{"id":82941,"date":"2018-04-08T12:16:50","date_gmt":"2018-04-08T15:16:50","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=82941"},"modified":"2018-04-15T20:31:59","modified_gmt":"2018-04-15T23:31:59","slug":"casa-grande-senzala-e-mosquitos-como-a-escravidao-plantou-a-febre-amarela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/casa-grande-senzala-e-mosquitos-como-a-escravidao-plantou-a-febre-amarela\/","title":{"rendered":"Casa Grande, senzala e mosquitos: como a escravid\u00e3o plantou a febre amarela"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"author_alias\">Por Fabio Olmos<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/i0.wp.com\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Navio_negreiro-1024x614.jpg?resize=640%2C386\" width=\"640\" height=\"386\" \/>Navio negreiro, de Rugendas (1830). O pre\u00e7o do cafezinho a\u00e7ucarado.<\/p>\n<div class=\"post-content\">\n<p>&#8220;<em>Duas coisas s\u00e3o infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em rela\u00e7\u00e3o ao universo, ainda n\u00e3o tenho certeza absoluta<\/em>&#8221;<br \/>\n&#8212; Albert Einstein<\/p>\n<p>Os portugueses iniciaram a explora\u00e7\u00e3o da costa da \u00c1frica na tentativa de encontrar um caminho alternativo para \u201cas \u00cdndias\u201d que evitasse as rotas comerciais dominadas pelo Imp\u00e9rio Otomano e seus s\u00faditos. Nessa empreitada, tamb\u00e9m inseriram uma mir\u00edade de sociedades em uma economia que entrava em nova etapa de globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta inser\u00e7\u00e3o produziu uma das grandes trag\u00e9dias da Hist\u00f3ria: o\u00a0tr\u00e1fico de escravos para as Am\u00e9ricas. Pelo menos 11 milh\u00f5es de pessoas foram transportadas atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico como escravos, dos quais pelo menos\u00a04 milh\u00f5es para o Brasil, com reflexos duradouros nas sociedades dos dois lados do Atl\u00e2ntico que causam estragos at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>A principal demanda por escravos veio das planta\u00e7\u00f5es de cana (54,5%) e caf\u00e9 (18,2%), agroneg\u00f3cios que combinaram o cultivo de produtos dos quais ningu\u00e9m realmente precisa para viver &#8211; mas s\u00e3o viciantes &#8211; com destrui\u00e7\u00e3o ambiental e trag\u00e9dia social.<\/p>\n<p>Pa\u00eds retardado, o Brasil foi o \u00faltimo nas Am\u00e9ricas a abolir a escravid\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o do agroneg\u00f3cio\u00a0<em>pop<\/em>, com discursos de legalidade e o apoio dos \u201cespecialistas\u201d e imprensa domesticados, que hoje s\u00e3o muito familiares.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o deixou feridas sociais ainda muito vis\u00edveis. Mais de um s\u00e9culo depois, os\u00a0indicadores sociais dos descendentes de escravos\u00a0continuam vergonhosos, mesmo quando comparados aos dos imigrantes \u2013 europeus e orientais \u2013 trazidos para trabalhar sob regimes hoje chamados de \u201can\u00e1logos \u00e0 escravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 a\u00e7ucarado custou muito caro ao Brasil, mas os navios tumbeiros que traziam escravos para as Am\u00e9ricas n\u00e3o transportavam apenas trag\u00e9dias humanas.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m foram a via pela qual clandestinos cruzaram o Atl\u00e2ntico. As enormes baratas\u00a0<em>Periplaneta americana<\/em>\u00a0que nos dias de ver\u00e3o se animam a voar, causando cenas c\u00f4micas nos lares e\u00a0medita\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, j\u00e1 havia chegado\u00a0no sul dos Estados Unidos\u00a0(regi\u00e3o escravagista piv\u00f4 da Guerra Civil deles) em 1625, o que rendeu o\u00a0sobrenome americano a um bicho africano da gema.<\/p>\n<div id=\"attachment_59226\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59226\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-Serra-Bonita-2.