{"id":87782,"date":"2018-07-01T08:00:24","date_gmt":"2018-07-01T11:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=87782"},"modified":"2018-06-30T21:28:07","modified_gmt":"2018-07-01T00:28:07","slug":"historia-de-diversificacao-da-linhagem-dos-tracajas-e-desvendada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/historia-de-diversificacao-da-linhagem-dos-tracajas-e-desvendada\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de diversifica\u00e7\u00e3o da linhagem dos tracaj\u00e1s \u00e9 desvendada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-87783\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O que a tartaruga mais antiga do Brasil, que habitou o Nordeste h\u00e1 125 milh\u00f5es de anos, tem em comum com a maior tartaruga que existiu, um monstro com casco de 3,5 metros que nadava nas \u00e1guas doces de um megapantanal h\u00e1 10 milh\u00f5es de anos? E o que esses dois r\u00e9pteis h\u00e1 tanto extintos t\u00eam a ver com os atuais tracaj\u00e1s amaz\u00f4nicos?<\/p>\n<p>Todos pertencem ao grupo dos pleur\u00f3diros, tartarugas encontradas hoje apenas em terras do hemisf\u00e9rio Sul. Os pleur\u00f3diros t\u00eam a particularidade de dobrar o pesco\u00e7o para o lado para poder esconder a cabe\u00e7a no casco. Nisso diferem das tartarugas cript\u00f3diras, o outro grupo vivente, que recolhem a cabe\u00e7a dobrando o pesco\u00e7o na vertical. \u00c9 o caso dos jabutis, das tartarugas gigantes das ilhas Gal\u00e1pagos e de todas as tartarugas marinhas.<\/p>\n<p>As tartarugas pleur\u00f3diras s\u00e3o encontradas na Am\u00e9rica do Sul, na \u00c1frica subsaariana, Indon\u00e9sia, Austr\u00e1lia e na Nova Guin\u00e9, al\u00e9m de haver uma esp\u00e9cie isolada no I\u00eamen, na Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica, e outra na ilha de Madagascar.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o de parte do arquip\u00e9lago da Indon\u00e9sia, todas essas terras faziam parte do antigo supercontinente Gondwana, que existiu entre 250 milh\u00f5es e 150 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, at\u00e9 que irrefre\u00e1veis for\u00e7as tect\u00f4nicas no interior do planeta come\u00e7aram a fragmentar o supercontinente, primeiramente separando a \u00c1frica, a \u00cdndia e Madagascar do restante das terras austrais, e mais \u00e0 frente afastando a Am\u00e9rica do Sul da Ant\u00e1rtica h\u00e1 40 milh\u00f5es de anos e, por fim, separando esta \u00faltima da Austr\u00e1lia h\u00e1 30 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Muito embora os pleur\u00f3diros estejam hoje confinados \u00e0s terras do antigo Gondwana, seu registro f\u00f3ssil est\u00e1 presente em todos os continentes. \u201cEsses bichos claramente tiveram uma distribui\u00e7\u00e3o mais ampla no passado\u201d, disse o paleont\u00f3logo\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/31416\/\" target=\"_blank\">Max Langer<\/a><\/b>, professor do Departamento de Biologia da Universidade de S\u00e3o Paulo em Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>Os mais antigos registros de pleur\u00f3diros na Am\u00e9rica do Norte, Europa e norte da \u00c1frica t\u00eam entre 105 milh\u00f5es e 70 milh\u00f5es de anos. Na Am\u00e9rica do Norte e no norte da \u00c1frica, eles sobreviveram at\u00e9 pelo menos 35 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. H\u00e1 10 milh\u00f5es de anos, ainda viviam no Sudeste Asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>A discrep\u00e2ncia entre as distribui\u00e7\u00f5es passada e presente dos pleur\u00f3diros d\u00e1 margem a interpreta\u00e7\u00f5es biogeogr\u00e1ficas distintas. Teria o grupo surgido na antiga Gondwana e depois povoado outras terras? Ou a dispers\u00e3o de seus f\u00f3sseis entre os cinco continentes sinalizaria para outro centro de origem do grupo, ainda desconhecido?