{"id":8309,"date":"2014-10-11T16:11:22","date_gmt":"2014-10-11T16:11:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=8309"},"modified":"2014-10-11T16:16:45","modified_gmt":"2014-10-11T16:16:45","slug":"reestruturacao-das-metropoles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/reestruturacao-das-metropoles\/","title":{"rendered":"Reestrutura\u00e7\u00e3o das metr\u00f3poles"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"contentheading\">Primeiro os empreendimentos, depois a mobilidade. Entrevista especial com Paulo Roberto Rodrigues Soares<\/h2>\n<div id=\"texto-aumenta\">\n<div class=\"article_text\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPlanos Diretores passaram a ser feitos por empresas, em s\u00e9rie, sem a realiza\u00e7\u00e3o de estudos necess\u00e1rios para realmente gerar um Plano Diretor adequado \u00e0 realidade de determinados munic\u00edpios\u201d, adverte o ge\u00f3grafo.<\/p>\n<table border=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img style=\"margin: 15px; float: right;\" src=\"http:\/\/www.seesp.org.br\/site\/media\/k2\/items\/cache\/f6b41fcb83331701137183bca431605b_XL.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"font-size: xx-small;\">Foto:\u00a0www.seesp.org.br<\/span><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os novos arranjos urbanos nas metr\u00f3poles brasileiras, bastante diferentes dos ocorridos h\u00e1 30 anos, est\u00e3o relacionados tanto \u00e0 habita\u00e7\u00e3o como \u00e0s atividades econ\u00f4micas, com o surgimento de novos empreendimentos do mercado imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Paulo Roberto Rodrigues Soares, com a reestrutura\u00e7\u00e3o das cidades \u201co mercado imobili\u00e1rio criou um novo produto, que chama de bairros planejados; s\u00e3o grandes empreendimentos em \u00e1reas perif\u00e9ricas que n\u00e3o tinham essa a\u00e7\u00e3o do mercado imobili\u00e1rio. Nesse sentido, h\u00e1 uma mudan\u00e7a significativa na estrutura das cidades pela localiza\u00e7\u00e3o desses grandes empreendimentos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisador do Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles de Porto Alegre, Soares enfatiza que a geografia urbana das cidades n\u00e3o \u00e9 considerada nesse processo. \u201c\u00c9 levado em conta muito mais a possibilidade de rentabilidade desse investimento, e n\u00e3o exatamente a geografia urbana ou a rela\u00e7\u00e3o deste empreendimento com um conjunto urbano j\u00e1 preexistente, com uma estrutura urbana j\u00e1 preexistente\u201d. Segundo ele, apesar da reestrutura\u00e7\u00e3o urbana gerar novos pontos centrais de organiza\u00e7\u00e3o em algumas zonas urbanas, ela tem gerado uma \u201cfragmenta\u00e7\u00e3o\u201d social, porque \u201co mercado imobili\u00e1rio j\u00e1 programa os empreendimentos para um determinado p\u00fablico. Ent\u00e3o, ao indicar determinado p\u00fablico, ele j\u00e1 homogeniza socialmente essas \u00e1reas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone, o ge\u00f3grafo tamb\u00e9m assinala a falta de conex\u00e3o entre a expans\u00e3o das cidades e as mudan\u00e7as em mobilidade. Como exemplo, ele menciona a expans\u00e3o da cidade de Porto Alegre para o extremo sul, \u201ccom muitos empreendimentos de classe m\u00e9dia, classe m\u00e9dia alta, no caso de condom\u00ednios fechados, especialmente, e tem uma expans\u00e3o tamb\u00e9m para o bairro Restinga, com uma s\u00e9rie de empreendimentos de habita\u00e7\u00e3o popular. Essas pessoas v\u00e3o ter necessidade de transporte coletivo, mas essa demanda n\u00e3o est\u00e1 sendo programada. Est\u00e3o criando os empreendimentos, mas n\u00e3o se sabe como ser\u00e1 resolvida a necessidade de transporte dessas pessoas. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o da mobilidade deveria ser colocada inclusive na pauta dos empreendimentos, ou seja, como esse n\u00famero de pessoas que viver\u00e3o nesses bairros v\u00e3o se deslocar? Isso \u00e9 algo important\u00edssimo de ser planejado\u201d, reitera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Roberto Rodrigues Soares \u00e9 doutor em Geografia Humana pela Universidad de Barcelona, Espanha, mestre em Geografia pela Unesp e graduado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande \u2013 FURG. Atualmente \u00e9 professor do Departamento de Geografia e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS e colaborador no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da FURG.