{"id":83424,"date":"2018-04-16T14:00:44","date_gmt":"2018-04-16T17:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=83424"},"modified":"2018-04-16T12:16:13","modified_gmt":"2018-04-16T15:16:13","slug":"arqueologos-estao-descobrindo-que-uma-parte-da-floresta-amazonica-ja-foi-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/arqueologos-estao-descobrindo-que-uma-parte-da-floresta-amazonica-ja-foi-urbana\/","title":{"rendered":"Arque\u00f3logos est\u00e3o descobrindo que uma parte da floresta Amaz\u00f4nica j\u00e1 foi &#8220;urbana&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cidades_perdidas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-83425\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cidades_perdidas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cidades_perdidas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cidades_perdidas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u00c9 inevit\u00e1vel pensar na\u00a0floresta amaz\u00f4nica\u00a0como uma gigantesca mata virgem, praticamente intocada. O.k., todos sabemos que a regi\u00e3o \u00e9 habitada por dezenas de povos ind\u00edgenas. Mas a ideia predominante no imagin\u00e1rio das pessoas \u00e9 a de que eles sempre viveram em perfeita harmonia com o ambiente, interferindo o menos poss\u00edvel na natureza e tirando dela apenas o essencial para sua sobreviv\u00eancia. Ao que tudo indica, essa vis\u00e3o rom\u00e2ntica est\u00e1 completamente errada.<\/p>\n<p>N\u00e3o que tenham sido erguidas na Amaz\u00f4nia pir\u00e2mides ao estilo das constru\u00eddas por maias e astecas na Am\u00e9rica Central \u2013 isso continua sendo pura fic\u00e7\u00e3o. Mas descobertas arqueol\u00f3gicas feitas nas \u00faltimas 3 d\u00e9cadas indicam que, antes de o Brasil ser descoberto, a popula\u00e7\u00e3o nativa da Floresta Amaz\u00f4nica era muito mais numerosa e sofisticada do que se costuma imaginar.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1000 e 1400, verdadeiras superaldeias interligadas por boas estradas dominavam certas regi\u00f5es. Em outras, grupos de at\u00e9 15 mil erguiam aterros com at\u00e9 10 metros de altura para construir suas casas sobre eles e dar um chap\u00e9u nas inunda\u00e7\u00f5es. \u201cExistiam sociedades complexas no rio Amazonas quase inteiro, no m\u00e9dio e baixo Orinoco, na Bol\u00edvia e em outras \u00e1reas\u201d, diz o arque\u00f3logo americano Michael Heckenberger, que h\u00e1 anos estuda um conjunto de agrupamentos desse tipo no Alto Xingu. \u201cEm 1500, a Amaz\u00f4nia provavelmente era uma \u00e1rea de enorme variabilidade cultural, com grupos regionalmente interligados.\u201d<\/p>\n<h3>Tribos marajoaras<\/h3>\n<p>A ideia de uma Amaz\u00f4nia \u201curbanizada\u201d na verdade \u00e9 antiga. Quando os primeiros exploradores espanh\u00f3is desceram o rio Amazonas vindos dos Andes, em 1542, o cronista da miss\u00e3o \u2013 um frade dominicano chamado Gaspar de Carvajal \u2013 descreveu-a como um lugar densamente povoado. \u201cQuando nos viram, sa\u00edram para nos encontrar no meio do rio mais de 200 pirogas [<em>canoas<\/em>], cada uma com 20, 30 ou 40 \u00edndios\u201d, escreveu o frade. \u201cEm terra firme, era maravilhoso ver os esquadr\u00f5es que existiam nas vilas, todos tocando instrumentos e dan\u00e7ando.\u201d<\/p>\n<p>Do s\u00e9culo 17 em diante, descri\u00e7\u00f5es desse tipo tornaram-se raras, o que levou muitos c\u00e9ticos a considerar que Carvajal e outros exploradores exageravam bastante nos relatos. Com o advento da arqueologia cient\u00edfica, no s\u00e9culo 19, ganhou for\u00e7a a hip\u00f3tese de que o calor excessivo, as chuvas constantes e o solo pobre em nutrientes inviabilizariam o surgimento de qualquer tipo de civiliza\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia, j\u00e1 que seria imposs\u00edvel produzir alimentos para sustentar grandes popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1980, por\u00e9m, essa vis\u00e3o come\u00e7ou a ser questionada. As descobertas