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-Serra-Bonita-2.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-Serra-Bonita-2-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-Serra-Bonita-2-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Sem SUS, nem vacina. As maiores v\u00edtimas da febre amarela.\u00a0Foto: Fabio Olmos.<\/p>\n<\/div>\n<p>Muito mais perigosos, mosquitos tamb\u00e9m viajaram nos tumbeiros. O famoso\u00a0<em>Aedes aegypti<\/em>, que evoluiu como um comensal humano (mosquitos evoluem muito rapidamente, como prova o\u00a0mosquito do metr\u00f4 londrino) chegou \u00e0s Am\u00e9ricas muito cedo, talvez j\u00e1 no\u00a0final do s\u00e9culo XV.<\/p>\n<p>A capacidade de colocar ovos e se desenvolver em pequenas cole\u00e7\u00f5es de \u00e1gua, a longevidade dos adultos, a pouca capacidade \u2013 ou vontade \u2013 de voar longas dist\u00e2ncias e um suprimento ilimitado de alimento ajudaram esta praga a cruzar o Atl\u00e2ntico juntamente com seu pr\u00f3prio parasita.<\/p>\n<p>O v\u00edrus da febre amarela \u2013 um dos\u00a0<em>Flavovirus<\/em>\u00a0\u2013 \u00e9 um retrov\u00edrus, uma fita \u00fanica de RNA com 11 mil bases empacotada em um envelope de prote\u00edna. Outros retrov\u00edrus famosos s\u00e3o a gripe, AIDS, resfriado, ebola, hepatite C, poliomielite e sarampo. Vacinas s\u00e3o eficientes contra alguns, como p\u00f3lio e sarampo, mas altas taxas de muta\u00e7\u00e3o tornam complicado fazer o mesmo para outros.<\/p>\n<p>Quando uma\u00a0mosquita se contamina com v\u00edrus, este se multiplica no epit\u00e9lio de seu est\u00f4mago e de l\u00e1 pode chegar \u00e0s gl\u00e2ndulas salivares, onde continuam se multiplicando.<\/p>\n<p>O v\u00edrus tamb\u00e9m pode contaminar uma porcentagem dos ovos da mosquita e essa \u201ctransmiss\u00e3o vertical\u201d \u00e9 uma forma do v\u00edrus permanecer circulante\u00a0mesmo na aus\u00eancia de casos da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando a mosquita pica uma v\u00edtima, ela tamb\u00e9m injeta o v\u00edrus. Feliz em um hospedeiro primata sem defesas naturais ou vacinado, o v\u00edrus se multiplica primeiro nos n\u00f3dulos linf\u00e1ticos e depois no f\u00edgado. Isso pode ser assintom\u00e1tico, resultar em febre, fadiga, v\u00f4mitos e mal-estar que dura alguns dias, ou algo pior.<\/p>\n<p>Em parte dos hospedeiros \u2013 em geral adultos \u2013 h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o violenta do sistema imunol\u00f3gico \u2013 a \u201ctempestade de citocinas\u201d \u2013 \u00a0resultando em febre alta, destrui\u00e7\u00e3o do f\u00edgado, sangramento pelos olhos, boca e trato intestinal, choque e\u00a0fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Favorecidos pela Sele\u00e7\u00e3o Natural<\/strong><\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cO Flavivirus tem um longo hist\u00f3rico de co-evolu\u00e7\u00e3o no oeste da \u00c1frica, sua regi\u00e3o de origem, e \u00e9 basicamente assintom\u00e1tico para os primatas locais\u201d.<\/div>\n<p>O\u00a0<em>Flavivirus<\/em>\u00a0tem um longo hist\u00f3rico de co-evolu\u00e7\u00e3o no oeste da \u00c1frica, sua regi\u00e3o de origem, e \u00e9 basicamente assintom\u00e1tico para os primatas locais. A co-evolu\u00e7\u00e3o com o v\u00edrus tamb\u00e9m protege as popula\u00e7\u00f5es humanas \u2013 estabelecidas nessa parte do continente h\u00e1 dezenas, sen\u00e3o centenas de milhares de anos \u2013 que, na maioria, apresentam sintomas moderados (febre, n\u00e1usea, v\u00f4mitos). Isso quando desenvolvem a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria foi diferente quando a dupla\u00a0<em>Aedes-Flavivirus<\/em>chegou em terras americanas.<\/p>\n<p>Sem um hist\u00f3rico de evolu\u00e7\u00e3o sob press\u00e3o do v\u00edrus, pacientes de ascend\u00eancia amer\u00edndia ou europeia t\u00eam chances maiores de\u00a0evolu\u00edrem para casos agudos e morte. O que, por sinal, foi uma barreira \u00e0\u00a0coloniza\u00e7\u00e3o europeia na \u00c1frica Ocidental.