{"id":91703,"date":"2018-09-07T21:10:26","date_gmt":"2018-09-08T00:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=91703"},"modified":"2018-09-07T21:10:26","modified_gmt":"2018-09-08T00:10:26","slug":"as-pistas-deixadas-sobre-como-era-viver-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/as-pistas-deixadas-sobre-como-era-viver-na-amazonia\/","title":{"rendered":"As pistas deixadas sobre como era viver na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz%C3%B4nia.jpg\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p>A arqueologia tem revelado que a Amaz\u00f4nia era uma regi\u00e3o com milh\u00f5es de habitantes antes da chegada dos europeus, que tinham um modo de vida bastante diferente daquele que hoje se tenta implantar na regi\u00e3o. Era uma popula\u00e7\u00e3o numerosa e diversa, que domesticou e cultivou plantas importantes at\u00e9 hoje, como a mandioca, pupunha e castanha, mas que desapareceu pouco depois da chegada de portugueses e espanh\u00f3is.<\/p>\n<p>O arque\u00f3logo Eduardo Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), faz escava\u00e7\u00f5es e estuda vest\u00edgios deixados por estes povos desde a d\u00e9cada de 1990. Nesta entrevista, O Eco conversa com ele para tentar entender melhor como viviam essas popula\u00e7\u00f5es na Amaz\u00f4nia e o que elas podem nos ensinar.<\/p>\n<p>Nessa conversa por telefone, ele fala da diversidade de culturas que j\u00e1 havia nesta vasta regi\u00e3o, provavelmente, h\u00e1 9 mil anos, e das marcas deixadas. No lugar de pir\u00e2mides, imagem que logo vem a cabe\u00e7a quando se fala em civiliza\u00e7\u00f5es antigas, na Amaz\u00f4nia os arque\u00f3logos tentam compreender grandes estruturas de barro, que durante anos estiveram escondidas na floresta, e analisam vest\u00edgios t\u00e3o pequenos que precisam ser analisados em microsc\u00f3pios.\u00a0Para Eduardo Neves, se existe uma palavra que pode representar a Amaz\u00f4nia \u00e9 \u2018diversidade\u2019.<\/p>\n<p><strong>O Eco: Em quase 30 anos de estudo, o que a arqueologia mudou sobre a imagem que se tinha da Amaz\u00f4nia antes da chegada dos europeus?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Neves:\u00a0<\/strong>Eu acho que cada vez mais, hoje em dia, as pessoas aceitam a ideia de que tinha muito mais gente vivendo na Amaz\u00f4nia do que se pensava anteriormente. A gente ainda n\u00e3o sabe exatamente quantas pessoas viviam na regi\u00e3o, ainda n\u00e3o consegue responder a essa pergunta, s\u00f3 temos estimativas. A estimativa que costumo seguir \u00e9 que existiam 8 milh\u00f5es de pessoas em toda Bacia Amaz\u00f4nica. \u00c9 a imagem de uma Amaz\u00f4nia muito mais densamente ocupada do que a gente imaginava 30 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201c(&#8230;) Aqui no Brasil, em uma s\u00e9rie de movimentos desde a \u00e9poca da col\u00f4nia, e mais fortemente nos \u00faltimos tempos, no governo militar, querem ocupar, fazer estradas, projetos de desenvolvimento que partem da premissa que a Amaz\u00f4nia nunca teve hist\u00f3rica, que nunca teve ningu\u00e9m, sempre foi vazia. E a arqueologia diz que n\u00e3o, que a Amaz\u00f4nia tem uma hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o muito profunda. N\u00f3s temos que incorporar essa perspectiva de alguma maneira nas pol\u00edticas p\u00fablicas.\u201d<\/div>\n<p>E a\u00ed n\u00f3s temos que pensar numa quest\u00e3o sobre a Amaz\u00f4nia, que vira pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas tamb\u00e9m nos pa\u00edses amaz\u00f4nicos em geral. A vis\u00e3o que a gente tem \u00e9 de um territ\u00f3rio nacional, que tem que colonizar. Claramente, aqui no Brasil, em uma s\u00e9rie de movimentos desde a \u00e9poca da col\u00f4nia, e mais fortemente nos \u00faltimos tempos, no governo militar, querem ocupar, fazer estradas, projetos de desenvolvimento que partem da premissa que a Amaz\u00f4nia nunca teve hist\u00f3rica, que nunca teve ningu\u00e9m, sempre foi vazia. E a arqueologia diz que n\u00e3o, que a Amaz\u00f4nia tem uma hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o muito profunda. N\u00f3s temos que incorporar essa perspectiva de alguma maneira nas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p><strong>O que aconteceu com essas oito milh\u00f5es de pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>Uma coisa que aconteceu em todo continente americano, n\u00e3o s\u00f3 na Amaz\u00f4nia e no Brasil, foi que, quando os europeus chegam aqui, eles trazem um monte de doen\u00e7as, contra as quais as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas n\u00e3o tinham imunidade, v\u00e1rios tipos de gripe, sarampo, var\u00edola. Havia doen\u00e7as aqui, como