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table border=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img style=\"margin: 15px; float: right;\" src=\"https:\/\/encrypted-tbn2.gstatic.com\/images?q=tbn:ANd9GcTyf-wuuZAEyzEX7yQezTGz5XTq_UxRIViwJbWb7zOHgD89qCLV2Q\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"font-size: xx-small;\">Foto: www.archdaily.com.br<\/span><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os novos arranjos espaciais metropolitanos que est\u00e3o surgindo nas metr\u00f3poles e como o mercado imobili\u00e1rio tem contribu\u00eddo para essa reestrutura\u00e7\u00e3o das metr\u00f3poles?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> Temos dois tipos de arranjos: um relacionado \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e outro relacionado \u00e0s atividades econ\u00f4micas. Relacionados \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, temos uma expans\u00e3o de grandes empreendimentos imobili\u00e1rios em grandes bairros, condom\u00ednios fechados. O mercado imobili\u00e1rio criou um novo produto, que chama de bairros planejados; s\u00e3o grandes empreendimentos em \u00e1reas perif\u00e9ricas que n\u00e3o tinham essa a\u00e7\u00e3o do mercado imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, h\u00e1 uma mudan\u00e7a significativa na estrutura das cidades pela localiza\u00e7\u00e3o desses grandes empreendimentos. Em termos econ\u00f4micos tamb\u00e9m surgem novos arranjos, porque a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio hoje em dia se localizam de forma diferenciada. Por exemplo, os grandes empreendimentos comerciais, os grandes shoppings centers, os grandes atacados, hipermercados, se localizam tamb\u00e9m em grandes eixos vi\u00e1rios, e a ind\u00fastria est\u00e1 criando parques tecnol\u00f3gicos, condom\u00ednios industriais, clusters industriais. O complexo automotivo \u00e9 um exemplo disso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a montadora, mas uma uni\u00e3o de sistemistas junto \u00e0 montadora. Ent\u00e3o, s\u00e3o arranjos diferenciados da forma como se dava esse crescimento h\u00e1, digamos assim, 30 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; A geografia urbana \u00e9 levada em conta nos processos de reestrutura\u00e7\u00e3o urbana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> O que \u00e9 levado em conta nessas localiza\u00e7\u00f5es \u00e9 a otimiza\u00e7\u00e3o do empreendimento. Geralmente esses novos arranjos s\u00e3o grandes empreendimentos imobili\u00e1rios, tanto habitacionais como tamb\u00e9m comerciais e industriais. Ent\u00e3o, \u00e9 levado em conta muito mais a possibilidade de rentabilidade desse investimento, e n\u00e3o exatamente a geografia urbana ou a rela\u00e7\u00e3o deste empreendimento com um conjunto urbano j\u00e1 preexistente, com uma estrutura urbana j\u00e1 preexistente.<\/p>\n<table style=\"width: 270px; height: 156px; margin: 15px;\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\"><img style=\"margin: 1px; vertical-align: bottom;\" src=\"http:\/\/oi59.tinypic.com\/33c3s55.jpg\" alt=\"\" width=\"40\" \/><\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\">&#8220;Os locais de trabalho ainda est\u00e3o relativamente concentrados e os servi\u00e7os tamb\u00e9m, ent\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o ainda tem de se deslocar para as \u00e1reas onde se concentram o com\u00e9rcio, os servi\u00e7os e os empregos&#8221;<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; Evidencia um processo de fragmenta\u00e7\u00e3o socioterritorial nas metr\u00f3poles? Quais as implica\u00e7\u00f5es sociais desse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> O que se v\u00ea realmente \u00e9 uma tend\u00eancia a essa fragmenta\u00e7\u00e3o, porque essas implanta\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam muita rela\u00e7\u00e3o com a estrutura preexistente, elas s\u00e3o quase que independentes dessa estrutura: se localizam em redes vi\u00e1rias, em grandes \u00e1reas de expans\u00e3o urbana sem relacionamento com a estrutura preexistente. E, por outro lado, o mercado imobili\u00e1rio j\u00e1 programa os empreendimentos para um determinado p\u00fablico. Ent\u00e3o, ao indicar determinado p\u00fablico, ele j\u00e1 homogeniza socialmente essas \u00e1reas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geralmente no Brasil n\u00e3o temos o costume de ter um misto social num mesmo ambiente \u2014 em alguns pa\u00edses muitas vezes \u00e9 at\u00e9 uma obrigatoriedade que os empreendimentos tenham uma mistura social organizada que pelo menos leve a uma popula\u00e7\u00e3o