{"id":88874,"date":"2018-07-20T18:48:12","date_gmt":"2018-07-20T21:48:12","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=88874"},"modified":"2018-07-20T18:48:12","modified_gmt":"2018-07-20T21:48:12","slug":"da-retorica-a-pratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/da-retorica-a-pratica\/","title":{"rendered":"Da ret\u00f3rica \u00e0 pr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/20180406_arilson_favareto_0027-1-800x445.jpg\" alt=\"Arthur Fujii\" width=\"640\" height=\"356\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Desde os anos 1970,<\/b>\u00a0crescimento econ\u00f4mico e tecnologia deixaram de ser suficientes para garantir um desenvolvimento que combatesse o desemprego, a desigualdade e trouxesse bem-estar para a popula\u00e7\u00e3o em um ambiente saud\u00e1vel. Nesta entrevista,\u00a0<strong>Arilson da Silva Favareto<\/strong>\u00a0mostra por que olhar para as especificidades dos territ\u00f3rios passou a ser cada vez mais importante nessa equa\u00e7\u00e3o. O professor baseia-se nos estudos referenciais do soci\u00f3logo italiano Arnaldo Bagnasco, que identificou ao menos dois elementos cruciais para enfrentar o per\u00edodo que sucedeu a crise do capitalismo fordista, o qual p\u00f4s fim aos anos dourados do P\u00f3s-Guerra. S\u00e3o eles: a diversifica\u00e7\u00e3o e a desconcentra\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas. Com isso, ampliam-se as oportunidades, evitando a desigualdade e o desemprego j\u00e1 no momento em que as riquezas s\u00e3o criadas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Transpondo para o Brasil, Favareto observa que caminhamos na contram\u00e3o: nosso modelo de desenvolvimento \u00e9 monotem\u00e1tico, especializado em poucos bens prim\u00e1rios, e altamente concentrador de riqueza, exigindo pol\u00edticas redistributivas de renda para remediar as mazelas sociais.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Embora o conhecimento te\u00f3rico sobre desenvolvimento territorial tenha ganhado corpo no Brasil, h\u00e1 grandes dificuldades de articular sua pr\u00e1tica. Uma delas, segundo o professor, \u00e9 de ordem pol\u00edtica, porque o territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 um ator, n\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o social, e sim uma pluralidade de for\u00e7as sociais.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cPara que se possa influir substancialmente na trajet\u00f3ria de um territ\u00f3rio, \u00e9 preciso uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as sociais articuladas, convergindo em torno de um projeto. Isso \u00e9 extremamente dif\u00edcil, porque em geral os atores n\u00e3o t\u00eam acordo sobre esse futuro, na verdade disputam entre si\u201d, afirma. Diante disso, ele prop\u00f5e uma discuss\u00e3o sobre as potencialidades territoriais que podem nos levar na dire\u00e7\u00e3o de uma economia mais diversificada.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Professor da Universidade Federal do ABC, atua na \u00e1rea de sociologia econ\u00f4mica em temas relativos a institui\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas para o desenvolvimento territorial sustent\u00e1vel. \u00c9 soci\u00f3logo pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Campinas (PUCC), mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Ci\u00eancia Ambiental pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p1\"><b>Por que a express\u00e3o territ\u00f3rio entrou na ret\u00f3rica dos gestores p\u00fablicos e, mais recentemente, dos atores de Investimento Social Privado?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Um marco da entrada do termo \u201cterrit\u00f3rio\u201d nas discuss\u00f5es de governan\u00e7a territorial foi a publica\u00e7\u00e3o em 1977 do livro do soci\u00f3logo Arnaldo Bagnasco, sobre o desenvolvimento da It\u00e1lia. O momento era do fim da expans\u00e3o do capitalismo do P\u00f3s-Guerra, que nos anos 50 e 60 havia sido de forte crescimento econ\u00f4mico e expans\u00e3o do bem-estar. A partir dos anos 70, com a crise do modelo fordista, por conta da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e da crise do petr\u00f3leo, que reduziu a disponibilidade financeira no mercado internacional, o desemprego passou a ser componente marcante do capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p class=\"p2\">O estudo do Bagnasco perguntava: existe na It\u00e1lia alguma regi\u00e3o conseguindo escapar? A resposta era \u201csim\u201d. A surpresa \u00e9 que n\u00e3o se tratava nem do Norte, de alto desenvolvimento tecnol\u00f3gico industrial, e nem do Sul agr\u00edcola , com m\u00e3o de obra barata e disponibilidade de terras \u2013 mas justamente a regi\u00e3o central da It\u00e1lia, que ficou conhecida como Terceira It\u00e1lia. Com isso, come\u00e7a-se a olhar as caracter\u00edsticas que fazem determinada regi\u00e3o se diferenciar das demais e experimentar uma trajet\u00f3ria mais virtuosa em termos de crescimento econ\u00f4mico, gera\u00e7\u00e3o de emprego, e assim por diante. Depois, nos anos 80 e sobretudo nos 90, a Uni\u00e3o Europeia come\u00e7a a fazer estudos comparados para tentar entender quais os territ\u00f3rios que est\u00e3o gerando emprego em um contexto de crise. E, finalmente, na virada dos anos 90 para os 2000, esse debate chega \u00e0 Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Chega aqui porque nessa \u00e9poca tamb\u00e9m entramos em crise?