tuberculose e s\u00edfilis, que s\u00e3o doen\u00e7as americanas, mas muitas doen\u00e7as, com catapora, n\u00e3o existiam aqui. Muitas dessas doen\u00e7as s\u00e3o zoonoses, como gripe avi\u00e1ria, gripe su\u00edna. Aqui na Am\u00e9rica n\u00e3o t\u00ednhamos animais domesticados, ao contr\u00e1rio dos europeus que j\u00e1 tinham uma hist\u00f3ria de conviv\u00eancia com essas doen\u00e7as. Quando eles v\u00eam pra c\u00e1 e trazem essas doen\u00e7as, as popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tinham imunidade contra elas desaparecem rapidamente. A gente sabe que existiam redes de trocas conectando popula\u00e7\u00f5es dispersas pela Amaz\u00f4nia. Quando os europeus entram, eles de alguma forma participam dessas redes de troca, e a partir da\u00ed vai ter o cont\u00e1gio antes mesmo do contato direto com os europeus. As doen\u00e7as chegavam muito antes. Tiveram um impacto que est\u00e1 melhor documentado nas popula\u00e7\u00f5es andinas, porque havia mais cronistas nos Andes do que na Amaz\u00f4nia, mas teve um impacto terr\u00edvel nas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A outra coisa \u00e9 a pr\u00f3pria quest\u00e3o da guerra e da escravid\u00e3o. Os portugueses e os espanh\u00f3is chegam aqui com a mentalidade da Guerra da Reconquista da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica do final da Idade M\u00e9dia. Muitos grupos desaparecem, exterminados pela guerra.<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cQuando os primeiros viajantes cientistas come\u00e7am a andar pela Amaz\u00f4nia, no final do s\u00e9culo XVIII, no s\u00e9culo XIX, eles v\u00e3o ver uma regi\u00e3o que est\u00e1 esvaziada porque a popula\u00e7\u00e3o havia diminu\u00eddo drasticamente nos s\u00e9culos precedentes. Essa regi\u00e3o que antes era ocupada, est\u00e1 recoberta por floresta. Isso deu origem a essa imagem de um tr\u00f3pico que sempre foi desabitado, in\u00f3spito e com pouca gente.\u201d<\/div>\n<p>E a terceira coisa foi a escravid\u00e3o. A atividade econ\u00f4mica mais importante na col\u00f4nia era a escravid\u00e3o ind\u00edgena. Ent\u00e3o o impacto dessas tr\u00eas coisas, da guerra, das doen\u00e7as e da escravid\u00e3o foi muito grande.<\/p>\n<p>Quando os primeiros viajantes cientistas come\u00e7am a andar pela Amaz\u00f4nia, no final do s\u00e9culo XVIII, no s\u00e9culo XIX, eles v\u00e3o ver uma regi\u00e3o que est\u00e1 esvaziada porque a popula\u00e7\u00e3o havia diminu\u00eddo drasticamente nos s\u00e9culos precedentes. Essa regi\u00e3o que antes era ocupada, est\u00e1 recoberta por floresta. Isso deu origem a essa imagem de um tr\u00f3pico que sempre foi desabitado, in\u00f3spito e com pouca gente. S\u00f3 que esse quadro \u00e9 muito mais hist\u00f3rico, reflexo dos primeiros anos da coloniza\u00e7\u00e3o, do que o resultado de um modo de vida caracter\u00edstico das regi\u00f5es tropicais.<\/p>\n<p><strong>Como a arqueologia est\u00e1 contribuindo para confirmar essas hip\u00f3teses.<\/strong><\/p>\n<p>Darcy Ribeiro j\u00e1 dizia isso nos anos 1950. Essas coisas n\u00e3o s\u00e3o novidades. A quest\u00e3o \u00e9 que pela primeira vez, nos \u00faltimos anos, a gente est\u00e1 tendo\u2026 Qual a vantagem da arqueologia? A arqueologia est\u00e1 escrevendo a hist\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas antes da chegada dos europeus, e essa hist\u00f3ria se s\u00f3 tem como saber pela tradi\u00e7\u00e3o oral, n\u00e3o tem escritos deixados. A vantagem da arqueologia \u00e9 que ela d\u00e1 uma perspectiva hist\u00f3rica profunda de milhares de anos. A arqueologia \u00e9 hist\u00f3ria, a diferen\u00e7a \u00e9 que em arqueologia a gente trabalha com intervalos de tempo muito longos, milhares de anos. A gente perde a resolu\u00e7\u00e3o, nem sempre a qualidade dos dados \u00e9 refinada, porque n\u00e3o \u00e9 como um arquivo escrito com informa\u00e7\u00f5es detalhadas. Mas ao mesmo tempo, a gente ganha em profundidade cronol\u00f3gica. Ent\u00e3o a gente consegue entender o que aconteceu, quero dizer, a gente est\u00e1 come\u00e7ando a entender. A gente consegue delinear, digamos assim, a hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, nos \u00faltimos dois mil anos antes da conquista europeia.<\/p>\n<p><strong>Qual impacto que essa popula\u00e7\u00e3o para a floresta? Elas tinham atividades sustent\u00e1veis ou causavam impactos grandes na floresta. Existe a hip\u00f3tese de que, com o desaparecimento dessas popula\u00e7\u00f5es, a floresta pode se recuperar, provocando uma grande absor\u00e7\u00e3o de carbono e interferido no clima global.<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_62968\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62968\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz%C3%B4nia-3.