. \u201cPimpim\u201d, de Xixua\u00fa, costuma sair de casquinho (canoa escavada em tronco), inscrito\u00a0<em>Deus da Paz,<\/em>\u00a0levando seu anzol, cani\u00e7o, zagaia (arp\u00e3o de tr\u00eas pontas) e a lanterna, feita por ele, de alum\u00ednio, fixada na cabe\u00e7a como \u201ccoroa\u201d de cip\u00f3. Filho de Carlito, Francisco Nascimento (Pimpim) aprecia levar seu filho de sete anos na pescaria de \u201cfachear\u201d; a lanterna \u00e9 ligada por uma antiga bateria de carro, alimentada pelos pain\u00e9is solares da vila. Sereno, de rosto vincado e magro transmite senso de realidade: \u201cVou sair pra dar uma pescada, fachear peixes pro almo\u00e7o de amanh\u00e3. Eu saio na boca da noite pra n\u00e3o atrapalhar o servi\u00e7o nas malocas, dos que v\u00e3o pra ro\u00e7a, serrar pau, trabalhar na farinha e colher a\u00e7a\u00ed.\u201d<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Terra Brasilis,\u00a0<\/em>na Amaz\u00f4nia em franca transforma\u00e7\u00e3o que nosso tempo nos tra\u00e7a, a reserva \u00e9 o futuro de salvaguarda. Suponho que a identidade de pescadores e coletores parece pedir certa orienta\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o, o cotidiano tradicional voa de longe, a experi\u00eancia ecol\u00f3gica e biodiversa atravessa gera\u00e7\u00f5es, de ind\u00edgenas a quilombolas, de nordestinos a alde\u00f5es caboclos. Para estes, que alternativas restam para conquistar, afora a consci\u00eancia ecol\u00f3gica e as incertezas?<\/p>\n<div id=\"attachment_62773\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62773\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_1411-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_1411-1.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_1411-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_1411-1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">PimPim no mato coletando e beneficiando folhas da Palmeira Ubim. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/p>\n<\/div>\n<p>Ao lado do ecoturismo, de um \u201cfuturista\u201d Centro de Pesquisa Cient\u00edfica, da bot\u00e2nica, o artesanato \u00e9 um dos objetivos da cooperativa. \u00a0Na casa de Rosa, mulher de \u2018Tabaco\u2019, em meio ao p\u00f4ster na parede desalinhado do pol\u00edtico 45 e o chuma\u00e7o do velho Bombril na antena da TV ou reunidas na \u201cmalocona\u201d central, as mulheres furam sementes do cip\u00f3 do tento ou utilizam caro\u00e7os de a\u00e7a\u00ed para fazer colares e braceletes, ou ainda juntam sementes de olho-de-boi, morototo e tucum\u00e3 para criar novas bijuterias. Evangelista j\u00e1 prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cCasa das Mulheres\u201d, onde as artes\u00e3s poder\u00e3o instalar uma creche, trabalhar e bem tagarelar.<\/p>\n<p>Xixua\u00fa conta com uma escola de madeira, cor ocre e vinho, constru\u00edda em 2004, com subs\u00eddios municipais de Rorain\u00f3polis. Nas cerca de 20 carteiras azuis, ali, o professor Francilane Alves, 30 anos (em 2011), se dedica ao ensino multisseriado, das 1\u00aa \u00e0 4\u00aa s\u00e9ries. Ele j\u00e1 morou em Novo Air\u00e3o. Al\u00e9m de trabalhar como carpinteiro na movelaria, Francilane tamb\u00e9m d\u00e1 aulas \u00e0 noite, sob luz morti\u00e7a, para o pessoal do EJA \u2014 Escola de Jovens e Adultos. \u201cQuase uma obriga\u00e7\u00e3o o estrangeiro ser volunt\u00e1rio na comunidade, \u201censinar\u201d algo, que a dificuldade na l\u00edngua n\u00e3o seja uma pol\u00eamica (!). Quer coisa mais democr\u00e1tica e mais acess\u00edvel que a energia solar comunit\u00e1ria pra internet?\u201d<\/p>\n<p>Compromissado com o progresso geral, Francilane considera indispens\u00e1vel que os diretores da CoopXixua\u00fa deixem o semi analfabetismo e se politizem para melhorar suas fun\u00e7\u00f5es: \u201cSem educa\u00e7\u00e3o e mais interesse n\u00e3o d\u00e1. \u2018<em>Bambo letras\u2019<\/em>, quem sabe l\u00ea vai direto, quem n\u00e3o sabe continua soletrando.\u201d, conclui, ao exemplificar o que dita na sala de aula.