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">O que aconteceu na Europa dos anos 70 para 80 \u2013 o desemprego estrutural, aquilo que alguns chamam de onda neoliberal \u2013, chega na Am\u00e9rica Latina 15 a 20 anos mais tarde. Por isso, o debate territorial tamb\u00e9m chega uma d\u00e9cada e meia depois. At\u00e9 meados do s\u00e9culo passado, havia uma expectativa de que o capitalismo seria expansivo, ou seja, mais cedo ou mais tarde as regi\u00f5es e os pa\u00edses seriam envolvidos na expans\u00e3o das atividades produtivas. Mas, ap\u00f3s os anos 70, isso se quebra com a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da microeletr\u00f4nica e, mais tarde, com a integra\u00e7\u00e3o comercial nos anos 80 e 90 \u2013 aquilo que se convencionou chamar de globaliza\u00e7\u00e3o. A reestrutura\u00e7\u00e3o industrial e o desemprego chegam por aqui nos anos 90.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">A desigualdade, ent\u00e3o, passa a ser estrutural, como mostra a obra recente do [economista franc\u00eas] Thomas Piketty. A caracter\u00edstica marcante do capitalismo do s\u00e9culo XXI \u00e9 a desigualdade. E esta se expressa entre classes sociais, raciais, de g\u00eanero e entre territ\u00f3rios. Posteriormente aos anos 70, o crescimento econ\u00f4mico e a tecnologia deixam de ser suficientes para se pensar em uma perspectiva na qual as regi\u00f5es tivessem futuro garantido. Olhar para as especificidades do territ\u00f3rio ou das regi\u00f5es passa a ser cada vez mais importante.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\"><b>No caso da Terceira It\u00e1lia, que elementos espec\u00edficos levaram a uma trajet\u00f3ria mais virtuosa?<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Desde o livro inaugural do Bagnasco h\u00e1 uma grande controv\u00e9rsia na literatura sobre os fatos que fazem um territ\u00f3rio ter trajet\u00f3ria virtuosa ou n\u00e3o. Ele chamou aten\u00e7\u00e3o para duas caracter\u00edsticas. A primeira \u00e9: quanto mais diversificada for a economia do territ\u00f3rio, melhor, porque at\u00e9 ent\u00e3o o paradigma era o da especializa\u00e7\u00e3o. Antes, regi\u00f5es altamente especializadas iam melhor, mas ele mostra que, no atual momento do capitalismo, quando h\u00e1 uma crise em um determinado mercado, a diversifica\u00e7\u00e3o funciona como um colch\u00e3o que amortece os impactos e o territ\u00f3rio busca outras op\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><b>\u00c9 como diversificar o risco em investimentos?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Exatamente. E a segunda caracter\u00edstica \u00e9 a desconcentra\u00e7\u00e3o. Quanto mais concentrada a atividade econ\u00f4mica em um territ\u00f3rio, \u00e9 mais dif\u00edcil que o conjunto de atores ali presentes consigam criar alternativas em momentos de crise. Tem um outro aspecto ligado \u00e0 desconcentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\">Em uma economia mais desconcentrada, pode-se combater a desigualdade na origem da cria\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">Hoje, no Brasil, temos o contr\u00e1rio disso: um modelo econ\u00f4mico muito concentrado e especializado. A gente tem passado por um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o em bens prim\u00e1rios produzidos de maneira muito concentrada. Ent\u00e3o pensamos em pol\u00edticas redistributivas \u2013 pois \u00e9 preciso ter uma forte pol\u00edtica social para compensar os efeitos da desigualdade do modelo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p class=\"p2\">No caso da Terceira It\u00e1lia, a pr\u00f3pria forma de produ\u00e7\u00e3o da riqueza j\u00e1 se dava de forma desconcentrada. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, mas de um modelo de organiza\u00e7\u00e3o social no qual os atores desse territ\u00f3rio s\u00e3o, desde o primeiro momento, dotados dos recursos, dos capitais e dos trunfos para poder participar da vida social e influir nos rumos dessa sociedade. Trata-se de uma desconcentra\u00e7\u00e3o de oportunidades que permite \u00e0 sociedade de um territ\u00f3rio participar das decis\u00f5es sobre o seu futuro e com isso evitar caminhos que levem ao esgar\u00e7amento desse tecido territorial.