{"id":91448,"date":"2018-09-03T16:50:27","date_gmt":"2018-09-03T19:50:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=91448"},"modified":"2018-09-03T16:51:28","modified_gmt":"2018-09-03T19:51:28","slug":"diversidade-de-arvores-e-3-vezes-maior-do-que-se-pensava-nas-areas-umidas-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/diversidade-de-arvores-e-3-vezes-maior-do-que-se-pensava-nas-areas-umidas-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Diversidade de \u00e1rvores \u00e9 3 vezes maior do que se pensava nas \u00e1reas \u00famidas da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/arvore_diversidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-91449\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/arvore_diversidade-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/arvore_diversidade-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/arvore_diversidade.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A floresta amaz\u00f4nica \u00e9 muito antiga. As evid\u00eancias mais remotas da exist\u00eancia de uma floresta tropical &#8220;moderna&#8221; na por\u00e7\u00e3o setentrional da Am\u00e9rica do Sul remontam h\u00e1 60 milh\u00f5es de anos. Por moderna, entenda-se uma floresta tropical com a mesma composi\u00e7\u00e3o de grupos de plantas da floresta amaz\u00f4nica contempor\u00e2nea. No norte da Col\u00f4mbia, mais precisamente numa regi\u00e3o \u00e1rida chamada Cerrej\u00f3n, havia naquele passado distante uma grande floresta alagada. No local fica hoje um imensa mina de carv\u00e3o a c\u00e9u aberto. O min\u00e9rio de l\u00e1 extra\u00eddo se formou a partir da mineraliza\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria vegetal daquela antiga floresta. Na mina, tamb\u00e9m v\u00eam sendo achadas nos \u00faltimos anos milhares de folhas petrificadas, testemunhos f\u00f3sseis dos grupos de plantas que l\u00e1 cresciam h\u00e1 60 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>A partir de 2008, paleobot\u00e2nicos colombianos come\u00e7aram a identificar entre aqueles f\u00f3sseis exemplares de praticamente todos os grupos de \u00e1rvores presentes na Amaz\u00f4nia atual. H\u00e1 60 milh\u00f5es de anos, na floresta alagada de Cerrej\u00f3n cresciam \u00e1rvores das fam\u00edlias das jaqueiras, figueiras e amoreiras (mor\u00e1ceas), da massaranduba (sapot\u00e1ceas), dos ing\u00e1s e angicos (fab\u00e1ceas), da peroba (apocin\u00e1ceas), do salgueiro (salic\u00e1ceas), das paineiras (malv\u00e1ceas) e da seringueira (euforbi\u00e1ceas).<\/p>\n<p>Aos animais de Cerrej\u00f3n n\u00e3o faltava alimento, sob a forma dos frutos de \u00e1rvores das fam\u00edlias dos cacaueiros e cupuazeiros (malv\u00e1ceas), dos abacateiros (laur\u00e1ceas), dos cajueiros (anacardi\u00e1ceas), das gravioleiras (anon\u00e1ceas), pitangueiras, goiabeiras e jabuticabeiras (mirt\u00e1ceas), al\u00e9m dos cocos e coquinhos das palmeiras (arec\u00e1ceas).<\/p>\n<p>Como se percebe, h\u00e1 60 milh\u00f5es de anos as sementes da Amaz\u00f4nia moderna j\u00e1 haviam germinado e fincado ra\u00edzes na floresta alagada de Cerrej\u00f3n. Todas aquelas fam\u00edlias de \u00e1rvores, t\u00e3o comuns na floresta amaz\u00f4nica atual, j\u00e1 se encontravam presentes. O que lhes faltava era diversidade. As folhas f\u00f3sseis retiradas do fundo da mina de carv\u00e3o pertencem a uma abund\u00e2ncia de fam\u00edlias de plantas, por\u00e9m sua diversidade, em termo de g\u00eaneros, ainda era baixa. A sele\u00e7\u00e3o natural precisou operar por 60 milh\u00f5es de anos para que os diversos grupos de plantas amaz\u00f4nicas atingissem a sua incr\u00edvel diversidade atual.<\/p>\n<div id=\"attachment_62828\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>Quanto mais se estuda tal diversidade, mais surpresas ela suscita. Veja por exemplo o caso das \u00e1rvores. Um levantamento publicado em 2006 dava conta da exist\u00eancia de 1.119 esp\u00e9cies de \u00e1rvores crescendo nas \u00e1reas \u00famidas amaz\u00f4nicas. Na verdade, este total \u00e9 tr\u00eas vezes superior. As \u00e1reas \u00famidas da Amaz\u00f4nia s\u00e3o lar de 3.615 esp\u00e9cies arb\u00f3reas, ou seja, mais da metade (53%) das 6.727 esp\u00e9cies arb\u00f3reas contabilizadas para todas as terras baixas da Amaz\u00f4nia. \u00c9 o que revela um estudo publicado na semana passada por ec\u00f3logos da Universidade Estadual Paulista (UNESP).