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz\u00f4nia-3.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz\u00f4nia-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz\u00f4nia-3-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Escava\u00e7\u00e3o em Monte Castelo. Foto: USP.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00c9 uma hip\u00f3tese bem interessante. Tem gente que correlaciona a Pequena Idade do Gelo, que aconteceu mais ou menos nessa \u00e9poca, no final da Idade M\u00e9dia, in\u00edcio da Idade Moderna, s\u00e9culo XVI, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, porque ter\u00edamos menos fogo. Essa pessoas desaparecem, ent\u00e3o param de fazer ro\u00e7a, param de queimar a floresta. Quando desaparecem essas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, a floresta come\u00e7a a crescer absorvendo esse g\u00e1s carb\u00f4nico que est\u00e1 na atmosfera, garantindo at\u00e9 um impacto no resfriamento da temperatura do planeta. \u00c9 uma hip\u00f3tese interessante.<\/p>\n<p>O que temos de trabalho sobre fogo vem da periferia da Amaz\u00f4nia. Tem um trabalho que saiu de uma regi\u00e3o de campos, no litoral da Guiana Francesa, n\u00e3o \u00e9 da floresta, que mostra por\u00e9m que o fogo aumenta depois que os europeus chegam. Antes havia t\u00e9cnicas de manejo, baseadas no manejo do fogo, que n\u00e3o deixavam vest\u00edgios de muito carv\u00e3o encontrados nos dep\u00f3sitos. Quando os europeus chegam, aumenta muito mais a deposi\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o. O que a gente est\u00e1 percebendo agora\u2026 estou abrindo um artigo que saiu com dados de Santar\u00e9m. A gente tem registros de 4.500 anos nesse lago. Parece que nesse contexto, o uso do fogo \u00e9 um uso mais controlado.<\/p>\n<p>\u00c9 meio \u00f3bvio, mas naquela \u00e9poca n\u00e3o tinha machado de metal. Era tudo com machado de pedra, n\u00e3o tinha motosserra. O fogo era um instrumento importante de manejo, mas que n\u00e3o tinha a escala que se tem hoje em dia. Era uma escala muito menor e mais localizada. O que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 que a gente est\u00e1 retroalimentando. Se voc\u00ea ver o que que tem l\u00e1 no Xingu. Os \u00edndios sempre usaram fogo para manejar a floresta. S\u00f3 que agora todo o entorno do Xingu est\u00e1 desmatado, por causa das fazendas de soja, de gado e de milho. Na Terra Ind\u00edgena, onde a floresta est\u00e1 em p\u00e9, voc\u00ea n\u00e3o tem aquela mata de entorno que proteja, ent\u00e3o qualquer queimada de ro\u00e7a hoje em dia vira um inc\u00eandio de propor\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, as evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas n\u00e3o contribuem para a hip\u00f3tese de que o esvaziamento da Amaz\u00f4nia tenha contribu\u00eddo para a Pequena Idade do Gelo?<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">&#8220;Os \u00edndios sempre usaram fogo para manejar a floresta. S\u00f3 que agora todo o entorno do Xingu est\u00e1 desmatado, por causa das fazendas de soja, de gado e de milho. Na Terra Ind\u00edgena, onde a floresta est\u00e1 em p\u00e9, voc\u00ea n\u00e3o tem aquela mata de entorno que proteja, ent\u00e3o qualquer queimada de ro\u00e7a hoje em dia vira um inc\u00eandio de propor\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas\u201d.<\/div>\n<p>Acho que n\u00e3o. Eu penso que n\u00e3o. Tinha muita gente, tinha um efeito interessante de modifica\u00e7\u00e3o da floresta, mas acho que o modelo que esses autores t\u00eam para fogo est\u00e3o muito mais baseados nos padr\u00f5es de uso de fogo atuais do que nos padr\u00f5es antigos. Apesar de achar essa hip\u00f3tese interessante, ela \u00e9 contr\u00e1ria ao que defendo. Se a gente coloca a Amaz\u00f4nia numa escala global, n\u00e3o sei se temos evid\u00eancias para apoi\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua hip\u00f3tese?