<\/p>\n<p class=\"p2\"><b>Transpondo para o Brasil, como essa pr\u00e1tica tem sido aplicada pela gest\u00e3o p\u00fablica? O conceito \u00e9 muito falado, mas pouco praticado?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\">Eu n\u00e3o diria que \u00e9 pouco praticado. E, sim, que \u00e9 mal praticado. Ou seja, houve uma incorpora\u00e7\u00e3o do adjetivo \u201cterritorial\u201d, mas, em muitos casos, seja em estudos, seja em experi\u00eancias, seja em pol\u00edticas, n\u00e3o houve a correspondente mudan\u00e7a cognitiva. Falar de territ\u00f3rio \u00e9 falar de espa\u00e7os, dos recursos que existem neles e das formas de apropria\u00e7\u00e3o e uso que sempre envolvem conflitos entre os atores e grupos que l\u00e1 est\u00e3o. O primeiro componente importante dessa ideia \u00e9: falar em territ\u00f3rio \u00e9 falar em conflito, conflito em torno das formas de usar seus recursos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">O territ\u00f3rio torna-se uma esp\u00e9cie de categoria-s\u00edntese que nos permite abordar pelo menos tr\u00eas tipos de interdepend\u00eancia que a literatura havia separado. A primeira dicotomia que a ideia de territ\u00f3rio tenta reunificar \u00e9 entre sociedade e natureza, pois fala da base natural da qual esse territ\u00f3rio depende e dos sistemas sociais que se estruturam para utilizar essa base de recursos. A segunda dicotomia que vem superar \u00e9 entre local e extra-local, ou seja, como determinada unidade espacial localizada estabelece rela\u00e7\u00f5es com as for\u00e7as ex\u00f3genas. E a terceira interdepend\u00eancia envolve as rela\u00e7\u00f5es entre Estado, sociedade e mercado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\">Na literatura sobre governan\u00e7a, vamos encontrar uma vis\u00e3o \u201cestadoc\u00eantrica\u201d, ou excessivamente pautada nas for\u00e7as de mercado ou na sociedade civil. E a ideia de territ\u00f3rio convida justamente a que se pense nas formas de coopera\u00e7\u00e3o ou conflito entre atores. Somente o mercado n\u00e3o perfaz o territ\u00f3rio, somente o Estado n\u00e3o molda o territ\u00f3rio, e somente a sociedade n\u00e3o consegue governar o territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Precisa da coopera\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">\u00c9 necess\u00e1rio algum tipo de coopera\u00e7\u00e3o, ainda que conflitivo, entre esses tipos de atores. Por isso a ideia de governan\u00e7a \u00e9 t\u00e3o importante para o debate sobre desenvolvimento territorial. Se o territ\u00f3rio envolve uma base de recursos, as formas de sua apropria\u00e7\u00e3o, e a forma como localmente essas coisas se condicionam pelas for\u00e7as externas a esse territ\u00f3rio, \u00e9 inimagin\u00e1vel pensar que unicamente a atua\u00e7\u00e3o de uma empresa, de um governo ou de um movimento social vai conseguir organizar esses fatores na dire\u00e7\u00e3o de uma maior sustentabilidade dos recursos naturais com expans\u00e3o do bem-estar das pessoas. Note que governan\u00e7a remete a um conjunto de dom\u00ednios e \u00e9 extremamente dif\u00edcil operar com esse conjunto de inst\u00e2ncias da realidade. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de espantar que, quando esse debate cient\u00edfico sobre o conceito de territ\u00f3rio migra para o campo das pol\u00edticas p\u00fablicas ou para as formas de governan\u00e7a, ele passa por uma simplifica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">E a\u00ed chego na sua pergunta anterior. Quando falamos de Am\u00e9rica Latina, e de Brasil em particular, houve uma atualiza\u00e7\u00e3o discursiva \u2013 cada vez mais se fala em territ\u00f3rio \u2013, mas n\u00e3o nos marcos cognitivos: as pessoas continuam n\u00e3o olhando para os territ\u00f3rios com a complexidade que o conceito exige. Essa \u00e9 uma primeira dificuldade. A segunda tem a ver com capacidades t\u00e9cnicas. Durante todo o s\u00e9culo XX, o territ\u00f3rio era passivo, ou seja, um espa\u00e7o que recebe investimentos. A partir dos anos 70, come\u00e7a-se a olhar para o territ\u00f3rio com propriedades ativas: a maneira como os fatores territoriais est\u00e3o dispostos \u00e9 constitutiva da trajet\u00f3ria do desenvolvimento naquele local. Isso \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigma e, como tal, sempre muito lenta. Nossos atuais ge\u00f3grafos, economistas, soci\u00f3logos, cientistas pol\u00edticos \u2013 e nisso eu me incluo \u2013 n\u00e3o foram formados com a nova vis\u00e3o. \u00c9 natural que a gente tenha algumas d\u00e9cadas de aprendizado para que se possa dar ao territ\u00f3rio o tratamento que o conceito reivindica.