{"id":90316,"date":"2018-08-16T09:00:04","date_gmt":"2018-08-16T12:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=90316"},"modified":"2018-08-15T21:37:46","modified_gmt":"2018-08-16T00:37:46","slug":"o-mercurio-nas-veias-da-amazonia-e-altamente-letal-para-os-peixes-ribeirinhos-e-povos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-mercurio-nas-veias-da-amazonia-e-altamente-letal-para-os-peixes-ribeirinhos-e-povos-indigenas\/","title":{"rendered":"O merc\u00fario nas veias da Amaz\u00f4nia \u00e9 altamente letal para os peixes, ribeirinhos e povos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p><b><em><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-90317\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>p<\/em><i>or Sucena Shkrada Resk*<\/i><\/b><\/p>\n<p class=\"m_7631606679778635799ydp8e0bf944yiv5619819320ydp87d9aa7eMsoNormal\">Quem dera que falar sobre \u201cmerc\u00fario\u201d fosse um assunto somente de interesse da pauta astron\u00f4mica? Voltando \u00e0 realidade do planeta Terra, se trata dos impactos da contamina\u00e7\u00e3o pelo metal, altamente letal, um tema ainda subnotificado, que mexe em uma ferida aberta, em especial, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, que vem se agravando ao longo dos anos e confirmado por exames e pesquisas realizadas em peixes, ribeirinhos e em povos ind\u00edgenas. S\u00e3o popula\u00e7\u00f5es que fazem parte desse ecossistema que sofre press\u00e3o de garimpos e, inclusive, de efeitos indiretos de hidrel\u00e9tricas. O comprometimento com esta pauta ainda \u00e9 incipiente na agenda das pol\u00edticas p\u00fablicas e, com isso, os problemas de sa\u00fade ambiental e de direitos humanos que representa podem ser muito maiores, pois est\u00e3o interligados com outras agendas do mercado comercial e industrial internacionais.<\/p>\n<p>O tema tem exigido uma a\u00e7\u00e3o multidisciplinar de v\u00e1rios entes governamentais, que j\u00e1 revelam o grande desafio pela frente. Entre alguns dados recentes, no m\u00eas de junho, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente (MMA) divulgou o\u00a0Invent\u00e1rio Nacional de Emiss\u00f5es e Libera\u00e7\u00f5es de Merc\u00fario no \u00c2mbito da Minera\u00e7\u00e3o Artesanal e de Pequena Escala no Brasil. \u00a0Tratam-se de informa\u00e7\u00f5es coletadas em garimpos nos estados do Amap\u00e1, Bahia, Mato Grosso e Par\u00e1. A pesquisa construiu cen\u00e1rios de emiss\u00f5es e libera\u00e7\u00f5es de merc\u00fario que se basearam na minera\u00e7\u00e3o oficialmente declarada e estimativas de ouro produzido de forma ilegal. Esses cen\u00e1rios originam perdas de merc\u00fario para o meio ambiente que v\u00e3o de 18,5 a 221,5 toneladas.<\/p>\n<p><b>O exemplo de Minamata<\/b><\/p>\n<p class=\"m_7631606679778635799ydp8e0bf944yiv5619819320ydp87d9aa7eMsoNormal\">Quantas pessoas podem estar contaminadas e sequer t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo? Quem se responsabiliza pela seguran\u00e7a alimentar e sa\u00fade dessas pessoas e de todo o meio ambiente? Como os efeitos cumulativos da contamina\u00e7\u00e3o podem aparecer ap\u00f3s anos, \u00e9 como se fosse uma bomba-rel\u00f3gio. Essa \u00e9 uma heran\u00e7a pesada que recebemos apesar de o Brasil ter ratificado em 2017, a\u00a0<span class=\"m_7631606679778635799ydp8e0bf944yiv5619819320ydp87d9aa7eMsoHyperlink\">Conven\u00e7\u00e3o Internacional de Minamata sobre Merc\u00fario<\/span>, cujo texto foi aprovado quatro anos antes no \u00e2mbito da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). O nome Minamata n\u00e3o \u00e9 por acaso, pois foi nesta cidade japonesa, onde uma\u00a0empresa qu\u00edmica lan\u00e7ava no mar dejetos com a subst\u00e2ncia, desde 1930, \u00a0em que houve muitas v\u00edtimas, ao longo de d\u00e9cadas. Estima-se que mais de 700 pessoas morreram em decorr\u00eancia da contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com a Conven\u00e7\u00e3o, at\u00e9 2020, deve haver o banimento de produtos com merc\u00fario adicionado, como por exemplo, alguns tipos de l\u00e2mpadas fluorescentes, pilhas e baterias. Al\u00e9m disso, processos industriais listados pela Conven\u00e7\u00e3o ter\u00e3o de fazer a substitui\u00e7\u00e3o por tecnologias livres de merc\u00fario, o que infere os processos de extra\u00e7\u00e3o mineral e na siderurgia, entre outros.