{"id":89383,"date":"2018-07-30T12:00:04","date_gmt":"2018-07-30T15:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=89383"},"modified":"2018-07-29T22:53:46","modified_gmt":"2018-07-30T01:53:46","slug":"a-saga-de-dorival-santos-catador-de-lixo-que-virou-doutor-em-linguistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-saga-de-dorival-santos-catador-de-lixo-que-virou-doutor-em-linguistica\/","title":{"rendered":"A saga de Dorival Santos, catador de lixo que virou doutor em lingu\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/catador_lixo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-89384\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/catador_lixo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/catador_lixo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/catador_lixo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Sa\u00ed de casa pouco depois das 6h30 no dia 10 de maio. Preciso pegar dois \u00f4nibus para chegar ao\u00a0<em>campus<\/em>\u00a0da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que fica no bairro da Trindade, em Florian\u00f3polis. O primeiro passa perto das 7 horas. Alugo um quarto em uma pens\u00e3o na Costeira do Pirajuba\u00e9, um bairro residencial que fica na parte centro-oeste da cidade, e levo quase uma hora e meia de casa at\u00e9 a sala de aula, no Centro de Comunica\u00e7\u00e3o e Express\u00e3o (CCE).<\/p>\n<p>Naquele dia, eu precisava estar cedo na sala Machado de Assis para a defesa de minha tese de doutorado, marcada para come\u00e7ar \u00e0s 8h30. Dentro do \u00f4nibus lotado, iniciei um ensaio mental do que deveria falar, como teria de me portar e quais seriam as perguntas da banca dos professores. Carregava nas costas uma mochila pesada com meu computador e todos os materiais. No misto de adrenalina e pressa, um turbilh\u00e3o de pensamentos cruzou minha mente como em um flashback. Lembrei-me de quando voltei para a escola para terminar o segundo grau, aos 21 anos, de minha entrada no curso de letras portugu\u00eas\/franc\u00eas e de meu primeiro dia numa sala de aula como professor. Do mestrado. E agora, finalmente, o dia D: a defesa do doutorado.<\/p>\n<p>Passado o nervoso, deu tudo certo. Quando a defesa terminou, quase quatro horas depois, uma p\u00e1gina de minha vida virou. Os professores disseram que o trabalho contribuiu para o campo e recomendaram a continuidade da pesquisa. Subi mais um degrau. Para mim, aquele momento foi como um p\u00f3dio.<\/p>\n<div id=\"pub-in-text\" class=\"outstream clearfix\" data-google-query-id=\"CJHi-Y7SxdwCFURBDAod8aEMtg\"><\/div>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\"><\/div>\n<p>Minha pesquisa desde a faculdade \u00e9 na \u00e1rea da lingu\u00edstica, uma ci\u00eancia nova, foco de estudo nos \u00faltimos 100 anos, mas no Brasil at\u00e9 um pouco menos do que isso. Em minha tese, abordo a sem\u00e2ntica, uma \u00e1rea da lingu\u00edstica. Estudo como o ser humano significa as coisas que ele percebe no mundo e como ele se expressa pela linguagem, qual a rela\u00e7\u00e3o da palavra. Meu foco s\u00e3o os verbos de movimento. Por meio da linguagem a gente faz tudo. \u00c9 inerente ao ser humano. Ela revela o que voc\u00ea \u00e9.