<\/strong><\/p>\n<p>Se a gente pudesse fazer uma viagem e voltar para a Amaz\u00f4nia, mais ou menos, ao ano de 1.500, a gente veria uma esp\u00e9cie de arquip\u00e9lago, com algumas \u00e1reas mais manejadas, com \u00e1reas de capoeira mais antigas, em diferentes est\u00e1gios de sucess\u00e3o, permeadas por \u00e1reas de floresta. As evid\u00eancias de modos tradicionais de vida, que est\u00e3o desaparecendo rapidamente no interior da Amaz\u00f4nia, mostram a quest\u00e3o da ro\u00e7a de coivara, em que eles v\u00e3o mudando de lugar a cada 5 anos, por exemplo. Isso era muito forte at\u00e9 os anos 1950 e 1960, na verdade. Eles faziam uma ro\u00e7a noiva, depois mudavam de lugar, naquela itiner\u00e2ncia, em que v\u00e3o se deslocando atrav\u00e9s da paisagem. Mas os dados arqueol\u00f3gicos mostram para n\u00f3s que esses povos antigos eram muito mais sedent\u00e1rios, ficavam muito mais tempo no mesmo lugar. Isto quer dizer que, no entorno desses assentamentos, o impacto de desmatamento ou de sucess\u00e3o talvez sido muito mais marcado e mais forte. Por outro lado, o fato de n\u00e3o terem machados de metal, e sim machados de pedra, sugere que n\u00e3o existia esse modelo de ro\u00e7a quadradinha, de um hectare, no meio da floresta, que \u00e9 resultado da motosserra e do machado de metal. Imagino que essas ro\u00e7as antigas eram meio amorfas, n\u00e3o tinham uma forma bem definida. Eles aproveitavam as derrubadas naturais das florestas, plantavam ao longo dos caminhos e das trilhas. Imagino que o gradiente entre o mundo da floresta e o mundo da aldeia era muito mais sutil tamb\u00e9m.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cAcho que existe uma combina\u00e7\u00e3o de processos naturais, que tem a ver com uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica bem marcada, na transi\u00e7\u00e3o do Pleistoceno para o Holoceno, com a megafauna. As popula\u00e7\u00f5es humanas tiveram seu papel, mas colocar s\u00f3 o fator humano n\u00e3o explica.\u201d<\/div>\n<p>Outra coisa importante, que pouca gente fala, \u00e9 a arboricultura, o cultivo de \u00e1rvores. Talvez os melhores exemplos que a gente tenha agora sejam do a\u00e7a\u00ed e da castanha, que s\u00e3o \u00e1rvores superimportantes e muito produtivas. Uma castanheira, depois que come\u00e7a a produzir, pode continuar por centenas de anos. \u00c9 muito comum ter castanhal em terra preta. A castanheira para crescer precisa de acesso ao sol. Uma muda de castanha para poder crescer, tem que estar em lugar aberto. Se estiver em local fechado, na floresta, ela n\u00e3o consegue crescer. \u00c9 de se imaginar que havia sistema de manejo incentivando o crescimento dessa planta. Ent\u00e3o essa ideia de cultivo de \u00e1rvores, arboricultura, bacaba, a\u00e7a\u00ed, castanha, pequi, um monte de \u00e1rvores importantes na Amaz\u00f4nia, podem ter tido papel importante na constru\u00e7\u00e3o dessas paisagens.<\/p>\n<p><strong>E a ca\u00e7a? Existem hip\u00f3teses de que popula\u00e7\u00f5es antigas tenham provocado extin\u00e7\u00e3o da megafauna na Am\u00e9rica e em outros lugares.<\/strong><\/p>\n<p>Tem uma revis\u00e3o que saiu tr\u00eas ou quatro anos atr\u00e1s, que \u00e9 a \u00faltima coisa que eu li, que acompanhei. Parece que no norte de continente, a megafauna se extinguiu antes da chegada dos humanos. Se bem que os dados da chegada dos humanos est\u00e3o ficando cada vez mais antigos. A quest\u00e3o \u00e9 que acho que n\u00e3o h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o da extin\u00e7\u00e3o da megafauna e da chegada dos humanos. Enquanto que no Sul do continente, no Argentina, na Patag\u00f4nia, tem uma rela\u00e7\u00e3o entre \u00a0a presen\u00e7a humana e a megafauna, inclusive com presen\u00e7a de megafauna nos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos. Eles estavam ca\u00e7ando essa megafauna.<\/p>\n<p>Acho que existe uma combina\u00e7\u00e3o de processos naturais, que tem a ver com uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica bem marcada, na transi\u00e7\u00e3o do Pleistoceno para o Holoceno, com a megafauna. As popula\u00e7\u00f5es humanas tiveram seu papel, mas colocar s\u00f3 o fator humano n\u00e3o explica.<\/p>\n<p>Por outro lado, parece cada vez mais que alguns tipos de frutas encontradas atualmente t\u00eam um padr\u00e3o de dispers\u00e3o que n\u00e3o pode ser explicado a partir da fauna que existe hoje, na Mata Atl\u00e2ntica, no Cerrado ou na Amaz\u00f4nia. S\u00e3o frutas de megafauna. O abacate, que \u00e9 da Mesoam\u00e9rica (regi\u00e3o que vai da Costa Rica ao Sul do M\u00e9xico), \u00e9 um exemplo ilustrativo. Ele tem uma semente muito grande para qualquer animal dispersar. \u00c9 prov\u00e1vel que a megafauna tenha selecionado esses fen\u00f3tipos, o mesocarpo (polpa), o tamanho das sementes. E quando os humanos chegam, a megafauna est\u00e1 desaparecendo. N\u00e3o est\u00e1 claro se o homem tem rela\u00e7\u00e3o com esse desaparecimento, mas o ser humano assume o papel que a megafauna tinha na cadeia tr\u00f3fica, vai promover a dispers\u00e3o dessas frutas. De alguma maneira, estou simplificando, a gente ocupa o papel que a megafauna ocupava anteriormente.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel falar em fases da ocupa\u00e7\u00e3o humana na Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_62969\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62969\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz%C3%B4nia-2.