diversificada. Como no Brasil isso n\u00e3o existe, o mercado imobili\u00e1rio atua e coloca em uma \u00e1rea 5 mil habitantes, por exemplo, mas todos com certa homogeneidade social. Ent\u00e3o, isso obviamente contribui para a segrega\u00e7\u00e3o, porque vai haver um grupo homog\u00eaneo isolado e, consequentemente, isso cria uma fragmenta\u00e7\u00e3o, uma vez que esse grupo n\u00e3o vai ter rela\u00e7\u00e3o com seu entorno, mas com as \u00e1reas de centralidade da cidade. Um exemplo disso \u00e9 o que est\u00e1 ocorrendo no entorno da Arena do Gr\u00eamio, em Porto Alegre. Nessa regi\u00e3o est\u00e1 surgindo um complexo de edif\u00edcios, mas quem vai morar ali n\u00e3o ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com o entorno; vai ter rela\u00e7\u00e3o com outros lugares da metr\u00f3pole, mas n\u00e3o exatamente com o entorno e com a popula\u00e7\u00e3o segregada que vive ao lado da Arena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Quais foram as transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsico-territoriais, socioecon\u00f4micas, ambientais e simb\u00f3licas das cidades sedes da Copa? Depois de tr\u00eas meses do fim da Copa do Mundo, que an\u00e1lise \u00e9 poss\u00edvel fazer acerca das reformas feitas no espa\u00e7o urbano nas cidades sedes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> N\u00f3s estamos finalizando o projeto de estudos sobre a Copa do Mundo, e at\u00e9 o final do ano teremos resultados mais consolidados. Mas podemos dizer que realmente houve uma certa reestrutura\u00e7\u00e3o f\u00edsico-territorial e uma mudan\u00e7a na centralidade da cidade. Nesse sentido, os est\u00e1dios e as \u00e1reas que receberam investimentos da <strong>Copa<\/strong> ganharam uma certa centralidade. Outra altera\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o sei se vai redundar numa altera\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica \u2014, foi a gera\u00e7\u00e3o de grandes empreendimentos imobili\u00e1rios no entorno dos est\u00e1dios, e tamb\u00e9m houve transforma\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas \u00e0 medida que determinados lugares ganharam um significado para a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente estive em S\u00e3o Paulo e passei pr\u00f3ximo ao Itaquer\u00e3o, ou Arena Corinthians, e se v\u00ea que naquele entorno est\u00e1 tendo uma grande mudan\u00e7a, considerando que aquela era uma regi\u00e3o abandonada na cidade. Nesse sentido, h\u00e1 um certo olhar do mercado imobili\u00e1rio para outros pontos da cidade. Apesar disso, temos de deixar claro que nem todas as obras foram conclu\u00eddas, porque ocorreram atrasos e, no final das contas, mudan\u00e7as mais amplas \u2014 como no caso de Porto Alegre \u2014, que poderiam ter acontecido, ainda n\u00e3o aconteceram, tanto que as grandes obras vi\u00e1rias programadas n\u00e3o se realizaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; O senhor fez uma an\u00e1lise dos impactos socioespaciais da constru\u00e7\u00e3o do BarraShoppingSul na zona sul de Porto Alegre. Quais os processos de produ\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e espacial em curso na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> Foi uma pesquisa que fiz com alunos de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica acerca da constru\u00e7\u00e3o do BarraShoppingSul e suas implica\u00e7\u00f5es para a Zona Sul. Fizemos uma an\u00e1lise daquele entorno e das transforma\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que um empreendimento daquele tamanho gera uma s\u00e9rie de impactos, mas observamos que o BarraShoppingSul conseguiu formar uma centralidade para a Zona Sul de Porto Alegre. Do ponto de vista econ\u00f4mico \u2014 n\u00e3o estou dizendo que sou a favor disso \u2014, a Zona Sul n\u00e3o tinha uma centralidade t\u00e3o forte em Porto Alegre, e o BarraShoppingSul atraiu essa centralidade. Tanto que hoje ele congrega linhas de \u00f4nibus, por exemplo, e se tornou um n\u00f3 na estrutura urbana de in\u00edcio da Zona Sul. E, a partir disso, n\u00f3s vimos uma s\u00e9rie de empreendimentos imobili\u00e1rios no entorno, al\u00e9m de um impacto nos empreendimentos comerciais locais, que foram afetados pela presen\u00e7a do empreendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a constru\u00e7\u00e3o das novas torres de escrit\u00f3rios, de torres residenciais, h\u00e1 uma tend\u00eancia \u00e0 elitiza\u00e7\u00e3o maior da \u00e1rea do BarraShoppingSul, com outros projetos que est\u00e3o \u00e0 venda para aquela \u00e1rea de Jockey, para a Orla do Gua\u00edba. As pessoas diziam que o nome \u201cBarraShoppingSul\u201d n\u00e3o iria funcionar, porque o ga\u00facho \u00e9 muito bairrista e tem certa avers\u00e3o a nomes \u201cestrangeiros\u201d, mas funcionou e ningu\u00e9m foi contra a constru\u00e7\u00e3o do empreendimento.