{"id":89346,"date":"2018-07-29T00:00:18","date_gmt":"2018-07-29T03:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=89346"},"modified":"2018-07-29T12:35:24","modified_gmt":"2018-07-29T15:35:24","slug":"sociogenomica-caixa-de-pandora-ou-pseudociencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/sociogenomica-caixa-de-pandora-ou-pseudociencia\/","title":{"rendered":"Sociogen\u00f4mica: caixa de pandora ou pseudoci\u00eancia?"},"content":{"rendered":"<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-8\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1531145482946\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h2><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/FundoBanner_Julh18.gif\" width=\"639\" height=\"231\" \/>Em vez de ter sido banida diante do horror do nazismo e de outros casos de limpeza \u00e9tnica, a eugenia renasce, agora endossada por especialidades da ci\u00eancia moderna, que usam a gen\u00e9tica para explicar o comportamento humano.<\/h2>\n<h3>Ra\u00e7as, sempre as ra\u00e7as.<\/h3>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o aqui descrever as assim chamadas ra\u00e7as humanas; mas darei in\u00edcio a uma pesquisa sobre qual o valor das diferen\u00e7as entre elas (ra\u00e7as) sob o ponto de vista de classifica\u00e7\u00e3o e de como estas se originaram.\u201d Esse par\u00e1grafo abre o cap\u00edtulo \u2018Sobre as Ra\u00e7as do Homem\u2019 do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/darwin-online.org.uk\/converted\/pdf\/1889_Descent_F969.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>A Descend\u00eancia do Homem e Sele\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00e3o ao Sexo<\/em><\/a>, do naturalista brit\u00e2nico Charles Darwin (1809-1882), publicado primeiramente em 1871 e cuja segunda edi\u00e7\u00e3o apareceu em 1879.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-2\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-4\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_left  vc_custom_1531150634159\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper   vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" class=\"vc_single_image-img \" title=\"sociogen_1\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/sociogen_1-380x294.jpg\" alt=\"sociogen_1\" width=\"380\" height=\"294\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1531148174987\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h5>O problema maior n\u00e3o \u00e9 tanto a discuss\u00e3o das ra\u00e7as como uma mera classifica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, mas sim aquele decorrente das infer\u00eancias que s\u00e3o feitas ao associar determinados predicados comportamentais a diferentes grupos e etnias.<\/h5>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_center  vc_custom_1531147317757\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper   vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" class=\"vc_single_image-img attachment-full\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN%C3%94MICA.png\" sizes=\"(max-width: 380px) 100vw, 380px\" srcset=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN\u00d4MICA.png 380w, http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN\u00d4MICA-300x28.png 300w\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"35\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-6\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1531148283492\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Ap\u00f3s uma extensa narrativa, na qual Darwin apresenta os argumentos de v\u00e1rios naturalistas que defendiam que os humanos em exist\u00eancia naquela \u00e9poca podiam ser divididos em v\u00e1rias esp\u00e9cies, ele conclui com a sua costumeira sensatez que \u201c\u2026tanto quanto possamos julgar, embora sempre podendo estar errado, nenhuma das diferen\u00e7as entre as ra\u00e7as do homem apresentam benef\u00edcios especiais a ele.\u201d E ainda: \u201cA grande variabilidade de todas as diferen\u00e7as externas entre as ra\u00e7as do homem indicam que essas n\u00e3o devem ter muita import\u00e2ncia; porque, se fossem importantes, elas teriam sido fixadas e preservadas, ou eliminadas.