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a primeira epidemia de febre amarela deste lado do Atl\u00e2ntico tenha ocorrido no Haiti j\u00e1 em 1495, mas an\u00e1lises gen\u00e9ticas sugerem que\u00a0o Brasil pode ser a fonte original dos\u00a0<em>Flavivirus<\/em>\u00a0sul-americanos. Gen\u00e9tica \u00e0 parte, o primeiro surto identificado atingiu Havana e o Yucatan em 1648 e em 1686 a febre amarela chegou oficialmente ao Brasil \u2013 em Pernambuco. Mostrando que aqui se faz, aqui se paga, nos 1730 o\u00a0<em>Flavivirus<\/em>\u00a0estava na Espanha, Fran\u00e7a e Inglaterra, sempre onde o clima permitia a exist\u00eancia do parceiro\u00a0<em>Aedes<\/em>.<\/p>\n<p>A febre amarela teve o poder de alterar a hist\u00f3ria de pa\u00edses. Em 1793 o\u00a0<em>Flavivirus<\/em>\u00a0trazido por refugiados franceses da epidemia de 1792-9 no atual Haiti, matou 10% dos habitantes de Philadelphia \u2013 ent\u00e3o capital dos rec\u00e9m-nascidos Estados Unidos da Am\u00e9rica \u2013 e causou a evacua\u00e7\u00e3o do presidente George Washington e o fechamento do governo americano.<\/p>\n<p>Eu sei o que voc\u00ea imaginou.<\/p>\n<p>Logo depois, em 1801, a grande revolu\u00e7\u00e3o de escravos liderada por Toussaint Louverture varreu o Haiti. O imperador Napole\u00e3o, que tinha planos para um imp\u00e9rio ampliado nas Am\u00e9ricas, despachou o general LeClerc \u2013 seu cunhado \u2013 junto com tropas veteranas de para sufocar a revolta na col\u00f4nia francesa.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cO mortic\u00ednio aniquilou as pretens\u00f5es de Napole\u00e3o nas Am\u00e9ricas e ele decidiu vender a Louisiana \u2013 que ia do Golfo do M\u00e9xico at\u00e9 o Canad\u00e1 atual \u2013 para os Estados Unidos\u201d.<\/div>\n<p>Os revoltosos tiveram no v\u00edrus um aliado.\u00a0O\u00a0<em>Flavivirus\u00a0<\/em>matou c. 27 mil soldados franceses\u00a0\u2013 incluindo LeClerc e drenou os recursos do Imp\u00e9rio, que no final abandonou o Haiti. O mortic\u00ednio aniquilou as pretens\u00f5es de Napole\u00e3o nas Am\u00e9ricas e ele decidiu vender a Louisiana \u2013 que ia do Golfo do M\u00e9xico at\u00e9 o Canad\u00e1 atual \u2013 para os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Estabelecida nas Am\u00e9ricas, a febre amarela causou epidemias ao longo de todo o s\u00e9culo XIX em lugares t\u00e3o diversos como Buenos Aires, Havana e New Orleans, algumas vitimando at\u00e9 metade da popula\u00e7\u00e3o. A epidemia de 1878 em Memphis (Tennessee) infectou 17 mil das 20 mil pessoas que permaneciam na cidade. Dos 14 mil afro-americanos, 11 mil tiveram a doen\u00e7a e 946 morreram. Dos 6 mil euro-descendentes,\u00a0quase todos ficaram doentes e 4.204 morreram.<\/p>\n<p>No Brasil, a febre amarela devastou lugares como o Rio de Janeiro,\u00a0Santos\u00a0e \u00a0Campinas, que em 1874 era um polo econ\u00f4mico que tinha mais habitantes que a capital paulista. Epidemias entre 1889 e 1897 mataram 1\/3 da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia ao Resgate<\/strong><\/p>\n<p>Em 1881 o m\u00e9dico cubano Carlos Finlay publicou sua tese provando que a febre amarela era transmitida pelo\u00a0<em>Aedes<\/em>. Mas demorou para que isso fosse aceito pelas autoridades.<\/p>\n<p>Em 1898, com a guerra entre os Estados Unidos e a Espanha (algu\u00e9m lembra?) tropas americanas ocuparam Cuba e o ex\u00e9rcito, preocupado com a situa\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a \u2013 end\u00eamica na ilha \u2013 criou, em 1900, uma comiss\u00e3o para derrotar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma das primeiras tarefas foi testar a teoria de Finlay usando mosquitos infectados e n\u00e3o infectados em quatro volunt\u00e1rios. Um morreu e outro quase n\u00e3o sobrevive. Como ainda havia c\u00e9ticos, os testes foram ampliados para provar a rela\u00e7\u00e3o mosquito-doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Algumas mortes depois, com a comprova\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo entre\u00a0<em>Aedes<\/em>\u00a0e febre amarela, a estrat\u00e9gia passou a ser a de erradicar o mosquito, com sucesso not\u00e1vel. Casos em Havana ca\u00edram de 1.400 em 1900 para zero em 1902.