<\/p>\n<p>A floresta amaz\u00f4nica se espalha por 7 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, distribu\u00eddos entre noves pa\u00edses. O Brasil possui a maior parte deste patrim\u00f4nio natural, ou 60% da floresta. O restante est\u00e1 distribu\u00eddo entre Peru, Col\u00f4mbia, Bol\u00edvia, Equador, Suriname, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa. Neste levantamento, os autores combinaram dados dispon\u00edveis em invent\u00e1rios florestais e cole\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas de todos os nove pa\u00edses da bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>As terras baixas s\u00e3o as \u00e1reas que est\u00e3o abaixo da cota de 500 metros de eleva\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de zero at\u00e9 500 metros acima do n\u00edvel do mar.<\/p>\n<p>&#8220;80% da floresta amaz\u00f4nica (5,6 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>) est\u00e3o situados em terras baixas, que re\u00fanem grande variedade de ambientes, como florestas densas, florestas abertas, cerrados, campinas, rios com diferentes tipos de \u00e1guas (escuras ou claras), lagos, etc&#8221; explica Bruno Garcia Luize, o principal investigador por tr\u00e1s do estudo publicado na\u00a0<a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0198130\" rel=\"noopener\">revista cient\u00edfica PLOS ONE<\/a>.<\/p>\n<p>As \u00e1reas \u00famidas amaz\u00f4nicas s\u00e3o as por\u00e7\u00f5es de terras baixas que passam quase metade do ano alagadas. As \u00e1reas \u00famidas se espalham por uma \u00e1rea de pouco menos de 2 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, o que corresponde a 30% das terras baixas.<\/p>\n<p>As \u00e1reas \u00famidas compreendem diversos tipos de vegeta\u00e7\u00e3o, como igap\u00f3s (terrenos frequentemente inundados), p\u00e2ntanos, campinas, mangues e v\u00e1rzeas que margeiam rios, lagos e igarap\u00e9s..<\/p>\n<p>&#8220;Cerca de 53% das esp\u00e9cies de \u00e1rvores das terras baixas da Amaz\u00f4nia crescem em \u00e1reas \u00famidas, ou seja, o triplo da diversidade estimada anteriormente. Esta grande propor\u00e7\u00e3o \u00e9 provavelmente o resultado do interc\u00e2mbio significativo de esp\u00e9cies entre h\u00e1bitats florestais dentro da regi\u00e3o amaz\u00f4nica, bem como resultado de processos de especia\u00e7\u00e3o localizados,&#8221; diz Luize.<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">&#8220;Cerca de 53% das esp\u00e9cies de \u00e1rvores das terras baixas da Amaz\u00f4nia crescem em \u00e1reas \u00famidas, ou seja, o triplo da diversidade estimada anteriormente. Esta grande propor\u00e7\u00e3o \u00e9 provavelmente o resultado do interc\u00e2mbio significativo de esp\u00e9cies entre h\u00e1bitats florestais dentro da regi\u00e3o amaz\u00f4nica, bem como resultado de processos de especia\u00e7\u00e3o localizados,&#8221; diz Luize.<\/div>\n<p>As 3.615 esp\u00e9cies arb\u00f3reas de \u00e1reas \u00famidas da Amaz\u00f4nia est\u00e3o compreendidas em 104 fam\u00edlias bot\u00e2nicas, por sua vez distribu\u00eddas em 689 g\u00eaneros. As fam\u00edlias arb\u00f3reas mais diversificadas s\u00e3o as leguminosas (578 esp\u00e9cies arb\u00f3reas),seguidas pelas rubi\u00e1ceas (220), anon\u00e1ceas (182), laur\u00e1ceas (175) e mirt\u00e1ceas (155 esp\u00e9cies arb\u00f3reas). As dez fam\u00edlias com maior diversidade s\u00e3o respons\u00e1veis por 53% do conjunto de esp\u00e9cies arb\u00f3reas das zonas \u00famidas da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8220;Embora 69 fam\u00edlias de \u00e1rvores contem com metade ou mais de seus t\u00e1xons amaz\u00f4nicos ocorrendo em \u00e1reas \u00famidas, n\u00e3o encontramos nenhum registro em zonas \u00famidas para 15 fam\u00edlias com ocorr\u00eancia conhecida na Amaz\u00f4nia,&#8221; explica Luize. Ou seja, tais fam\u00edlias s\u00e3o exclusivas das terras secas. N\u00e3o toleram a vida em terrenos alagados, que demandam um metabolismo diferente das \u00e1rvores.