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da lousa, esfor\u00e7o idiossincr\u00e1tico e descontra\u00e7\u00e3o: quatro alunos do EJA. Entre eles Elton da Encarna\u00e7\u00e3o, o Elinho. Enraizado \u00e0 natureza que o circunda em Xixua\u00fa, ele p\u00f5e no quadro disformes s\u00edlabas e nomes de seu imagin\u00e1rio valoroso: Jabuti, Queixada, Fula (Piranha preta), \u201cIrara \u00e9 Rabuda\u201d, Sabir\u00e1 (Lontra pequena), Arari. Elinho foi eleito administrador da CoopXixua\u00fa, no passado o seu pai foi mateiro e\u00a0<em>Regat\u00e3o\u00a0<\/em>[ele continua membro ativo da CoopXixu\u00e1u, mas n\u00e3o \u00e9 o atual administrador] \u00a0Elinho viveu em Manaus, no porto de palafitas Gl\u00f3ria, ou o\u00a0<em>Igap\u00f3 perigoso<\/em>, e retornou a Xixua\u00fa para se engajar na luta pela resex. A funda\u00e7\u00e3o da cooperativa, h\u00e1 dois anos, foi o meio de dar legitimidade ao extrativismo n\u00e3o madeireiro (vegetal) e legalidade econ\u00f4mica ao extrativismo madeireiro para a constru\u00e7\u00e3o de casas destinadas ao ecoturismo.<\/p>\n<div id=\"attachment_62775\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62775\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_0064-taco-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_0064-taco-1.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/IMG_0064-taco-1-300x203.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"270\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Thiago, o &#8220;Taco&#8221;. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/p>\n<\/div>\n<p>Empreendedor nato, Elinho sabe o valor da coopera\u00e7\u00e3o: \u201cMeu incentivo pra voltar pra c\u00e1 veio da vontade de querer ser livre, da independ\u00eancia de trabalhar pela preserva\u00e7\u00e3o desse peda\u00e7o de floresta\u201d, explica. \u201cFazer escoar a castanha, a andiroba e o a\u00e7a\u00ed s\u00e3o as metas da CoopXixua\u00fa, mas num ano de escassez o foco pode ser o turismo, a pesca esportiva, focagem de jacar\u00e9, trilha na floresta. Isso pode ser feito o ano inteiro!\u201d<\/p>\n<p>Ribeirinho adotivo, o ex-empres\u00e1rio escoc\u00eas Christopher Clark mora na outra margem do Jauaperi, em companhia de sua filha Cathleen, de 21 anos. Cabeludo, poliglota e tradutor, Chris foi um viajor contumaz at\u00e9 que chegou a Manaus, da Toscana. Entusiasta dos estudos bot\u00e2nicos empreendidos pelo INPA, o escoc\u00eas trabalha na internet do escrit\u00f3rio da Cooperativa, planejando a log\u00edstica das viagens dos grupos estrangeiros a Xixua\u00fa. Foi atrav\u00e9s da internet que Chris consultou m\u00e9dicos em busca de orienta\u00e7\u00f5es de primeiros socorros para cuidar do jovem Alessandro Horta, que, em 2007, havia se ferido com um tiro acidental de sua pr\u00f3pria espingarda 20 de dentro da rabeta 15hp, ca\u00e7ando um pato do mato no lago, j\u00e1 que no dia estava\u00a0<em>panema\u00a0<\/em>(falho, escasso) de peixe. Hoje um aut\u00eantico amaz\u00f4nida, o escoc\u00eas atravessa diariamente o rio num casco a remo. \u201cLembro-me bem do dia em que chegamos aqui, eu, o pr\u00e1tico\u00a0<em>Baixote\u00a0<\/em>e Pl\u00ednio. Desembarcamos e logo chamaram o Carlito, que veio nos receber. Carlito nos levou para ver as ariranhas, e foi uma vis\u00e3o surpreendente para um estrangeiro. Nesse dia, percebi que eu podia viver aqui.\u201d Era apenas uma dezena o gentio que Chris e Pl\u00ednio encontraram quando o barco atracou em Xixua\u00fa.