{"id":86176,"date":"2018-06-03T14:00:43","date_gmt":"2018-06-03T17:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=86176"},"modified":"2018-06-03T10:23:10","modified_gmt":"2018-06-03T13:23:10","slug":"como-dna-de-aranha-mostra-evolucao-das-florestas-brasileiras-em-5-milhoes-de-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/como-dna-de-aranha-mostra-evolucao-das-florestas-brasileiras-em-5-milhoes-de-anos\/","title":{"rendered":"Como DNA de aranha mostra evolu\u00e7\u00e3o das florestas brasileiras em 5 milh\u00f5es de anos"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/arenha.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-86177\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/arenha-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/arenha-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/arenha.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/div>\n<div>\n<p>Pode parecer dif\u00edcil de acreditar, mas o DNA de uma aranha que vive nas regi\u00f5es quentes das Am\u00e9ricas, da Argentina aos Estados Unidos, ajuda a entender as mudan\u00e7as sofridas pela Floresta Amaz\u00f4nica e a Mata Atl\u00e2ntica nos \u00faltimos cinco milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>A descoberta foi feita pelo bi\u00f3logo Luiz Filipe de Macedo Bartoleti, que estudou parte do DNA mitocondrial e nuclear de indiv\u00edduos da esp\u00e9cie\u00a0<em>Nephila clavipes<\/em>, coletados em 40 popula\u00e7\u00f5es dela em diversas regi\u00f5es do Brasil e da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>O trabalho foi feito para sua tese de doutorado, defendida recentemente no Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele se insere numa ci\u00eancia chamada Biogeografia Hist\u00f3rica, que estuda os padr\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos seres vivos num determinado per\u00edodo de tempo.<\/p>\n<p>Ao analisar o DNA de diferentes popula\u00e7\u00f5es de uma mesma esp\u00e9cie, Bartoleti procurou evid\u00eancias de poss\u00edveis altera\u00e7\u00f5es ocorridas ao longo do tempo nas florestas em que elas viviam.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>De acordo com ele, o principal objetivo da pesquisa foi compreender o que aconteceu nos \u00faltimos milh\u00f5es de anos com as florestas \u00famidas da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cPara isso, usamos a aranha\u00a0<em>Nephila clavipes<\/em>\u00a0como um modelo de estudo\u201d, conta. \u201cPor essa esp\u00e9cie possuir popula\u00e7\u00f5es que ocorrem em boa parte das matas dessa regi\u00e3o, ela nos possibilitou reconstruir eventos que ocorreram no passado.\u201d<\/p>\n<h2>Rastros<\/h2>\n<p>Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque o DNA possui algumas caracter\u00edsticas fundamentais. Ele \u00e9 capaz de se autorreplicar e, durante esse processo, alguns erros ocorrem \u2013 as chamadas muta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algumas delas s\u00e3o de ordem adaptativa, ou seja, sofrem o efeito da sele\u00e7\u00e3o natural. Aquelas que favorecem a adapta\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie ao seu ambiente s\u00e3o selecionadas e passam a fazer parte do genoma.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>Algumas muta\u00e7\u00f5es, no entanto, s\u00e3o neutras \u2013 ou seja, n\u00e3o passam pelo efeito da sele\u00e7\u00e3o natural. Elas v\u00e3o se acumulando ao longo do tempo numa dada popula\u00e7\u00e3o. Se grupos de uma mesma esp\u00e9cie param de ter contato entre si, eles passar\u00e3o a acumular muta\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, essas partes do DNA sofrem influ\u00eancia das flutua\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas \u2013 s\u00e3o capazes de indicar se houve aumento ou diminui\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Por isso, essas muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o as que interessaram a Bartoleti. \u201cN\u00f3s procuramos essas regi\u00f5es espec\u00edficas no DNA das\u00a0<em>Nephila clavipes<\/em>\u00a0e ent\u00e3o sequenciamos as de todos os indiv\u00edduos que coletamos\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00f3s procur\u00e1vamos eram pequenas diferen\u00e7as nessas regi\u00f5es do genoma entre os indiv\u00edduos. Foi assim que descobrimos as v\u00e1rias linhagens no nosso estudo. A partir de ent\u00e3o, podemos associar cada uma delas aos biomas que habitavam.\u201d<\/p>\n<p>Isso \u00e9 poss\u00edvel porque as mudan\u00e7as que as florestas sofreram ao longo de milh\u00f5es de anos deixaram \u201cmarcas\u201d no DNA dos indiv\u00edduos que vivem nelas. \u201cNo presente, podemos observar essas \u2018marcas\u2019 e fazer infer\u00eancias sobre os processos passados respons\u00e1veis pelo ac\u00famulo delas\u201d, explica Bartoleti. \u201cAssim, reconstru\u00edmos a hist\u00f3ria dos biomas a partir dos organismos que vivem nele.