<\/p>\n<p>\u201cAs filogenias de pleur\u00f3diros que existiam at\u00e9 o momento eram parciais. Agora, com essa grande filogenia que publicamos, buscamos entender melhor a evolu\u00e7\u00e3o da linhagem ao longo das eras Mesozoica e Cenozoica\u201d, disse Langer, que coordena o Projeto Tem\u00e1tico\u00a0<b>\u201c<a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/85231\/\" target=\"_blank\">A origem e irradia\u00e7\u00e3o dos dinossauros no Gondwana (Neotri\u00e1ssico &#8211; Eojur\u00e1ssico)<\/a>\u201d<\/b>, financiado pela FAPESP.<\/p>\n<p>Publicado na revista\u00a0<b><a href=\"http:\/\/rsos.royalsocietypublishing.org\/content\/royopensci\/5\/3\/171773.full.pdf\" target=\"_blank\"><i>Royal Society Open Science<\/i><\/a><\/b>, o trabalho \u00e9 a mais abrangente filogenia das tartarugas pleur\u00f3diras. Busca evid\u00eancias filogen\u00e9ticas, biogeogr\u00e1ficas e morfol\u00f3gicas capazes de entender como teria sido a hist\u00f3ria biogeogr\u00e1fica dos pleur\u00f3diros, explicando a discrep\u00e2ncia entre a sua distribui\u00e7\u00e3o no registro f\u00f3ssil e no mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 de autoria de Langer, dos paleont\u00f3logos\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/176611\/\" target=\"_blank\">Gabriel Ferreira<\/a><\/b>\u00a0e\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/77095\/\" target=\"_blank\">Mario Bronzati<\/a><\/b>, tamb\u00e9m da USP, e da paleont\u00f3loga argentina Juliana Sterli. Ferreira \u00e9 o autor principal do trabalho, realizado dentro do seu\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/157703\/\" target=\"_blank\">doutoramento<\/a><\/b>\u00a0com orienta\u00e7\u00e3o de Langer e bolsa da FAPESP. Bronzati fez o doutorado no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Munique e Sterli \u00e9 pesquisadora do Museo Paleontol\u00f3gico Egidio Feruglio, na Patag\u00f4nia argentina.<\/p>\n<p>As tartarugas mais antigas que se conhece viveram na China h\u00e1 220 milh\u00f5es de anos. Curiosamente, possu\u00edam apenas o escudo ventral, ou plastr\u00e3o. A carapa\u00e7a dorsal, caracter\u00edstica que mais identifica as tartarugas que conhecemos, surgiu mais tarde. Ainda estava em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEstimativas de tempo de diverg\u00eancia molecular sugerem que a hist\u00f3ria evolutiva de Pleurodira come\u00e7ou no Jur\u00e1ssico superior, entre 165 milh\u00f5es e 150 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, e o f\u00f3ssil do mais antigo pleur\u00f3diro, de\u00a0<i>Atolchelys<\/i>, foi achado em 2009 em uma pedreira de calc\u00e1rio em Alagoas\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p><b>Deriva continental<\/b><\/p>\n<p><i>Atolchelys<\/i>\u00a0viveu h\u00e1 125 milh\u00f5es de anos, quando a \u00c1frica come\u00e7ava a se separar da Am\u00e9rica do Sul. Pertencia aos extintos botremid\u00eddeos, um dos diversos grupos de pleur\u00f3diros, dos quais sobrevivem hoje apenas tr\u00eas fam\u00edlias, os pelomedus\u00eddeos africanos (e do I\u00eamen), os quel\u00eddeos sul-americanos e australianos e os podocnemid\u00eddeos sul-americanos e de Madagascar. Esta \u00faltima inclui os tracaj\u00e1s e a tartaruga gigante da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Os pesquisadores explicam que, h\u00e1 110 milh\u00f5es de anos, os pleur\u00f3diros haviam se diversificado bastante e ampliado sua distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Nos estu\u00e1rios que existiam onde hoje \u00e9 a Chapada do Araripe, no Nordeste brasileiro, havia quatro pleur\u00f3diros:\u00a0<i>Brasilemys<\/i>\u00a0(uma ancestral dos podocnemid\u00eddeos),\u00a0<i>Cearachelys<\/i>\u00a0(botremid\u00eddeo como\u00a0<i>Atolchelys<\/i>),\u00a0<i>Euraxemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Araripemys<\/i>. Esses \u00faltimos pertenciam a fam\u00edlias extintas ainda no Cret\u00e1ceo e possu\u00edam parentes em terras africanas:\u00a0<i>Laganemys<\/i>, no atual N\u00edger. Mais ou menos pela mesma \u00e9poca, viviam na Patag\u00f4nia tr\u00eas ancestrais dos quel\u00eddeos.