&#8221;<\/p>\n<p>Quando se analisa a lista de 3.615 esp\u00e9cies arb\u00f3reas ao n\u00edvel de g\u00eanero, o g\u00eanero mais rico nas zonas \u00famidas da Amaz\u00f4nia \u00e9\u00a0<em>Inga<\/em>, com 85 esp\u00e9cies de \u00e1rvores, entre as quais o hom\u00f4nimo ing\u00e1 (ou ingazeiro), seguido por\u00a0<em>Licania<\/em>\u00a0(69 esp\u00e9cies),\u00a0<em>Miconia<\/em>\u00a0(69 esp\u00e9cies),\u00a0<em>Pouteria<\/em>(69 esp\u00e9cies) e\u00a0<em>Eugenia<\/em>\u00a0(59 esp\u00e9cies, como jabuticabeiras e pitangueiras).<\/p>\n<p>Se, em 2006, eram reconhecidas 1.119 esp\u00e9cies arb\u00f3reas para as \u00e1reas \u00famidas amaz\u00f4nicas, e agora este n\u00famero mais que triplicou, ainda resta muito por descobrir?<\/p>\n<p>Segundo Luize, &#8220;o n\u00famero de esp\u00e9cies de \u00e1rvores nas \u00e1reas \u00famidas pode vir a aumentar, se houver descri\u00e7\u00f5es de novas esp\u00e9cies, atrav\u00e9s da coleta ou da an\u00e1lise de material guardado nas cole\u00e7\u00f5es dos museus, e se houverem novos registros de ocorr\u00eancias de esp\u00e9cies para as \u00e1reas \u00famidas e que atualmente s\u00f3 conhecemos como ocorrendo nas terras firmes ou mesmo em outros biomas. As estimativas que o estudo apresenta indicam que conhecemos cerca de 75% das esp\u00e9cies que podem ocorrer em \u00e1reas \u00famidas.&#8221;<\/p>\n<p>Quais teriam sido os principais fatores que possibilitaram a grande especia\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores nas \u00e1reas \u00famidas da Amaz\u00f4nia? &#8220;Para entender isso precisamos pensar em um tempo geol\u00f3gico bastante grande, precisamos recuar ao Mioceno (entre 23 e 5 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s) e, e l\u00e1, vir caminhando atrav\u00e9s do tempo geol\u00f3gico at\u00e9 os dias atuais,&#8221; pondera Luize.<\/p>\n<div id=\"attachment_62830\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>Aqui, o bi\u00f3logo faz refer\u00eancia ao chamado lago Pebas, um imenso pantanal que havia no oeste da Amaz\u00f4nia entre 20 milh\u00f5es e 10 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. O pantanal foi formado pelo represamento das \u00e1guas da bacia amaz\u00f4nica, em fun\u00e7\u00e3o da progressiva eleva\u00e7\u00e3o dos Andes. Naquele ambiente alagado, diversos grupos de \u00e1rvores tiveram que se adaptar para sobreviver.<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m precisamos pensar no tempo de vida de cada indiv\u00edduo. H\u00e1 esp\u00e9cies de \u00e1rvores que podem viver mais de 1.000 anos! De modo bem simples, pequenas mudan\u00e7as nos locais onde as \u00e1rvores crescem em rela\u00e7\u00e3o aos locais onde seus pais cresceram, associado \u00e0 heran\u00e7a ou n\u00e3o da capacidade de viver nesses locais diferentes, pode ter levado um grande n\u00famero de esp\u00e9cies a acumular adapta\u00e7\u00f5es ao longo do tempo que acabaram por permitir que vivessem em florestas alag\u00e1veis,&#8221; explica Luize.<\/p>\n<p>Uma grande parte da diversidade de plantas neotropicais \u00e9 composta por t\u00e1xons centrados na Amaz\u00f4nia. &#8220;A compreens\u00e3o de suas hist\u00f3rias evolutivas e ecol\u00f3gicas pode melhorar nosso conhecimento sobre o desenvolvimento desse reino biogeogr\u00e1fico hiperdiverso.&#8221;<\/p>\n<p>Para Luize, &#8220;a lista com o nome das 3.615 esp\u00e9cies \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o desse trabalho&#8221;. Com ela, ser\u00e1 poss\u00edvel avan\u00e7ar em estudos futuros, pois h\u00e1 um vazio de conhecimento bot\u00e2nico sobre as \u00e1reas \u00famidas, principalmente nos afluentes dos rios Solim\u00f5es e Amazonas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A floresta amaz\u00f4nica \u00e9 muito antiga. 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