{"id":90129,"date":"2018-08-12T21:16:22","date_gmt":"2018-08-13T00:16:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=90129"},"modified":"2018-08-12T21:16:22","modified_gmt":"2018-08-13T00:16:22","slug":"artigo-manejo-ecologico-de-parques-urbanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/artigo-manejo-ecologico-de-parques-urbanos\/","title":{"rendered":"Artigo \u2013 Manejo ecol\u00f3gico de parques urbanos"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/parque-santos-dumont.jpg\" width=\"640\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p><em><strong>Vagner Camilotti * \u2013\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Manejar um parque n\u00e3o \u00e9 apenas manter a grama aparada, varrer, plantar flores e uma \u00e1rvore de vez em quando. Manejar, significa, acima de tudo, entender os processos ecol\u00f3gicos que governam a perman\u00eancia resiliente desses elementos no longo prazo. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 o que se v\u00ea quando se observam as pr\u00e1ticas recorrentes nos parques urbanos e usarei casos de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos como exemplo (e muito provavelmente \u00e9 o mesmo em tantos outros pelo pa\u00eds afora).<\/p>\n<p>Aos gestores, \u00e9 preciso que saibam que a grama cortada retirou nutrientes de um solo e que, quando cortada e levada as aparas embora do local, est\u00e1 se levando tamb\u00e9m todo os nutrientes uma vez retirado para o seu crescimento e que levou d\u00e9cadas, provavelmente, para se acumular naquele solo. O mesmo ocorre com as folhas das \u00e1rvores que caem ao solo, que ent\u00e3o s\u00e3o varridas, colocadas num saco de lixo e levadas pelo caminh\u00e3o para um local qualquer.<\/p>\n<p>Material de poda tamb\u00e9m, visto a riqueza em carbono, f\u00f3sforo e outros macro e micronutrientes essenciais para a sa\u00fade do solo, para o crescimento da grama e das outras plantas do parque, bem como para o estoque de nutrientes para fomentar a vida verde ao longo do tempo. Os efeitos s\u00e3o uma degrada\u00e7\u00e3o progressiva do solo que pode ser observada a olhos nus ao se ver solos ressecados e pontos de eros\u00e3o e de raleamento no gramado, ou mudas de \u00e1rvores que demoram para crescer. Isso decorre, basicamente, porque est\u00e1 saindo mais nutrientes do solo do que est\u00e1 entrando, j\u00e1 que o material vegetativo que cresceu \u2013 consumindo o estoque \u2013 e que iria morrer e se decompor no local, restituindo os elementos nutritivos e fechando o clico biogeoqu\u00edmico, foi levado embora. Uma conta simples de economia.<\/p>\n<p>Aos frequentadores de qualquer parque, poder\u00e3o observar que embaixo de \u00e1rvores de copas frondosas, por uma quest\u00e3o fisiol\u00f3gica, o gramado n\u00e3o cresce em virtude da necessidade de exposi\u00e7\u00e3o direta ao sol. O que se v\u00ea \u00e9 o solo exposto e j\u00e1 com sinais de eros\u00e3o pelo constante pisoteio e \u00e0 chuva, mesmo essa minimizada pela copa da \u00e1rvore. Galhos que poderiam ser picados ou cortados em peda\u00e7os de meio bra\u00e7o, no pr\u00f3prio local, e serem dispostos dentro dos canteiros ou ao p\u00e9 da pr\u00f3pria \u00e1rvore para que com a decomposi\u00e7\u00e3o ao longo do tempo fosse liberando nutrientes, o mesmo para a folhas que, al\u00e9m disso, formariam uma camada de mat\u00e9ria seca que impediria a eros\u00e3o do solo direta pela chuva, acabam sendo considerados lixo ou algo indesej\u00e1vel para a est\u00e9tica do parque e, assim, acabam removidos.<\/p>\n<p>E tudo isso acontece por uma quest\u00e3o de est\u00e9tica arcaica aliada a falta de conhecimento e treinamento dos gestores das \u00e1reas verdes urbanas no quesito manejo ecol\u00f3gico. Uma \u00e1rea bonita, aos olhos comuns, tem que estar varrida, sem folhas acumuladas, grama aparada, nada fora do lugar. \u00c9 um axioma talvez herdado dos jardins vitorianos e que vem sendo questionado pelo paisagismo \u201cnatural\u201d.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o simples e podem ser copiadas das t\u00e9cnicas de agricultura ecol\u00f3gica, t\u00e3o comuns hoje em dia. Pode-se come\u00e7ar criando uma pilha desse material num canto do parque e iniciar um programa local de compostagem. Por iniciativa individual e com o posterior apoio da prefeitura, o fot\u00f3grafo Lucas Ruiz iniciou um projeto pioneiro na Pra\u00e7a Rubens Castilho (em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos), onde tem conseguido produzir localmente o composto. O produto final, o composto, poderia ser espalhado sobre o gramado para recompor o estoque de nutrientes que esse consome e que dificilmente \u00e9 reposto pela natureza das gram\u00edneas \u2013 as quais cresceriam vigorosamente.