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a cautela de Darwin em ressaltar que caracter\u00edsticas tais como cor da pele, tipo de pelos, distribui\u00e7\u00e3o muscular, estrutura \u00f3ssea, etc. eram devidas a adapta\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas ou de h\u00e1bitos, fica claro nesse e em outros cap\u00edtulos de a\u00a0<em>Descend\u00eancia do Homem<\/em>\u00a0que ele aceitava que as popula\u00e7\u00f5es humanas eram constitu\u00eddas por ra\u00e7as.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as humanas se revelou longeva e at\u00e9 certo ponto refrat\u00e1ria aos fatos, pois, mesmo nos dias atuais, em que a gen\u00e9tica moderna mostrou que tal conceito \u00e9 improcedente, a quest\u00e3o racial continua a alimentar o debate entre os pr\u00f3prios cientistas e leigos. O problema maior n\u00e3o \u00e9 tanto a discuss\u00e3o das ra\u00e7as como uma mera classifica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, mas sim aquele decorrente das infer\u00eancias que s\u00e3o feitas ao associar determinados predicados comportamentais a diferentes grupos e etnias.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-8\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h3><strong>A eugenia<\/strong><\/h3>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 preocupante que a modera\u00e7\u00e3o de Darwin n\u00e3o tenha transbordado para os dias de hoje, quando renasce o espectro da eugenia, agora endossado por algumas especialidades da ci\u00eancia moderna. Nesse particular, o bin\u00f4mio ra\u00e7a e eugenia se destaca, como veremos a seguir.<\/p>\n<p>A eugenia \u00e9 um termo cunhado pelo antrop\u00f3logo e matem\u00e1tico ingl\u00eas Francis Galton (1822-1911), um primo distante de Darwin que, em 1883, publicou o livro\u00a0<a href=\"http:\/\/galton.org\/books\/human-faculty\/text\/human-faculty.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>A Pesquisa sobre a Faculdade Humana<\/em><\/a>. O foco principal da obra era \u201co estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gera\u00e7\u00f5es, seja f\u00edsica ou mentalmente\u201d.<\/p>\n<p>Galton sugere que \u201cseria muito pr\u00e1tico produzir uma ra\u00e7a de homens altamente qualificada por meio de casamentos cuidadosamente planejados ao longo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es consecutivas.\u201d Ocorre que o autor, assim como v\u00e1rios de seus seguidores, baseava o suposto melhoramento humano nas classes sociais e nas ra\u00e7as. Segundo Galton, a sociedade a qual ele pr\u00f3prio pertencia era o padr\u00e3o a ser atingido. Portanto, subestimou tamb\u00e9m o meio ambiente como importante fator na chamada sele\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Galton foi sucedido pelo estat\u00edstico brit\u00e2nico Karl Pearson (1857-1936), um ap\u00f3stolo fervoroso que ajudou a criar a biometria, um instrumento que introduziu a an\u00e1lise quantitativa ao estudo das ra\u00e7as e que passou a subsidiar ent\u00e3o as ideias eug\u00eanicas. \u00c9 revelador o fato de que Galton, Pearson e tantos outros tenham preferido se apoiar mais fortemente na gen\u00e9tica do que na educa\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gia para melhorar a sociedade. Talvez esse vi\u00e9s tra\u00edsse a cren\u00e7a, consciente ou n\u00e3o, de que a natureza aleat\u00f3ria da gen\u00e9tica isentava de responsabilidade as classes dominantes. Para eles, ser portador ou n\u00e3o de defici\u00eancias era apenas uma quest\u00e3o de m\u00e1 ou boa sorte.<\/p>\n<p>Embora a eugenia tenha sido batizada por Galton, os princ\u00edpios dessa doutrina s\u00e3o antigos. Em 380 a.C, o fil\u00f3sofo grego Plat\u00e3o deixou registrado, em seu livro\u00a0<em>A Rep\u00fablica<\/em>, que, na sociedade humana, a reprodu\u00e7\u00e3o deveria ser regulada pelo Estado e, de quebra, a prog\u00eanie n\u00e3o deveria saber quem eram seus pais. Depois, entre os s\u00e9culos 18 e 19, o economista brit\u00e2nico Thomas Malthus (1766-1834), preocupado com o crescimento populacional, tamb\u00e9m recomendou pr\u00e1ticas eug\u00eanicas como solu\u00e7\u00e3o para as crises, que, fatalmente, ocorrer\u00e3o quando os recursos naturais atingirem seu limite.