{"id":85410,"date":"2018-05-21T14:32:32","date_gmt":"2018-05-21T17:32:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=85410"},"modified":"2018-05-21T14:35:18","modified_gmt":"2018-05-21T17:35:18","slug":"alem-de-tibbles-descoberta-e-extincao-da-cotovia-da-ilha-stephen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/alem-de-tibbles-descoberta-e-extincao-da-cotovia-da-ilha-stephen\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m de Tibbles: descoberta e extin\u00e7\u00e3o da cotovia-da-ilha-Stephen"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-85411\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Os seres humanos j\u00e1 se destacaram por muitos de seus feitos, dentre os quais a incr\u00edvel habilidade em se dispersar pelo planeta. Apesar de sermos macacos deficientes em pelos e com uma tend\u00eancia peculiar a problemas de coluna, raramente medimos esfor\u00e7os para atravessar oceanos e chegar a lugares novos. Ap\u00f3s nosso surgimento na \u00c1frica, viajamos pelas terras e pelos mares, desbravadores do desconhecido, eventualmente e por meios diversos levando \u00e0 extin\u00e7\u00e3o uma esp\u00e9cie ou outra \u2013 coisa corriqueira.<\/p>\n<p>Uma das hist\u00f3rias mais contadas sobre extin\u00e7\u00f5es modernas \u00e9 a da cotovia-da-ilha-Stephen, cujo fim foi injustamente atribu\u00eddo a um gato. Resumidamente, a hist\u00f3ria \u00e9 a seguinte: um faroleiro se mudou para uma ilha e levou seu gato, Tibbles. O felino perambulava solit\u00e1rio pelos arredores do farol e ocasionalmente trazia p\u00e1ssaros mortos como presentes para seu dono. Um dos cad\u00e1veres trazidos por Tibbles foi identificado como uma esp\u00e9cie nova, mas, quando pesquisadores foram procurar mais indiv\u00edduos, n\u00e3o encontraram nenhum. Mais resumidamente ainda: \u00e9 a hist\u00f3ria de um gato que foi ao mesmo tempo descobridor e causador da extin\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie. Tibbles era a estrela principal e o exemplo definitivo dos perigos que podem ser causados por esp\u00e9cies trazidas pelos humanos para ambientes novos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem a ci\u00eancia nem a hist\u00f3ria se contentam com exemplos definitivos:\u00a0<a href=\"https:\/\/notornis.osnz.org.nz\/system\/files\/Notornis_51_4_201.pdf\" rel=\"noopener\">a extin\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu de uma hora para a outra<\/a>, o gato que descobriu a esp\u00e9cie provavelmente n\u00e3o se chamava Tibbles e ele n\u00e3o estava sozinho.\u00a0<a href=\"https:\/\/notornis.osnz.org.nz\/system\/files\/Notornis_51_4_193.pdf\" rel=\"noopener\">Pesquisando um pouco al\u00e9m<\/a>, o gradual desmatamento da ilha, o interesse pela coleta de animais e o crescimento populacional dos gatos ajudam a ilustrar melhor a hist\u00f3ria da extin\u00e7\u00e3o do \u00faltimo passarinho n\u00e3o voador do planeta.<\/p>\n<p><strong>Ilha Stephen e a maldi\u00e7\u00e3o do progresso<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_60206\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-60206\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilha-Stephen.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilha-Stephen.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilha-Stephen-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilha-Stephen-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Cobertura vegetal na Ilha Stephen, em 1903. Foto: Leonard Cockayne. Courtesy of Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa.<\/p>\n<\/div>\n<p>A ilha Stephen tem aproximadamente 150 hectares e est\u00e1 localizada entre as duas maiores ilhas do territ\u00f3rio neozeland\u00eas. Apesar de ter recebido dos\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Maoris\" rel=\"noopener\">M\u0101ori\u00a0<\/a>o nome\u00a0<em>Takapourewa<\/em>, ela nunca foi permanentemente ocupada por esse povo, que colonizou grande parte da Nova Zel\u00e2ndia. Por isso, at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, a ilha ainda abrigava uma fauna preservada, incluindo alguns animais raros. Seria o lugar perfeito para uma reserva natural, mas aparentemente tamb\u00e9m era o lugar indicado para se colocar um farol. E esse se tornou o plano.