<\/p>\n<p>Para Camilo Pedrollo, na \u00e9poca mestrando do INPA [Hoje Pedroso \u00e9 Diretor-Executivo da Conquista Comunica\u00e7\u00e3o Socioambiental] que viaja ao Jauaperi, h\u00e1 muito que descobrir nessa \u201cescola do rio\u201d, mas faltam doutores suficientes para pesquisar as 40 mil esp\u00e9cies de plantas estimadas na Amaz\u00f4nia. Aluno de Mike Hopkins, bot\u00e2nico gal\u00eas radicado em Manaus, Pedrollo afirma que os estudos Etnobot\u00e2nicos v\u00eam dando irrefut\u00e1vel prova de que os povos da Amaz\u00f4nia possuem profundo conhecimento de como manejar e extrair recursos da natureza, o que est\u00e1 aliando conservacionistas e popula\u00e7\u00f5es tradicionais. No entanto, o bioma amaz\u00f4nico representa apenas 18% da pesquisa cont\u00ednua, contra exemplares 38% na mata atl\u00e2ntica. E a regi\u00e3o recebe apenas 3% dos investimentos federais em ci\u00eancia e tecnologia. \u201cCurandeiros tradicionais det\u00e9m amplo repert\u00f3rio de plantas como a\u00a0<em>Paracana\u00faba<\/em>, para o tratamento da mal\u00e1ria, a\u00a0<em>Jurubeba<\/em>, cura de f\u00edgado, e a\u00a0<em>Cuiarana<\/em>, para coceiras. Pra n\u00f3s, o uso de plantas pela experi\u00eancia na floresta requer conviv\u00eancia qualitativa com os ribeirinhos.\u201d, diz o p\u00f3s-graduando.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9646-cacho-inteiro.jpg\" width=\"639\" height=\"435\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_62778\" class=\"wp-caption aligncenter\">Cacho de a\u00e7a\u00ed nos arredores de Xixua\u00fa. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/div>\n<p>Nos igarap\u00e9s cristalinos do rio Xixua\u00fa e do Xiparin\u00e3 e em seus varadouros de seres encantados, a variedade de cardumes na \u00e1gua impressionou Jean Michel Cousteau, filho do legend\u00e1rio Jacques Cousteau. Jean rodou l\u00e1, em 2007, parte do document\u00e1rio &#8220;Return to the Amazon&#8221;. M\u00edtico e simb\u00f3lico, o cen\u00e1rio flui nuances de boa visibilidade para mergulho h\u00e1 8 metros sob floresta inundada. Jacund\u00e1, Peixe\u2013agulha, Pirarara, Tucunar\u00e9, Surubim, tracaj\u00e1s&#8230; Peixes poucos ainda os que a equipe deparou-se, perante as sabidas 1.300 esp\u00e9cies da bacia hidrogr\u00e1fica do Amazonas e seus 25 mil km de afluentes. Um rebojo.<\/p>\n<p><strong>A voz do povo<\/strong><\/p>\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de presidente do CNS \u2014 Conselho Nacional das Popula\u00e7\u00f5es Extrativistas da Amaz\u00f4nia, o vision\u00e1rio Manoel Cunha era ativo em f\u00f3runs no Brasil e internacionais, e defensor convicto do modelo da resex do Alto Juru\u00e1 (AC), a primeira do pa\u00eds com cinco mil km2, criada em 1990, ap\u00f3s a morte de Chico Mendes (1988). Em documento conjunto do CNS e da SAE \u2014 Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Rep\u00fablica, Cunha prop\u00f4s novas pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o na floresta, para que as novas gera\u00e7\u00f5es sejam conscientizadas do processo hist\u00f3rico e da not\u00e1vel conquista social alcan\u00e7ada por seus pais.<\/p>\n<div id=\"attachment_62779\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62779\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9901-jovem.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9901-jovem.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9901-jovem-234x300.jpg 234w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"512\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Retrato de jovem adulto de Xixua\u00fa: barqueiro, trabalha em serraria, estuda, mant\u00e9m a religiosidade, transita entre a tradi\u00e7\u00e3o e a modernidade, usa Blue Tooth, pode trabalhar como mateiro, identificar rastro de on\u00e7a. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cNas escolas ribeirinhas ainda n\u00e3o se aprende que os jovens devem assumir a responsabilidade de continuar valorando o saber tradicional como guardi\u00f5es da floresta, desde curumins\u201d, enfatiza. \u201cPrecisamos ter uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada, que d\u00ea import\u00e2ncia fundamental \u00e0 reserva, que esclare\u00e7a como era nos tempos do \u2018<em>patr\u00e3o de barrac\u00e3o\u2019<\/em>, e que demonstre claramente que hoje a nossa condi\u00e7\u00e3o de vida \u00e9 mais favor\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Para Manoel Cunha, h\u00e1 aus\u00eancia de uma pol\u00edtica educacional dirigida especialmente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ribeirinha: \u201cN\u00f3s n\u00e3o temos car\u00eancia de comida, o extrativista tem seu teto, seu rancho, bebe a\u00e7a\u00ed e cupua\u00e7u, consome peixe e tucum\u00e3; o que falta \u00e9 mais Pol\u00edtica P\u00fablica e infraestrutura. \u00c9 preciso apoiar a gest\u00e3o do processo produtivo dentro da resex e beneficiar a m\u00e3o-de-obra do coletor. O turismo por si n\u00e3o d\u00e1 conta sozinho, o jovem fica mais ocioso.