<\/p>\n<p>Durante os 20 milh\u00f5es de anos seguintes, os pleur\u00f3diros se espalharam pelo Peru, Bol\u00edvia e o Sudeste brasileiro, para o norte da \u00c1frica e Madagascar, para a Europa, Am\u00e9rica do Norte, Oriente M\u00e9dio e \u00cdndia. Tal expans\u00e3o ocorreu concomitantemente \u00e0 separa\u00e7\u00e3o final da \u00c1frica e Am\u00e9rica do Sul, que se deu entre 105 milh\u00f5es e 100 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Foi a partir da evid\u00eancia da deriva continental que paleont\u00f3logos formularam a hip\u00f3tese tradicional, vicariante, para explicar a distribui\u00e7\u00e3o mais ampla dos pleur\u00f3diros no passado. Vicari\u00e2ncia \u00e9 o mecanismo evolutivo por meio do qual a distribui\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie ancestral \u00e9 fragmentada em duas ou mais \u00e1reas, devido ao surgimento de uma barreira natural, no caso a abertura do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>\u201cTenho um hist\u00f3rico de simpatia por tartarugas. Foi o grupo com o qual comecei minhas pesquisas\u201d, disse Langer, que acabou por se especializar no estudo dos dinossauros.<\/p>\n<p>\u201cPleurodira \u00e9 um grupo muito importante. De todos os pleur\u00f3diros viventes, 90% s\u00e3o quel\u00eddeos ou podocnemid\u00eddeos. Por que esses bichos est\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul, mas n\u00e3o na \u00c1frica? O que est\u00e1 por tr\u00e1s da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do grupo? Como esta distribui\u00e7\u00e3o se originou?\u201d, disse.<\/p>\n<p>As dezenas de esp\u00e9cies de pleur\u00f3diros viventes est\u00e3o restritas a ambientes terrestres e de \u00e1gua doce, n\u00e3o tolerando o contato com \u00e1gua salgada. Se era assim h\u00e1 100 milh\u00f5es de anos, argumenta Langer, ent\u00e3o de fato a abertura do Atl\u00e2ntico Sul teria criado uma barreira intranspon\u00edvel \u00e0 dispers\u00e3o de pleur\u00f3diros entre os continentes. A deriva continental teria se encarregado de afastar as popula\u00e7\u00f5es, for\u00e7ando a sua adapta\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es diversas para, com o tempo, surgir novos g\u00eaneros e esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Langer conta que a hip\u00f3tese vicariante fazia sentido enquanto a quantidade de f\u00f3sseis de pleur\u00f3diros era relativamente pequena e sua distribui\u00e7\u00e3o muito esparsa. Mas a descoberta de muitos g\u00eaneros extintos na \u00faltima d\u00e9cada escancarou lacunas na narrativa biogeogr\u00e1fica que a hip\u00f3tese tradicional se mostrou incapaz de preencher.<\/p>\n<p>O pesquisador lembra do exemplo dos quel\u00eddeos, hoje presentes na Am\u00e9rica do Sul e na Austr\u00e1lia. At\u00e9 40 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s esses continentes estavam interligados por meio da Ant\u00e1rtica, quando o clima global era mais quente e o continente austral n\u00e3o era um deserto est\u00e9ril coberto de gelo, mas abrigava florestas cheias de vida. Sendo assim, c\u00e1gados devem necessariamente ter nadado nos rios e lagos da antiga Ant\u00e1rtida. S\u00f3 que seus f\u00f3sseis ainda n\u00e3o foram encontrados.