come\u00e7aram na foz do Amazonas, onde trabalhava a arque\u00f3loga americana Anna Roosevelt, da Universidade de Illinois. Na Ilha de Maraj\u00f3, ela estudou os chamados tesos \u2013 morros cuja origem \u00e9 parcial ou totalmente artificial. Concluiu que eles haviam sido constru\u00eddos por uma grande popula\u00e7\u00e3o marajoara por volta do ano 1000. Os chefes tribais teriam usado os tesos como fortalezas e postos de observa\u00e7\u00e3o. Foi desse povo tamb\u00e9m a ideia de construir aterros anti\u2013inunda\u00e7\u00e3o. Pelo volume de material encontrado nos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, acredita-se que podem ter vivido ali cerca de 15 mil pessoas no s\u00e9culo 16.<\/p>\n<div class=\"box\">\n<p><strong>A LENDA DE Z<\/strong><\/p>\n<p>No dia 20 de abril de 1925, o explorador brit\u00e2nico Percy Fawcett, seu filho Jack e o amigo Raleigh Rimmell deixaram Cuiab\u00e1, no Mato Grosso, rumo ao Alto Xingu. Objetivo: descobrir a \u201ccidade perdida de Z\u201d, uma suposta civiliza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada que teria existido no meio da Amaz\u00f4nia. A pequena expedi\u00e7\u00e3o desapareceu e ningu\u00e9m sabe exatamente qual foi o destino dos seus integrantes. Ser\u00e1 que as sociedades complexas da Amaz\u00f4nia pr\u00e9-Cabral inspiraram a lenda de Z? Pode ser. J\u00e1 a ideia de Eldorado \u2013 uma cidade abarrotada de ouro e prata escondida no meio da floresta \u2013 nada tem a ver com Fawcett nem com o Brasil. Ela provavelmente nasceu na Am\u00e9rica Central, a milhares de quil\u00f4metros do Xingu, por obra da imagina\u00e7\u00e3o de conquistadores espanh\u00f3is embasbacados com o que encontraram nas cidades erguidas por maias e astecas nas florestas tropicais daquela regi\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\" style=\"width: 640px;\">\n<div class=\"image\"><a href=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2018\/04\/a-lenda-de-z.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-204212\" title=\"As cidades perdidas da Amaz\u00f4nia\" src=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2018\/04\/a-lenda-de-z.png?w=640amp;h=640\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2018\/04\/a-lenda-de-z.png 1024w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2018\/04\/a-lenda-de-z.png?w=150&amp;h=100 150w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2018\/04\/a-lenda-de-z.png?w=300&amp;h=200 300w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2018\/04\/a-lenda-de-z.png?w=768&amp;h=512 640w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"428\" border=\"0\" data-image-title=\"As cidades perdidas da Amaz\u00f4nia\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Indio San\" data-image-caption=\"\" \/><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3>Geoglifos do Acre<\/h3>\n<p>A mais de 2 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da Ilha de Maraj\u00f3, no Acre, existe outro tipo de vest\u00edgio das civiliza\u00e7\u00f5es que prosperaram na Amaz\u00f4nia antes da chegada de Pedro \u00c1lvares Cabral. S\u00e3o geoglifos, desenhos geom\u00e9tricos que s\u00f3 podem ser notados quando vistos do alto \u2013 mais ou menos como as linhas de Nazca, no Peru.<\/p>\n<p>\u201cEssas figuras indicam que a floresta acreana teve uma ocupa\u00e7\u00e3o densa por volta do ano de 1200\u201d, diz o pesquisador Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre. Formando quadrados, ret\u00e2ngulos e losangos, os desenhos chegam a ter 300 metros de di\u00e2metro e s\u00e3o delimitados por trincheiras com at\u00e9 3 metros de profundidade. A maioria s\u00f3 foi identificada recentemente, por causa do desmatamento na regi\u00e3o. Antes, permaneciam encobertos pelas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Ranzi considera que ainda \u00e9 cedo para dizer como os geoglifos foram feitos e qual era a sua fun\u00e7\u00e3o original. Muitos ficam em \u00e1reas relativamente elevadas. Portanto, diz o pesquisador, podem ter sido usados para monitoramento e defesa do territ\u00f3rio. Outra possibilidade \u00e9 a de que as grandes trincheiras funcionassem como tanques para a cria\u00e7\u00e3o de peixes e tartarugas.