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">E a terceira dificuldade \u00e9 pol\u00edtica, porque o territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 um ator, n\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o social, e sim uma pluralidade de for\u00e7as sociais. E, para que se possa influir substancialmente na trajet\u00f3ria de um territ\u00f3rio, \u00e9 preciso uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as sociais articuladas, convergindo em torno de um projeto. Isso \u00e9 extremamente dif\u00edcil, porque em geral os atores n\u00e3o t\u00eam acordo sobre esse futuro, na verdade disputam entre si.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><b>No Brasil, que experi\u00eancias exemplificam essa dificuldade?<\/b><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">No caso brasileiro h\u00e1 um marco para a entrada desse debate territorial. Os primeiros\u00a0<\/span><span class=\"s2\">trabalhos acad\u00eamicos que come\u00e7am a associar territ\u00f3rio e desenvolvimento s\u00e3o de autores como Jos\u00e9 Eli da Veiga e Ricardo Abramovay, que v\u00eam do campo das discuss\u00f5es ambientais. A preocupa\u00e7\u00e3o desses autores era: temos de encontrar caminhos que diminuam a desigualdade espacial e que essa diminui\u00e7\u00e3o se d\u00ea em uma dire\u00e7\u00e3o de usar melhor os recursos naturais, fortalecendo a conserva\u00e7\u00e3o. Isso vai se traduzir no embri\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica at\u00e9 a pol\u00edtica de desenvolvimento territorial do governo federal, na virada do governo FHC para o governo Lula.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">O auge dessa tentativa teria sido o programa Territ\u00f3rios da Cidadania, uma experi\u00eancia fracassada, apesar da enorme import\u00e2ncia sobretudo para a dissemina\u00e7\u00e3o da ret\u00f3rica territorial. Na virada para o segundo mandato do governo Lula, criou-se o PAC [Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento], e algumas pessoas come\u00e7aram a dizer: \u201cO governo precisa ter uma marca social da mesma envergadura do PAC\u201d. Ent\u00e3o, montou-se o Territ\u00f3rios da Cidadania, um programa perif\u00e9rico, em um minist\u00e9rio perif\u00e9rico que era o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio [MDA].<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Em seguida tentou-se dar uma amplitude ao tir\u00e1-lo do MDA e levar para a Casa Civil, em torno do qual se articulavam 19 minist\u00e9rios. S\u00f3 que com dois problemas. Primeiro: n\u00e3o havia articula\u00e7\u00e3o. O governo disse que os minist\u00e9rios deviam priorizar suas a\u00e7\u00f5es em cerca de 100 territ\u00f3rios. Ent\u00e3o, pode-se notar que foi um programa de cima para baixo, em vez haver um pacto com projetos no \u00e2mbito do territ\u00f3rio, e os minist\u00e9rios continuaram a fazer o que j\u00e1 faziam antes<\/span><span class=\"s3\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Ou seja, subvertendo o pr\u00f3prio conceito de governan\u00e7a territorial, que \u00e9 a coopera\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias for\u00e7as.<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Exatamente. E o segundo problema foi que, entre os 19 minist\u00e9rios, estavam fundamentalmente os sociais \u2013 Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, Igualdade Racial. O da Ind\u00fastria n\u00e3o estava, o da Ci\u00eancia e Tecnologia n\u00e3o estava. O do Meio Ambiente estava, mas como fazer desenvolvimento territorial pensando em novas formas de uso dos recursos naturais sem ci\u00eancia e tecnologia? Como conciliar expans\u00e3o do bem-estar com uso sustent\u00e1vel dos recursos naturais sem ser por meio de uma nova economia?<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Essa divis\u00e3o entre minist\u00e9rios mostra a diferen\u00e7a de poder dentro do governo?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Mostra que tem os minist\u00e9rios para os pobres e tem os minist\u00e9rios para a competividade e o dinamismo econ\u00f4mico. Isso \u00e9 coerente com a linha do modelo social-desenvolvimentista. Costumo dizer que \u00e9 um modelo esquizofr\u00eanico. Ele teve um papel importante de colocar o social no centro da agenda do Estado, mas de maneira mal-arranjada, porque, ao mesmo tempo em que t\u00ednhamos uma agenda social, com prioridade para os mais pobres, para a redu\u00e7\u00e3o de desigualdade, t\u00ednhamos tamb\u00e9m um modelo econ\u00f4mico gerador de desigualdades, altamente especializado e nocivo do ponto de vista de impactos ambientais. Durante um tempo essas coisas acabavam se equilibrando, porque a gente vivia um per\u00edodo econ\u00f4mico muito favor\u00e1vel. Mas, quando vem a crise financeira de 2007\/2008, a possibilidade de equilibrar essas contradi\u00e7\u00f5es diminui muito. A partir da\u00ed, come\u00e7a a crise cujo \u00e1pice se d\u00e1 em 2014\/2015, com a interrup\u00e7\u00e3o do segundo mandato do governo Dilma.