<\/p>\n<p>Os tracaj\u00e1s (podocnemid\u00eddeos) s\u00e3o habitantes das florestas tropicais sul-americanas das bacias amaz\u00f4nica e do Orinoco e das matas \u00famidas de Madagascar, mas n\u00e3o habitam a floresta equatorial centro-africana. Segundo os pesquisadoes, isso n\u00e3o quer dizer que no passado podocnemid\u00eddeos n\u00e3o tenham habitado ambientes de \u00e1gua doce do continente africano. Certamente o fizeram. Por\u00e9m, at\u00e9 o momento, n\u00e3o foram achados vest\u00edgios.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 o caso das tartarugas marinhas. Os oceanos atuais s\u00e3o dom\u00ednio exclusivo de tartarugas cript\u00f3diras, como a tartaruga-verde e a de-couro. N\u00e3o existem pleur\u00f3diros marinhos. No passado, n\u00e3o era assim. No Cret\u00e1ceo superior e durante o Pale\u00f3geno, j\u00e1 avan\u00e7ando na era Cenozoica, havia pleur\u00f3diros capazes de tolerar a \u00e1gua salgada. Eram membros da extinta fam\u00edlia dos botremid\u00eddeos, a mesma de\u00a0<i>Atolchelys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Cearachelys<\/i>\u00a0que viviam no litoral do Nordeste h\u00e1 125 milh\u00f5es e 110 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, respectivamente.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ressaltam que, naquela \u00e9poca, o Atl\u00e2ntico Sul ainda n\u00e3o estava totalmente aberto. Estaria mais tarde, entre 80 milh\u00f5es e 66 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, quando botremid\u00eddeos ocupavam ambos os lados do Atl\u00e2ntico. Enquanto\u00a0<i>Inaechelys<\/i>\u00a0habitava o litoral pernambucano, do outro lado do ainda jovem (e por isto mesmo estreito) Oceano Atl\u00e2ntico viviam a portuguesa\u00a0<i>Rosasia<\/i>, assim como\u00a0<i>Foxemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Polysternon<\/i>, encontradas na Espanha e na Fran\u00e7a. Outro g\u00eanero de botremid\u00eddeo marinho,\u00a0<i>Bothremys<\/i>, tinha distribui\u00e7\u00e3o ainda mais ampla, como indica a localiza\u00e7\u00e3o de seus f\u00f3sseis em quatro estados norte-americanos, al\u00e9m do Marrocos e da Jord\u00e2nia.<\/p>\n<p>Pode ser que todos esses pleur\u00f3diros n\u00e3o tenham sido grandes nadadores oce\u00e2nicos, capazes de levar uma vida em alto-mar como ocorre com as migrat\u00f3rias tartaruga-verde e de-couro. Ainda assim, para\u00a0<i>Inaechelys, Rosasia, Foxemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Polysternon<\/i>, o jovem Atl\u00e2ntico Sul pode n\u00e3o ter sido uma barreira formid\u00e1vel a impedir sua dispers\u00e3o para outros continentes \u2013 pelo menos n\u00e3o enquanto a dist\u00e2ncia que separava a Am\u00e9rica do Sul da \u00c1frica era relativamente curta, talvez de algumas centenas de quil\u00f4metros, uma fra\u00e7\u00e3o dos atuais 3.300 quil\u00f4metros que separam o Nordeste brasileiro da \u00c1frica Ocidental, no trecho mais estreito do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p><b>Nova filogenia<\/b><\/p>\n<p>\u201cEm contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 hip\u00f3tese tradicional, que sustenta que a distribui\u00e7\u00e3o atual de pleur\u00f3diros decorre de eventos vicariantes ligados \u00e0 deriva continental, havia uma segunda hip\u00f3tese, de que o grupo seria amplamente distribu\u00eddo e sucessivas extin\u00e7\u00f5es acabaram por fazer com que suas linhagens ficassem restritas \u00e0s \u00e1reas em que hoje s\u00e3o encontrados\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cImaginamos ent\u00e3o uma terceira hip\u00f3tese, segundo a qual um complexo padr\u00e3o de dispers\u00f5es a partir de \u00e1reas gondu\u00e2nicas explicaria a ampla distribui\u00e7\u00e3o no passado\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para testar a ader\u00eancia de cada uma das hip\u00f3teses, decidiu-se construir uma nova filogenia de Pleurodira, contar a hist\u00f3ria evolutiva do grupo da forma mais ampla poss\u00edvel, de modo a revelar padr\u00f5es desconhecidos da distribui\u00e7\u00e3o biogeogr\u00e1fica pregressa.