{"id":89643,"date":"2018-08-03T20:49:33","date_gmt":"2018-08-03T23:49:33","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=89643"},"modified":"2018-08-03T20:51:05","modified_gmt":"2018-08-03T23:51:05","slug":"inteligencia-artificial-e-pos-humanismo-artigo-de-giannino-piana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/inteligencia-artificial-e-pos-humanismo-artigo-de-giannino-piana\/","title":{"rendered":"Intelig\u00eancia artificial e p\u00f3s-humanismo. Artigo de Giannino Piana"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/dorakaufman.blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/A-etica-e-a-inteligencia-artificial-900x450.jpg\" alt=\"Resultado de imagem para Intelig\u00c3\u00aancia artificial e p\u00c3\u00b3s-humanismo\" width=\"639\" height=\"319\" \/><\/p>\n<p>\u201cA muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica p\u00f5e em causa o futuro de todo o g\u00eanero humano. As interroga\u00e7\u00f5es que surgem s\u00e3o, a esse respeito, as seguintes: que evolu\u00e7\u00e3o nos espera? Qual destino para a esp\u00e9cie humana? E ainda: a\u00a0intelig\u00eancia artificial\u00a0poder\u00e1 evoluir at\u00e9 se auto-humanizar?\u201d<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o \u00e9 do te\u00f3logo italiano\u00a0<strong>Giannino Piana<\/strong>, ex-professor das universidades de\u00a0<strong>Urbino<\/strong>\u00a0e de\u00a0<strong>Turim<\/strong>, e ex-presidente da\u00a0<strong>Associa\u00e7\u00e3o Italiana dos Te\u00f3logos Moralistas<\/strong>. O artigo foi publicado em\u00a0<strong>Rocca<\/strong>, n. 14, 15-07-2018. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Mois\u00e9s Sbardelotto<\/strong>.<\/p>\n<h3>Eis o texto.<\/h3>\n<p>A\u00a0intelig\u00eancia artificial\u00a0representa um desafio decisivo para o futuro (pr\u00f3ximo) da humanidade.<\/p>\n<p>Apesar da dificuldade de previs\u00f5es seguras, devido \u00e0 rapidez com que os processos tecnol\u00f3gicos evoluem e \u00e0s suas implica\u00e7\u00f5es globais, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, desde hoje, levantar a hip\u00f3tese da sua poss\u00edvel aplica\u00e7\u00e3o em\u00a0todos os setores da vida: do\u00a0sistema econ\u00f4mico-financeiro\u00a0\u00e0s empresas e \u00e0 pesquisa; da informa\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o; da sa\u00fade \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0s amizades.<\/p>\n<p>Mais controverso parece ser o ju\u00edzo sobre os resultados de tal aplica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o diz respeito s\u00f3 \u00e0s modalidades de desenvolvimento das diversas atividades humanas, mas tamb\u00e9m envolve, modificando profundamente o seu sentido, a consci\u00eancia pessoal e as\u00a0rela\u00e7\u00f5es inter-humanas.<\/p>\n<p>Como em todas as revolu\u00e7\u00f5es de \u00e9poca, portanto, est\u00e1 ganhando espa\u00e7o uma atitude ambivalente, misto de fasc\u00ednio e de\u00a0medo, de expectativa e de inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>A ambival\u00eancia dos resultados<\/h3>\n<p>A\u00a0intelig\u00eancia artificial\u00a0pode realmente oferecer \u00e0 humanidade novas (consistentes) potencialidades expressivos: basta pensar no aumento das capacidades cognitivas, gra\u00e7as \u00e0 possibilidade de extrair de grandes quantidades de dados, atrav\u00e9s de alguns\u00a0algoritmos, informa\u00e7\u00f5es importantes que permitam analisar problemas cada vez mais complexos; ou, no campo da atividade laboral, \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1quina das\u00a0tarefas mais chatas\u00a0e repetitivas com a consequente possibilidade de que o ser humano se dedique \u00e0s mais criativas e de controle da qualidade; ou ainda, ao desenvolvimento de processos cada vez mais extensos de comunica\u00e7\u00e3o, em virtude da possibilidade de fruir da tradu\u00e7\u00e3o imediata dos discursos em l\u00ednguas diversas fornecida por instrumentos tecnol\u00f3gicos j\u00e1 desde agora em vias avan\u00e7adas de aperfei\u00e7oamento.