<\/p>\n<p>Mas essas reflex\u00f5es eu comecei a fazer mesmo antes de entrar na academia. Nasci e cresci no bairro dos Moreiras, na periferia de Piedade, no interior de S\u00e3o Paulo. Era uma bairro de gente humilde, pobre mesmo. Aprendi a ler muito cedo, fui alfabetizado por minha m\u00e3e, Crelia Oliveira, quando tinha uns 6 anos de idade. Ela recolhia livros e gibis descartados e me ensinou as s\u00edlabas das palavras a partir de historinhas da Turma da M\u00f4nica, do Tio Patinhas e do pistoleiro Tex Willer. Nessa \u00e9poca, ela e minhas duas irm\u00e3s mais velhas j\u00e1 trabalhavam em um lix\u00e3o que ficava na Rodovia Raimundo Antunes Soares (SP-79), no caminho que leva de Piedade a Sorocaba, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Eu ia \u00e0 escola, mas foi em casa que aprendi a ler e ganhei gosto e h\u00e1bito de leitura. E foi nesse per\u00edodo que tamb\u00e9m precisei trabalhar com elas na separa\u00e7\u00e3o do lixo descart\u00e1vel. De manh\u00e3 eu ia para a aula na Escola Estadual Maria Paula. Muitas vezes eu n\u00e3o conseguia escrever de dor, porque meus dedos estavam cortados e n\u00e3o era incomum que meus cadernos tivessem manchas de sangue.<\/p>\n<p>Os tempos na escola, especialmente na inf\u00e2ncia, n\u00e3o foram f\u00e1ceis. De vez em quando eu ouvia os colegas dizerem \u201cl\u00e1 vem o lixeiro\u201d. Outros faziam quest\u00e3o de dizer que eu estava usando uma roupa que eles tinham jogado fora e que eu, sem saber, tinha catado entre os materiais descartados. Eles podiam comprar, mas minha roupa surrada era a achada no lixo, assim como, em alguns dias, meu caf\u00e9 da manh\u00e3 era disputado com os urubus e c\u00e3es. Eu sempre sentava no fundo da sala, sozinho. Enquanto eles estavam brincando, eu estava trabalhando.<\/p>\n<p>Quando o sino soava para marcar o fim das aulas, eu descia e subia as ladeiras caminhando por mais de uma hora at\u00e9 o lix\u00e3o. No caminho, j\u00e1 aproveitava para verificar o que podia ser recolhido de material recicl\u00e1vel das lixeiras da cidade. Os colegas de turma viam aquilo com espanto e nojo.<\/p>\n<div id=\"pub-retangulo-2\" class=\"arroba publicidade clearfix\" data-google-query-id=\"CIOQ9Y7SxdwCFU5SDAod2Y0Atw\">\n<p>Por isso, fui aprendendo aos poucos o que era ser invis\u00edvel. S\u00f3 entre n\u00f3s, garimpeiros, n\u00e3o \u00e9ramos invis\u00edveis. \u00c9 assim que nos tratamos, como garimpeiros. O trabalho no lix\u00e3o me ensinou que neste mundo a gente est\u00e1 para sobreviver. Se eu n\u00e3o trabalhasse, a gente ia morrer fome. Al\u00e9m de minhas duas irm\u00e3s mais velhas, meus pais tiveram mais dois filhos, e meu pai era muito ausente. N\u00e3o lembro bem quanto a gente ganhava quando eu era crian\u00e7a, mas nos \u00faltimos tempos, em 2006, eram R$ 75 por semana.<\/p>\n<\/div>\n<p>Havia \u00e9pocas em que o trabalho no lix\u00e3o n\u00e3o rendia muito, e a gente alternava com outros servi\u00e7os. Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, trabalhei para descendentes de japoneses no plantio e na colheita de morango e alcachofra. O dif\u00edcil ali era quando tinha de passar agrot\u00f3xico. Eles s\u00f3 davam um len\u00e7o para cobrir o nariz, como num faroeste. E, quando eu vomitava, davam leite para eu tomar. Ao chegar pr\u00f3ximo do feriado de Finados, em novembro, eu tamb\u00e9m trabalhava limpando t\u00famulos em cemit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Tinha de ir aonde dava mais dinheiro, mas o mais regular era o lix\u00e3o. L\u00e1 tamb\u00e9m a gente recolhia itens para casa, roupas para vestir, e eu comecei uma biblioteca. Antes de o primeiro caminh\u00e3o chegar, eu contava aos outros garimpeiros o que estava procurando. Ali\u00e1s, todo mundo contava. Se tinha algu\u00e9m esperando nen\u00ea, avisava que queria roupa de beb\u00ea e quem achasse trocava por algo de que precisasse.