{"id":87464,"date":"2018-06-25T10:00:26","date_gmt":"2018-06-25T13:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=87464"},"modified":"2018-06-25T11:15:13","modified_gmt":"2018-06-25T14:15:13","slug":"vida-e-morte-da-primeira-onca-monitorada-na-caatinga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/vida-e-morte-da-primeira-onca-monitorada-na-caatinga\/","title":{"rendered":"Vida e morte da primeira on\u00e7a monitorada no bioma Caatinga"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/onca-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-87465\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/onca-1-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/onca-1-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/onca-1.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Vit\u00f3ria foi a primeira on\u00e7a-parda a ser monitorada na Caatinga. Ela costumava se refugiar nos vales e \u00e1reas mais frescas de mata preservada entre os munic\u00edpios de Campo Formoso, Sento S\u00e9, Umburanas, Sobradinho e Juazeiro, na Bahia. Contudo, como uma t\u00edpica on\u00e7a-parda, tamb\u00e9m utilizava \u00e1reas antropizadas para realizar suas atividades. Na ocasi\u00e3o da captura, ela recebeu um colar com GPS, um meio pela qual os pesquisadores acompanharam seus passos at\u00e9 janeiro de 2018, quando um tr\u00e1gico incidente p\u00f4s fim \u00e0 sua vida.<\/p>\n<p>O sistema de GPS no colar da su\u00e7uarana, carinhosamente apelidada de \u201cVivi\u201d pelos pesquisadores, gravava os caminhos que ela fazia ao longo dos dias e enviava via sat\u00e9lite para os pesquisadores, que visualizavam os trajetos sobre o mapa da regi\u00e3o. \u00c0s 11 horas da manh\u00e3 do dia 12 de janeiro de 2018, durante monitoramento de rotina, Cl\u00e1udia Campos percebeu que o sinal do colar havia sido interrompido. Duas situa\u00e7\u00f5es podem ocasionar esta situa\u00e7\u00e3o: defeito no colar ou o animal estar em alguma grota que impe\u00e7a o envio de sua posi\u00e7\u00e3o para o sat\u00e9lite. Como procedimento padr\u00e3o, o pesquisador aguarda o dia seguinte para verificar se o sinal retorna. O colar tem ainda um sistema de alarme de mortalidade: quando o animal fica sem se movimentar por 24 horas, o alarme \u00e9 acionado juntamente com o envio de sua localiza\u00e7\u00e3o para que o pesquisador possa chegar at\u00e9 o local e verificar se realmente o animal est\u00e1 morto.<\/p>\n<div id=\"attachment_60791\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60791 size-full\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-1.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Equipe reunida. Da esquerda para a direita: Mariano Neto Ferreira de Jesus (auxiliar de campo), Gediendson de Ara\u00fajo (veterin\u00e1rio), Ismael alves da Silva (auxiliar de campo), Cl\u00e1udia Bueno de Campos (bi\u00f3loga). Foto: Projeto Amigos da On\u00e7a\/Arquivo.<\/p>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o foi o caso de Vit\u00f3ria. Cl\u00e1udia n\u00e3o recebeu mais nenhum tipo de sinal. Ent\u00e3o, alertou sua equipe e montou uma expedi\u00e7\u00e3o de busca por Vivi. Somente alguns dias depois, a equipe adentrava a \u00e1rea do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a, ansiosos por descobrir o que havia acontecido. Com o \u00faltimo ponto de sua localiza\u00e7\u00e3o em m\u00e3os, chegaram at\u00e9 o local e puderam confirmar o que temiam: em uma \u00e1rea preservada de Caatinga, no interior da atual \u00e1rea protegida, jazia o corpo decomposto de Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Analisando o local, a equipe notou pontos onde foram instaladas duas armadilhas do tipo aratraca, muito comuns na regi\u00e3o, que j\u00e1 tinham sido retiradas. Uma delas vitimou Vivi &#8212; a for\u00e7a do impacto dilacerou sua pata dianteira direita. Os dados registrados pelo colar de monitoramento usado pela on\u00e7a revelaram aos pesquisadores que ela pisou na armadilha no dia 10 de janeiro, entre 4h e 5h da manh\u00e3. Gravemente ferida, passou dois dias agonizando, sendo capaz apenas de se arrastar por alguns metros com a armadilha presa em sua pata. No dia 12 de janeiro, \u00e0s 11 da manh\u00e3, o sinal do colar parou. Foi quando provavelmente o seu algoz, frente a frente com a debilitada on\u00e7a, atirou nela e no colar, danificando o funcionamento do aparelho e a transmiss\u00e3o do sinal, na esperan\u00e7a de que o corpo da on\u00e7a n\u00e3o pudesse ser encontrado. No ponto da outra armadilha, estava a carca\u00e7a de uma raposinha (<em>Cerdocyon thous<\/em>), tamb\u00e9m v\u00edtima da a\u00e7\u00e3o. Analisando a carca\u00e7a de Vivi, os pesquisadores perceberam quatro marcas de furos caracter\u00edsticos de arma de fogo. O restante do corpo estava em decomposi\u00e7\u00e3o e alterado pelos urubus, portanto, n\u00e3o tinham como saber se ela havia levado mais tiros, a n\u00e3o ser por meio de necropsia.