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 verdade e poder\u00edamos acrescentar outros efeitos positivos de relevante significado.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode ignorar os efeitos negativos, devidos \u2013 como dizem as previs\u00f5es \u2013 \u00e0 dr\u00e1stica\u00a0redu\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho\u00a0e, portanto, ao aumento do desemprego \u2013 calcula-se que, em 2020, nos\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>, 47% dos trabalhos ser\u00e3o automatizados; ou provocados \u2013 como constata o\u00a0<strong>Fundo Monet\u00e1rio Internacional\u00a0<\/strong>\u2013 pela hip\u00f3tese (n\u00e3o totalmente improv\u00e1vel) de que a revolu\u00e7\u00e3o dos rob\u00f4s fa\u00e7a o PIB subir, mas tamb\u00e9m envolva o crescimento das desigualdades; ou ainda (e finalmente) ditados, no campo da defesa militar, pela produ\u00e7\u00e3o de sistemas de armas completamente aut\u00f4nomas, os chamados\u00a0killer robots\u00a0[rob\u00f4s assassinos], que podem expulsar os sujeitos humanos das decis\u00f5es e da possibilidade de exerc\u00edcio do controle, diminuindo consequentemente (at\u00e9 anul\u00e1-la) a responsabilidade pessoal e alimentando a desumaniza\u00e7\u00e3o dos processos, com consequ\u00eancias tr\u00e1gicas sobre a fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p>Os cen\u00e1rios que se abrem, portanto, s\u00e3o, ao mesmo tempo, promissores e alarmantes, e isso, com ainda mais raz\u00e3o, se considerarmos \u2013 como destaca\u00a0Max Tegmark, do\u00a0<strong>MIT<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>Boston<\/strong>, em um recente livro (<strong><em>Vita 3.0<\/em><\/strong>, Ed. Cortina) \u2013 que os desenvolvimentos da intelig\u00eancia artificial s\u00e3o capazes de produzir em poucas semanas uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na configura\u00e7\u00e3o industrial e geopol\u00edtica.<\/p>\n<h3>A muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica<\/h3>\n<p>Mas o aspecto mais inquietante \u00e9 a muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, que p\u00f5e em causa o futuro de todo o g\u00eanero humano. As interroga\u00e7\u00f5es que surgem s\u00e3o, a esse respeito, as seguintes: que evolu\u00e7\u00e3o nos espera? Qual destino para a esp\u00e9cie humana? E ainda: a\u00a0intelig\u00eancia artificial\u00a0poder\u00e1 evoluir at\u00e9 se auto-humanizar?<\/p>\n<p>Nesse contexto, adquire pleno significado o termo \u201ctrans-humanismo\u201d, cunhado em 1957 por\u00a0<strong>Julien Huxley<\/strong>, renomado bi\u00f3logo, geneticista e escritor brit\u00e2nico, e parece encontrar cumprimento a \u201csuprema esperan\u00e7a\u201d referida por\u00a0<strong>Nietzsche<\/strong>\u00a0em<strong>\u00a0\u201cAssim falou Zaratustra\u201d<\/strong>, a de alcan\u00e7ar a\u00a0supera\u00e7\u00e3o da humanidade, gra\u00e7as ao nascimento de uma \u201cnova bela esp\u00e9cie\u201d de seres humanos superiores.