<\/p>\n<p>Eu pedia os livros, e os que estavam em bom estado eu levava para casa. Meu intuito era fazer uma biblioteca comunit\u00e1ria. No come\u00e7o, montei umas prateleiras no meu quarto e fui catalogando. Cheguei a 900 direitinho. Depois ficou complicado e fui separando s\u00f3 por autor. Cheguei a ter uns 3 mil livros.<\/p>\n<p>Desses que eu achei no lix\u00e3o tenho at\u00e9 hoje\u00a0<em>Vidas secas<\/em>, de Graciliano Ramos, que \u00e9 o livro de minha vida. Tamb\u00e9m guardo tr\u00eas do Machado de Assis (<em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas<\/em>,\u00a0<em>O alienista<\/em>,\u00a0<em>Esa\u00fa e Jac\u00f3<\/em>),\u00a0<em>Sagarana<\/em>, de Guimar\u00e3es Rosa,\u00a0<em>Madame Bovary<\/em>, de Gustave Flaubert e\u00a0<em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, com o tempo, foi se tornando cada dia mais dif\u00edcil trabalhar e ir para a escola. Minha m\u00e3e passou em um concurso para gari na cidade, mas meus pais se separaram de vez e as contas n\u00e3o fechavam porque a renda de toda a fam\u00edlia era compartilhada. Quando terminei a oitava s\u00e9rie, para o desgosto de minha m\u00e3e, larguei a escola.<\/p>\n<p>Fiquei parado em torno de seis anos, mas continuei lendo bastante. Essa rotina nunca saiu de mim. O tempo foi me mostrando que aquela vida n\u00e3o ia ter futuro, n\u00e3o s\u00f3 pela pouca renda, mas por causa do perigo das doen\u00e7as e tamb\u00e9m dos caminh\u00f5es de lixo, que com frequ\u00eancia atropelavam algu\u00e9m no lix\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia insistiu para que eu voltasse \u00e0 escola, e com 21 anos retornei aos bancos escolares para fazer o ensino m\u00e9dio. Minha m\u00e3e e uma das minhas irm\u00e3s come\u00e7aram a receber o Bolsa Fam\u00edlia e aquilo fez uma grande diferen\u00e7a em casa. N\u00e3o foi simples, os dedos sangravam como antes, mas decidi que iria terminar e fazer faculdade. Passei no vestibular de letras na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Assis, no ano de 2007. O dinheiro outra vez foi um limitador, porque a Bolsa Perman\u00eancia que recebia era de apenas R$ 200. S\u00f3 meu aluguel era R$ 150.<\/p>\n<div id=\"pub-retangulo-3\" class=\"arroba publicidade clearfix\" data-google-query-id=\"CPCbp4_SxdwCFQ2DyAodk1kHtQ\">\n<p>Mais ou menos na \u00e9poca em que me formei, minha m\u00e3e e minhas irm\u00e3s tamb\u00e9m deixaram Piedade e vieram morar em Guaramirim, no interior de Santa Catarina. Em 2011, j\u00e1 diplomado, entrei no mestrado da UFSC e aqui permaneci. De l\u00e1 para c\u00e1 venho conciliando a pesquisa acad\u00eamica com aulas de portugu\u00eas na rede p\u00fablica. N\u00e3o quero ser exce\u00e7\u00e3o e acho que minha pr\u00f3pria fam\u00edlia j\u00e1 d\u00e1 os sinais disso. Minha irm\u00e3 mais nova est\u00e1 estudando pedagogia.<\/p>\n<\/div>\n<p>O lix\u00e3o de Piedade n\u00e3o existe mais. Virou um aterro sanit\u00e1rio. Depois da defesa, liguei para minha m\u00e3e e choramos um bocado. Ela disse que iria \u00e0 igreja contar que tem um filho doutor.<\/p>\n<p>Ainda quero conhecer a Fran\u00e7a e fazer um p\u00f3s-doutorado na Universidade de Paris III, que faz parte da Sorbonne. No ano passado, tirei at\u00e9 o passaporte, mas n\u00e3o consegui a bolsa. Doeu, mas as coisas que me abalam n\u00e3o me derrubam mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00ed de casa pouco depois das 6h30 no dia 10 de maio. 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