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria mais recente, a eugenia foi adotada e modificada por v\u00e1rios l\u00edderes, que viam no conjunto dessas ideias uma forma de expressar seus preconceitos, adaptando-os de maneira a justificar a\u00e7\u00f5es racistas que\u00a0hipoteticamente teriam uma base cient\u00edfica. O regime nazista ilustrou de maneira eloquente a malversa\u00e7\u00e3o do conhecimento. Outros incont\u00e1veis epis\u00f3dios de limpeza \u00e9tnica tamb\u00e9m resultaram em tr\u00e1gicos genoc\u00eddios, todos objetivando a \u201cpurifica\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as\u201d e sempre em nome do bem social. Mediante o horror causado por esses exemplos, era de se supor que a eugenia tivesse sido banida de uma vez por todas por sociedades democr\u00e1ticas, bem-educadas e moderadas em suas opini\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  vc_custom_1531150307362 grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-6\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>No entanto, a convic\u00e7\u00e3o generalizada de que as ra\u00e7as existem e de que estas s\u00e3o pass\u00edveis de melhoramento ainda persiste. Isso demonstra que talvez exista um consciente coletivo que se nutre de premissas que, se n\u00e3o falsas, s\u00e3o pelo menos duvidosas. Quais seriam os agentes subjacentes a essa tend\u00eancia? Imediatamente, vem \u00e0 mente a simplicidade de pensamento. \u00c9 mais f\u00e1cil atribuir ao comportamento individual o componente gen\u00e9tico do que tentar compreender a din\u00e2mica social em toda sua complexidade. Essa op\u00e7\u00e3o pode ser medida. Um teste realizado com v\u00e1rias turmas de alunos de gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstrou o n\u00edtido vi\u00e9s surgido quando se solicitava a eles que decidissem entre fatores gen\u00e9ticos e culturais para explicar certos comportamentos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-4\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_center  vc_custom_1531150652789\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper   vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" class=\"vc_single_image-img \" title=\"sociogen_2\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/sociogen_2-380x294.jpg\" alt=\"sociogen_2\" width=\"380\" height=\"294\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1531149357354\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h5>\u00c9 mais f\u00e1cil atribuir ao comportamento individual o componente gen\u00e9tico do que tentar compreender a din\u00e2mica social em toda sua complexidade.<\/h5>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_center  vc_custom_1531150830220\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper   vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" class=\"vc_single_image-img attachment-full\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN%C3%94MICA.png\" sizes=\"(max-width: 380px) 100vw, 380px\" srcset=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN\u00d4MICA.png 380w, http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN\u00d4MICA-300x28.png 300w\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"35\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-2\"><\/div>\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-8\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1531150535094\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Dentre cerca de 20 tipos diferentes de comportamentos, alguns nocivos ou amea\u00e7adores para a sociedade ou alvo de preconceito (viol\u00eancia, abuso de drogas e alcoolismo, ego\u00edsmo, orienta\u00e7\u00e3o sexual), outros neutros ou ben\u00e9ficos (talento para matem\u00e1tica e artes, solidariedade, desempenho atl\u00e9tico etc.), a maioria dos alunos invariavelmente atribu\u00eda os \u2018maus\u2019 comportamentos ao fator gen\u00e9tico e os \u2018bons\u2019 comportamentos ao ambiente cultural. O resultado evidencia a presen\u00e7a de consider\u00e1vel carga de preconceitos, mesmo em uma popula\u00e7\u00e3o mais esclarecida. Os alunos do exemplo acima n\u00e3o est\u00e3o sozinhos, e nem representam uma corrente de pensamento recente.