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1881 ficou decidido onde o farol seria constru\u00eddo e alguns arbustos foram derrubados. Isso rendeu \u00e0 ilha uma clareira e uma trilha ligando-a at\u00e9 a praia. Dez anos depois, a ilha recebeu novas instala\u00e7\u00f5es: um ancoradouro e uma linha de trem, que substitu\u00edram mais um pouco da cobertura florestal na paisagem insular. Agora, o pequeno territ\u00f3rio estava preparado para dar as boas-vindas aos trabalhadores que construiriam o esperado farol e as moradias dos faroleiros.<\/p>\n<p>Em abril de 1892, o navio\u00a0<em>Hinemoa<\/em>\u00a0atracou na praia e a equipe de 10 membros finalmente p\u00f4s os p\u00e9s em terra firme. Durante a \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o do farol, os trabalhadores se depararam com muitas aves diferentes; entre elas estavam o\u00a0<em>tieke<\/em>, um corvo e sabi\u00e1s nativos, al\u00e9m de duas esp\u00e9cies de cotovia*.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1894, o farol come\u00e7ou a funcionar. Os tr\u00eas faroleiros e suas fam\u00edlias totalizavam 17 pessoas que chegavam \u00e0 ilha,\u00a0<a href=\"http:\/\/digitallibrary.landcareresearch.co.nz\/cdm\/ref\/collection\/p20022coll13\/id\/474\" rel=\"noopener\">derrubando mais vegeta\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0e trazendo gado para pastar no gramado de suas rec\u00e9m-constru\u00eddas casas. Antes disso, n\u00e3o havia gatos. Pessoas diferentes contam hist\u00f3rias diferentes sobre como eles chegaram \u00e0 ilha, mas o que elas t\u00eam em comum \u00e9 que uma gata foi levada para Stephen, possivelmente gr\u00e1vida. N\u00e3o se sabe se mais de um gato chegou l\u00e1 em momentos distintos ou se a m\u00e3e e seus filhotes foram suficientes para come\u00e7ar uma popula\u00e7\u00e3o. O que importa \u00e9 que em algum momento do ano, um gato come\u00e7ou a trazer p\u00e1ssaros mortos para os moradores humanos.<\/p>\n<div id=\"attachment_60211\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-60211\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ilha.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ilha.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ilha-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/ilha-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A ilha na atualidade. Foto: Stephens Island Takapourewa 2017\/Facebook.<\/p>\n<\/div>\n<p>Um dos faroleiros, David Lyall, era interessado em hist\u00f3ria natural e, aproveitando a oportunidade, guardava e preservava as peles das aves. Quando o navio\u00a0<em>Hinemoa<\/em>\u00a0atracou mais uma vez na praia, Lyall enviou para um conhecido ornit\u00f3logo algumas peles desses animais. Em julho do mesmo ano, elas chegaram a Walter Buller, que percebeu satisfeito que uma em particular pertencia a uma esp\u00e9cie nova.<\/p>\n<p>Certamente, algo que faz o cora\u00e7\u00e3o de um naturalista se encher de felicidade \u00e9 saber que descobriu uma esp\u00e9cie. Mais do que isso, a possibilidade de nome\u00e1-la \u00e9 capaz de lhe proporcionar um reconhecimento inimagin\u00e1vel diante da comunidade cient\u00edfica. Buller se preparou para descrever a esp\u00e9cie da melhor forma, enviando a pele a um ilustrador para que o futuro artigo fosse completo em sua publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a informa\u00e7\u00e3o sobre a avifauna de Stephen tamb\u00e9m chegou aos ouvidos de um homem autoapelidado de \u201cO Colecionador\u201d. Seu nome era Henry Travers e ele vendia peles de aves para outros colecionadores e cientistas. Ao visitar a ilha, ele convenceu David Lyall a entregar-lhe n\u00e3o uma, n\u00e3o duas, mas nove peles da cotovia. Travers logo vendeu sua pequena cole\u00e7\u00e3o a um zo\u00f3logo mais rico que Walter Buller, o bar\u00e3o Walter Rothschild, que compartilhava com Buller, al\u00e9m do nome, um objetivo que somente um deles poderia alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Enquanto Buller esperava chegar de Londres a ilustra\u00e7\u00e3o do animal que chamaria de\u00a0<em>Xenicus insularis<\/em>, Rothschild descreveu a esp\u00e9cie, batizando-a de\u00a0<em>Traversia lyalli<\/em>. Travers foi quem sugeriu que o nome cient\u00edfico homenageasse a ele mesmo e a David Lyall. Na mesma carta a Rothschild em que fazia essa sugest\u00e3o, O Colecionador citou as palavras de Lyall: \u201cas cotovias das pedras s\u00e3o muito dif\u00edceis de se obter, e em pouco tempo n\u00e3o sobrar\u00e1 nenhuma\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_60208\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-60208\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren-300x216.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"460\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o das cotovias extintas. Cr\u00e9dito: John Gerrard Keulemans\/Wikip\u00e9dia.