<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Existem experi\u00eancias bem-sucedidas?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Com o tempo, outros agentes, como o BNDES e o Minist\u00e9rio do Planejamento, passam a falar em territorializa\u00e7\u00e3o de suas a\u00e7\u00f5es. Isso criou um campo de inova\u00e7\u00f5es interessantes. As melhores experi\u00eancias n\u00e3o est\u00e3o no governo federal. Quem tem ido mais longe \u00e9 o governo da Bahia. Desde o meio da d\u00e9cada passada, a Bahia busca implementar um plano plurianual territorializado. Inclusive na constru\u00e7\u00e3o do plano houve um projeto de escuta, de consulta aos territ\u00f3rios, no sentido de estabelecer as prioridades. H\u00e1 tentativas de construir bases de servi\u00e7o de assist\u00eancia t\u00e9cnica, organizadas em bases territoriais. Ainda \u00e9 muito marcado pelo rural, mas tenta ampliar-se para mais setores e para o conjunto de instrumentos da gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>E por que a Bahia? Foi por acaso ou houve motivos espec\u00edficos?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">\u00c9 uma boa pergunta. Minha opini\u00e3o \u00e9 que ocorreu um quase acaso quando havia nos anos 2000 uma pessoa, [o economista] V\u00edtor de Athayde Filho, filho de um professor da Universidade Federal da Bahia, que morreu tragicamente e tinha a caracter\u00edstica de transitar entre diferentes universos. Ele trabalhava em uma secretaria ligada \u00e0 Secretaria de Planejamento da Bahia e, ao mesmo tempo, tinha entrada muito forte no mundo acad\u00eamico e proximidade com as pessoas que mencionei, o Z\u00e9 Eli da Veiga, o Abramovay. Por essa posi\u00e7\u00e3o que ocupava entre os dois mundos, conseguiu influenciar a burocracia governamental no momento em que o debate territorial estava tomando forma em uma dire\u00e7\u00e3o mais coerente com os debates acad\u00eamicos e cient\u00edficos. A discuss\u00e3o entra pela Secretaria de Planejamento, e n\u00e3o pela de Agricultura.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Isso d\u00e1 outro\u00a0<i>status<\/i>.<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Sim, pela capacidade de mobilizar recursos e influenciar outras pol\u00edticas. J\u00e1 no caso do governo federal, os atores que implementaram a ret\u00f3rica territorial eram marcados pela velha ret\u00f3rica setorial.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s2\"><b>O que significa ret\u00f3rica setorial? \u00c9 uma caracter\u00edstica mais corporativa, de defender os interesses daquele setor?<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Basicamente isso. Por exemplo, o rural \u00e9 categoria espacial, a agricultura \u00e9 uma categoria setorial. Fala-se em desenvolvimento territorial, mas coloca-se dinheiro em uma atividade agr\u00edcola. Perde-se a diversidade do territ\u00f3rio. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 onde se coloca o dinheiro, mas tamb\u00e9m quem participa. Cria-se um f\u00f3rum territorial, mas quem vai? S\u00f3 os atores da agricultura.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">No caso do Investimento Social Privado, muitas vezes acontece o mesmo. Fala-se em territ\u00f3rio, mas s\u00e3o mobilizados apenas os atores ligados ao do setor em que se est\u00e1 atuando, ou os que s\u00e3o afetados pelo empreendimento. Isso \u00e9 um vi\u00e9s setorial. O ponto de vista \u00e9 sempre o setor envolvido, e n\u00e3o o territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\"><b>E isso \u00e9 um problema.<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Isso \u00e9 um grande problema. Quando falamos de territ\u00f3rio, \u00e9 como se tratasse de tr\u00eas camadas. A primeira camada pode ser traduzida em uma pergunta: qual \u00e9 o lugar que o territ\u00f3rio, na sua pluralidade, ocupa em uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento? Vamos pegar o epis\u00f3dio de Belo Monte: ali, o campo se estabelece a partir de um campo muito limitado de solu\u00e7\u00f5es. A quest\u00e3o \u00e9 colocada assim: \u201cSe a gente n\u00e3o fizer, haver\u00e1 uma crise de energia. E se houver uma crise de energia, o setor privado ser\u00e1 afetado. E isso afeta tamb\u00e9m o emprego\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Ent\u00e3o existe quase que uma chantagem segundo a qual os interesses da maior parte da sociedade n\u00e3o podem ser sacrificados em nome de uma mino<\/span>ria.\u00a0<span class=\"s1\">Esta \u00e9 uma baita discuss\u00e3o. Mas, se \u00e9 verdade que essa equa\u00e7\u00e3o pode ser posta dessa maneira, temos de fazer uma outra pergunta: o que podemos fazer para evitar que daqui a 10 anos tenhamos um Belo Monte II? Porque sabemos que o grande potencial hidrel\u00e9trico brasileiro est\u00e1 na Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, a cada vez vamos ficar v\u00edtima desse dilema t\u00e3o estreito? Ou vamos discutir de que forma as especificidades brasileiras podem ser mais bem aproveitadas na dire\u00e7\u00e3o de resolver, sim, a demanda energ\u00e9tica, mas com conserva\u00e7\u00e3o ambiental e bem-estar da popula\u00e7\u00e3o \u2013 o que abre para discutir a diversifica\u00e7\u00e3o das fontes de energia?