{"id":8565,"date":"2014-10-15T18:00:07","date_gmt":"2014-10-15T18:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=8565"},"modified":"2014-10-15T16:28:09","modified_gmt":"2014-10-15T16:28:09","slug":"bioetica-biopolitica-e-tanatopolitica-a-obsessao-doentia-pela-saude-perfeita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/bioetica-biopolitica-e-tanatopolitica-a-obsessao-doentia-pela-saude-perfeita\/","title":{"rendered":"Bio\u00e9tica, biopol\u00edtica e tanatopol\u00edtica. A obsess\u00e3o doentia pela sa\u00fade perfeita"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"contentheading\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-8566\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Entrevista especial com Anna Quintanas<\/h2>\n<div id=\"texto-aumenta\">\n<div class=\"article_text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cEntendo a bio\u00e9tica precisamente como uma \u2018\u00e9tica para a vida\u2019, uma \u00e9tica que pretende cuidar da vida no contexto de uma sociedade que est\u00e1 dominada pelas consequ\u00eancias e pela intera\u00e7\u00e3o entre a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da \u00e9poca moderna e a revolu\u00e7\u00e3o industrial. A segunda, evidentemente, n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a primeira\u201d, afirma a fil\u00f3sofa. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA bio\u00e9tica nasceu como cinto de seguran\u00e7a para uma vida que se pressentia, (&#8230;) amea\u00e7ada por m\u00faltiplos flancos\u201d, diz <strong>Anna Quintanas<\/strong> \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php\" target=\"_blank\"><strong>IHU<\/strong> <strong>On-Line<\/strong><\/a>, ao comentar que o estudo transdisciplinar entre as \u00e1reas da Sa\u00fade, da Biologia, da Filosofia e das Ci\u00eancias Jur\u00eddicas surgiu, \u201cenquanto preocupa\u00e7\u00e3o com a vida\u201d, no contexto da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/525583-arquivos-relembram-reacao-de-europeus-ao-fim-da-primeira-guerra\" target=\"_blank\"><strong>Primeira<\/strong><\/a> e da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/505781-governancamundialsemlideranca\" target=\"_blank\"><strong>Segunda Guerra<\/strong> <strong>Mundial<\/strong><\/a>, \u201cquando a morte e a destrui\u00e7\u00e3o chegaram a limites inimagin\u00e1veis para as gera\u00e7\u00f5es anteriores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em vista o contexto hist\u00f3rico, <strong>Anna<\/strong> salienta a rela\u00e7\u00e3o entre bio\u00e9tica e biopol\u00edtica. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/513819-bioetica-a-arte-da-responsabilidade\" target=\"_blank\"><strong>bio\u00e9tica<\/strong><\/a>, salienta, ao nascer da preocupa\u00e7\u00e3o de cuidar da vida, a qual \u201c\u00e9 percebida como amea\u00e7ada n\u00e3o apenas pelas novas tecnologias, mas tamb\u00e9m pelo aumento da popula\u00e7\u00e3o mundial e dos efeitos da produ\u00e7\u00e3o industrial sobre a vida humana e a do ecossistema, (&#8230;) n\u00e3o pode tratar dos problemas \u00e9ticos produzidos em torno do \u2018bios\u2019 sem ter presente o marco <strong>(bio)pol\u00edtico<\/strong> em que estes se d\u00e3o, um marco que \u00e9 presidido pela ideia da produtividade em todos os n\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong> por e-mail, ela questiona: \u201cPode a<strong> (bio)\u00e9tica<\/strong> ignorar este fundo <strong>(bio)pol\u00edtico<\/strong>?\u201d. Segundo a pesquisadora, a bio\u00e9tica \u201cpredominante costuma faz\u00ea-lo\u201d, mas \u201ccorre o risco de ser acusada de superficialidade, no sentido de ficar na superf\u00edcie e negar-se a olhar o que h\u00e1 debaixo do tapete\u201d. Para ela, \u00e9 imposs\u00edvel enfrentar os problemas \u00e9ticos da biomedicina sem levar em conta o contexto em que se desenvolve a atividade dos centros de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, os hospitais, os laborat\u00f3rios, os ensaios cl\u00ednicos ou as empresas farmac\u00eauticas. E acrescenta: \u201cO governo da vida hoje se faz a partir de padr\u00f5es neoliberais. A <strong>bio\u00e9tica<\/strong>, caso quiser continuar cuidando da vida, deve enfrentar aquilo que a impede de avan\u00e7ar nesta dire\u00e7\u00e3o. Cuidar da vida e tentar explor\u00e1-la s\u00e3o duas realidades incompat\u00edveis. Todos os seres vivos s\u00e3o produtivos, a come\u00e7ar pela caracter\u00edstica reprodutora que os caracteriza, mas uma coisa \u00e9 reconhecer a produtividade da vida e outra \u00e9 ter como objetivo principal exprimi-la sem considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas Feixas<\/strong> \u00e9 uma das palestrantes do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/eventos\/agenda\/449-xvii-coloquio-filosofia-unisinos-%E2%80%93-filosofia-e-bioetica-entre-o-cuidado-e-administracao-da-vida\" target=\"_blank\"><strong>XVII Col\u00f3quio de Filosofia UNISINOS \u2013 Filosofia e bio\u00e9tica: entre o cuidado e administra\u00e7\u00e3o da vida<\/strong><\/a>, no qual participa da Mesa-redonda sobre as mudan\u00e7as ambientais, quest\u00f5es bio\u00e9ticas e a responsabilidade social, \u00e0s 16h30min, na <strong>Sala Ignacio Ellacur\u00eda e Companheiros<\/strong>, no <strong>IHU<\/strong>, e \u00e0s 19h45min far\u00e1 a confer\u00eancia <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/eventos\/agenda\/485-as-implicacoes-biopoliticas-da-bioetica-%E2%80%93-profa-dra-anna-quintanas-feixas\" target=\"_blank\"><strong>As implica\u00e7\u00f5es biopol\u00edticas da bio\u00e9tica<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas Feixas<\/strong> leciona na Universitat de Girona, na Espanha, \u00e9 graduada em Filosofia pela Universitat Aut\u00f2noma de Barcelona e doutora em Filosofia pela Universitat de Girona. Entre seus livros, destacamos <strong>Michel Foucault: filosofia de la transgressi\u00f3<\/strong> (Editorial P\u00f2rtic, 2002), <strong>Salut i poder en la g\u00e8nesi de l&#8217;home contemporani<\/strong> (Universitat de Girona, 1998) e <strong>El trasfondo biopol\u00edtico