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz\u00f4nia-2.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz\u00f4nia-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Amaz\u00f4nia-2-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Geoglifo. Foto: Jenny Watling.<\/p>\n<\/div>\n<p>A gente sabe que existem humanos na Amaz\u00f4nia h\u00e1 pelo menos 11 mil anos, isto j\u00e1 est\u00e1 bem estabelecido, e provavelmente h\u00e1 14 mil anos. A gente faz escava\u00e7\u00f5es, datas os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos e coleta amostras de solo para an\u00e1lises qu\u00edmicas. E a gente tem dados que devemos publicar ainda esse ano ou no come\u00e7o do ano que vem, de evid\u00eancias de manejo, de mudan\u00e7as na qu\u00edmica do solo, que come\u00e7am a acontecer h\u00e1 9 mil anos.<\/p>\n<p>A gente come\u00e7a a ver a forma\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de terra preta na periferia da Amaz\u00f4nia, em Rond\u00f4nia e na Guiana a partir de, mais ou menos, 6 mil anos atr\u00e1s. E a partir de 2.500 anos atr\u00e1s, a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia se adensa bastante, a gente tem evid\u00eancia da presen\u00e7a humana em toda parte. Onde quer que a gente procure, vai encontrar evid\u00eancia da presen\u00e7a humana. Muita terra preta come\u00e7a a se formar, evid\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es humanas sedent\u00e1rias. Esse processo de adensamento, que come\u00e7a 2.500 anos atr\u00e1s, ele vai, com muitas varia\u00e7\u00f5es locais, at\u00e9 a conquista, at\u00e9 o s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p>Algumas \u00e1reas da Amaz\u00f4nia tem sequ\u00eancias longas de ocupa\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rias longas de ocupa\u00e7\u00e3o. Uma delas \u00e9 a regi\u00e3o do Alto Rio Madeira, em Rond\u00f4nia, por isso trabalho l\u00e1 hoje em dia. A gente tem ocupa\u00e7\u00f5es longas, que come\u00e7am h\u00e1 pelo menos 9 mil anos, ou talvez antes disso. Mas em alguns lugares da Amaz\u00f4nia, n\u00f3s temos hiatos na hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e3o claros ainda. A gente pode falar de maneira geral que tem gente h\u00e1 pelo menos 11 mil anos na Amaz\u00f4nia, porque desde cedo a gente come\u00e7a a ver sistema de manejo e ca\u00e7a de pequenos animais. No caso da Amaz\u00f4nia Central, perto de Manaus, temos um s\u00edtio que escavamos, que se chama Hata-hara, que fica em Iranduba, na beira do Rio Solim\u00f5es. Nesse s\u00edtio a gente tem muita fauna preservada. A gente tem evid\u00eancia de consumo de quel\u00f4nios, muito mais peixes do que mam\u00edferos, quase n\u00e3o tem macaco no registro, mas tem muito osso de r\u00e9ptil, jacar\u00e9, tracaj\u00e1, pirarucu, tambaqui. Alguns peixes consumidos hoje, aparentemente n\u00e3o eram no passado, como \u00e9 o caso do jaraqui. N\u00e3o v\u00ea muito jaraqui. Muito bagre, pirarucu e peixes grandes, como tambaqui.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma popula\u00e7\u00e3o que vai se estabelecendo ou s\u00e3o ondas?<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cS\u00e3o v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es diferentes. Uma coisa interessante, a gente fala muito em biodiversidade, que \u00e9 fundamental, mas a gente tem que falar tamb\u00e9m da sociodiversidade ou sociobiodiversidade. Se voc\u00ea olhar do ponto de vista cultural, em termos de l\u00ednguas ind\u00edgenas, a Amaz\u00f4nia \u00e9 a regi\u00e3o de maior diversidade lingu\u00edstica do planeta. S\u00e3o centenas de l\u00ednguas ind\u00edgenas, s\u00e3o mais de 150 l\u00ednguas diferentes, muitas s\u00e3o aparentadas, muitas isoladas, muitas fam\u00edlias pequenas de l\u00ednguas com duas ou tr\u00eas que s\u00e3o faladas s\u00f3 em algumas regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia.\u201d<\/div>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es diferentes. Uma coisa interessante, a gente fala muito em biodiversidade, que \u00e9 fundamental, mas a gente tem que falar tamb\u00e9m da sociodiversidade \u00a0ou sociobiodiversidade. Se voc\u00ea olhar do ponto de vista cultural, em termos de l\u00ednguas ind\u00edgenas, a Amaz\u00f4nia \u00e9 a regi\u00e3o de maior diversidade lingu\u00edstica do planeta. S\u00e3o centenas de l\u00ednguas ind\u00edgenas, s\u00e3o mais de 150 l\u00ednguas diferentes, muitas s\u00e3o aparentadas, muitas isoladas, muitas fam\u00edlias pequenas de l\u00ednguas com duas ou tr\u00eas que s\u00e3o faladas s\u00f3 em algumas regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o temos