\u201d<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7as ambientais<\/h2>\n<p>A expans\u00e3o ou retra\u00e7\u00e3o das florestas, por exemplo, podem ser inferidas pelo aumento ou decl\u00ednio populacional das esp\u00e9cies que nelas vivem. A avalia\u00e7\u00e3o do DNA das aranhas mostrou, por exemplo, uma expans\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es delas na Mata Atl\u00e2ntica h\u00e1 21 mil anos.<\/p>\n<p>\u201cIsso indica que, provavelmente, essa floresta estava com seu tamanho reduzido durante esse per\u00edodo e se expandiu depois, quando as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ficaram mais favor\u00e1veis\u201d, afirma Bartoleti.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>Na pr\u00e1tica, o que o pesquisador descobriu \u00e9 que no Brasil diversas linhagens (como se fossem grupos gen\u00e9ticos dentro de uma esp\u00e9cie) surgiram recentemente \u2013 em termos geol\u00f3gicos \u2013 nos \u00faltimos 350 mil anos, provavelmente por causa de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que \u201cisolaram\u201d grupos dessa esp\u00e9cie em diferentes regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Bartoleti concluiu que esses grupos entraram em contato depois desse isolamento \u2013 ou seja, os grupos da Mata Atl\u00e2ntica chegaram \u00e0 Amaz\u00f4nia, e vice-versa.<\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/816D\/production\/_101833133_aranha2.jpg\" alt=\"Aranha Nephila clavipes\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/div>\n<div>Expans\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o de aranhas h\u00e1 21 mil anos indica altera\u00e7\u00f5es no tamanho da Mata Atl\u00e2ntica<\/div>\n<p>Segundo pesquisador, isso provavelmente ocorreu por meio de \u201cpontes\u201d de floresta \u00famida que avan\u00e7aram pelo meio do Cerrado \u2013 um bioma seco \u2013 durante o Pleistoceno (de 2,5 milh\u00f5es a 11,7 mil atr\u00e1s). \u201cEssas pontes devem ter se formado gra\u00e7as \u00e0s varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas caracter\u00edsticas desse per\u00edodo, que fez com que a \u00e1rea e formato das florestas mudasse: em per\u00edodos mais quentes, elas expandiam em dire\u00e7\u00e3o ao Cerrado, que se retra\u00eda\u201d, conta. \u201cAssim, os per\u00edodos quentes e \u00famidos devem ter propiciado esses contatos entre as linhagens.\u201d<\/p>\n<h2>Cordilheira dos Andes<\/h2>\n<p>O estudo do DNA dos aracn\u00eddeos tamb\u00e9m ajuda a contar a complexa hist\u00f3ria do soerguimento da Cordilheira dos Andes, que come\u00e7ou h\u00e1 cerca de 10 milh\u00f5es de anos. Ao norte, na Col\u00f4mbia, ela se divide em tr\u00eas forma\u00e7\u00f5es principais, que t\u00eam hist\u00f3rias e tempo de soerguimento diferentes.<\/p>\n<p>\u201cComo encontramos a esp\u00e9cie dos dois lados dessa cadeia de montanhas, podemos inferir que em algum momento elas cruzaram essa barreira, provavelmente antes do soerguimento final (que ocorreu entre 5 e 3 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s)\u201d, diz Bartoleti.<\/p>\n<p>\u201cA partir desse momento, as popula\u00e7\u00f5es ficaram isoladas, o que pode ser notado pela alta diverg\u00eancia entre a as linhagens que ocorrem de cada lado.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com ele, nesse caso sua principal descoberta foi datar o momento em que o fluxo g\u00eanico das aranhas foi interrompido (h\u00e1 cerca de 3,5 milh\u00f5es de anos) e mostrar que os Andes s\u00e3o uma barreira para a migra\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 surpreendente porque essa aranha \u00e9 considerada uma \u00f3tima dispersora \u2013 consegue migrar por muitos quil\u00f4metros por meio de fios de teias carregados pelo vento\u201d, diz Bartoleti.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ele diz que a import\u00e2ncia do seu trabalho est\u00e1 no fato de ter contribu\u00eddo para a compreens\u00e3o dos mecanismos que levaram ao surgimento da megabiodiversidade da Am\u00e9rica do Sul e como ela se comportou diante das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas dos \u00faltimos milhares de anos, o que deve permitir elaborar hip\u00f3teses sobre o que acontecer\u00e1 no futuro num contexto de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ainda mais dr\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Segundo o cientista, \u00e9 fundamental que se compreenda como a diversidade foi constru\u00edda ao longo do tempo geol\u00f3gico. \u201cQuando entendemos como as esp\u00e9cies respondem no presente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ocorridas no passado, n\u00f3s somos capazes de criar modelos para predizer como elas se comportar\u00e3o no futuro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em curso\u201d, diz. \u201cCom isso, podemos fazer progn\u00f3sticos acerca de esp\u00e9cies que poder\u00e3o ser mantidas ou extintas e de \u00e1reas climaticamente est\u00e1veis que poder\u00e3o servir para fins de conserva\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode parecer dif\u00edcil de acreditar, mas o DNA de uma aranha que vive nas 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