de la bio\u00e9tica<\/strong> (Documenta Universit\u00e0ria, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o nexo que aproxima as mudan\u00e7as ambientais das quest\u00f5es bio\u00e9ticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> N\u00e3o se pode negar que o ponto de vista ecol\u00f3gico est\u00e1 presente desde os prim\u00f3rdios da bio\u00e9tica. Evidentemente, ocupou um lugar central em toda a obra de <strong>Van<\/strong> <strong>Rensselaer<\/strong> <strong>Potter<\/strong>, come\u00e7ando por seu primeiro artigo que data de 1970: <strong>\u201cBio\u00e9tica: ci\u00eancia da sobreviv\u00eancia\u201d<\/strong>. Para <strong>Potter<\/strong> a bio\u00e9tica devia trazer-nos a sabedoria necess\u00e1ria para aprender a usar as grandes potencialidades associadas ao conhecimento humano para conseguir o bem comum, que inclui, evidentemente, a <strong>conserva\u00e7\u00e3o da Natureza<\/strong>. Influenciada pelo contexto da amea\u00e7a at\u00f4mica e os efeitos da industrializa\u00e7\u00e3o, a bio\u00e9tica potteriana advogou por uma sobreviv\u00eancia de todas as formas de vida, n\u00e3o apenas a humana. Para <strong>Potter<\/strong> a defesa de uma vida de qualidade para os seres humanos (quest\u00e3o social) foi uma quest\u00e3o insepar\u00e1vel do cuidado do ecossistema (quest\u00e3o ambiental).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <strong>Instituto Kennedy de<\/strong> <strong>\u00c9tica<\/strong>, que foi fundado por <strong>Andr\u00e9<\/strong> <strong>Hellegers<\/strong>, em 1971, na Universidade de Georgetown, e que \u00e9 considerado o segundo momento fundacional da bio\u00e9tica, embora nunca tenha assumido a bio\u00e9tica global de <strong>Potter<\/strong>, e que ao longo da sua hist\u00f3ria dedicou-se principalmente \u00e0 \u00e9tica m\u00e9dica, tampouco p\u00f4de evitar a quest\u00e3o ecol\u00f3gica. Atualmente, em sua p\u00e1gina na internet afirma-se que o campo da bio\u00e9tica inclui uma \u00e9tica da sa\u00fade, uma \u00e9tica das novas tecnologias e uma \u00e9tica do meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem europeia do termo <strong>\u201cbio\u00e9tica\u201d<\/strong> n\u00e3o devemos esquecer o artigo de 1927 do pastor protestante alem\u00e3o <strong>Fritz<\/strong> <strong>Jahr<\/strong>: <strong>\u201cBio\u00e9tica: uma revis\u00e3o do relacionamento \u00e9tico dos humanos com os animais e as plantas\u201d<\/strong>. Realizando uma reformula\u00e7\u00e3o do imperativo categ\u00f3rico kantiano em um \u201cimperativo biol\u00f3gico\u201d, <strong>Jahr<\/strong> pensou as obriga\u00e7\u00f5es \u00e9ticas n\u00e3o apenas para as rela\u00e7\u00f5es humanas, mas tamb\u00e9m para a intera\u00e7\u00e3o com as demais formas de vida. Sua <strong>\u201cBio-Ethik\u201d<\/strong> inclu\u00eda claramente as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas e o questionamento da experimenta\u00e7\u00e3o com animais. Defendeu uma extens\u00e3o da compaix\u00e3o, do amor, da responsabilidade e da solidariedade para com toda a \u201ccomunidade bi\u00f3tica\u201d (assim o naturalista Aldo Leopold, professor de Potter, chamou os integrantes do planeta Terra).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bio\u00e9tica e preocupa\u00e7\u00e3o com a vida <\/strong><\/p>\n<table style=\"width: 176px; height: 133px;\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\u00a0<img style=\"vertical-align: bottom; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/oi58.tinypic.com\/23wjiua.jpg\" alt=\"alt\" width=\"40\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8220;Estar atento e ser sol\u00edcito diante das necessidades da vida, este poderia ser um bom lema para a bio\u00e9tica&#8221;<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que \u00e9 importante ter presente que a bio\u00e9tica, enquanto preocupa\u00e7\u00e3o com a vida, aparece precisamente no contexto da <strong>Primeira<\/strong> e da <strong>Segunda Guerra Mundial<\/strong>, quando a morte e a destrui\u00e7\u00e3o chegaram a limites inimagin\u00e1veis para as gera\u00e7\u00f5es anteriores. <strong>Jahr<\/strong> escreve depois da <strong>Primeira<\/strong> <strong>Guerra<\/strong> <strong>Mundial<\/strong>, e <strong>Potter<\/strong> depois da Segunda no marco da amea\u00e7a at\u00f4mica da <strong>Guerra<\/strong> <strong>Fria<\/strong>. Poder\u00edamos dizer que a bio\u00e9tica nasceu como cinto de seguran\u00e7a para uma vida que se pressentia, talvez, como j\u00e1 n\u00e3o eterna, mas amea\u00e7ada por m\u00faltiplos flancos. Como o pr\u00f3prio <strong>Potter<\/strong> reconheceu, penso que se pode rastrear um fundo maternal na bio\u00e9tica. As delibera\u00e7\u00f5es bio\u00e9ticas, mesmo que no n\u00edvel l\u00f3gico-aristot\u00e9lico sejam impec\u00e1veis, mas se na pr\u00e1tica n\u00e3o se transformam em atitudes sol\u00edcitas, penso que n\u00e3o tocam o miolo da bio\u00e9tica. Estar atento e ser sol\u00edcito diante das necessidades da vida, este poderia ser um bom lema para a bio\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em consequ\u00eancia, as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas deveriam ser um dos principais esteios da bio\u00e9tica. No entanto, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo foram marginalizadas pelo predom\u00ednio do ponto de vista antropoc\u00eantrico e pela \u00e9tica m\u00e9dica. \u00c9 significativo que no famoso<strong> \u201cInforme Belmont\u201d<\/strong> (1979), que foi outro epis\u00f3dio fundacional da bio\u00e9tica, n\u00e3o se fizesse nenhuma men\u00e7\u00e3o aos problemas ambientais, e seu \u00e2mbito de atua\u00e7\u00e3o se restringisse aos dilemas \u00e9ticos que podem aparecer na pesquisa com sujeitos humanos, esquecendo tamb\u00e9m <strong>a quest\u00e3o da experimenta\u00e7\u00e3o animal<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Considerando um cen\u00e1rio empresarial preocupado primeiramente com o lucro e uma sociedade cada vez mais capturada pelo dispositivo do consumo, quais s\u00e3o os principais desafios da responsabilidade social?