um quadro de diversidade cultural muito grande. Se voc\u00ea olhar para a arqueologia, voc\u00ea vai ver que tem uma diversidade muito grande. Se voc\u00ea voltar ao ano de 1.500, voc\u00ea vai ver que tem um padr\u00e3o na regi\u00e3o de Manaus, uma coisa totalmente diferente em Santar\u00e9m, outra coisa diferente na Ilha de Maraj\u00f3, no Amap\u00e1 seriam outras padr\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o, no Acre, outra hist\u00f3ria, em Rond\u00f4nia tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>As \u00e1reas que a gente conhece hoje em dia tem uma diversidade muito grande de formas de ocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma \u00fanica popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es locais. Quero dizer, teve um come\u00e7o. A gente pode dizer com certa seguran\u00e7a que, h\u00e1 30 mil anos, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m na Amaz\u00f4nia. H\u00e1 20 mil, eu n\u00e3o sei, podemos encontrar coisas com essa idade. H\u00e1 14 mil, tem um s\u00edtio datado em 14 mil, l\u00e1 no Alto Guapor\u00e9. As evid\u00eancias v\u00e3o ficando menos amb\u00edguas. H\u00e1 menos de 11 mil, com certeza tinha gente. E h\u00e1 9 mil, tem gente na Serra dos Caraj\u00e1s, tem gente no Rio Caquet\u00e1, na Col\u00f4mbia, tem gente na Amaz\u00f4nia Central, tem gente no Baixo Amazonas, gente no Alto Madeira. H\u00e1 9 mil, n\u00e3o \u00e9 ainda um quadro de adensamento demogr\u00e1fico, mas a gente v\u00ea que diferentes biomas dentro da Amaz\u00f4nia j\u00e1 estavam sendo ocupados. Desde \u00e1reas da Serra dos Caraj\u00e1s, nos campos rupestres, at\u00e9 \u00e1reas ribeirinhas no Rio Negro e do Rio Solim\u00f5es.<\/p>\n<p>A gente olha para o tipo artefatos encontrados nos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos e tenta inferir se tem um padr\u00e3o de homogeneidade ou n\u00e3o. Se a gente tem a cer\u00e2mica muito parecida ou objetos de pedra lascada muito parecidos, em \u00e1reas extensas, a gente pode falar que existe uma certa homogeneidade cultural. O caso interessante de Amaz\u00f4nia \u00e9 que, desde o come\u00e7o, desde 9 mil anos atr\u00e1s, n\u00e3o existe uma \u00fanica categoria de artefato ou um \u00fanico tipo de artefato que caracteriza a ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Se a gente olhar para os objetos de pedra lascada produzidos h\u00e1 9 mil anos, eles j\u00e1 s\u00e3o muito diferentes entre si. Ent\u00e3o a gente tem pontas de proj\u00e9til bifaciais perto de Manaus, perto de Santar\u00e9m; tem lascas de quartzo, l\u00e1 em Caraj\u00e1s; tem lascas de outro tipo de material l\u00e1 no rio Caquet\u00e1, que \u00e9 o Japur\u00e1. Esse quadro de grande diversidade cultural que a gente v\u00ea hoje em dia, que est\u00e1 amea\u00e7ado de uma maneira in\u00e9dita, a gente v\u00ea ele se estabelecer desde o come\u00e7o, 9 mil anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Acho que a mensagem que eu quero passar para voc\u00ea aqui \u00e9 que, se existe uma palavra chave para a Amaz\u00f4nia, \u00e9 diversidade. Ela vale para o Meio Ambiente, mas vale tamb\u00e9m para a quest\u00e3o cultural.<\/p>\n<p><strong>E as rela\u00e7\u00f5es dessa popula\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia com as paisagem que existem ao redor, como a transi\u00e7\u00e3o para a caatinga, cerrado e Andes. Existe rela\u00e7\u00f5es dessas popula\u00e7\u00f5es do entorno com a Amaz\u00f4nia ou era um universo isolado.<\/strong><\/p>\n<p>Com a Caatinga, a gente n\u00e3o sabe direito ainda. Mas com os Andes, principalmente Amaz\u00f4nia Ocidental, no Peru, Col\u00f4mbia, Equador, as rela\u00e7\u00f5es os Andes s\u00e3o muitos claras. O cacau \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica, mas \u00e9 superimportante na Mesoam\u00e9rica, para os Maias, os Astecas. A mandioca \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica que tamb\u00e9m era muito consumida na Am\u00e9rica Central e no Peru. O milho \u00e9 mesoamericano, vem l\u00e1 do M\u00e9xico, mas entra muito cedo na Amaz\u00f4nia. A pupunha, que uma planta que at\u00e9 hoje \u00e9 superimportante na Am\u00e9rica Central, e \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica. A gente v\u00ea desde cedo rela\u00e7\u00f5es pelas plantas, entre plantas amaz\u00f4nicas que s\u00e3o cultivadas h\u00e1 4 mil anos, ou at\u00e9 antes, fora da Amaz\u00f4nia, como a mandioca, e plantas que entram na Amaz\u00f4nia. O milho n\u00e3o \u00e9 da Amaz\u00f4nia, mas entra na Amaz\u00f4nia h\u00e1 pelo menos 6 mil anos.<\/p>\n<div id=\"attachment_62970\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-62970\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ge%C3%B3glifo.