<\/p>\n<h3><strong>A sociobiologia<\/strong><\/h3>\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o do componente gen\u00e9tico resulta de um intenso bombardeio que teve in\u00edcio com o advento da sociobiologia, popularizada pelo bi\u00f3logo norte-americano Edward Osborne Wilson (1929-) com seu livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.hup.harvard.edu\/catalog.php?isbn=9780674002357\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Sociobiologia: a nova s\u00edntese<\/em><\/a>, publicado em 1975. A sociobiologia prop\u00f5e investigar qual a base biol\u00f3gica do comportamento animal, extensivo aos humanos, tendo como suporte experimentos que tentam identificar e quantificar a influ\u00eancia individual dos componentes gen\u00e9ticos e ambientais. O trabalho de Wilson deixou um legado importante, pois em seus estudos com animais, principalmente insetos, o uso de rigorosos controles lhe permitiu tirar conclus\u00f5es objetivas sobre a heran\u00e7a do comportamento social.<\/p>\n<p>Mas isso se torna bem mais complicado quando se trata de humanos, principalmente devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es impostas pela \u00e9tica. A necessidade de cautela imposta pelas limita\u00e7\u00f5es experimentais n\u00e3o inibiu pesquisadores que, inspirados pela sociobiologia, conduziram experimentos mal elaborados e que, fatalmente, levaram a conclus\u00f5es equivocadas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar aqui que, sem d\u00favida, existem componentes gen\u00e9ticos influenciando o comportamento humano. No entanto, \u00e9 importante que a demonstra\u00e7\u00e3o experimental elimine a possibilidade de que os efeitos observados tenham como origem fatores culturais.<\/p>\n<p>No arsenal da sociobiologia, a arma mais devastadora foi o estudo do quociente de intelig\u00eancia (QI). O teste de QI foi inventado por volta de 1895 pelo psic\u00f3logo franc\u00eas Alfred Binet (1857-1911), com a finalidade de medir o aproveitamento curricular de estudantes do ensino fundamental na Fran\u00e7a. A partir da\u00ed, o teste de QI foi adaptado e, em suas v\u00e1rias modalidades, foi adotado por muitos psic\u00f3logos e sociobi\u00f3logos como uma maneira de prospectar a intelig\u00eancia individual humana.<\/p>\n<p>Os resultados levaram os pesquisadores a tecer hip\u00f3teses abrangentes que culminaram na conclus\u00e3o de que a capacidade cognitiva era herdada. Talvez o maior expoente dessa corrente do pensamento tenha sido o psic\u00f3logo norte-americano Arthur Jensen (1923-2012), cujo trabalho n\u00e3o tardou a ser extrapolado para as ra\u00e7as. Ao comparar os desempenhos de brancos e n\u00e3o brancos, Jensen concluiu que o aprendizado conceitual era mais evidente nos primeiros.<\/p>\n<p>Esse trabalho pol\u00eamico foi um divisor de \u00e1guas. Embora o\u00a0<a href=\"https:\/\/pdfs.semanticscholar.org\/d9fe\/c971513cd90f2d61b3886987f63794e97054.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">texto de Jensen<\/a>, de 1969, tenha deflagrado uma feroz cr\u00edtica, o debate ainda prossegue nos dias de hoje de maneira apaixonada, atraindo legi\u00f5es de pesquisadores, desde os s\u00e9rios at\u00e9 os oportunistas que militam no cen\u00e1rio sociopol\u00edtico.<\/p>\n<p>Durante algum tempo, em decorr\u00eancia da pol\u00eamica levantada, a sociobiologia fez com que aqueles que se dedicassem a essa \u00e1rea do conhecimento fossem encarados com suspeita. Mas isso n\u00e3o durou muito tempo. Agora, em raz\u00e3o de uma velha estrat\u00e9gia de\u00a0<em>marketing<\/em>\u00a0que ensina que um produto impopular pode novamente ganhar as gra\u00e7as do p\u00fablico consumidor, bastando para tal glamoriz\u00e1-lo, mudando seu nome ou sua roupagem, surge uma nova especialidade.<\/p>\n<h3><strong>A sociogen\u00f4mica<\/strong><\/h3>\n<p>Do casamento entre a sociologia e a gen\u00f4mica, surge a sociogen\u00f4mica. A gen\u00f4mica \u00e9 o estudo dos dados gerados pelas t\u00e9cnicas modernas que viabilizaram o sequenciamento em massa do DNA. Com essa abordagem, \u00e9 poss\u00edvel hoje produzir, rapidamente e com custo relativamente baixo, genomas humanos completos. Os enormes bancos de dados est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos cientistas que desejam examin\u00e1-los para entender de que forma os genes contribuem tanto para a sa\u00fade como para a doen\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-2\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-4\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_center  vc_custom_1531151129877\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper   vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" class=\"vc_single_image-img \" title=\"sociogen_3\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/sociogen_3-380x294.jpg\" alt=\"sociogen_3\" width=\"380\" height=\"294\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1531151276675\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h5>O mercado faz dos pais presas f\u00e1ceis, por meio de propaganda na qual deposita sobre os ombros deles a responsabilidade pelo destino de seus filhotes. A sociogen\u00f4mica \u00e9 hoje uma reedi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos antigos testes vocacionais. Com essas informa\u00e7\u00f5es, os pais poderiam ent\u00e3o fomentar o desenvolvimento dos filhos, direcionando-os para os canais adequados.<\/h5>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_center  vc_custom_1531151386126\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper   vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" class=\"vc_single_image-img attachment-full\" src=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN%C3%94MICA.png\" sizes=\"(max-width: 380px) 100vw, 380px\" srcset=\"http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN\u00d4MICA.png 380w, http:\/\/cienciahoje.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/detalheSOCIOGEN\u00d4MICA-300x28.png 300w\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"35\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-6\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Os bancos de dados tamb\u00e9m chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos soci\u00f3logos, que enxergaram nesse reposit\u00f3rio uma rica fonte de informa\u00e7\u00f5es que, finalmente, lhes daria mais credibilidade ao investigar os detalhes da heran\u00e7a do comportamento humano. Sim, quando se achava que a paz havia voltado, o lado sombrio da sociobiologia volta a agitar a comunidade. Em seu livro ainda n\u00e3o traduzido para o portugu\u00eas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sup.org\/books\/title\/?id=26746\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Social por Natureza: A Promessa e o Perigo da \u201cSociogen\u00f4mica\u201d<\/em><\/a>(tradu\u00e7\u00e3o livre), a soci\u00f3loga Catherine Bliss discute essa nova investida e as consequ\u00eancias sociais dos avan\u00e7os da biotecnologia.<\/p>\n<p>Bliss apresenta um texto muito bem escrito e elegante, que pode ser resumido em uma frase: a m\u00eddia e o mercado s\u00e3o respons\u00e1veis pela \u201cgenetifica\u00e7\u00e3o\u201d do comportamento social e, para tal, contam com o benepl\u00e1cito geral, resultante do j\u00e1 mencionado desejo coletivo de acreditar em ra\u00e7as e na heran\u00e7a do comportamento. A autora mostra que h\u00e1 cada vez mais artigos cient\u00edficos publicados sobre esse tema, sendo que a maioria usa a simples correla\u00e7\u00e3o entre a ocorr\u00eancia de certas sequ\u00eancias de DNA no\u00a0<em>pool<\/em>\u00a0dos bancos de dados e algum comportamento espec\u00edfico.<\/p>\n<p>Embora as correla\u00e7\u00f5es sejam sacramentadas pela estat\u00edstica, nunca h\u00e1 uma demonstra\u00e7\u00e3o clara de que os genes s\u00e3o de fato respons\u00e1veis pela caracter\u00edstica selecionada. Sem muito discernimento, a m\u00eddia sensacionalista propaga essas conclus\u00f5es como se fossem verdadeiras, e o resultado \u00e9 que todos, incluindo as crian\u00e7as, est\u00e3o convencidos de que s\u00e3o os genes que regem nossas vidas.<\/p>\n<p>Aliando-se \u00e0 m\u00eddia, dezenas de empresas oferecem ao p\u00fablico a oportunidade de testar seu DNA, a fim de descobrir se s\u00e3o portadores de talentos espec\u00edficos, se\u00a0s\u00e3o inteligentes, l\u00edderes, bons dan\u00e7arinos ou atletas, se t\u00eam a tend\u00eancia de assumir riscos, se lidam bem com o estresse, se encontrar\u00e3o facilmente o amor e assim por diante.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row section vc_row-fluid  vc_custom_1531150307362 grid_section\">\n<div class=\" section_inner clearfix\">\n<div class=\"section_inner_margin clearfix\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-8\">\n<div class=\"vc_column-inner \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element  vc_custom_1532007698386\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>O mercado faz dos pais presas f\u00e1ceis, por meio de propaganda na qual deposita sobre os ombros deles a responsabilidade pelo destino de seus filhotes. A sociogen\u00f4mica \u00e9 hoje uma reedi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos antigos testes vocacionais. Com essas informa\u00e7\u00f5es, os pais poderiam ent\u00e3o fomentar o desenvolvimento dos filhos, direcionando-os para os canais adequados.