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> No mundo empresarial, a chamada <strong>\u201cresponsabilidade social\u201d<\/strong>, especialmente nas grandes multinacionais, no momento \u00e9 basicamente um termo que est\u00e1 na moda e que \u00e9 \u00fatil por uma quest\u00e3o de <strong>estrat\u00e9gia de marketing<\/strong>. Entretanto, se tentamos associar o termo ao mundo da especula\u00e7\u00e3o financeira, o resultado \u00e9 de absoluta incredulidade e de contradi\u00e7\u00e3o nos termos. \u00c9 certo que algumas multinacionais e alguns bancos t\u00eam funda\u00e7\u00f5es que oferecem bolsas de estudo, ajudas para a inf\u00e2ncia, para pessoas com necessidades especiais, para a pesquisa sobre determinadas doen\u00e7as e que realizam atividades culturais diversas, o que representa para elas uma boa economia fiscal. Mas, do meu ponto de vista, a responsabilidade social deveria ser claramente legislada e seus descumprimentos teriam que comportar importantes san\u00e7\u00f5es. Caso contr\u00e1rio, ficamos no n\u00edvel puramente das boas inten\u00e7\u00f5es, como no caso da prega\u00e7\u00e3o vazia sobre os <strong>Direitos Humanos<\/strong> ou sobre o <strong>desenvolvimento<\/strong> <strong>sustent\u00e1vel<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No <em><strong>Livro Verde<\/strong>. <strong>Promover um marco europeu para a responsabilidade social das empresas<\/strong><\/em>, publicado em 2001 pela Comiss\u00e3o Europeia, define-se a responsabilidade social como \u201cum conceito, segundo o qual as empresas decidem, numa base volunt\u00e1ria, contribuir para uma sociedade mais justa e um ambiente mais limpo\u201d. Enquanto a responsabilidade social for concebida como uma decis\u00e3o totalmente volunt\u00e1ria por parte das grandes empresas, n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Embora, atualmente, fa\u00e7a parte do senso comum que esta deve ser volunt\u00e1ria porque se trata do terreno privado, no futuro seguramente esta presun\u00e7\u00e3o escandalizar\u00e1 e talvez se perguntar\u00e3o como foi poss\u00edvel que a <strong>responsabilidade social<\/strong> (a responsabilidade pelos problemas sociais, ambientais e o bem comum) fosse simplesmente uma op\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo cidad\u00e3o e todo grupo humano, seja empresarial ou n\u00e3o, deveria assumir que deve zelar, paralelamente, tanto pelo pr\u00f3prio interesse como pelo conjunto da sociedade. Atualmente, esta ideia pode parecer estranha, mas n\u00e3o o foi para os cidad\u00e3os da p\u00f3lis cl\u00e1ssica. Eles n\u00e3o faziam a separa\u00e7\u00e3o taxativa entre o privado e o p\u00fablico. Sabiam que s\u00f3 podiam alcan\u00e7ar o pleno desenvolvimento como indiv\u00edduos no marco de uma p\u00f3lis que lhes proporcionasse os elementos necess\u00e1rios para alcan\u00e7\u00e1-los. Por isso, Arist\u00f3teles vinculou claramente a \u00e9tica \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bio\u00e9tica da prote\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, defendo a <strong>\u201cbio\u00e9tica da prote\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong>, defendida por <strong>M. Kottow<\/strong> ou <strong>F. R. Schramm<\/strong>, porque um dos seus objetivos principais \u00e9 assinalar que o centro da \u00e9tica deve ser a a\u00e7\u00e3o, contra o que costuma acontecer na \u00e9tica tradicional, que fica no abstrato, no simples n\u00edvel dos enunciados. No momento, a \u00e9tica da responsabilidade social ficou basicamente em declara\u00e7\u00f5es sem traduzir-se em a\u00e7\u00f5es realmente transformadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, tenho consci\u00eancia de que exigir que a responsabilidade social das grandes empresas seja legislada e definida claramente vai contra o esp\u00edrito desregulador do neoliberalismo. Mas o importante \u00e9 que a press\u00e3o dos cidad\u00e3os v\u00e1 por esse caminho. Os poucos avan\u00e7os na responsabilidade social empresarial foram conseguidos pela press\u00e3o dos cidad\u00e3os. H\u00e1 uma infinidade de exemplos de boicotes dos consumidores a determinadas multinacionais como forma de protesto contra o <strong>trabalho infantil<\/strong> ou a <strong>produ\u00e7\u00e3o contaminanteb.\u00a0<\/strong>Mas, lamentavelmente, trata-se de campanhas passageiras que podem prejudicar as vendas apenas durante um prazo curto de tempo. Sem d\u00favida, faz falta ir al\u00e9m e for\u00e7ar os governos para mudar o mercado mundial, mas isto \u00e9 imposs\u00edvel enquanto a pol\u00edtica continuar sequestrada pela economia, pelos interesses econ\u00f4micos de uma <strong>pequena elite mundial<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito tamb\u00e9m que s\u00e3o de grande import\u00e2ncia as experi\u00eancias econ\u00f4micas alternativas, porque servem para mostrar que outras formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho s\u00e3o poss\u00edveis. Refiro-me a formas de trabalho cooperativo, ao com\u00e9rcio justo, aos<strong> bancos \u00e9ticos<\/strong> ou \u00e0 <strong>economia do bem comum<\/strong> impulsionada pelo economista austr\u00edaco <a href=\"http:\/\/www.economia-del-bien-comun.org\/es\" target=\"_blank\"><strong>Christian Felber<\/strong><\/a>. Esta \u00faltima organiza\u00e7\u00e3o procura convencer governos e empresas para a grande aposta de futuro que significaria para eles aplicar os princ\u00edpios da economia do bem comum. Procuram demonstrar a viabilidade de um sistema de mercado no qual as empresas privadas substituam a competitividade desenfreada e o af\u00e3 cego de lucro por formas de coopera\u00e7\u00e3o que tenham como objetivo contribuir para o bem comum. Em 2010, 70 empresas eram subscritoras desta economia alternativa que se define como mais humana, democr\u00e1tica e ecol\u00f3gica. No final de 2013, j\u00e1 contava com 1.400 empresas de 27 pa\u00edses. Neste mesmo ano, por exemplo, criou-se na Argentina a <strong>Funda\u00e7\u00e3o do Bem Comum Patag\u00f4nia<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como podemos compreender a tens\u00e3o paradoxal que se estabelece quando a vida \u00e9 compreendida como alteridade \u00e9tica que deve ser cuidada e tamb\u00e9m como bem \u00fatil que deve ser produzido?