<\/p>\n<p>A filogenia foi constru\u00edda a partir da an\u00e1lise matricial de 245 caracteres morfol\u00f3gicos, estudados em 101 esp\u00e9cies. \u201cTrabalhamos em uma matriz de dados morfol\u00f3gicos para Pleurodira incluindo esp\u00e9cies viventes e extintas. Essa matriz foi analisada utilizando parcim\u00f4nia e com a an\u00e1lise obtivemos uma nova \u00e1rvore filogen\u00e9tica de Pleurodira\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cCom a \u00e1rvore filogen\u00e9tica, conduzimos outras an\u00e1lises, de diversifica\u00e7\u00e3o e de biogeografia, usando os dados temporais e geogr\u00e1ficos das esp\u00e9cies na \u00e1rvore. A an\u00e1lise de diversifica\u00e7\u00e3o levou em conta tanto a quantidade de esp\u00e9cies conhecidas em um determinado per\u00edodo geol\u00f3gico quanto a quantidade relativa de esp\u00e9cies em dois grupos-irm\u00e3os. Comparando esses dados a an\u00e1lise identificou quais grupos s\u00e3o mais diversos em rela\u00e7\u00e3o a outros grupos da mesma linhagem\u201d, disse o paleont\u00f3logo.<\/p>\n<p>Segundo Ferreira, a an\u00e1lise biogeogr\u00e1fica \u00e9 uma an\u00e1lise probabil\u00edstica. Ela leva em considera\u00e7\u00e3o a distribui\u00e7\u00e3o temporal e geogr\u00e1fica das esp\u00e9cies de um grupo e reconstr\u00f3i as \u00e1reas ancestrais dos grupos da \u00e1rvore.<\/p>\n<p>\u201cCom isso, conseguimos identificar a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de grupos de interesse, por exemplo, o ancestral dos podocnemid\u00eddeos estava na \u00e1rea X, o ancestral de pleur\u00f3diros na \u00e1rea Y, e assim dizer que eles partiram de tal \u00e1rea e foram em dire\u00e7\u00e3o de qual outra \u00e1rea\u201d, disse.<\/p>\n<p><b>Saga de endemismos e dispers\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>A nova filogenia conduz \u00e0 conclus\u00e3o de que\u00a0<i>Araripemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Euraxemys<\/i>\u00a0eram parentes dos pelomedusoides, o grupo ancestral que deu origem \u00e0s fam\u00edlias dos botremid\u00eddeos, podocnemid\u00eddeos e pelomedus\u00eddeos.<\/p>\n<p>Com efeito, a melhor \u00e1rvore filogen\u00e9tica obtida indica que, durante o Cret\u00e1ceo inferior quando viveram\u00a0<i>Araripemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Euraxemys<\/i>, as duas principais linhagens de pleur\u00f3diros j\u00e1 existiam. Eram os panquel\u00eddeos (grupo que engloba todos os quel\u00eddeos) e os panpelomedus\u00eddeos (botremid\u00eddeos, podocnemid\u00eddeos e pelomedus\u00eddeos e as demais fam\u00edlias extintas).<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, a nova \u00e1rvore sugere que\u00a0<i>Atolchelys<\/i>, o mais antigo pleur\u00f3diro conhecido (e o mais antigo botremid\u00eddeo), que viveu no Cret\u00e1ceo inferior h\u00e1 125 milh\u00f5es de anos (no Alagoas), divide um ancestral comum com\u00a0<i>Araripemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Euraxemys<\/i>, que viveram h\u00e1 110 milh\u00f5es de anos no atual Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Apesar do escasso registro f\u00f3ssil para o Cret\u00e1ceo inferior (conhece-se meia d\u00fazia de esp\u00e9cies), a nova \u00e1rvore filogen\u00e9tica sugere que, naquele per\u00edodo, um grande n\u00famero de linhagens de quel\u00eddeos e dos ancestrais dos pelomedus\u00eddeos j\u00e1 se encontrava estabelecido.<\/p>\n<p>A grande extin\u00e7\u00e3o do fim do Cret\u00e1ceo que eliminou os dinossauros parece n\u00e3o corresponder a um per\u00edodo cr\u00edtico de extin\u00e7\u00e3o ou diversifica\u00e7\u00e3o dos pleur\u00f3diros. Faz sentido, dado que, entre os vertebrados terrestres, quem menos sofreu com a megaextin\u00e7\u00e3o foram as tartarugas.