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que os ind\u00edgenas tenham desmatado vastas \u00e1reas do Acre para criar sua rede de geoglifos \u2013 s\u00e3o mais de 200 num raio de apenas 250 quil\u00f4metros quadrados. \u201cMas tendo a acreditar que, por causa de fen\u00f4menos naturais como El Nin\u00f5s excepcionalmente intensos, o ambiente n\u00e3o era de mata fechada na \u00e9poca da ocupa\u00e7\u00e3o\u201d, diz Ranzi. O pesquisador calcula que uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 60 mil pessoas vivia na regi\u00e3o.<\/p>\n<h3>Superaldeias do Xingu<\/h3>\n<p>No Alto Xingu, estudos liderados pelo arque\u00f3logo Michael Heckenberger tamb\u00e9m est\u00e3o revelando a face \u201curbana\u201d que a Amaz\u00f4nia j\u00e1 teve. Trabalhando em parceria com membros da etnia cuicuro, ele afirma ter identificado uma rede de antigas vilas \u2013 a maioria tamb\u00e9m do per\u00edodo imediatamente anterior \u00e0 chegada dos europeus \u2013 que fazem as atuais aldeias ind\u00edgenas parecerem an\u00e3s.<\/p>\n<p>Organizados em grandes c\u00edrculos e com capacidade para abrigar milhares de pessoas, esses agrupamentos eram cercados por fossos de v\u00e1rios metros de largura e profundidade, cercadas por pali\u00e7adas e interligadas por estradas respeit\u00e1veis, com at\u00e9 40 metros de largura. Eles teriam surgido no s\u00e9culo 9 e atingido seu apogeu cerca de 400 anos depois, no s\u00e9culo 13. Mantinham entre si rela\u00e7\u00f5es de poder e hierarquia. Faziam alian\u00e7as, negociavam\u2026 E guerreavam tamb\u00e9m. No auge, alguns desses n\u00facleos chegaram a ser endere\u00e7o para mais de 2 mil moradores. N\u00e3o se sabe exatamente como eles desapareceram, mas \u00e9 prov\u00e1vel que v\u00e1rios tenham entrado em colapso antes da chegada dos europeus.<\/p>\n<p>H\u00e1 ind\u00edcios de que os \u00edndios da rede de superaldeias amaz\u00f4nicas deram um duro danado para sustentar a popula\u00e7\u00e3o que, somada, chegava a 50 mil habitantes. Imagens de sat\u00e9lite j\u00e1 revelaram \u00e1reas de floresta que provavelmente foram ro\u00e7as ou pomares. E at\u00e9 hoje existem na regi\u00e3o trechos de mata virgem que produzem frutos comest\u00edveis em quantidade bem acima da m\u00e9dia \u2013 prov\u00e1vel heran\u00e7a do tempo em que os nativos manejavam habilmente a floresta, selecionando as plantas mais frut\u00edferas para complementar seu sustento. \u201c\u00c9 como se esses antigos habitantes do Xingu tivessem um modelo alternativo de organiza\u00e7\u00e3o\u201d, diz Heckenberger. Em vez de juntar todo mundo num \u00fanico \u2013 e insustent\u00e1vel \u2013 agrupamento, eles viviam distribu\u00eddos em vilas de pequeno ou m\u00e9dio porte, mas conectadas por estradas que viabilizavam a forma\u00e7\u00e3o das redes de com\u00e9rcio e o interc\u00e2mbio cultural.<\/p>\n<p>Todos esses dados \u2013 sempre \u00e9 bom lembrar \u2013 ainda s\u00e3o preliminares, mas levam a crer que a Amaz\u00f4nia pr\u00e9-Cabral abrigava muito mais gente do que se costumava imaginar anos atr\u00e1s. \u00c9 prov\u00e1vel que a densidade populacional tenha despencado com epidemias trazidas pelos europeus, como parece ter acontecido em outras regi\u00f5es das Am\u00e9ricas. Mas isso n\u00e3o impediu que as civiliza\u00e7\u00f5es da Amaz\u00f4nia deixassem alguns legados. Na tradi\u00e7\u00e3o oral dos cuicuros e de outros povos do Xingu, h\u00e1 refer\u00eancias \u00e0s grandes obras do passado. E a cer\u00e2mica ind\u00edgena produzida hoje \u00e9 bastante similar \u00e0 encontrada em v\u00e1rios s\u00edtios arqueol\u00f3gicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 inevit\u00e1vel pensar na\u00a0floresta amaz\u00f4nica\u00a0como uma gigantesca mata virgem, praticamente intocada. 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