<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\">Vamos pegar outro exemplo, a expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria. De novo, a chantagem: sem agroneg\u00f3cio, o Brasil n\u00e3o vai crescer, se n\u00e3o crescer n\u00e3o tem emprego etc. Quando a discuss\u00e3o toda deveria ser: com a perspectiva de 20 ou 30 anos, que modelo econ\u00f4mico queremos? Queremos ser um grande exportador de soja, carne e quase nada mais? Ou usar esses recursos para fazer uma transi\u00e7\u00e3o de paradigmas da nossa organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica? (<i>mais sobre agroneg\u00f3cio\u00a0<a href=\"http:\/\/p22on.com.br\/desmatamento\" target=\"_blank\">nesta edi\u00e7\u00e3o<\/a><\/i>)<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\">A agropecu\u00e1ria [concentrada em poucas culturas] \u00e9 uma atividade que n\u00e3o gera muitos empregos. Estamos gerando riqueza, mas, ao mesmo tempo, gerando desigualdade. A\u00ed tem de fazer Bolsa Fam\u00edlia, criar n\u00e3o sei o qu\u00ea\u2026<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">E a sociedade fica dizendo: \u201cO Bolsa Fam\u00edlia n\u00e3o pode ser para sempre!\u201d Mas o nosso modelo econ\u00f4mico gera depend\u00eancia do Bolsa Fam\u00edlia para sempre. Para discutir o modelo do desenvolvimento econ\u00f4mico, a discuss\u00e3o \u00e9 justamente sobre quais s\u00e3o as potencialidades territoriais que podem nos levar na dire\u00e7\u00e3o de uma economia mais diversificada. Hoje, a perspectiva do Brasil \u00e9: vamos exportar bens prim\u00e1rios e ponto.<\/p>\n<p><strong>Podemos dizer que temos dois \u201cBrasis\u201d, o rural e o urbano, e a primeira metade tem a economia puxada por agropecu\u00e1ria, minera\u00e7\u00e3o, hidrel\u00e9tricas, com avan\u00e7o sobre as florestas?<\/strong><\/p>\n<p>Eu diria que hoje a gente tem tr\u00eas \u201cBrasis\u201d. Um abrange S\u00e3o Paulo, o Sul de Minas e o Esp\u00edrito Santo para baixo, onde h\u00e1 uma economia mais diversificada, com com\u00e9rcio e servi\u00e7os que foram precedidos pela industrializa\u00e7\u00e3o. Tal industrializa\u00e7\u00e3o, por sua vez, foi antecedida pela atividade agr\u00edcola, que teve como base o colonato. O modelo econ\u00f4mico do caf\u00e9 em S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 exatamente escravista. Embora tenha tido algum escravismo, sobretudo no Vale do Para\u00edba, o que prevaleceu foi o modelo do colonato, que \u00e9 uma economia concentrada, mas n\u00e3o muito. O colono, imigrante europeu, \u00e9 um homem livre, tem um pequeno s\u00edtio, come\u00e7a trabalhando em pequena \u00e1rea de terra dentro da fazenda do bar\u00e3o do caf\u00e9, e da\u00ed por diante. S\u00e3o Paulo \u00e9 um estado desigual, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma situa\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido e da Zona Canavieira do Nordeste, em que havia o senhor de engenho e o escravo. Ali n\u00e3o tem classe m\u00e9dia, as pessoas t\u00eam tudo ou n\u00e3o t\u00eam nada \u2013 basta ler as obras de Gilberto Freyre<em>, Sobrados e Mucambos<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Casa-grande &amp; Senzala<\/em>. Em Santa Catarina, a desigualdade \u00e9 menor que em S\u00e3o Paulo, porque historicamente a ocupa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 com base em uma classe m\u00e9dia, sem os bar\u00f5es.<\/p>\n<p>O segundo Brasil \u00e9 o Centro-Oeste, que se expande para as bordas da Amaz\u00f4nia e para o Nordeste at\u00e9 o Matopiba [regi\u00e3o que engloba parte dos estados do Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia]. \u00c9 um modelo concentrado e bastante especializado, com muita produ\u00e7\u00e3o de riqueza. Devasta\u00e7\u00e3o brutal do ambiente e uma enorme dificuldade em traduzir esse crescimento econ\u00f4mico em bem-estar.