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ge\u00f3glifo.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ge\u00f3glifo-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ge\u00f3glifo-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Foto: Edison Caetano.<\/p>\n<\/div>\n<p>No Peru, existe um s\u00edtio arqueol\u00f3gico muito famoso, chamado Chavin de Huantar, na Cordilheira, no alto da serra, coberto de neve. Durante muito tempo, foi considerado o s\u00edtio cerimonial mais antigo dos Andes. Tem mais ou menos 3 mil anos. Se voc\u00ea olhar a iconografia, tem muitos objetos de pedra, est\u00e1tuas de pedra, ela quase que totalmente faz refer\u00eancias a temas amaz\u00f4nicos, o amendoim, que \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica, o jacar\u00e9-a\u00e7u, tem a sucuri, a mandioca. Um monte de planta e bicho representado nessa iconografia, o que levou alguns autores a proporem h\u00e1 muitos anos que esses povos teriam tido uma origem ou uma influ\u00eancia amaz\u00f4nica na configura\u00e7\u00e3o desses templos.<\/p>\n<p><strong>Porque n\u00e3o tem pir\u00e2mides na Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p>Estou escrevendo um livro que tem esse t\u00edtulo. Essa \u00e9 uma pergunta que todo mundo faz e \u00e9 superimportante. De fato, n\u00e3o tem. Acho que n\u00e3o tem por causa da abund\u00e2ncia. Existia muito recurso, e esse tipo de estrutura aparece em contextos de algum tipo de escassez. Se voc\u00ea olhar na Am\u00e9rica do Sul, elas aparecem no litoral do Peru, que \u00e9 uma regi\u00e3o muito produtiva, litoral muito piscoso, mas que \u00e9 deserto. Ent\u00e3o voc\u00ea tem recursos muito produtivos e concentrados e circunscritos em \u00e1reas espec\u00edficas. Na Amaz\u00f4nia, n\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil de controlar os recursos. N\u00e3o tem pir\u00e2mide porque o sujeito diz \u2018 n\u00e3o vou continuar a trabalhar para esse pentelho, eu vou embora, vou cuidar da minha vida\u2019. Aquela coisa do caboclo leso, da \u201cleseira bar\u00e9\u201d, tem uma cara pol\u00edtica tamb\u00e9m. \u00c9 muito comum os viajantes contarem que contrataram gente para remar e acordou no dia seguinte e todo mundo sumiu.<\/p>\n<p><strong>Se n\u00e3o tem grandes constru\u00e7\u00f5es, o que o arque\u00f3logo busca na Amaz\u00f4nia para contar a hist\u00f3ria da regi\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>A gente n\u00e3o tem pir\u00e2mide de pedra, mas t\u00eam estruturas de terra que s\u00e3o monumentais. No Acre, por exemplo, temos s\u00edtios com aterro, que s\u00e3o grandes, s\u00e3o geom\u00e9tricos, quadrados, estradas. A gente est\u00e1 descobrindo uma rede de estradas lineares antigas. A gente tem muita coisa que n\u00e3o \u00e9 de pedra, mas que \u00e9 de terra. Que se fosse de pedra, talvez fosse chamado de pir\u00e2mide ou um s\u00edtio monumental. Durante muito tempo nem se consideravam (essas estruturas), n\u00e3o se reconhecia como arqueol\u00f3gico, porque era de barro, debaixo do mato, parecia que era natural. Ent\u00e3o tem muita coisa para se estudar, muito aterro, muita vala, muita estrada. Tem a terra preta, tem uma cer\u00e2mica maravilhosa, algumas delas que infelizmente queimaram l\u00e1 no Museu Nacional no Rio de Janeiro, uma cole\u00e7\u00e3o marajoara maravilhosa que o Museu Nacional tinha. Uma trag\u00e9dia, isso.<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">&#8220;Durante muito tempo nem se consideravam (essas estruturas), n\u00e3o se reconhecia como arqueol\u00f3gico, porque era de barro, debaixo do mato, parecia que era natural. Ent\u00e3o tem muita coisa para se estudar, muito aterro, muita vala, muita estrada. Tem a terra preta, tem uma cer\u00e2mica maravilhosa, algumas delas que infelizmente queimaram l\u00e1 no Museu Nacional no Rio de Janeiro, uma cole\u00e7\u00e3o marajoara maravilhosa que o Museu Nacional tinha. Uma trag\u00e9dia, isso\u201d.<\/div>\n<p>Tem muita coisa para ser estuda, mas \u00e9 uma coisa diferente. A arqueologia est\u00e1 dando essa virada porque coisas que a gente considerava naturais na verdade n\u00e3o s\u00e3o, foram transformadas pelos \u00edndios. Talvez a terra preta seja o melhor exemplo disso. Mas tem outras coisa tamb\u00e9m. Essa regi\u00e3o do Acre, at\u00e9 os anos 1970 era coberta de floresta. No Oeste do Acre, o pessoal come\u00e7a a desmatar e aparecem as estruturas. S\u00e3o mais de 500 estruturas de terra. O que \u00e9 interessante no caso do Acre, a gente tem evid\u00eancias paleobot\u00e2nicas\u2026.<\/p>\n<p><strong>Isso eu gostaria de saber mais. \u00c9 tamb\u00e9m uma arqueologia de coisas min\u00fasculas.