<\/p>\n<p>Mais tarde, durante investiga\u00e7\u00f5es, o irm\u00e3o da pessoa que abateu Vivi revelou que ela recebera nove tiros. \u201cSabemos quem foi, como, onde e a motiva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi uma ca\u00e7ada, mas sim um ato direcionado. As a\u00e7\u00f5es cab\u00edveis ao ato ser\u00e3o providenciadas pelas autoridades competentes\u201d, esclareceu Cl\u00e1udia Campos.<\/p>\n<div id=\"attachment_60792\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-60792\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vivi-morta.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vivi-morta.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vivi-morta-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vivi-morta-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Vit\u00f3ria encontrada morta. Foto: Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<p>Vivi era uma das menos de 2.500 on\u00e7as-pardas em idade reprodutiva da Caatinga, segundo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.icmbio.gov.br\/revistaeletronica\/index.php\/BioBR\/article\/view\/377\/285\">estimativas de 2013<\/a>. Nos outros biomas brasileiros (Amaz\u00f4nia, Cerrado, Pantanal e Mata Atl\u00e2ntica) a on\u00e7a-parda foi categorizada como Vulner\u00e1vel (VU) \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. Somente na Caatinga a esp\u00e9cie foi categorizada como Em Perigo (EN), ou seja, neste bioma sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais cr\u00edtica do que no restante do pa\u00eds.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.icmbio.gov.br\/revistaeletronica\/index.php\/BioBR\/article\/view\/377\/285\">Estimativas<\/a>\u00a0revelam que, nos pr\u00f3ximos 21 anos, poder\u00e1 ocorrer um decl\u00ednio de mais de 10% desta popula\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da perda e fragmenta\u00e7\u00e3o de habitat, associada principalmente \u00e0 expans\u00e3o da matriz energ\u00e9tica e\u00f3lica, agropecu\u00e1ria, minera\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de madeira para carv\u00e3o e lenha.<\/p>\n<p><strong>Esfor\u00e7os para conserva\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A perda de um animal silvestre amea\u00e7ado \u00e9 uma trag\u00e9dia por si s\u00f3, mas a perda de um animal monitorado atinge em cheio os poucos e dispendiosos programas de monitoramento e conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o do Boqueir\u00e3o da On\u00e7a, onde Vivi foi morta, a equipe da pesquisadora Cl\u00e1udia Campos executa o Programa de Conserva\u00e7\u00e3o da Fauna &#8211; Monitoramento das on\u00e7as-pardas e on\u00e7as-pintadas, sob responsabilidade da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.enelgreenpower.com\/country-brazil\" rel=\"noopener\">ENEL Green Power do Brasil<\/a>\u00a0e o\u00a0<a href=\"http:\/\/procarnivoros.org.br\/index.php\/projetos\/programa-amigos-da-onca-grandes-predadores-e-sociobiodiversidade-na-caatinga\/\" rel=\"noopener\">Programa Amigos da On\u00e7a<\/a>, do Instituto Pr\u00f3-Carn\u00edvoros, que atua na regi\u00e3o desde 2012.<\/p>\n<div id=\"attachment_60793\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-60793\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/4-Progr-Amigos-da-On%C3%A7a-morta-2-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/4-Progr-Amigos-da-On\u00e7a-morta-2-1.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/4-Progr-Amigos-da-On\u00e7a-morta-2-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/4-Progr-Amigos-da-On\u00e7a-morta-2-1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Carca\u00e7a de Vit\u00f3ria. Foto: Programa Amigos da On\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<p>Apesar da brutalidade em que foi v\u00edtima e da perda para o programa de monitoramento, Vit\u00f3ria contribuiu, nos 10 meses em que foi monitorada, com informa\u00e7\u00f5es fundamentais sobre o h\u00e1bito de vida das on\u00e7as do Boqueir\u00e3o, que est\u00e3o sendo analisadas e ser\u00e3o utilizadas para a continuidade dos esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o das on\u00e7as pardas e pintadas na Caatinga. \u201cPerdemos a Vit\u00f3ria, mas as informa\u00e7\u00f5es coletadas at\u00e9 o dia de sua morte ser\u00e3o utilizadas como combust\u00edvel para a continua\u00e7\u00e3o dos nossos esfor\u00e7os para a conserva\u00e7\u00e3o desta e de outras esp\u00e9cies da Caatinga\u201d, informou Cl\u00e1udia Campos. &#8220;Trabalhar com conserva\u00e7\u00e3o \u00e9 lidar com desafios, um processo lento, complexo, e muitas vezes triste. Respirar fundo e continuar&#8230; esses s\u00e3o os deveres de quem acredita que um dia compensar\u00e1, n\u00e3o importa a escala&#8221;, disse a pesquisadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vit\u00f3ria foi a primeira on\u00e7a-parda a ser monitorada na Caatinga. 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