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o no local, j\u00e1 que tem sempre um caminh\u00e3o que busca o \u201centulho\u201d, poderia ser compostado em outro local e trazido de volta depois de pronto. Mas muito mais simples ainda, para alguns casos, seria simplesmente n\u00e3o varrer as folhas de baixo das copas das \u00e1rvores onde o gramado j\u00e1 n\u00e3o nasce, o que iria ajudar a formar uma camada de folhas que proveria nutri\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o ao solo (ou ent\u00e3o, plantar a grama amendoim nesses locais e deixar que as folhas ca\u00edssem e fossem reabsorvidas com o tempo, sem preju\u00edzo \u00e0 grama). Como j\u00e1 mencionei, galhos poderiam ser picados no local e ser adicionados \u00e0 pilha de compostagem ou mesmo diretamente nos canteiros, como \u00e9 comum na agroecologia. Poderiam ainda serem dispostos em uma camada ao redor de uma muda de \u00e1rvore e iriam liberar nutrientes gradativamente ao longo do tempo (e teriam at\u00e9 uma est\u00e9tica apreci\u00e1vel). Nas trilhas e mesmo pista de caminhada\/atletismo de terra, as folhas poderiam se acumular e n\u00e3o serem varridas, sendo pisoteadas pelos usu\u00e1rios e ir formando uma camada compacta que impediria a eros\u00e3o pelo uso e pela chuva, aumentando a permeabilidade e mesmo a ciclagem de nutrientes na \u00e1rea (ao inv\u00e9s de ter que ser corrigida com maquin\u00e1rio, brita e\/ou areia).<\/p>\n<p>Pr\u00e1ticas simples assim reduziriam os custos de manuten\u00e7\u00e3o das \u00e1reas verdes, talvez at\u00e9 com m\u00e3o-de-obra. Ro\u00e7adas poderiam ser repensadas,\u00a0 tiradas no Parque Santos Dumont em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos. Haveria realmente a necessidade de ro\u00e7ar? Com que fim foi realizada? A forma como a grama amendoim aparece inicialmente era o ideal de todo paisagista, mas foi simplesmente ro\u00e7ada no auge de sua forma. E tudo para qu\u00ea? Substituir por outra? Ao que parece, n\u00e3o, e n\u00e3o me vem uma resposta l\u00f3gica para tal atividade. Ela vai rebrotar, sem d\u00favidas, mas houve um custo de homem-hora e de combust\u00edvel que precisam ser justificados na pr\u00e1tica em si.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-231285 \" src=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/parques-manejo-268x300.jpg\" sizes=\"(max-width: 474px) 100vw, 474px\" srcset=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/parques-manejo-268x300.jpg 268w, http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/parques-manejo-447x500.jpg 447w, http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/parques-manejo-492x550.jpg 492w, http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/parques-manejo.jpg 904w\" alt=\"\" width=\"474\" height=\"530\" \/>Essas atividades, simples de realizar, poderiam ainda servir de pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o ambiental \u2013 como seria o fim das composteiras idealizadas na Pra\u00e7a Rubens Castilho. Poderiam ainda, como nesse mesmo caso idealizado pelo Lucas, ter espa\u00e7os para pequenas\/mini hortas para pr\u00e1ticas de cultivo para escolas e mesmo para os usu\u00e1rios. Se bem arranjadas, possuem uma est\u00e9tica admir\u00e1vel. Imagine-se andando por um parque assim, com todas essas iniciativas em curso. H\u00e1 aprendizado simplesmente ao passar ao lado de tais experimentos, pela simples observa\u00e7\u00e3o desses, mesmo de forma passiva. Isso, contudo, iria estimular ativamente os usu\u00e1rios e nutrir uma nova vis\u00e3o sobre o uso, o valor e o pr\u00f3prio fim de uma \u00e1rea verde urbana.<\/p>\n<p>Dessa forma, concluindo, \u00e9 not\u00e1vel por esses exemplos, a necessidade de repensar as pr\u00e1ticas de manejo de parques e pra\u00e7as com o fim n\u00e3o apenas de garantir a sa\u00fade do solo e da vegeta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o de ampliar os pr\u00f3prios fins dessas \u00e1reas. Estamos em um momento da hist\u00f3ria humana em que a nossa rela\u00e7\u00e3o com o planeta exige mudan\u00e7as de paradigmas tanto no n\u00edvel individual como no coletivo, mas muito mais em especial dos tomadores de decis\u00e3o e gest\u00e3o p\u00fablica, pois \u00e9 neles que se deposita a f\u00e9, ao serem eleitos, de que saber\u00e3o lidar com as reais necessidades da sociedade e que ser\u00e3o capazes de perceber, prever e atuar sobre problemas t\u00e3o simples quanto o manejo de uma \u00e1rea verde. H\u00e1 conhecimento dispon\u00edvel e pessoas capacitadas para tais fins e mesmo todo um campo de oportunidades para novas formas e t\u00e9cnicas de pensar a problem\u00e1tica. Iniciativas individuas j\u00e1 ocorrem, mas ainda de forma espor\u00e1dica e dispersa. \u00c9 necess\u00e1rio que a gest\u00e3o p\u00fablica tome a dianteira, como \u00e9 o seu dever, e re\u00fana essas iniciativas e conhecimentos e os coloque em movimento sincr\u00f4nico para um desenvolvimento mais sustent\u00e1vel do ambiente urbano.<\/p>\n<p><strong><em>Vagner Camilotti \u00e9 mestre em Ecologia e doutor em Ci\u00eancia do Sistema Terrestre<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vagner Camilotti * \u2013\u00a0 Manejar um parque n\u00e3o \u00e9 apenas manter a grama aparada, varrer,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Vagner Camilotti * \u2013\u00a0 Manejar um parque n\u00e3o \u00e9 apenas manter a grama aparada, varrer,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90129"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90129"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90129\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}