<\/p>\n<p><strong>Mas tem cidades no Centro-Oeste com bom padr\u00e3o de vida, que vivem de uma economia forte puxada pelo agroneg\u00f3cio, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Tem, mas s\u00e3o ilhas. Estou terminando um livro em que um dos cap\u00edtulos fala justamente sobre as cidades do agroneg\u00f3cio. Uma das cidades que mais crescem \u00e9 Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es (BA), que se desmembrou de Barreiras, no cora\u00e7\u00e3o do Matopiba. Bem ao lado, Formosa do Rio Preto tem o segundo PIB da Bahia, \u00e9 uma das 10 cidades do Matopiba e tamb\u00e9m uma das 100 do Brasil que mais produzem soja. Mas, quando se entra na entra na cidade, parece que ali n\u00e3o se produz nada. Casinhas simples, janela e porta dando na cal\u00e7ada, zero de dinamismo econ\u00f4mico, e com indicadores de pobreza e desigualdade muito maiores do que a m\u00e9dia do Brasil e da Bahia. \u00c9 o que se chama de desigualdade intraterritorial. Isso acontece porque o cara que tem terras em Formosa do Rio Preto mora em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es. Quem tem terra em Correntina, outra campe\u00e3 de produ\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m mora em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es. Ou seja, todo o entorno se esteriliza para poder concentrar a riqueza em determinadas cidades, para que elas atendam \u00e0s demandas de servi\u00e7os, com\u00e9rcio, estrutura urbana de que a elite precisa. \u00c9 o acontece em Sorriso, em Lucas do Rio Verde, em Sinop [as tr\u00eas em Mato Grosso]. Existem 8, 10, no m\u00e1ximo 12 cidades como essas em um espa\u00e7o gigantesco. Esse \u00e9 segundo Brasil, muito rico, mas com riqueza bastante concentrada em grupos sociais e tamb\u00e9m em termos espaciais.<\/p>\n<p>E o terceiro Brasil \u00e9 o do Amaz\u00f4nia e do Semi\u00e1rido, em que h\u00e1 uma enorme potencialidade, pois a economia do s\u00e9culo XXI \u00e9 a da conserva\u00e7\u00e3o e da biodiversidade, da biotecnologia, do enfrentamento \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, energia renov\u00e1vel. O Nordeste tem o maior potencial de gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica. As maiores reservas de biodiversidade do Brasil est\u00e3o na Amaz\u00f4nia e no que sobrou do Cerrado. Embora a Amaz\u00f4nia e o Semi\u00e1rido sejam regi\u00f5es brutalmente desiguais \u2013 a Amaz\u00f4nia foi a \u00fanica regi\u00e3o brasileira onde a desigualdade n\u00e3o diminuiu na d\u00e9cada passada \u2013, elas t\u00eam uma base de recursos que pode ser mobilizada em uma dire\u00e7\u00e3o diferente, justamente de valorizar os atributos territoriais.\u00a0 N\u00e3o d\u00e1 para pensar a agenda de Estado desses tr\u00eas subespa\u00e7os como se o Brasil fosse uma coisa s\u00f3, como se fosse homog\u00eaneo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, retomando as camadas de desenvolvimento territorial. A primeira camada diz respeito ao papel dos territ\u00f3rios na estrat\u00e9gia nacional de desenvolvimento. A segunda \u00e9: os investimentos territoriais podem ser feitos de maneira territorialmente mais interessante. Dizemos em nossos textos que os investimentos setoriais s\u00e3o territorialmente cegos, porque s\u00e3o feitos desconsiderando-se os territ\u00f3rios, ou pensando apenas em como compensar efeitos. Por exemplo, na Usina Teles Pires, a energia \u00e9 gerada e distribu\u00edda de tal modo que prioriza o sistema nacional de energia, mas as comunidades do entorno n\u00e3o t\u00eam acesso a ela. Isso \u00e9 um absurdo. Outro exemplo: a Ferrovia Transnordestina \u00e9 planejada para pegar a produ\u00e7\u00e3o na divisa do Nordeste com o Centro-Oeste e levar at\u00e9 os portos. No meio, passa por uma vasta zona onde est\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o mais pobre do Pa\u00eds, que n\u00e3o tem acesso aos produtos. O efeito da obra para essas pessoas \u00e9 s\u00f3 negativo, porque corta suas terras etc.<\/p>\n<p>E a terceira camada \u00e9 a do Investimento Social Privado. Na maior parte dos casos, a t\u00f4nica \u00e9: como compenso a popula\u00e7\u00e3o afetada com algum tipo de acordo? Usa-se a l\u00f3gica da compensa\u00e7\u00e3o, em vez de ajudar a pensar em outras formas de organiza\u00e7\u00e3o da economia desse territ\u00f3rio, para al\u00e9m da mitiga\u00e7\u00e3o dos efeitos.<\/p>\n<p><strong>O quanto a Agenda 2030, por meio dos ODS, pode trazer alguma transforma\u00e7\u00e3o, resgatando o conceito de territ\u00f3rio para uma aplica\u00e7\u00e3o efetiva?<\/strong><\/p>\n<p>A Agenda 2030 \u00e9 mais uma oportunidade. Estamos indo para quase tr\u00eas anos da formata\u00e7\u00e3o dessa agenda, mas a t\u00f4nica que tem prevalecido n\u00e3o \u00e9 a de conciliar o debate sobre os ODS com o debate sobre a governan\u00e7a territorial, porque a maior parte das experi\u00eancias olha para os 17 ODS como caixinhas. At\u00e9 o logotipo dos ODS, na forma de quadradinhos separados, favorece isso. Em algumas pol\u00edticas p\u00fablicas ou iniciativas privadas, a organiza\u00e7\u00e3o pesca tr\u00eas ou quatro daqueles quadradinhos e diz: \u201cEssa nossa iniciativa est\u00e1 dialogando com os ODS 1, 3, 5 e 7\u201d, ou coisa parecida. No entanto, a principal mensagem por tr\u00e1s era: \u201cPrecisamos de uma nova narrativa que olhe para os ODS em sua transversalidade\u201d. No caso do Brasil, dependendo da maneira como resolvo o ODS relacionado a crescimento econ\u00f4mico, emprego