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente a partir do registro f\u00f3ssil que, pelo menos durante o Cret\u00e1ceo, os panquel\u00eddeos e panpelomedus\u00eddeos estavam restritos ao supercontinente Gondwana. Mas, segundo os pesquisadores, as reconstru\u00e7\u00f5es das \u00e1reas ancestrais a partir da \u00e1rvore filogen\u00e9tica sustentam uma origem australiana para os panquel\u00eddeos, que se dispersaram para a Am\u00e9rica do Sul ainda no Cret\u00e1ceo inferior. Ou seja, a presen\u00e7a de quel\u00eddeos na Austr\u00e1lia n\u00e3o surpreende, pois l\u00e1 se encontraria a origem da linhagem dos mesmos.<\/p>\n<p>Ferreira conta que a hist\u00f3ria biogeogr\u00e1fica dos panpelomedus\u00eddeos, em contraste, foi dominada pela ocorr\u00eancia de \u00e1reas de endemismo para cada grupo, com v\u00e1rios eventos de dispers\u00e3o para outras \u00e1reas. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a fam\u00edlia dos pelomedus\u00eddeos, que sempre foi end\u00eamica \u00e0 \u00c1frica continental.<\/p>\n<p>Atualmente, alguns pelomedus\u00eddeos s\u00e3o encontrados em Madagascar, na pen\u00ednsula ar\u00e1bica, no arquip\u00e9lago de Seychelles e em outras pequenas ilhas, mas a aus\u00eancia de registros f\u00f3sseis, al\u00e9m de remanescentes muito escassos e fragment\u00e1rios na \u00c1frica continental, impossibilita um relato mais detalhado da hist\u00f3ria biogeogr\u00e1fica dos pelomedus\u00eddeos. Diante dos dados atuais, os pesquisadores sup\u00f5em que os panpelomedus\u00eddeos sempre estiveram restritos ao continente africano e s\u00f3 recentemente se dispersaram de forma transoce\u00e2nica para outras \u00e1reas.<\/p>\n<p>Segundo Ferreira, os resultados tamb\u00e9m mostram que os ancestrais de\u00a0<i>Araripemys<\/i>,\u00a0<i>Euraxemys<\/i>\u00a0e dos panpodocnemid\u00eddeos originalmente habitavam a \u00c1frica, dispersando-se para a Am\u00e9rica do Sul durante o Cret\u00e1ceo inferior. Os ancestrais de podocnemid\u00eddeos permaneceram na Am\u00e9rica do Sul, enquanto os ancestrais de botremid\u00eddeos retornaram ao continente africano.<\/p>\n<p>Os botremid\u00eddeos se diversificaram bastante na \u00c1frica, mas v\u00e1rios representantes se dispersaram independentemente para outras \u00e1reas: pelo menos uma vez para a Europa, \u00cdndia, Madagascar e de volta para a Am\u00e9rica do Sul, e pelo menos tr\u00eas vezes para a Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>Os resultados destacam a grande capacidade de dispers\u00e3o dos botremid\u00eddeos, gra\u00e7as aos seus h\u00e1bitos marinhos. Os botremid\u00eddeos foram o grupo mais bem distribu\u00eddo de tartarugas pleur\u00f3diras durante o Cret\u00e1ceo e o Paleoceno, quando ent\u00e3o come\u00e7aram a declinar em diversidade at\u00e9 sua completa extin\u00e7\u00e3o em torno de 50 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p><b>Terceira hip\u00f3tese<\/b><\/p>\n<p>A nova \u00e1rvore filogen\u00e9tica de pleur\u00f3diros permitiu aos pesquisadores detectar e diferenciar eventos vicariantes, eventos de dispers\u00e3o e eventos fundadores ocorridos nos \u00faltimos 125 milh\u00f5es de anos. As hip\u00f3teses anteriores n\u00e3o explicavam satisfatoriamente a distribui\u00e7\u00e3o dos pleur\u00f3diros ao longo do tempo.<\/p>\n<p>\u201cNossa terceira hip\u00f3tese, que presume um padr\u00e3o complexo de dispers\u00f5es para a Am\u00e9rica do Norte, Europa e \u00c1sia, a partir de \u00e1reas gondu\u00e2nicas (Am\u00e9rica do Sul e \u00c1frica), \u00e9 a melhor explica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o passados e presente\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, percebemos que os grupos que possu\u00edam diversidade acima do normal entre os pleur\u00f3diros eram justamente aqueles que se diversificaram em ambientes distintos, isto \u00e9, os que se tornaram tartarugas marinhas\u201d, disse.