<\/strong><\/p>\n<table align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img style=\"margin: 15px; vertical-align: top;\" src=\"http:\/\/i57.tinypic.com\/6gxxms.jpg\" alt=\"alt\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><em>Foto:\u00a0<a href=\"http:\/\/geneticabioetica.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Gen\u00e9tica Y Bio\u00e9tica<\/a><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> N\u00e3o creio que devamos realizar esfor\u00e7os para mitigar esta contradi\u00e7\u00e3o. O que devemos fazer \u00e9 sair deste paradigma, recha\u00e7ando-o, buscar formas para desconstru\u00ed-lo e estar atentos \u00e0s linhas de fuga proporcionadas pelas fendas abertas dentro do pr\u00f3prio sistema. N\u00e3o estou iludida e sei que o edif\u00edcio ainda \u00e9 muito s\u00f3lido, mas as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas se produzem pela soma ou intera\u00e7\u00e3o entre infinitas pequenas coisas. Para ir de encontro a um mundo em que, como dizia <strong>Kant<\/strong>, nem tudo tem um pre\u00e7o, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o se deixar afogar pelos discursos do conformismo e do \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada a fazer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que teria dito uma mulher europeia do s\u00e9culo XVII se lhe tivessem explicado como viveriam suas concidad\u00e3s quatro s\u00e9culos depois? Evidentemente, a situa\u00e7\u00e3o da mulher deixa ainda muit\u00edssimo a desejar, e em muitos lugares do mundo avan\u00e7ou-se muito pouco, mas se h\u00e1 mudan\u00e7as \u00e9 porque h\u00e1 seres humanos que pensam que as coisas podem ser de outra forma, embora, no momento em que o pensam, suas ideias v\u00e3o contra o senso comum. Para mim, o avan\u00e7o da mulher \u00e9 muito esperan\u00e7oso. Os partidos pol\u00edticos, os sindicatos, as leis, todos os \u00e2mbitos da macropol\u00edtica intervieram neste processo, mas tamb\u00e9m e, sobretudo, as mulheres e homens an\u00f4nimos que nunca aparecer\u00e3o nos livros de hist\u00f3ria, mas sem as a\u00e7\u00f5es dos quais nunca teria sido poss\u00edvel chegar onde nos encontramos atualmente. N\u00e3o h\u00e1 nada que um indiv\u00edduo ou grupo fa\u00e7a dentro deste mundo que seja insignificante para o destino da humanidade e do seu ambiente. Tudo conta e tudo soma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais implica\u00e7\u00f5es biopol\u00edticas da bio\u00e9tica em nosso tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> O tema das rela\u00e7\u00f5es entre <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/514339-conversando-sobre-bioetica-com-juan-masia-\" target=\"_blank\"><strong>bio\u00e9tica<\/strong><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4063&amp;secao=372\" target=\"_blank\"><strong>biopol\u00edtica<\/strong><\/a> est\u00e1 totalmente relacionado com a pergunta anterior. A bio\u00e9tica nasce da preocupa\u00e7\u00e3o de cuidar da vida, de uma vida que, no caso de <strong>Potter<\/strong> ao menos, \u00e9 percebida como amea\u00e7ada n\u00e3o apenas pelas novas tecnologias, mas tamb\u00e9m pelo aumento da popula\u00e7\u00e3o mundial e dos efeitos da produ\u00e7\u00e3o industrial sobre a vida humana e a do ecossistema. <strong>Potter<\/strong>, assim como muitos de seus coet\u00e2neos, sentiu-se muito impactado pela obra de <strong>Rachel L. Carson<\/strong>, <strong>Primavera Silenciosa<\/strong> <strong>(1962)<\/strong>. Pela primeira vez eram demonstrados os efeitos devastadores do uso massivo de produtos qu\u00edmicos sobre toda a cadeia da vida. E Potter teve isso muito claro, e afirmou que por tr\u00e1s da \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d do liberalismo, que teoricamente deve acabar trazendo progresso e bem-estar, age, na verdade, uma \u201cm\u00e3o rapaz\u201d que permite a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os de uma elite mundial enquanto se viola flagrantemente os direitos humanos de boa parte da popula\u00e7\u00e3o e se destro\u00e7a o mundo da Natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, a <strong>(bio)\u00e9tica<\/strong> n\u00e3o pode tratar dos problemas \u00e9ticos produzidos em torno do \u201cbios\u201d sem ter presente o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-arquivadas\/36251-o-des-governo-biopolitico-da-vida-humana\" target=\"_blank\"><strong>marco (bio)pol\u00edtico<\/strong><\/a> em que estes se d\u00e3o, um marco que, como se indicava na pergunta anterior, \u00e9 presidido pela ideia da produtividade em todos os n\u00edveis. Tudo deve ser produtivo, maximamente produtivo, tamb\u00e9m a vida e suas potencialidades. Recordemos a teoria do capital humano, por exemplo, na formula\u00e7\u00e3o de <strong>Gary S. Becker<\/strong>. Seu Tratado sobre a fam\u00edlia \u00e9 espetacular. N\u00e3o \u00e9 que analise os aspectos econ\u00f4micos do mundo familiar, mas reduz seus integrantes e tudo o que acontece em seu interior ao ponto de vista econ\u00f4mico. Nunca o liberalismo chegou t\u00e3o longe. O ponto de vista econ\u00f4mico, que anteriormente predominava no \u00e2mbito do mercado, do com\u00e9rcio e das finan\u00e7as, agora pretende colonizar todo o mundo da vida, absolutamente tudo. N\u00e3o h\u00e1 nada neste mundo que n\u00e3o deva ser visto do ponto de vista econ\u00f4mico. Este \u00e9 o n\u00facleo do neoliberalismo. Termos como produ\u00e7\u00e3o, benef\u00edcios, otimiza\u00e7\u00e3o de recursos, investimentos, perdas, mercado, invadem todo o mundo social e a subjetividade dos indiv\u00edduos. Como disse o pensador franc\u00eas <strong>Michel<\/strong> <strong>Foucault<\/strong>, \u00e9 uma l\u00f3gica que nos converte em \u201cempres\u00e1rios de n\u00f3s mesmos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode a <strong>(bio)\u00e9tica<\/strong> ignorar este fundo <strong>(bio)pol\u00edtico?