<\/p>\n<p>Na realidade, tal muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser atribu\u00edda apenas \u00e0 rob\u00f3tica, mas tamb\u00e9m (e, em muitos aspectos, principalmente) \u00e0s\u00a0biotecnologias\u00a0\u2013 basta pensar nas manipula\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas \u2013 e \u00e0s no\u00e7\u00f5es adquiridas gra\u00e7as aos conhecimentos que v\u00eam do campo das neuroci\u00eancias. \u00c9 o que enfatiza o artigo 1 da\u00a0<strong>Carta dos Trans-humanistas Italianos<\/strong>, em que se afirma: \u201cGra\u00e7as \u00e0s biotecnologias e \u00e0 engenharia gen\u00e9tica, \u00e0s nanotecnologias e \u00e0 rob\u00f3tica, \u00e0 intelig\u00eancia artificial e \u00e0s neuroci\u00eancias, romperemos os nossos v\u00ednculos biol\u00f3gico-evolucionistas, emancipando-nos do envelhecimento, das doen\u00e7as, da pobreza e da ignor\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>O que emerge, portanto, \u00e9 a tend\u00eancia a \u201creinventar\u201d o ser humano, elevando-o a um n\u00edvel biol\u00f3gico superior e confiando na tecnologia como instrumento privilegiado para alcan\u00e7ar esse fim. Por tr\u00e1s da tens\u00e3o de ir \u201cal\u00e9m\u201d, da qual a\u00a0<strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong>\u00a0\u00e9 a meta mais avan\u00e7ada, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de confian\u00e7a incondicional nas potencialidades da t\u00e9cnica, uma forma de otimismo iluminista que v\u00ea nela o moderno\u00a0<strong>Prometeu<\/strong>\u00a0capaz de fazer com que o ser humano supere todos os limites que, desde sempre, experimenta.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das reservas j\u00e1 assinaladas em rela\u00e7\u00e3o a tal confian\u00e7a e a tal otimismo, a quest\u00e3o de fundo com a qual \u00e9 necess\u00e1rio se defrontar \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o da pessoa humana e os par\u00e2metros de defini\u00e7\u00e3o da sua dignidade, aos quais se apela para orientar o percurso delineado; ou \u00e9 o sistema de valores ao qual se faz refer\u00eancia para avaliar suas diversas etapas evolutivas.<\/p>\n<p>Os defensores do\u00a0p\u00f3s-humanismo\u00a0(ou, de acordo com a express\u00e3o de outros, do tecno-humanismo) levantam a hip\u00f3tese da fabrica\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das pr\u00e1ticas de\u00a0<strong>\u201cantropopoiese biotecnol\u00f3gica\u201d<\/strong>, de esp\u00e9cies futuras dotadas de capacidades que somente de modo inapropriado podem ainda ser definidas como humanas. O que levanta perguntas de grande seriedade, cuja resposta remete a reivindica\u00e7\u00f5es decisivas provenientes do mundo humanista.<\/p>\n<p>As compet\u00eancias t\u00e9cnicas sozinhas n\u00e3o s\u00e3o suficientes; requer-se um pensamento\u00a0criativo, uma nova cultura de s\u00edntese, capaz de assumir as potencialidades oferecidas pela ci\u00eancia, integrando-as no contexto de uma vis\u00e3o global do humano, que preserve plenamente a sua identidade.<\/p>\n<h3>A reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9tica emergente<\/h3>\n<p>A exig\u00eancia de tal cultura, cuja promo\u00e7\u00e3o implica a ado\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos registros de v\u00e1rias origens \u2013 dos das ci\u00eancias naturais aos das ci\u00eancias humanas, at\u00e9 os do saber liter\u00e1rio, art\u00edstico e filos\u00f3fico \u2013, foi evidenciada nos \u00faltimos anos por in\u00fameros estudiosos de diversas disciplinas.