<\/p>\n<p>O exemplo mais evidente, mas n\u00e3o o \u00fanico, s\u00e3o os botremid\u00eddeos, o caso da tartaruga pernambucana\u00a0<i>Inaechelys<\/i>, da portuguesa\u00a0<i>Rosasia<\/i>\u00a0e das francesas e espanholas\u00a0<i>Foxemys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Polysternon<\/i>.<\/p>\n<p>A saga de 125 milh\u00f5es de anos da linhagem dos pleur\u00f3diros, com sua expans\u00e3o para diversos paleobiomas magn\u00edficos h\u00e1 muito desaparecidos, possui passagens memor\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os estados de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, por exemplo, no fim do Cret\u00e1ceo eram terra de dinossauros. Abrigavam igualmente uma linhagem curiosa e muito diversificada de crocodilos terrestres, r\u00e9pteis que n\u00e3o se arrastavam pelo solo, mas corriam com desenvoltura gra\u00e7as \u00e0s suas patas longas como as de lobos. Em meio a todas essas feras, viviam nos pequenos lagos da regi\u00e3o podocnemid\u00eddeos como os paulistas\u00a0<i>Roxochelys<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Bauruemys<\/i>\u00a0e o mineiro\u00a0<i>Cambaremys<\/i>.<\/p>\n<p>Bem mais ao norte, onde hoje fica o oeste do Amazonas, o Acre, Peru, Col\u00f4mbia e Venezuela, existia entre 18 e 10 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s um megapantanal com 2 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados, quatro vezes o atual Pantanal Mato-Grossense.<\/p>\n<p>Era uma terra de gigantes, onde reinava soberano o maior dos jacar\u00e9s, o purussauro, um monstro de 12 metros e 15 toneladas. Para saciar seu enorme apetite, o purussauro devorava pacaranas (um primo das capivaras) do tamanho de b\u00fafalos e predava a maior tartaruga que existiu, um tracaj\u00e1 colossal chamado\u00a0<i>Stupendemys<\/i>, um podocnemid\u00eddeo dono de um casco com inacredit\u00e1veis 3,5 metros de di\u00e2metro.<\/p>\n<p>Sabe-se que o purussauro atacava\u00a0<i>Stupendemys<\/i>, pois se achou na Venezuela uma carapa\u00e7a completa onde faltava um enorme peda\u00e7o. O peda\u00e7o que faltava tinha o formato exato da boca do purussauro.<\/p>\n<p>Max Langer e Gabriel Ferreira t\u00eam toda a raz\u00e3o em se encantar com as tartarugas pleur\u00f3diras, cientificamente falando. Trata-se, com efeito, de uma linhagem fascinante.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Phylogeny, biogeography and diversification patterns of side-necked turtles (Testudines: Pleurodira)<\/i>\u00a0(doi: http:\/\/dx.doi.org\/10.1098\/rsos.171773), de Gabriel S. Ferreira, Max Langer, Mario Bronzati e Juliana Sterli, pode ser lido em\u00a0<b><a href=\"http:\/\/rsos.royalsocietypublishing.org\/content\/royopensci\/5\/3\/171773.full.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/rsos.royalsocietypublishing.org\/content\/royopensci\/5\/3\/171773.full.pdf<\/a><\/b>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que a tartaruga mais antiga do Brasil, que habitou o Nordeste h\u00e1 125 milh\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87783,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tracajas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O que a tartaruga mais antiga do Brasil, que habitou o Nordeste h\u00e1 125 milh\u00f5es","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87782"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87782"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87782\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}