<\/strong> A bio\u00e9tica predominante costuma faz\u00ea-lo, mas ent\u00e3o corre o risco de ser acusada de superficialidade, no sentido de ficar na superf\u00edcie e negar-se a olhar o que h\u00e1 debaixo do tapete. Podemos enfrentar os problemas \u00e9ticos que aparecem ao redor do mundo da biomedicina sem levar em conta o contexto em que se desenvolve a atividade dos centros de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, os hospitais, os laborat\u00f3rios, os ensaios cl\u00ednicos ou as empresas farmac\u00eauticas? O governo da vida hoje se faz a partir de padr\u00f5es neoliberais. A bio\u00e9tica, caso quiser continuar cuidando da vida, deve enfrentar aquilo que a impede de avan\u00e7ar nesta dire\u00e7\u00e3o. Cuidar da vida e tentar explor\u00e1-la s\u00e3o duas realidades incompat\u00edveis. Todos os seres vivos s\u00e3o produtivos, a come\u00e7ar pela caracter\u00edstica reprodutora que os caracteriza, mas uma coisa \u00e9 reconhecer a produtividade da vida e outra \u00e9 ter como objetivo principal exprimi-la sem considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o \u201cfundo\u201d biopol\u00edtico da bio\u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<table style=\"width: 230px; height: 186px;\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img style=\"vertical-align: bottom; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/oi58.tinypic.com\/23wjiua.jpg\" alt=\"alt\" width=\"40\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8220;Somente se soubermos como funcionam as rela\u00e7\u00f5es de poder teremos possibilidades de min\u00e1-las&#8221;<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> Tudo parece indicar que a entrevista est\u00e1 come\u00e7ando a construir intera\u00e7\u00f5es, porque uma quest\u00e3o j\u00e1 nos leva \u00e0 seguinte de forma encadeada. Tamb\u00e9m a pergunta anterior mostra uma primeira tentativa de resposta a esta pergunta. O fundo <strong>biopol\u00edtico da bio\u00e9tica<\/strong> atual \u00e9 o neoliberalismo. Pois bem, interessa-me muito destacar que minha utiliza\u00e7\u00e3o do termo <strong>\u201cbiopol\u00edtica\u201d<\/strong> deriva das minhas leituras sobre <strong>Michel<\/strong> <strong>Foucault<\/strong>, e este pensador franc\u00eas, em suas an\u00e1lises sobre a modernidade europeia, n\u00e3o somente mostrou em que sentido as rela\u00e7\u00f5es de poder haviam se tornado biopol\u00edticas, mas tamb\u00e9m constou o fato de que as lutas pol\u00edticas, nos dois ou tr\u00eas \u00faltimos s\u00e9culos, tiveram tamb\u00e9m como protagonista a vida, todo um conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es sobre a necessidade de ser protegida, de cuidar da sa\u00fade, das suas necessidades. Os <strong>movimentos sociais<\/strong> reivindicam o direito a uma vida digna, luta-se pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foucault<\/strong> foi um autor que fez uma anal\u00edtica do poder, estudou como funcionam as rela\u00e7\u00f5es de poder dentro de um marco temporal e geogr\u00e1fico concreto, mas com um objetivo muito claro: favorecer a resist\u00eancia. Somente se soubermos como funcionam as rela\u00e7\u00f5es de poder teremos possibilidades de min\u00e1-las. E para <strong>Foucault<\/strong> onde h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es de poder h\u00e1 possibilidade de resist\u00eancia. Se este pensador franc\u00eas tinha raz\u00e3o em sua an\u00e1lise, a vida na modernidade europeia come\u00e7ou a tornar-se objetivo do poder, mas nunca se deixou prender totalmente. Os movimentos sociais foram aprendendo a projetar a vida contra aquilo que pretendia tirar o m\u00e1ximo de proveito sem importar-lhe outra coisa sen\u00e3o o benef\u00edcio privado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Dentro desta perspectiva, como se relacionam vida, sa\u00fade e na\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> Este \u00e9 um tema que na verdade n\u00e3o trabalhei a fundo, mas penso que esconde um grande potencial de pesquisa. Em sintonia com meu interesse para fazer interagir a <strong>bio\u00e9tica e a biopol\u00edtica<\/strong>, pareceu-me muito interessante o fato de que o mundo da pol\u00edtica tivesse come\u00e7ado a se \u201cmedicalizar\u201d a partir de um determinado momento. N\u00e3o posso dizer qual foi o in\u00edcio deste processo, mas imagino que foi por volta do aparecimento do Estado-na\u00e7\u00e3o. Seria muito interessante fazer uma arqueologia deste processo, buscar a genealogia de express\u00f5es, tais como: \u201ca sa\u00fade de um povo\u201d, \u201c\u00e9 uma na\u00e7\u00e3o enferma\u201d, \u201cas doen\u00e7as da pol\u00edtica\u201d, \u201csanar a na\u00e7\u00e3o\u201d. Talvez seja apenas mais um cap\u00edtulo daquilo que <strong>Foucault<\/strong> chamou de <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/531884-neuronarrativas-a-hipocrisia-institucionalizada-da-medicalizacao-da-saude-mental-entrevista-especial-com-sandra-caponi\" target=\"_blank\">medicaliza\u00e7\u00e3o indefinida da sociedade<\/a>\u201d<\/strong>, que come\u00e7ou a dar-se na Europa a partir do s\u00e9culo XVIII e que possibilitou que cada vez mais realidades, antes totalmente alheias \u00e0 medicina, tenham passado a ser tratadas medicamente. Pensemos, atualmente, por exemplo, no fato de envelhecer, na menopausa, na queda de cabelo, na timidez, etc. Sobre isso me parece muito interessante a obra de <strong>Roberto Sposito,<\/strong> porque mostra as rela\u00e7\u00f5es entre o paradigma imunit\u00e1rio e a organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida precisamos repensar uma \u00e9tica para a vida na sociedade tecnocient\u00edfica na qual vivemos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> Entendo a bio\u00e9tica precisamente como uma<strong> \u201c\u00e9tica para a vida\u201d<\/strong>, uma \u00e9tica que pretende cuidar da vida no contexto de uma sociedade que est\u00e1 dominada pelas consequ\u00eancias e pela intera\u00e7\u00e3o entre a <strong>revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da \u00e9poca<\/strong> <strong>moderna<\/strong> e a <strong>revolu\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>industrial<\/strong>. A segunda, evidentemente, n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a primeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a bio\u00e9tica predominante tenha tendido a reduzir o seu objeto de estudo \u00e0 <strong>biomedicina<\/strong>, minha op\u00e7\u00e3o \u00e9 decantar-me pelo esp\u00edrito potteriano da bio\u00e9tica. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970, quando <strong>Potter<\/strong> escreveu seus primeiros textos sobre bio\u00e9tica, esta ainda n\u00e3o tinha um campo pr\u00f3prio. Mas <strong>Potter<\/strong> se deu conta, com o passar do tempo, que a vers\u00e3o da escola de Georgetown estava se impondo, limitando desta forma sua vis\u00e3o ampla da bio\u00e9tica. Por isso, escreveu, em 1988, seu <strong>Global<\/strong> <strong>Bioethics<\/strong>. E a partir de ent\u00e3o at\u00e9 sua morte, em 2001, n\u00e3o deixou de repetir que sua bio\u00e9tica n\u00e3o inclu\u00eda apenas uma \u00e9tica m\u00e9dica, mas que seu esp\u00edrito hol\u00edstico devia assumir tamb\u00e9m uma \u00e9tica ambiental, uma \u00e9tica urbana e uma \u00e9tica do consumo, inclusive uma \u00e9tica geri\u00e1trica e uma \u00e9tica social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A bio\u00e9tica como \u00edm\u00e3 aglutinador <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bio\u00e9tica devia agir, para <strong>Potter<\/strong>, como uma esp\u00e9cie de \u00edm\u00e3 aglutinador das \u00e9ticas particulares, mas sem repetir os principais erros destas, como, por exemplo, ignorar as verdades cient\u00edficas, desentender-se sobre a intera\u00e7\u00e3o entre o meio ambiente e o homem ou a vis\u00e3o de curto prazo. <strong>Potter<\/strong> estava plenamente consciente do fato de que as quest\u00f5es biom\u00e9dicas n\u00e3o podem ser tratadas fora do \u00e2mbito das problem\u00e1ticas gerais que afetam a sociedade. De fato, <strong>Potter<\/strong> afirmou j\u00e1 desde os seus in\u00edcios que a bio\u00e9tica devia servir para enfrentar a \u201cgrande crise de hoje\u201d, uma crise que para ele era global, afetava todo o Planeta, e tanto a Natureza como o ser humano, porque o que estava em risco era precisamente a fr\u00e1gil rede da vida. Em seus \u00faltimos anos falou claramente da necessidade de idear uma <strong>\u201cbio\u00e9tica pol\u00edtica\u201d<\/strong> que pressionasse as pol\u00edticas p\u00fablicas, tanto a n\u00edvel nacional como internacional, para utilizar todo o grande potencial inerente ao conhecimento humano com vistas ao bem comum e melhorar as condi\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me que esta postura potteriana que une uma \u00e9tica ambiental com uma \u00e9tica social segue sendo \u00fatil atualmente, e, al\u00e9m disso, vejo-a em conson\u00e2ncia com diversas tentativas que, de uma forma muito estimulante, est\u00e3o tendo lugar na Am\u00e9rica Latina para construir uma \u201coutra bio\u00e9tica\u201d que \u00e0s vezes impugna e outras vezes enriquece a bio\u00e9tica predominante: desde a <strong>\u201cbio\u00e9tica de prote\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong>, acima mencionada (Miguel Kottow), at\u00e9 a <strong>\u201cbio\u00e9tica da interven\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong> (Volnei Garrafa e Dora Porto), passando pelas ideias sobre a<strong> \u201cvida boa\u201d<\/strong> (Maria L. Pfeiffer) ou a<strong> \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/532625-a-ecologia-economica-como-alternativa-as-desigualdades-entrevista-especial-com-gael-giraud-\" target=\"_blank\">ecologia social<\/a>\u201d<\/strong> (Jos\u00e9 Roque Junges).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida a normaliza\u00e7\u00e3o e as diferentes formas de sujei\u00e7\u00e3o, sobretudo das classes populares, s\u00e3o resultado de uma biopol\u00edtica que se tornou institucionalizada atualmente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> Segundo <strong>Michel<\/strong> <strong>Foucault<\/strong>, na Europa do s\u00e9culo XVIII produziu-se um fen\u00f4meno muito interessante dentro do cap\u00edtulo das <strong>rela\u00e7\u00f5es entre o saber e o poder: o \u201cdesbloqueio da medicina\u201d<\/strong>. A partir de ent\u00e3o a medicina foi abrindo progressivamente seu campo de atua\u00e7\u00e3o, indo muito al\u00e9m da simples arte de curar doen\u00e7as. Atualmente, \u00e9 dif\u00edcil encontrar algum \u00e2mbito da vida humana que n\u00e3o tenha sido medicalizado, embora seja apenas ao n\u00edvel te\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5014&amp;secao=420\" target=\"_blank\">medicaliza\u00e7\u00e3o progressiva da sociedade<\/a>\u201d<\/strong> come\u00e7ou primeiro por ser uma medicina das coisas (sanar bairros, ruas, cidades, preocupar-se com a qualidade do ar e da \u00e1gua, com os efeitos sobre a sa\u00fade de certos edif\u00edcios, institui\u00e7\u00f5es ou pr\u00e1ticas de trabalho como os cemit\u00e9rios, os frigor\u00edficos, os hospitais, etc.). A partir de ent\u00e3o foram surgindo m\u00faltiplos tipos de colabora\u00e7\u00f5es da medicina com diferentes \u00e2mbitos do mundo social: desde o urbanismo, as pol\u00edticas locais e nacionais, at\u00e9 o mundo do trabalho e a pedagogia. A <strong>medicina e a pol\u00edtica<\/strong> encontraram m\u00faltiplas maneiras para estabelecer colabora\u00e7\u00f5es. O Estado, dentro do marco do mercantilismo, entendia que a riqueza dependia do n\u00famero de s\u00faditos saud\u00e1veis, \u00fateis para o trabalho em tempos de paz e preparados para as mil\u00edcias em tempos de guerra. Surgiu a chamada <strong>\u201cpol\u00edcia m\u00e9dica\u201d<\/strong>, que tinha um tr\u00edplice objetivo: garantir a ordem, promover a sa\u00fade e aumentar a riqueza nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00fade, ordem e riqueza come\u00e7am a andar juntas. Multiplicam-se os c\u00e1lculos sobre o valor monet\u00e1rio da vida humana. A <strong>medicina social<\/strong> e a <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=1843&amp;secao=260\" target=\"_blank\"><strong>higiene p\u00fablica<\/strong><\/a> tentam convencer os governos e os empres\u00e1rios sobre o desperd\u00edcio que significa investir em uma vida humana que acabar\u00e1 morrendo antes de poder restituir ao Estado tudo o que este investiu nela. Assim gera-se todo um discurso a favor da melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho das classes populares. A fam\u00edlia oper\u00e1ria converteu-se em objeto privilegiado de medicaliza\u00e7\u00e3o. O m\u00e9dico p\u00f4de entrar nas casas e bairros que os agentes da ordem n\u00e3o se atreviam a frequentar. Dava conselhos sobre a alimenta\u00e7\u00e3o, a disposi\u00e7\u00e3o dos quartos das casas, sobre o vestu\u00e1rio, sobre a cria\u00e7\u00e3o dos filhos. Este processo progressivo de desbloqueio da medicina \u00e9, sem d\u00favida, um cap\u00edtulo muito interessante na hist\u00f3ria das <strong>t\u00e9cnicas biopol\u00edticas<\/strong> <strong>de governo da popula\u00e7\u00e3o<\/strong>. E os poderes de normaliza\u00e7\u00e3o das classes populares exerceram um papel protag\u00f4nico neste \u00e2mbito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A tr\u00edade no neoliberalismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, no <strong>neoliberalismo<\/strong>, a tr\u00edade que inter-relaciona sa\u00fade, ordem e riqueza j\u00e1 n\u00e3o depende primariamente de iniciativas estatais, mas o pr\u00f3prio indiv\u00edduo converteu-se no principal respons\u00e1vel pela garantia da sa\u00fade e da potencialidade de seu corpo. A subjetividade promovida pelo neoliberalismo segue o modelo empresarial. Trata-se de que todos n\u00f3s nos transformemos naquilo que <strong>Foucault<\/strong> chamou de <strong>\u201cempres\u00e1rios de n\u00f3s mesmos\u201d<\/strong>. J\u00e1 n\u00e3o podemos esperar que o Estado, de forma paternal, se preocupe com as nossas necessidades de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia ou trabalho. Devemos, pois, aprender a investir em n\u00f3s mesmos para melhorar o nosso presente e futuro, e de nossa fam\u00edlia. Investir em si mesmo para maximizar os benef\u00edcios e minimizar os riscos que podem desvalorizar o nosso \u201ccach\u00ea\u201d atrav\u00e9s de m\u00faltiplas a\u00e7\u00f5es: desde um plano de pens\u00e3o, um seguro de vida, uma alarma na moradia ou conseguir as melhores escolas para os filhos, at\u00e9 reciclar-se constantemente ou melhorar o aspecto f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro deste registro, a<strong> sa\u00fade<\/strong> torna-se um valor de grande cotiza\u00e7\u00e3o porque esta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 entendida apenas como aus\u00eancia de doen\u00e7a, mas como otimiza\u00e7\u00e3o da nossa energia vital atrav\u00e9s de v\u00e1rios recursos: dietas, academia (agora tamb\u00e9m academia e receitas culin\u00e1rias para os nossos neur\u00f4nios; se n\u00e3o as conhecem \u00e9 porque n\u00e3o est\u00e3o atualizados), controle de peso, aten\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis de colesterol, etc. Embora n\u00e3o estejamos doentes nem tenhamos nenhuma dol\u00eancia importante, devemos colocar em marcha todos estes dispositivos, porque n\u00e3o se trata de sermos mais ou menos saud\u00e1veis para poder viver, mas de viver para estarmos saud\u00e1veis (e, consequentemente, o biomercado que se produziu em torno desta tend\u00eancia parece n\u00e3o ter limites de expans\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro do jogo macabro que j\u00e1 <strong>Foucault<\/strong> nos desenhou entre <strong>biopol\u00edtica e tanatopol\u00edtica<\/strong>, enquanto em determinados lugares do mundo a <strong>sa\u00fade tornou-se uma obsess\u00e3o doentia<\/strong> e o gasto sanit\u00e1rio desnecess\u00e1rio aumentou exponencialmente, para uma significativa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel nem t\u00e3o somente um <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/524625-qos-servicos-de-coleta-e-tratamento-de-esgoto-ainda-sao-muito-precariosqentrevista-especial-com-edison-carlos\" target=\"_blank\"><strong>atendimento sanit\u00e1rio<\/strong> <strong>b\u00e1sico<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; A partir deste cen\u00e1rio, qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o e a atualidade da filosofia de Michel Foucault, 30 anos ap\u00f3s sua morte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Quintanas &#8211;<\/strong> Desde a minha tese de doutorado sobre <strong>\u201cSa\u00fade e poder na g\u00eanese do homem contempor\u00e2neo&#8221;<\/strong>, que defendi em 1997, <strong>Foucault<\/strong> tem sido a minha principal refer\u00eancia intelectual. \u00c0s vezes, penso que j\u00e1 seria hora de mudar de registro, mas nos campos em que trabalho, como a antropologia filos\u00f3fica, o pensamento pol\u00edtico contempor\u00e2neo ou a bio\u00e9tica e a biopol\u00edtica, suas obras ainda me s\u00e3o estimulantes e me proporcionam ferramentas para analisar o presente no qual vivemos. Como ele mesmo afirmou, toda a sua obra tem no fundo como objetivo desenhar uma \u201contologia do presente\u201d, daquilo que somos e acontece (conosco), com vistas a desmascarar aqueles aspectos intoler\u00e1veis da nossa racionalidade e das rela\u00e7\u00f5es de poder com as quais esta interage.