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o a partir da qual eles se moveram \u00e9 o medo (n\u00e3o sem raz\u00e3o) do desaparecimento dos estudos human\u00edsticos, que asseguram \u2013 como escreveu\u00a0<strong>Martha Nussbaum<\/strong>, renomada fil\u00f3sofa estadunidense em\u00a0<strong><em>Non per profitto. Perch\u00e9 le democrazie hanno bisogno della cultura umanistica<\/em><\/strong>\u00a0[N\u00e3o por lucro. Por que as democracias precisam da cultura humanista] (Ed. Il Mulino, 2014) \u2013, \u201ca capacidade de pensar criticamente, a capacidade de transcender os localismos e de enfrentar os problemas mundiais como \u2018cidad\u00e3os do mundo\u2019; e, por fim, a capacidade de representar simpaticamente a categoria do outro\u201d.<\/p>\n<p>O cultivo desse\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0cultural, que se apoia em um s\u00f3lido sistema humanista, exige acima de tudo a produ\u00e7\u00e3o de regras compartilhadas, voltadas a proteger os direitos e a combater as desigualdades. A previs\u00e3o, formulada por diversos soci\u00f3logos e economistas, de que, por causa da natureza dr\u00e1stica das mudan\u00e7as, se possa incorrer no\u00a0perigo, particularmente no per\u00edodo da transi\u00e7\u00e3o mais imediata, de uma consistente redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios pela concorr\u00eancia com as\u00a0m\u00e1quinas\u00a0imp\u00f5e a ado\u00e7\u00e3o de uma robusta a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica voltada a restabelecer os equil\u00edbrios, atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es destinadas tanto a atribuir rotas de crescimento global para o sistema econ\u00f4mico, quanto a garantir, atrav\u00e9s da oferta de servi\u00e7os adequados \u2013 pense-se na reforma do\u00a0<strong>Estado social<\/strong>\u00a0\u2013, a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas das categorias menos privilegiadas.<\/p>\n<p>A esse respeito, dois setores merecem uma aten\u00e7\u00e3o particular. O primeiro \u00e9 o do\u00a0mundo do trabalho, em que se torna necess\u00e1ria a defini\u00e7\u00e3o de um novo contrato social, que preveja, por um lado, a redu\u00e7\u00e3o das horas de trabalho \u2013 o slogan \u201ctrabalhar menos para que todos trabalhem\u201d adquire uma indubit\u00e1vel atualidade \u2013 com o incremento, al\u00e9m disso, do tempo livre, que favorece o desenvolvimento de outras atividades de crescimento pessoal e de socializa\u00e7\u00e3o; e que solicite, por outro lado, a forma\u00e7\u00e3o permanente dos trabalhadores em vista de uma constante requalifica\u00e7\u00e3o profissional, indispens\u00e1vel se se quiser enfrentar a grande mobilidade atual e criar as condi\u00e7\u00f5es para a reinser\u00e7\u00e3o no ciclo produtivo.<\/p>\n<p>O segundo setor \u00e9 o\u00a0militar, em que \u2013 como foi lembrado \u2013 a presen\u00e7a de\u00a0armas completamente aut\u00f4nomas\u00a0exige que sejam adotadas severas normas internacionais, voltadas a evitar seu desenvolvimento e sua prolifera\u00e7\u00e3o, e a permitir a possibilidade do controle e da tempestividade das interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As perspectivas que a introdu\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong>\u00a0abre, portanto, provocam radicalmente a reflex\u00e3o antropol\u00f3gica e moral. A aten\u00e7\u00e3o aos impactos abrangentes dela sobre todos os \u00e2mbitos da vida privada e p\u00fablica solicita um compromisso de amplo alcance, que exige a abertura de um debate o mais vasto poss\u00edvel com o envolvimento de toda a cidadania.<\/p>\n<p>E estimula a assun\u00e7\u00e3o de responsabilidades pol\u00edticas espec\u00edficas, para tornar os novos sistemas introduzidos pela evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mais confi\u00e1veis e mais control\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica p\u00f5e em causa o futuro de todo o g\u00eanero humano. 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