{"id":88619,"date":"2018-07-15T13:00:53","date_gmt":"2018-07-15T16:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=88619"},"modified":"2018-07-15T13:00:53","modified_gmt":"2018-07-15T16:00:53","slug":"as-ondas-gravitacionais-nos-dirao-o-que-aconteceu-uma-fracao-de-segundo-depois-do-big-bang","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/as-ondas-gravitacionais-nos-dirao-o-que-aconteceu-uma-fracao-de-segundo-depois-do-big-bang\/","title":{"rendered":"\u201cAs ondas gravitacionais nos dir\u00e3o o que aconteceu uma fra\u00e7\u00e3o de segundo depois do Big Bang\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/barry.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-88620\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/barry-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/barry-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/barry.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Barry Barish foi o primeiro de sua fam\u00edlia a ir \u00e0 universidade. Seu pai, norte-americano filho de imigrantes judeus, ficou \u00f3rf\u00e3o aos 12 anos e teve de ir trabalhar para ajudar a fam\u00edlia. Sua m\u00e3e recebeu uma bolsa para estudar na Universidade de Nebraska, mas seu pai n\u00e3o a deixou ir. Foi dona de casa a vida toda.<\/p>\n<p>Quando a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/segunda_guerra_mundial\/a\">Segunda Guerra Mundial<\/a>\u00a0eclodiu, o pai de Barish come\u00e7ou a trabalhar na f\u00e1brica de avi\u00f5es perto de Omaha onde foram produzidos os bombardeiros que lan\u00e7aram\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/c\/8672e3af8e39d817ae88127cc614767c\">as bombas at\u00f4micas sobre Hiroshima e Nagasak<\/a>i, entre muitos outros. Terminada a guerra, a fam\u00edlia se mudou a Calif\u00f3rnia. Barish queria ser engenheiro, mas, quando entrou na Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley, novas part\u00edculas elementares estavam sendo descobertas, e ele foi seduzido pelas possibilidades de entender\u00a0<strong>\u201c<\/strong>do que somos feitos<strong>\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Em 1994, Barish \u2013 que j\u00e1 era professor de f\u00edsica na Caltech \u2013 conseguiu o trabalho da sua vida: diretor do observat\u00f3rio de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser (LIGO), um experimento no limite da tecnologia existente. Segundo a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/24\/ciencia\/1448387442_693871.html\">teoria da relatividade de Einstein,<\/a>\u00a0as estrelas que entram em colapso, as estrelas de n\u00eautrons e os buracos negros liberam parte de sua massa em forma de ondas gravitacionais que se expandem pelo universo como as ondas de um lago ao cair uma pedra. O objetivo do LIGO, com um custo total de 1,1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares (4,2 bilh\u00f5es de reais), era captar esses sinais. Sob as ordens de Barish (Omaha, 1936), o LIGO passou a ser uma colabora\u00e7\u00e3o internacional no qual trabalham 1.000 cientistas de 18 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em 14 de setembro de 2015, \u00e0s 5h51 pela hora local, o detector LIGO em Livingston, Louisiana, captou um sinal. Sete mil\u00e9simos de segundo depois, o detector do LIGO em Hanford (Washington) \u2013 a mais de 3.000 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia \u2013 detectou um sinal id\u00eantico. Era a primeira onda gravitacional da hist\u00f3ria, produzida h\u00e1 1,3 bilh\u00e3o de anos por dois buracos negros que se fundiram, liberando uma energia equivalente a tr\u00eas estrelas como o Sol. Ao chegar \u00e0 Terra, o sinal era t\u00e3o fraco que mal produziu um movimento nos feixes de luz laser, inferior a um bilion\u00e9simo de cent\u00edmetro.<\/p>\n<p>Em 3 de outubro de 2017, Barish recebeu o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nobel_fisica\">pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica<\/a>\u00a0junto com Rainer Weiss e Kip Thorne pelo descobrimento das ondas gravitacionais. De passagem por Madri para proferir uma confer\u00eancia na Funda\u00e7\u00e3o Ram\u00f3n Areces, o f\u00edsico explica nesta entrevista a import\u00e2ncia dessa descoberta e critica que a ci\u00eancia tenha se tornado muito conservadora para conseguir descobrimentos realmente inovadores.<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0A academia disse que as ondas gravitacionais\u00a0<strong>\u201c<\/strong>abrem a porta a novos mundos jamais observados<strong>\u201d<\/strong>. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0Tudo o que sab\u00edamos de astronomia antes de 1608 era atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o do c\u00e9u a olho nu. Naquela data se inventou o primeiro telesc\u00f3pio.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/galileo_galilei\">Galileu<\/a>\u00a0o usou para observar J\u00fapiter e viu que tinha quatro luas \u2013 h\u00e1 mais, mas ele viu quatro. Foi o in\u00edcio da astronomia. Desde ent\u00e3o aprendemos muit\u00edssimo sobre o universo usando telesc\u00f3pios cada vez maiores, capazes de observar em v\u00e1rios espectros. Mas tudo o que sabemos vem das intera\u00e7\u00f5es eletromagn\u00e9ticas. As ondas gravitacionais n\u00e3o t\u00eam nada a ver com essas intera\u00e7\u00f5es, a n\u00e3o ser pelos efeitos gravitacionais. Pela primeira vez olhamos o universo de uma forma totalmente nova.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p><i>A ci\u00eancia se tornou muito conservadora<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Como vai evoluir este novo campo?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A primeira coisa que observamos foram fus\u00f5es de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/agujeros_negros\">buracos negros<\/a>\u00a0e estrelas de n\u00eautrons. Mas h\u00e1 muitos outros fen\u00f4menos que as ondas gravitacionais devem produzir, como por exemplo uma supernova, o colapso de uma estrela. Outro \u00e9 um pulsar, uma estrela de n\u00eautrons em rota\u00e7\u00e3o. O mais interessante de todos s\u00e3o os sinais da origem do universo. Todos queremos saber o que aconteceu nos primeiros instantes depois do Big Bang [h\u00e1 13,7 bilh\u00f5es de anos]. O problema \u00e9 que a radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica s\u00f3 permite observar at\u00e9 400.000 anos depois do Big Bang, depois disso os f\u00f3tons s\u00e3o absorvidos. As ondas gravitacionais n\u00e3o s\u00e3o absorvidas, e por isso podem ser usadas para entendermos o que realmente aconteceu. Como se formaram as primeiras part\u00edculas, como aconteceu a infla\u00e7\u00e3o do universo? Por enquanto s\u00f3 temos conjeturas. Se pudermos chegar \u00e0 primeira fra\u00e7\u00e3o de segundo, saberemos como tudo come\u00e7ou. Para isto necessitamos de experimentos diferentes dos atuais. Acredito que demoraremos 50 ou talvez 100 anos para consegui-lo, mas \u00e9 um objetivo claro.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Que outras grandes perguntas ser\u00e1 poss\u00edvel responder estudando as ondas gravitacionais?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Em f\u00edsica, estamos numa situa\u00e7\u00e3o muito embara\u00e7osa porque temos duas teorias fant\u00e1sticas. Uma, inventada por Einstein, explica as grandes dist\u00e2ncias, e funciona \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o at\u00e9 o momento. H\u00e1 uma segunda teoria, a teoria qu\u00e2ntica de campos, que descreve \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o que acontece quando as part\u00edculas elementares se chocam entre si. O problema \u00e9 que s\u00f3 pode haver uma teoria da f\u00edsica, n\u00e3o duas. Os cientistas h\u00e1 d\u00e9cadas tentam unific\u00e1-las, sem nenhum sucesso. Necessitamos de pistas experimentais sobre onde pode estar a intercess\u00e3o entre ambas. A possibilidade mais interessante s\u00e3o os buracos negros. Agora que podemos estudar melhor estes corpos gra\u00e7as \u00e0s ondas gravitacionais, \u00e9 preciso estarmos muito atentos para o que acontece tanto no qu\u00e2ntico como no referente \u00e0 relatividade. Minha esperan\u00e7a \u00e9 que as pistas que precisamos venham das ondas gravitacionais emitidas pelos buracos negros.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p><i>Em todo o congresso dos EUA s\u00f3 h\u00e1 um congressista com um doutorado em ci\u00eancia, um entre 600 membros<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0As ondas poder\u00e3o dizer o que s\u00e3o a mat\u00e9ria escura e a energia escura?