<\/p>\n<\/div>\n<p>O faroleiro chamava o pequeno passeriforme de cotovia das pedras, porque j\u00e1 o avistara duas vezes correndo pelas rochas, como um rato \u2013 e avisou a Travers que o bicho era t\u00e3o \u00e1gil em seus movimentos que era imposs\u00edvel aproximar-se para atingi-lo com uma pedra ou galho. Naquela \u00e9poca, o interesse principal dos naturalistas em quest\u00e3o era voltado para cole\u00e7\u00f5es e descri\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas. Lyall era um grande admirador da natureza, nos moldes de seu tempo, e teve a chance de observar de perto a cotovia-da-ilha-Stephen. A admira\u00e7\u00e3o pode conceder \u00e0s pessoas certa sabedoria, e a previs\u00e3o dele sobre a extin\u00e7\u00e3o da nova esp\u00e9cie foi bastante precisa, afinal: David Lyall foi uma das \u00faltimas pessoas, sen\u00e3o a \u00faltima, a ver sua pequena cotovia\u00a0<a href=\"https:\/\/notornis.osnz.org.nz\/system\/files\/Notornis_36_4.pdf\" rel=\"noopener\">n\u00e3o voadora com vida<\/a>.<\/p>\n<p>Por algum tempo acreditou-se que esse passarinho fosse end\u00eamico da ilha Stephen. A hist\u00f3ria que os f\u00f3sseis contam \u00e9 diferente: a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/03115519408619497\" rel=\"noopener\">esp\u00e9cie antes se distribu\u00eda tamb\u00e9m pela ilha Sul<\/a>, a maior do territ\u00f3rio neozeland\u00eas, mas \u00e0 \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o do farol, a pequena ilha Stephen era seu \u00faltimo ref\u00fagio. Fen\u00f4menos como esse s\u00e3o comuns. Ilhas s\u00e3o unidades consideravelmente isoladas do continente (e de outras ilhas); por isso,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Trevor_Worthy\/publication\/230601212_A_working_list_of_breeding_bird_species_of_the_New_Zealand_region_at_first_human_contact\/links\/02bfe512344d46b596000000\/A-working-list-of-breeding-bird-species-of-the-New-Zealand-region-at-first-human-contact.pdf\" rel=\"noopener\">quando uma esp\u00e9cie se extingue em um territ\u00f3rio grande, ela pode se salvar em alguma ilha que esteja livre das causas de sua extin\u00e7\u00e3o<\/a>. E foi isso que aconteceu com a cotovia.<\/p>\n<p>Entretanto, por volta de mar\u00e7o de 1895, Travers voltou \u00e0 ilha para coletar novos esp\u00e9cimes,\u00a0<a href=\"https:\/\/ia600201.us.archive.org\/20\/items\/extinctbirdsatte00roth\/extinctbirdsatte00roth.pdf\" rel=\"noopener\">e relatou em uma carta para Rothschild<\/a>\u00a0que, mesmo com a ajuda de tr\u00eas membros de sua equipe e mais alguns residentes da ilha, a busca n\u00e3o foi bem-sucedida. Em novembro do mesmo ano, Lyall j\u00e1 n\u00e3o avistava mais nenhuma cotovia. Algumas peles continuaram sendo comercializadas poucos anos depois disso, mas a esp\u00e9cie parecia estar extinta em 1896.<\/p>\n<div id=\"attachment_60207\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-60207\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilustra%C3%A7%C3%A3o-cotovia.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilustra\u00e7\u00e3o-cotovia.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilustra\u00e7\u00e3o-cotovia-235x300.jpg 235w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Ilustra\u00e7\u00e3o-cotovia-300x383.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"818\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o da cotovia-da-ilha-Stephen feita em 1895 John Keulemans. Foto: Wikip\u00e9dia.<\/p>\n<\/div>\n<p>Em julho de 1897, o faroleiro principal Robert Cathcart (que curiosamente tinha a palavra\u00a0<em>cat<\/em>\u00a0no nome) comunicou ao Departamento Marinho que havia um grande n\u00famero de gatos ferais circulando pela ilha. Cathcart sugeriu que se tomasse alguma medida para acabar com eles e que os faroleiros fossem equipados com armas de fogo e muni\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca come\u00e7ava a se expressar preocupa\u00e7\u00e3o pelo estado de conserva\u00e7\u00e3o da tuatara, e seu pedido foi atendido. A tuatara \u00e9 um r\u00e9ptil de dorso espinhoso, \u00fanico g\u00eanero representante da ordem\u00a0<em>Sphenodontida<\/em>, e ocorre na ilha Stephen. Por isso, foi oferecido um incentivo financeiro pela morte de cada gato. Em 1912, a contagem de gatos exterminados era de 700 indiv\u00edduos e em 1925 j\u00e1 n\u00e3o havia mais nenhum.