<\/p>\n<table style=\"width: 640px;\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\u00a0<img style=\"vertical-align: bottom; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/oi58.tinypic.com\/23wjiua.jpg\" alt=\"alt\" width=\"40\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8220;Minha percep\u00e7\u00e3o \u00e9 que ainda n\u00e3o sa\u00edmos inteiramente do diagrama que Foucault descobriu com seus estudos arqueol\u00f3gicos e geneal\u00f3gicos&#8221;<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha percep\u00e7\u00e3o \u00e9 que ainda n\u00e3o sa\u00edmos inteiramente do diagrama que <strong>Foucault<\/strong> descobriu com seus estudos arqueol\u00f3gicos e geneal\u00f3gicos, mesmo que tenha morrido em 1984. Toda a sua obra, mas em especial seus estudos sobre os mecanismos biopol\u00edticos e as formas de governo liberal (desde o liberalismo cl\u00e1ssico at\u00e9 o neoliberalismo) s\u00e3o ainda de grande atualidade. Sempre e quando falarmos do mesmo <strong>Foucault<\/strong>. Muitas vezes leio interpreta\u00e7\u00f5es sobre o seu pensamento que me deixam desconcertada, pois parece que n\u00e3o estamos falando do mesmo autor. Por exemplo, a interpreta\u00e7\u00e3o de <strong>Habermas<\/strong> no seu c\u00e9lebre livro <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4173&amp;secao=379&amp;limitstart=1\" target=\"_blank\"><em><strong>O discurso filos\u00f3fico da modernidade<\/strong><\/em><\/a>, onde <strong>Foucault<\/strong> \u00e9 qualificado de <strong>neonietzschiano conservador<\/strong> que nos condena ao quietismo e \u00e0 submiss\u00e3o ao poder: n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda, estamos presos nas redes do poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, eu preciso continuar a ler <strong>Foucault<\/strong> para n\u00e3o perder minhas \u00e2nsias de \u201cfora\u201d, para n\u00e3o deixar de vislumbrar que mais al\u00e9m da \u201ccaverna\u201d ainda \u00e9 poss\u00edvel construir realidades in\u00e9ditas. De fato, meu interesse pela filosofia originou-se no ensino m\u00e9dio, quando tive as primeiras aulas sobre Hist\u00f3ria da Filosofia. A verdade \u00e9 que na \u00e9poca n\u00e3o entendi praticamente nada sobre os <strong>pr\u00e9-socr\u00e1ticos<\/strong>, mas quando a minha professora me explicou o mito da caverna, minha juventude n\u00e3o ficou indiferente, porque experimentei como algo pr\u00f3prio essa estranha necessidade de pensar que as coisas podem ser diferentes de como s\u00e3o. Esse reconhecimento \u00e9 tamb\u00e9m o que me prendeu \u00e0 obra de <strong>Foucault<\/strong> e que ainda n\u00e3o me largou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BIBLIOGRAFIA <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Tesis doctoral: \u201cSalut i poder en la g\u00e8nesi de l\u2019home contemporani\u201d (<a href=\"http:\/\/www.tdx.cat\/handle\/10803\/7815\" target=\"_blank\">http:\/\/www.tdx.cat\/handle\/10803\/7815<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; &#8220;Govern de la vida i intervenci\u00f3 social: l\u2019arrel biopol\u00edtica dels conflictes \u00e8tics&#8221;, en Els reptes \u00e8tics de la intervenci\u00f3 social, Fundaci\u00f3 Campus Arnau d&#8217;Escala, Girona, 2010 (<a href=\"http:\/\/www.campusarnau.org\/2009\/downloads\/simposietica2009.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.campusarnau.org\/2009\/downloads\/simposietica2009.pdf<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Em castelhano:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; \u201cUna cr\u00edtica pol\u00edtico-antropol\u00f3gica al \u2018choque de civilizaciones\u2019 de S.P. Huntington\u201d, Isegor\u00eda. Revista de Filosof\u00eda Moral y Pol\u00edtica, 2002 (<a href=\"http:\/\/isegoria.revistas.csic.es\/index.php\/isegoria\/article\/view\/577\/577\" target=\"_blank\">http:\/\/isegoria.revistas.csic.es\/index.php\/isegoria\/article\/view\/577\/577<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; \u201cDel mito del hombre democr\u00e1tico a la nueva Internacional civil\u201d, Utop\u00eda y Praxis Latinoamericana. Revista Internacional de Filosof\u00eda Iberoamericana y Teor\u00eda Social, 2002 (dialnet.unirioja.es\/descarga\/articulo\/2736956.pdf).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; \u201cV. R. Potter: una \u00e9tica para la vida en la sociedad tecnocient\u00edfica\u201d, Sin\u00e9ctica, 2009 (<a href=\"http:\/\/www.sinectica.iteso.mx\/assets\/files\/articulos\/32_v_r_potter_una_etica_para_la_vida_en_la_sociedad_tecnocientifica.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.sinectica.iteso.mx\/assets\/files\/articulos\/32_v_r_potter_una_etica_para_la_vida_en_la_sociedad_tecnocientifica.pdf<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; &#8220;Bio\u00e9tica, biopol\u00edtica y antropot\u00e9cnicas&#8221;, \u00c1gora. Papeles de Filosof\u00eda, 2009 (<a href=\"http:\/\/dspace.usc.es\/bitstream\/10347\/7361\/1\/08.Quintans.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/dspace.usc.es\/bitstream\/10347\/7361\/1\/08.Quintans.pdf<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; &#8220;El tab\u00fa de la muerte y biopol\u00edtica seg\u00fan M. Foucault&#8221;, Daimon. Revista Internacional de Filosof\u00eda, 2010 (<a href=\"http:\/\/revistas.um.es\/daimon\/article\/view\/148581\/131941\" target=\"_blank\">http:\/\/revistas.um.es\/daimon\/article\/view\/148581\/131941<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; &#8220;Higienismo y medicina social: poderes de normalizaci\u00f3n y formas de sujeci\u00f3n de las clases populares&#8221;, Isegor\u00eda. Revista de Filosof\u00eda Moraly Pol\u00edtica, 2011 (<a href=\"http:\/\/isegoria.revistas.csic.es\/index.php\/isegoria\/article\/view\/730\/732\" target=\"_blank\">http:\/\/isegoria.revistas.csic.es\/index.php\/isegoria\/article\/view\/730\/732<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">(Por M\u00e1rcia Junges e Patricia Fachin)<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Anna Quintanas \u201cEntendo a bio\u00e9tica precisamente como uma \u2018\u00e9tica para a vida\u2019,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8566,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/bioetica.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Entrevista especial com Anna Quintanas \u201cEntendo a bio\u00e9tica precisamente como uma \u2018\u00e9tica para a vida\u2019,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8565"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8565"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8565\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8565"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8565"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8565"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}