<\/p>\n<table style=\"width: 233px; height: 126px; margin: 15px;\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\"><img style=\"margin: 1px; vertical-align: bottom;\" src=\"http:\/\/oi59.tinypic.com\/33c3s55.jpg\" alt=\"\" width=\"40\" \/><\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\">&#8220;Uma ideia de um modelo mais descentralizado em termos de empregos e de servi\u00e7os seria algo interessante&#8221;<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor avalia a obrigatoriedade dos Planos Diretores Municipais? Qual tem sido o impacto desses planos na reestrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano das cidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> \u00c9 importante as cidades terem seus Planos Diretores, organizarem o seu espa\u00e7o, projetarem o seu crescimento, quer dizer, preverem uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es. Agora, a obrigatoriedade dos Planos Diretores gerou alguns problemas, porque nem todo mun\u00edcipio tem capacidade para realiz\u00e1-los, e isso gerou uma certa \u201cf\u00e1brica de Planos Diretores\u201d, porque planos passaram a ser feitos por empresas, em s\u00e9rie, sem a realiza\u00e7\u00e3o de estudos necess\u00e1rios para realmente gerar um Plano Diretor adequado \u00e0 realidade de determinados munic\u00edpios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, a obrigatoriedade \u00e9 boa, mas os munic\u00edpios n\u00e3o est\u00e3o aparelhados, n\u00e3o t\u00eam corpo t\u00e9cnico para desenvolver os planos. Muitos munic\u00edpios recorrem \u00e0 universidade, mas tamb\u00e9m a universidade n\u00e3o tem como dar conta de toda essa tarefa, afinal s\u00f3 no Rio Grande do Sul s\u00e3o quase 400 mun\u00edcipios, e no Brasil s\u00e3o 6 mil munic\u00edpios, ou seja, \u00e9 uma quantidade muito grande para ser atendida. O Minist\u00e9rio das Cidades at\u00e9 tentou campanhas e capacita\u00e7\u00f5es para que os munic\u00edpios realizassem seus planos, mas o que podemos ver \u00e9 que muitos deles ficaram pouco contextualizados com a realidade municipal e n\u00e3o tiveram capacidade de dar conta dos problemas locais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Considerando o aumento significativo de carros nas grandes metr\u00f3poles brasileiras, que alternativas podem ser implementadas para resolver os problemas de tr\u00e1fego?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> N\u00e3o sou especialista nessa \u00e1rea, mas a alternativa seria investimento em transporte p\u00fablico. Investir em diferentes modais, metr\u00f4s, transporte coletivo, BRTs, seria uma alternativa. N\u00f3s atingimos uma m\u00e9dia de autom\u00f3veis por habitante que n\u00e3o \u00e9 muito diferente e ainda est\u00e1 abaixo de muitos pa\u00edses desenvolvidos; est\u00e1 abaixo do Jap\u00e3o, da Fran\u00e7a, da Espanha e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que acontece \u00e9 que esses pa\u00edses \u2014 especialmente os europeus \u2014 t\u00eam uma estrutura de transporte coletivo que funciona. As pessoas t\u00eam carro, mas grande parte utiliza muito mais o carro para lazer, para fazer compras, para coisas mais particulares, e n\u00e3o para o deslocamento cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil h\u00e1 uma m\u00e9dia de autom\u00f3veis por habitante elevada, mas n\u00e3o temos a correspondente estrutura de transporte p\u00fablico para permitir que as pessoas deixem seu carro em casa e utilizem outro tipo de transporte. O que falta para n\u00f3s \u00e9 essa estrutura organizada de transporte p\u00fablico, transporte coletivo, que permita o deslocamento das pessoas sem a necessidade do carro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 A quest\u00e3o da mobilidade n\u00e3o \u00e9 pensada juntamente com a reestrutura\u00e7\u00e3o das cidades, porque, na medida em que as cidades v\u00e3o se expandindo, as pessoas precisariam de um novo modelo de mobilidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares &#8211;<\/strong> Exatamente. Hoje tem uma expans\u00e3o da cidade de Porto Alegre para o extremo sul, com muitos empreendimentos de classe m\u00e9dia, classe m\u00e9dia alta, no caso de condom\u00ednios fechados, especialmente, e tem uma expans\u00e3o tamb\u00e9m para o bairro Restinga, com uma s\u00e9rie de empreendimentos de habita\u00e7\u00e3o popular. Essas pessoas v\u00e3o ter necessidade de transporte coletivo, mas essa demanda n\u00e3o est\u00e1 sendo programada. Est\u00e3o criando os empreendimentos, mas n\u00e3o se sabe como ser\u00e1 resolvida a necessidade de transporte dessas pessoas. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o da mobilidade deveria ser colocada inclusive na pauta dos empreendimentos, ou seja, como esse n\u00famero de pessoas que viver\u00e3o nesses bairros v\u00e3o se deslocar? Isso \u00e9 algo important\u00edssimo de ser planejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor percebe que essa reestrutura\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o das cidades pode de alguma maneira segmentar as cidades ou as \u00e1reas metropolitanas no sentido de que cada parte da popula\u00e7\u00e3o viva s\u00f3 no seu bairro, sem conhecer a totalidade da cidade ou sem interagir com o restante da cidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> Isso n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas n\u00f3s n\u00e3o temos, por exemplo, postos de trabalho t\u00e3o dispon\u00edveis assim por toda regi\u00e3o metropolitana. Os locais de trabalho ainda est\u00e3o relativamente concentrados e os servi\u00e7os tamb\u00e9m, ent\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o ainda tem de se deslocar para as \u00e1reas onde se concentram o com\u00e9rcio, os servi\u00e7os e os empregos. Nesse sentido ainda vai haver o deslocamento. \u00c9 claro que boa parte das pessoas fica com esse conhecimento parcial, quer dizer, de conhecer setores da cidade pelos quais elas se deslocam. Em Porto Alegre isso j\u00e1 acontece: parte da popula\u00e7\u00e3o vive e conhece a Zona Norte e parte vive e conhece a Zona Sul. Essas pessoas t\u00eam seus deslocamentos organizados entre essas regi\u00f5es e n\u00e3o t\u00eam muito contato com a regi\u00e3o metropolitana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Considerando a geografia das metr\u00f3poles brasileiras, que modelos de reestrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano s\u00e3o poss\u00edveis de serem projetados e postos em pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> Uma ideia de um modelo mais descentralizado em termos de empregos e de servi\u00e7os seria algo interessante. Outra ideia seria projetar grandes empreendimentos imobili\u00e1rios que n\u00e3o fossem t\u00e3o homog\u00eaneos socialmente, permitissem uma mistura maior da popula\u00e7\u00e3o, que diferentes classes sociais pudessem estar convivendo. O terceiro fator \u00e9 a quest\u00e3o de acessibilidade e mobilidade, porque, independentemente de a cidade crescer e de as pessoas terem seus lugares de moradia, seus lugares de trabalho, de servi\u00e7os e de n\u00e3o conviverem na cidade como um todo, \u00e9 claro que existem espa\u00e7os na cidade que t\u00eam um significado simb\u00f3lico para todo mundo, como o Centro Hist\u00f3rico, os espa\u00e7os p\u00fablicos, a Orla, os principais parques. Ent\u00e3o, haveria necessidade de as pessoas terem acesso a esses lugares que t\u00eam um significado importante para todos, n\u00e3o serem exclu\u00eddas de participar dessa vida urbana que se d\u00e1 nessas \u00e1reas hist\u00f3rica e culturalmente mais importantes da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Soares \u2013<\/strong> Uma coisa importante para a regi\u00e3o metropolitana e que \u00e9 algo que estamos analisando nesse momento \u00e9 a import\u00e2ncia que alguns munic\u00edpios est\u00e3o tendo \u2014 como, por exemplo, Canoas, Novo Hamburgo, S\u00e3o Leopoldo e certa parte de Gravata\u00ed. Esses munic\u00edpios est\u00e3o tendo centralidade importante, tendo shoppings centers, est\u00e3o virando centros de servi\u00e7os e tamb\u00e9m podem ou poder\u00e3o, no futuro, concorrer com Porto Alegre no sentido de oferecer servi\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o metropolitana. Isso tamb\u00e9m vai gerar mudan\u00e7as muito grandes em termos de mobilidade, pois o sistema vi\u00e1rio hoje \u00e9 muito centralizado em Porto Alegre e de repente v\u00e3o ter de pensar em uma estrutura urbana mais descentralizada, mais polic\u00eantrica para a regi\u00e3o metropolitana como um todo e n\u00e3o somente para a cidade de Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Unisinos<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro os empreendimentos, depois a mobilidade. 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