<\/p>\n<p>Os dados hist\u00f3ricos e as evid\u00eancias existentes podem n\u00e3o solucionar como os gatos chegaram \u00e0 ilha, mas s\u00e3o claros em mostrar que a popula\u00e7\u00e3o que se estabeleceu era grande. O rec\u00e9m-descoberto passarinho n\u00e3o foi extinto por um \u00fanico gato, o que seria de fato uma hist\u00f3ria muito impactante; mas a hist\u00f3ria real \u00e9, ainda, absolutamente tr\u00e1gica e perturbadora. Os gatos chegaram \u00e0 ilha como consequ\u00eancia da chegada das pessoas. Os gatos cresceram e se reproduziram sem despertar a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. Os gatos, no plural, causaram a destrui\u00e7\u00e3o dos p\u00e1ssaros locais, da qual a cotovia n\u00e3o escapou. Enquanto isso, as pessoas estavam ocupadas com suas rotinas.<\/p>\n<p>Muitas descobertas poderiam ter sido feitas se os holofotes tivessem se voltado por um momento para a conserva\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie. Muitas pessoas poderiam ter se interessado por ela e aprendido mais sobre seus h\u00e1bitos do que o que sabemos hoje. Era um p\u00e1ssaro noturno, n\u00e3o voava e foi extinto \u2013 isso \u00e9 grande parte do que conhecemos. O\u00a0<strong>\u00faltimo<\/strong>\u00a0passarinho\u00a0<strong>n\u00e3o voador<\/strong>\u00a0da Terra\u00a0<strong>deixou de existir<\/strong>\u00a0para sempre, diante dos nossos olhos humanos. E n\u00f3s, como esp\u00e9cie moral,\u00a0<strong>falhamos<\/strong>\u00a0em preserv\u00e1-lo vivo.<\/p>\n<div id=\"attachment_60210\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-60210\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren_specimen_1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren_specimen_1.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren_specimen_1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Stephens_Island_Wren_specimen_1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Esp\u00e9cime encontrada em museu. Cr\u00e9dito: the Carnegie Museum of Natural History\/Wikip\u00e9dia.<\/p>\n<\/div>\n<p>De 1994 at\u00e9 os dias atuais, a ilha Stephen \u00e9 um santu\u00e1rio da vida selvagem. \u00c9 um lugar de interesse internacional para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, por ainda abrigar esp\u00e9cies raras e end\u00eamicas da Nova Zel\u00e2ndia, al\u00e9m de ser um ref\u00fagio para aves marinhas em \u00e9poca de nidifica\u00e7\u00e3o. Os esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o finalmente alcan\u00e7aram o que foi um dia o \u00faltimo lar da cotovia e, agora, outras esp\u00e9cies est\u00e3o sendo protegidas do mesmo final tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Da cotovia-da-ilha-Stephen restam apenas algumas peles em museus, uma por\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, e as ilustra\u00e7\u00f5es de John Keulemans, que enfim chegaram de Londres.<\/p>\n<p>*Os animais a que me refiro nesse texto como cotovias s\u00e3o chamados de\u00a0<em>wren\u00a0<\/em>em ingl\u00eas.\u00a0<em>Wren\u00a0<\/em>em geral se refere aos passeriformes da fam\u00edlia Troglodytidae, que n\u00e3o recebeu um nome popular em portugu\u00eas, mas tem como representante a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/corruira\" rel=\"noopener\">cambaxirra<\/a>. O nome cotovia, por sua vez, se refere a p\u00e1ssaros da fam\u00edlia Alaudidae. Teoricamente, essa n\u00e3o deveria ser a tradu\u00e7\u00e3o para\u00a0<em>wren<\/em>. Entretanto, o\u00a0<em>Lyall\u2019s wren<\/em>\u00a0n\u00e3o faz parte de nenhuma das duas fam\u00edlias mencionadas, mas sim da fam\u00edlia Acanthisittidae, que inclui\u00a0<em>wrens<\/em>\u00a0especificamente da Nova Zel\u00e2ndia. Ent\u00e3o, decidi usar o nome cotovia no lugar de\u00a0<em>wren<\/em>, porque \u201ccotovia-da-ilha-Stephen\u201d foi a tradu\u00e7\u00e3o que encontrei na maioria dos textos que li sobre isso em portugu\u00eas. Mas deve ficar claro que esse nome n\u00e3o \u00e9 um nome popular, j\u00e1 que n\u00e3o temos esse animal em pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os seres humanos j\u00e1 se destacaram por muitos de seus feitos, dentre os quais a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":85411,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/gato_cotovia.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Os seres humanos j\u00e1 se destacaram por muitos de seus feitos, dentre os quais a","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85410"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85410"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85410\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}