\u201d<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 necessidade de preserva\u00e7\u00e3o ambiental, Manoel \u00e9 taxativo: \u201cPensar no enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sem incluir as popula\u00e7\u00f5es da floresta \u00e9 como fazer um filme sem ator principal. Criar uma resex d\u00e1 autonomia para as comunidades, \u00e9 processo deliberativo; por isso, \u00e9 melhor para garantir a biodiversidade. Dotados de uma \u201cpregui\u00e7a vegetal\u201d, os l\u00fabricos, inconstantes, incr\u00e9dulos e atavistas \u00edndios descritos na literatura jesu\u00edtica em 1549 foram refletidos e taxados, para os mission\u00e1rios \u201cestrangeiros\u201d, como dif\u00edceis de converter. A Terra ind\u00edgena dos Waimiri- Atroari, de 2.2 milh\u00f5es de hectares protegida pelos pr\u00f3prios, \u00e9 vista com admira\u00e7\u00e3o pelos entes vizinhos Xixuauenses. Nada vol\u00faveis, sua determina\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o convertida \u2013 por preservar a reserva e suas vidas se expressa no brado de Pl\u00ednio leite Encarna\u00e7\u00e3o, da\u00a0<em>Associa\u00e7\u00e3o<\/em>: \u201cSe fala de internacionaliza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, mas \u00e9 o mundo ser mais (amazonizado). Os melhores habitantes da Terra vivem neste lugar que n\u00f3s temos!\u201d<\/p>\n<p>Alvorada, o dia era de partir. Seis horas de viagem no coloral rio Jauaperi, baldeando em Floresta e Itaquera para ainda negociar tr\u00eas sacas da farinha de N\u00e1dia, quase 100 quilos. Rec\u00e9m saltado do barco chamado \u2018<em>Certeza\u2019,<\/em>\u00a0com o apoio do cajado de madeira que curumim me regalou. Desembarquei no entreposto fluvial de Moura (AM), j\u00e1 \u00e0 esquina do rio Negro, acompanhado por Elinho e pela italiana Evangelista. Era madrugada estelar refletindo na l\u00e2mina d\u2019\u00e1gua; um forte aguaceiro se anunciava, ventando na sua vanguarda um clar\u00e3o de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Conversamos enquanto esper\u00e1vamos o \u201crecreio de linha\u201d, o barco de Barcelos-Manaus. O caboclo e a europeia, claramente acreditando que conviv\u00eancia \u00e9 que d\u00e1 melhor percep\u00e7\u00e3o da realidade local, reafirmavam seu compromisso de permanecer juntos em defesa da eterna reserva Xixua\u00fa &#8211; Xiparin\u00e3. Quanto a mim, ap\u00f3s a \u201cescola do rio\u201d, j\u00e1 tinha uma certeza, legal. Sabia de que lado me prostrara nessa hist\u00f3ria: alinhado com a tenacidade dos filhos do rio. A favor da import\u00e2ncia da resex\u00a0<em>Baixo rio Branco\/Jauaperi<\/em>, da conserva\u00e7\u00e3o da floresta e de todas as suas formas de vida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/MG_9934-fechamento.jpg\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_62782\" class=\"wp-caption aligncenter\">Baixo rio Branco\/Jauaperi, da conserva\u00e7\u00e3o da floresta e de todas as suas formas de vida. Foto: Maur\u00edcio de Paiva.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia do Meio Ambiente, 05 de junho, o governo publicou\u00a0um decreto\u00a0criando a Reserva Extrativista<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"No dia do Meio Ambiente, 05 de junho, o governo publicou\u00a0um decreto\u00a0criando a Reserva Extrativista","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91733"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91733"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91733\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}