<\/p>\n<p>Esta preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringe especialmente \u00e0 Amaz\u00f4nia brasileira, pois \u00e9 uma quest\u00e3o que aflige toda Pan-Amaz\u00f4nia.e h\u00e1 estudos que datam de longa data, desde os anos 90. H\u00e1 um \u00edndice que pode ser consultado na plataforma\u00a0<span class=\"m_7631606679778635799ydp8e0bf944yiv5619819320ydp87d9aa7eMsoHyperlink\">https:\/\/www.researchgate.net\/<wbr \/>publication\/311482596_A_<wbr \/>EXPOSICAO_AO_MERCURIO_E_OS_<wbr \/>EFEITOS_DA_EXPOSICAO_EM_SERES_<wbr \/>HUMANOS_NA_PAN-AMAZONIA<\/span>, que traz\u00a0 esta historicidade e import\u00e2ncia do problema de sa\u00fade ambiental.<\/p>\n<p><b>A\u00e7\u00e3o multidisciplinar<\/b><\/p>\n<p class=\"m_7631606679778635799ydp8e0bf944yiv5619819320ydp87d9aa7eMsoNormal\">Como os estudos s\u00e3o pontuais por alguns institutos e pesquisadores da academia e \u00f3rg\u00e3os governamentais, n\u00e3o se tornaram uma pr\u00e1tica constante incorporada na gest\u00e3o p\u00fablica como um todo. O que se v\u00ea \u00e9 um quadro incipiente relacionado \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o (redu\u00e7\u00e3o de danos), que infere a necessidade de a\u00e7\u00e3o de diferentes \u00f3rg\u00e3os, desde a fase de licenciamento dos empreendimentos que utilizam este min\u00e9rio. O que isso quer dizer? O governo federal, no bojo de seus minist\u00e9rios, ag\u00eancias e autarquias t\u00eam uma responsabilidade muito grande sobre o desenrolar desses casos. Essa responsabilidade se estende aos legisladores e, de certa forma, aos cientistas. As externalidades s\u00e3o tantas, que fica dif\u00edcil mensurar os impactos nos pr\u00f3ximos anos e d\u00e9cadas, al\u00e9m dos atuais j\u00e1 deflagrados.<\/p>\n<p>Ao se levantar pesquisas sobre esta pauta, uma das mais recentes foi divulgada em mar\u00e7o deste ano, na revista Ecotoxicology and Environmental Safety, uma an\u00e1lise de equipe de pesquisadores brasileiros e espanh\u00f3is coordenada pela bioqu\u00edmica Mar\u00eda Elena L\u00f3pez, do Instituto de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA).<\/p>\n<p>Os cientistas fizeram uma an\u00e1lise de fios de cabelo de 37 ribeirinhos da regi\u00e3o de Caraip\u00e9, no lago Tucuru\u00ed, nos arredores da Usina Hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed. O resultado \u00e9 alarmante. Eles encontraram a quantidade de merc\u00fario (em sua forma mais t\u00f3xica) sete vezes maior que a toler\u00e1vel \u2013 10 microgramas por grama de cabelo. Esse padr\u00e3o de toler\u00e2ncia \u00e9 recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS). Essa exposi\u00e7\u00e3o pode desencadear quadros graves de sa\u00fade, entre elas, a doen\u00e7a de Minamata, que \u00e9 uma s\u00edndrome neurodegenerativa, que pode levar \u00e0 morte, como tamb\u00e9m deforma\u00e7\u00f5es fetais em gestantes. O que gera apreens\u00e3o \u00e9 que, por muitas vezes, os sintomas levam anos a aparecer, ou seja, \u00e9 uma doen\u00e7a silenciosa.