etc., eu posso estar detonando o ODS relacionado \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Claramente o de crescimento econ\u00f4mico est\u00e1 detonando o combate \u00e0 desigualdade e \u00e0 pobreza. E a grande quest\u00e3o do nosso per\u00edodo hist\u00f3rico hoje s\u00e3o justamente as interdepend\u00eancias. Como diz o Ricardo Abramovay no livro\u00a0<em>Muito Al\u00e9m da Economia Verde<\/em>: nunca tivemos tanto progresso em efici\u00eancia energ\u00e9tica, em uso de recursos renov\u00e1veis, em reciclagem \u2013 e, no entanto, os problemas ambientais se agravam. Eles se agravam porque somos uma sociedade brutalmente desigual. Grande parte do consumo anula os ganhos que se tem em tecnologias ambientais, por exemplo. A grande quest\u00e3o \u00e9 como o pa\u00eds cresce sobre modalidades econ\u00f4micas que permitam, na pr\u00f3pria forma de produzir, diminuir a pobreza, a desigualdade e amenizar o impacto ambiental dessas atividades.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, sem reduzir a desigualdade n\u00e3o tem desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem. E sem discutir uma nova narrativa por tr\u00e1s do desenvolvimento sustent\u00e1vel e de agendas de futuro \u00e9 muito dif\u00edcil a gente alcan\u00e7ar aquele amplo conjunto de metas reunidas nos 17 ODS. Mas tem prevalecido a fragmenta\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias iniciativas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a ret\u00f3rica do desenvolvimento territorial nasce no mesmo per\u00edodo (1977, publica\u00e7\u00e3o do livro do Bagnasco) da ret\u00f3rica do desenvolvimento sustent\u00e1vel (1972, Confer\u00eancia de Estocolmo), porque s\u00e3o filhas do mesmo casal.<\/p>\n<p>O primeiro elemento na raiz das duas est\u00e1 na desigualdade, como um fator intr\u00ednseco e estrutural do capitalismo contempor\u00e2neo. O segundo \u00e9 o avan\u00e7o da democratiza\u00e7\u00e3o, com a sociedade tentando controlar um pouco esses efeitos nocivos. E o terceiro \u00e9 a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 papo de ambientalista, mostra que os custos de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o de fato aumentando. Na agropecu\u00e1ria, por exemplo, a mudan\u00e7a do clima leva \u00e0 necessidade de aumentar a irriga\u00e7\u00e3o ou desenvolver sementes resistentes ao estresse h\u00eddrico.<\/p>\n<p><strong>O que leva ao aumento da desigualdade, pois concentra a riqueza em quem j\u00e1 det\u00e9m recursos e tecnologia para fazer isso.<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso est\u00e1 muito amarrado, a desigualdade, o meio ambiente e o bem-estar. S\u00f3 que, al\u00e9m dos ODS, tem outra janela de oportunidade que \u00e9 a seguinte: talvez, pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, a tend\u00eancia \u00e9 de estabiliza\u00e7\u00e3o populacional nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, na casa dos 10,5 bilh\u00f5es, segundo a ONU. Ent\u00e3o devemos ter estabiliza\u00e7\u00e3o com uma curva ascendente de efici\u00eancia em uso dos recursos.<\/p>\n<blockquote><p>Hoje a gente j\u00e1 tem uma produ\u00e7\u00e3o material suficiente para proporcionar bem-estar para boa parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>At\u00e9 os anos 70, a gente vivia sob a met\u00e1fora do bolo, \u201cprimeiro precisa fazer o bolo crescer para depois distribu\u00ed-lo\u201d. Se a gente tiver uma estabiliza\u00e7\u00e3o populacional, pela primeira vez teremos uma situa\u00e7\u00e3o na qual a quantidade de bocas para comer o bolo ficar\u00e1 est\u00e1vel, mas o bolo continuar\u00e1 crescendo. Com isso, a grande quest\u00e3o passa de novo a ser a desigualdade, ou, melhor dizendo, passa a ser duas: que receita de bolo vou usar, que seja menos nociva do ponto de vista ambiental, que seja um bolo mais saud\u00e1vel, e como \u00e9 que se distribui o bolo \u2013 se continuar\u00e1 para poucos ou se vai servir a mais gente. S\u00e3o oportunidades hist\u00f3ricas os ODS de um lado, e de outro as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, demogr\u00e1ficas e econ\u00f4micas do capitalismo contempor\u00e2neo. Se a gente vai aproveit\u00e1-las, as din\u00e2micas das for\u00e7as sociais \u00e9 que v\u00e3o dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde os anos 1970,\u00a0crescimento econ\u00f4mico e tecnologia deixaram de ser suficientes para garantir um desenvolvimento<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Desde os anos 1970,\u00a0crescimento econ\u00f4mico e tecnologia deixaram de ser suficientes para garantir um desenvolvimento","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88874"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88874"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88874\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}