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, de micro vest\u00edgios. \u00c9 a coisa mais legal que est\u00e1 acontecendo. O trabalho da Jenny (Jennifer Watling) mostra que eles convertiam um tipo de floresta, aquela floresta de bambu t\u00edpica do Acre, em outro tipo de floresta, que \u00e9 uma floresta de palmeiras. Quando a gente pensa em ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de floresta, nosso modelo \u00e9 derrubar a floresta, plantar ro\u00e7a, botar pasto\u2026 A Jenny mostra que, no Acre, eles manejavam a floresta convertendo um tipo em outro tipo de floresta. Isso \u00e9 uma coisa meio revolucion\u00e1ria. \u00c9 um modelo que a gente n\u00e3o tem na nossa cabe\u00e7a, transformar a floresta em outro tipo de floresta. Os dados da Jenny vem de micro vest\u00edgios, s\u00e3o coisas microsc\u00f3picas. Dados da fauna, de pesca, s\u00e3o ossinhos de peixes conservados. S\u00e3o novos tipos de evid\u00eancias, muito mais interdisciplinares, que trazem resultados muito interessantes.<\/p>\n<p><strong>Hoje j\u00e1 n\u00e3o se discute se a \u00a0terra preta em origem natural ou foi produzida por humanos.<\/strong><\/p>\n<p>Pode ser que tenha uma ou outra pessoa que discorde, mas est\u00e1 estabelecido. E hoje em dia existem centenas de trabalho que assumem que a terra preta tem autoria antr\u00f3pica. S\u00e3o solos claramente formados pela atividade humana no passado.<\/p>\n<p><strong>O que forma a terra preta?<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cQuando a gente pensa em ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de floresta, nosso modelo \u00e9 derrubar a floresta, plantar ro\u00e7a, botar pasto\u2026 A Jenny mostra que, no Acre, eles manejavam a floresta convertendo um tipo em outro tipo de floresta. Isso \u00e9 uma coisa meio revolucion\u00e1ria. \u00c9 um modelo que a gente n\u00e3o tem na nossa cabe\u00e7a, transformar a floresta em outro tipo de floresta.\u201d<\/div>\n<p>Em portugu\u00eas claro, \u00e9 composteira. Composto org\u00e2nico, carv\u00e3o queimado a baixa temperatura, n\u00e3o o carv\u00e3o de queimada, mas aquele carv\u00e3o de fogueira de casa no interior, que queimou o dia inteiro, na hora de esquentar abana e vira um fogo, depois vira aquela brasa de novo. E muito resto de peixes, osso de peixe, que tem muito fosfato, resto de sementes. \u00c9 composto, lixo org\u00e2nico. As pessoas cavavam buracos, jogavam lixo, e isso vai se formando ao redor das casas e v\u00e3o ser formando os solos antr\u00f3picos.<\/p>\n<p><strong>Mas propositalmente ou de maneira acidental?<\/strong><\/p>\n<p>Aconteceu. As pessoas estavam paradas e vinham jogando lixo org\u00e2nico. Depois, \u00e9 claro, perceberam que esses solos tinham uma produtividade que era not\u00e1vel. Mas na minha opini\u00e3o, claramente foi uma coisa n\u00e3o planejada. At\u00e9 porque a gente tem terra preta em \u00e1rea de v\u00e1rzea. E solos de v\u00e1rzea s\u00e3o solos muito ricos, ent\u00e3o n\u00e3o precisaria criar terra preta em solos j\u00e1 produtivos.<\/p>\n<p><strong>Qual a li\u00e7\u00e3o esses povos nos deixaram?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a li\u00e7\u00e3o que deixam \u00e9 que na Amaz\u00f4nia d\u00e1 para viver e \u00e9 bom para se viver. E a gente tem evid\u00eancia de ocupa\u00e7\u00f5es milenares e est\u00e1veis. E segundo, que n\u00e3o deve existir uma contradi\u00e7\u00e3o entre ocupa\u00e7\u00e3o humana e preserva\u00e7\u00e3o da floresta. Pelo contr\u00e1rio, a ocupa\u00e7\u00e3o humana pode at\u00e9 levar a uma gera\u00e7\u00e3o de mais biodiversidade. Mas obviamente tem que ser uma ocupa\u00e7\u00e3o diferente daquela que a gente est\u00e1 fazendo hoje em dia. Eu adoro Manaus, mas uma cidade com 2 milh\u00f5es de habitantes tem um impacto muito grande. E a trag\u00e9dia contempor\u00e2nea \u00e9 que, quando a floresta \u00e9 destru\u00edda, al\u00e9m do impacto sobre as popula\u00e7\u00f5es que \u00e9 horroroso e a gente estar perdendo uma biodiversidade imensa, tem tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 nessas florestas. D\u00e1 para viver bem, d\u00e1 para viver durante muito tempo, mas n\u00e3o do jeito que est\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arqueologia tem revelado que a Amaz\u00f4nia era uma regi\u00e3o com milh\u00f5es de habitantes antes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A arqueologia tem revelado que a Amaz\u00f4nia era uma regi\u00e3o com milh\u00f5es de habitantes antes","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91703"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91703"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91703\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}