<\/p>\n<p>O processo de intoxica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pela ingest\u00e3o de peixes contaminados. De acordo com os pesquisadores, neste caso, ao se apurar os dados hist\u00f3ricos da regi\u00e3o, o que se constatou foi que essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um efeito indireto decorrente do funcionamento da hidrel\u00e9trica. Segundo a bioqu\u00edmica, como o reservat\u00f3rio se formam lagoas (como bols\u00f5es de \u00e1gua), onde o l\u00edquido fica retido at\u00e9 por 130 dias ao ano. Isso pode gerar com as chuvas e invas\u00e3o da floresta, a mistura de decomposi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica que com a incid\u00eancia de luz solar resulta no final, na libera\u00e7\u00e3o de merc\u00fario inorg\u00e2nico ingerido por peixes e outros . Esse, por sua vez, sofre a a\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias anaer\u00f3bicas e se transforma em metilmerc\u00fario. O que \u00e9 mais surpreende neste processo \u00e9 que outros estudos j\u00e1 t\u00eam alertado para este tipo de problema, e n\u00e3o \u00e9 de hoje. Entre eles, do bi\u00f3logo Philip Fearnside, h\u00e1 duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, foi exposta mais uma an\u00e1lise que levantou contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario na Amaz\u00f4nia. Pesquisadores da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) analisaram em 2014 amostras de fios de cabelo de 239 ind\u00edgenas yanomami e ye\u2019kuana , no estado de Roraima. Em algumas regi\u00f5es, 92% da popula\u00e7\u00e3o estava contaminada. O contexto, neste caso, era de a\u00e7\u00e3o garimpeira ilegal na regi\u00e3o, uma press\u00e3o que os ind\u00edgenas j\u00e1 t\u00eam alertado h\u00e1 anos e exigem uma a\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. Para a extra\u00e7\u00e3o do ouro, eles utilizam o merc\u00fario para poder identifica-lo, o separando dos demais sedimentos. A\u00a0<span class=\"m_7631606679778635799ydp8e0bf944yiv5619819320ydp87d9aa7eMsoHyperlink\">pesquisa<\/span>\u00a0foi feita em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Os resultados foram encaminhados aos \u00f3rg\u00e3os competentes, como tamb\u00e9m \u00e0 relatoria especial sobre Direitos Ind\u00edgenas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU).<\/p>\n<p>Conex\u00f5es com um mercado exterior tamb\u00e9m fazem parte da cadeia desta problem\u00e1tica. Em maio deste ano, houve a apreens\u00e3o de mais de 1,7 tonelada de merc\u00fario pela Receita Federal e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renov\u00e1veis (Ibama), em Santa Catarina. Este material era proveniente da Turquia e seguiria para garimpos na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O que se v\u00ea \u00e9 uma cadeia de \u00e2mbito internacional, que exige profundidade de a\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 t\u00eam retaguarda jur\u00eddica e legal para tanto. Deixar de dar o devido peso a esta agenda pode ter um custo muito alto para o pa\u00eds, que se intitula um pa\u00eds em desenvolvimento, com protagonismo na pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>*\u00a0<em>Sucena Shkrada Resk \u00e9 jornalista, formada h\u00e1 26 anos, pela PUC-SP, com especializa\u00e7\u00f5es lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Pol\u00edtica Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidad\u00e3os do Mundo \u2013 jornalista Sucena Shkrada Resk (http:\/\/www.cidadaosdomundo.<wbr \/>webnode.com), desde 2007, voltado \u00e0s \u00e1reas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Sucena Shkrada Resk* Quem dera que falar sobre \u201cmerc\u00fario\u201d fosse um assunto somente de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90317,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/mercurio.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"por Sucena Shkrada Resk* Quem dera que falar sobre \u201cmerc\u00fario\u201d fosse um assunto somente de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90316"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90316"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90316\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90317"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}