<\/p>\n<p>O leitor mais atento poder\u00e1 descobrir nas entrelinhas que a sociogen\u00f4mica tem o potencial de ressuscitar o velho fantasma da eugenia e, oportunamente, tentar novamente validar seus enunciados. Note-se que a biotecnologia atual j\u00e1 viabiliza manipula\u00e7\u00f5es com embri\u00f5es, humanos ou n\u00e3o. \u00c9 relativamente f\u00e1cil hoje em dia editar os genomas no sentido de corrigir defeitos gen\u00e9ticos. Mas as mesmas t\u00e9cnicas poderiam tamb\u00e9m ser usadas para produzir embri\u00f5es sob encomenda.<\/p>\n<h3><strong>Um pouco de sobriedade<\/strong><\/h3>\n<p>Nada como um tratamento num\u00e9rico para desfazer mitos. Existe em gen\u00e9tica um par\u00e2metro denominado herdabilidade, que mede o efeito de fatores gen\u00e9ticos e n\u00e3o gen\u00e9ticos sobre determinada caracter\u00edstica. A herdabilidade \u00e9 o resultado de uma raz\u00e3o e, assim, \u00e9 expressa por valores que v\u00e3o de zero a um.<\/p>\n<p>V\u00e1rios comportamentos j\u00e1 foram medidos empregando essa abordagem num\u00e9rica, seguindo protocolos r\u00edgidos (descritos em v\u00e1rios trabalhos publicados entre 1990 e 2007). Por exemplo, sabe-se que a altura de um indiv\u00edduo apresenta o valor de 0,88, o que mostra que o componente gen\u00e9tico \u00e9 relativamente alto. As impress\u00f5es digitais t\u00eam 0,97, sendo, assim, altamente herd\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por outro lado, a medida do QI tem apenas 0,69. E mais: se os elementos que comp\u00f5em o teste de QI forem considerados individualmente, como por exemplo, a velocidade de processamento espacial, a velocidade de aquisi\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e a de processamento da informa\u00e7\u00e3o, tem-se, em m\u00e9dia, 0,37 \u2013 valores bem mais baixos, portanto.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o aqui \u00e9 a seguinte: pode haver contribui\u00e7\u00e3o do fator gen\u00e9tico para a intelig\u00eancia, mas a plasticidade ambiental \u00e9 alta. Cabe ainda outro alerta. O c\u00e1lculo da herdabilidade subentende que o teste de QI realmente mede intelig\u00eancia, o que est\u00e1 longe de ser estabelecido. E mais, j\u00e1 que o valor de herdabilidade do QI \u00e9 relativamente baixo, \u00e9 plaus\u00edvel admitir que os estudos de QI e ra\u00e7as estejam abarrotados de erros, vieses e ambiguidades.<\/p>\n<p>Para bater mais um prego no caix\u00e3o da heran\u00e7a do QI, um estudo acaba de ser publicado na prestigiosa revista\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/early\/2018\/06\/05\/1718793115\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Proceedings of the National Academy of Sciences<\/em><\/a>\u00a0por Bernt Bratsberg e Ole Rogeberg. O trabalho mostra que o chamado efeito Flynn \u00e9 causado pelo ambiente. O efeito Flynn refere-se ao crescimento do QI populacional ao longo do s\u00e9culo 20, seguido de sua posterior queda observada mais recentemente.<\/p>\n<p>Os autores usaram dados de arquivos recentes da Noruega e notaram que, durante tr\u00eas d\u00e9cadas, as mudan\u00e7as no QI foram r\u00e1pidas e ocorreram igualmente dentro das fam\u00edlias e entre elas. Tais resultados indicam que as tend\u00eancias n\u00e3o se devem a mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e que existe apenas uma discreta contribui\u00e7\u00e3o dos genes.<\/p>\n<p>Desse modo, podemos depreender que, at\u00e9 segunda ordem, a heran\u00e7a do comportamento ainda carece de fatos e representa apenas um conjunto de preconceitos que devem ser desconsiderados.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em vez de ter sido banida diante do horror do nazismo e de outros casos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em vez de ter sido banida diante do horror do nazismo e de outros casos","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89346"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}