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sabemos t\u00e3o pouco sobre energia escura que n\u00e3o sabemos o que fazer com ela. Sobre a mat\u00e9ria escura sim h\u00e1 muitos experimentos que tentam mostrar o que \u00e9. Se voc\u00ea olhar os progressos que fizemos na f\u00edsica da \u00faltima d\u00e9cada, os mais interessantes foram em neutrinos, o CERN, que descobriu o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/boson_higgs\">b\u00f3son de Higgs<\/a>, respons\u00e1vel pela massa, e as ondas gravitacionais. Os tr\u00eas exigem grandes instala\u00e7\u00f5es de alta tecnologia. Talvez isto continue sendo assim no futuro. O problema \u00e9 como fazer experimentos em grande escala que possam gerar descobrimentos inovadores, dentro de um sistema cient\u00edfico no qual \u00e9 t\u00e3o complicado conseguir financiamento e que tende ao conservadorismo, que tem avers\u00e3o ao risco, de forma que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel obter descobrimentos pequenos e progressivos. N\u00e3o fazemos muitos experimentos que fracassam. Dever\u00edamos fazer muitos mais. Isso nos faria progredir mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quais s\u00e3o as perspectivas da ci\u00eancia nos EUA sob o Governo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/donald_trump\/a\/\">Donald Trump<\/a>?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Meu maior temor n\u00e3o \u00e9 que Trump deixe de financiar a ci\u00eancia , mas sim que cancele projetos espec\u00edficos em \u00e1reas nas quais h\u00e1 um vi\u00e9s claro, como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Para ele, a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma prioridade, mas tampouco acredito que a destrua. Um problema maior \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na Administra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 cientistas, embora muitos dos problemas dos quais eles tratam exijam um conhecimento cient\u00edfico. E vai al\u00e9m de Trump. Em todo o congresso dos EUA s\u00f3 h\u00e1 um congressista com um doutorado em ci\u00eancia, um entre 600 membros. Historicamente, a maioria dos congressistas era de empres\u00e1rios e advogados, e isso funcionou durante muito tempo, mas agora vivemos numa sociedade cada vez mais tecnol\u00f3gica e com assuntos que exigem conhecimento cient\u00edfico. N\u00e3o digo que sejam uma maioria, mas um entre 600&#8230;<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A Espanha tem um novo Governo no qual h\u00e1 um ministro da Ci\u00eancia, o astronauta Pedro Duque. Uma das prioridades \u00e9 fazer com que a ci\u00eancia seja um pilar do crescimento econ\u00f4mico. Que conselho lhe daria?<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p><i>Nos EUA s\u00f3 10% das pessoas que trabalham em f\u00edsica s\u00e3o mulheres<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Fazemos ci\u00eancia por um valor fundamental, a curiosidade humana. Al\u00e9m disso, h\u00e1 impactos t\u00e9cnicos da ci\u00eancia sobre a sociedade. Todo pa\u00eds moderno tem que participar da tecnologia. N\u00e3o pode depender de outros para obter tecnologia, dos componentes de um telefone celular aos softwares banc\u00e1rios, financeiros e de seguran\u00e7a. A Espanha deveria participar mais nesses campos. Odeio quando os jornalistas me perguntam\u00a0<strong>\u201c<\/strong>para que servem as ondas gravitacionais?<strong>\u201d<\/strong>, mas entendo o sentido da pergunta. Se voc\u00ea olhar de forma geral \u00e9 f\u00e1cil de entender. N\u00e3o se deve olhar projeto por projeto. Quando eu estava em Berkeley, nos anos setenta, havia um experimento que demonstrou a emiss\u00e3o estimulada, outra previs\u00e3o de Einstein. Ningu\u00e9m soube ver que teria um grande impacto em nossas vidas. Dez anos depois, perceberam que servia para fazer feixes de luz. Hoje \u00e9 a base dos lasers, uma ind\u00fastria de 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. E \u00e9 s\u00f3 um exemplo pr\u00f3ximo. Assim voc\u00ea percebe que a pergunta que deve ser feita \u00e9 para que nos serve a pesquisa b\u00e1sica? E assim \u00e9 f\u00e1cil de ver.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/04\/ciencia\/1507115722_311081.html\">99% dos ganhadores do Nobel de F\u00edsica s\u00e3o homens<\/a>. Voc\u00ea acha isso um problema?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Nos EUA, s\u00f3 10% das pessoas que trabalham em f\u00edsica s\u00e3o mulheres. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 melhorando, mas devagar. Neste ano os jornalistas nos perguntaram depois da concess\u00e3o do Nobel por que foram tr\u00eas homens brancos e mais velhos? Quanto a sermos mais velhos \u00e9 l\u00f3gico, porque normalmente demoram bastante para lhe dar o Nobel. Mas \u00e9 constrangedor para as mulheres, porque passaram pelas mesmas provas que os homens. De alguma forma fechamos o seu caminho desde que s\u00e3o muito jovens, e isto \u00e9 sobretudo verdade na f\u00edsica, onde a percentagem se mant\u00e9m obstinado em 10%.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Barry Barish foi o primeiro de sua fam\u00edlia a ir \u00e0 universidade. 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