<\/p>\n<div id=\"attachment_59222\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-59222 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-belz-23jul2010_0141-Agropalma-Par%C3%A1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-belz-23jul2010_0141-Agropalma-Par\u00e1.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-belz-23jul2010_0141-Agropalma-Par\u00e1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Alouatta-belz-23jul2010_0141-Agropalma-Par\u00e1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Bugio encontrado morto no Par\u00e1, \u00e1rea end\u00eamica para febre amarela. Eles s\u00e3o extremamente vulner\u00e1veis ao v\u00edrus. Foto: Fabio Olmos<\/p>\n<\/div>\n<p>E assim passou a ser feito em toda a Am\u00e9rica. O combate ao mosquito foi fundamental para viabilizar o Canal do Panam\u00e1 e, no Brasil,\u00a0Oswaldo Cruz\u00a0conseguiu erradicar a febre amarela (e a var\u00edola) da antiga capital no Rio de Janeiro \u2013 onde era f\u00e1cil morrer dessas doen\u00e7as e de peste bub\u00f4nica \u2013 j\u00e1 em 1907.<\/p>\n<p>Como aqui \u00e9 o Brasil, tivemos nossa\u00a0Revolta da Vacina, alimentada por\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0sobre os efeitos da vacina contra a var\u00edola e a m\u00e3o pesada do Estado no combate ao mosquito e na vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Com mortos, levante militar e Estado de S\u00edtio, foi uma das rebeli\u00f5es mais surreais da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em 1937 foi iniciado (no Brasil!) o uso em larga escala de uma vacina baseada em uma cepa atenuada do v\u00edrus que n\u00e3o mais matava os macacos Rhesus (uma esp\u00e9cie da \u00cdndia) injetados com ele.<\/p>\n<p>Apesar de complica\u00e7\u00f5es como v\u00edrus mutantes e contamina\u00e7\u00f5es, a vacina e o controle do\u00a0<em>Aedes<\/em>\u00a0erradicaram a doen\u00e7a em boa parte das Am\u00e9ricas. No Brasil, o \u00faltimo caso de febre amarela urbana ocorreu em 1942, no Acre, e em 1958\u00a0o pr\u00f3prio\u00a0<em>Aedes<\/em>\u00a0foi erradicado.<\/p>\n<p>S\u00f3 para voltar depois.<\/p>\n<p><strong>Trag\u00e9dia Social e Ambiental<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 s\u00f3 parte da hist\u00f3ria. As Am\u00e9ricas do Sul e Central t\u00eam uma diversidade enorme de mosquitos nativos e introduzidos. Retrov\u00edrus t\u00eam altas taxas de muta\u00e7\u00e3o e em algum momento pessoas contaminadas com o\u00a0<em>Flavivirus\u00a0<\/em>foram picadas por mosquitos nativos como os\u00a0<em>Haemagogus<\/em>\u00a0e os lindos\u00a0<em>Sabethes<\/em>. O resultado foi devastador. Estes novos hospedeiros adquiriram o v\u00edrus,\u00a0tornaram-se reservat\u00f3rios\u00a0e iniciaram novos ciclos de infec\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do\u00a0<em>Aedes<\/em>\u00a0urbano, os\u00a0<em>Haemagogus<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Sabethes<\/em>\u00a0vivem nas matas e o \u201cciclo silvestre\u201d da doen\u00e7a n\u00e3o demorou para se estabelecer. E assim existe at\u00e9 hoje em \u00e1reas onde a febre amarela \u00e9 end\u00eamica.<\/p>\n<p>Como as popula\u00e7\u00f5es humanas sem hist\u00f3rico de co-evolu\u00e7\u00e3o com o v\u00edrus, v\u00e1rias esp\u00e9cies de macacos americanos s\u00e3o muito vulner\u00e1veis a ele. Entre os mais vulner\u00e1veis est\u00e3o os bugios ou guaribas\u00a0<em>Alouatta<\/em>spp. Experimentos estilo Mengele da d\u00e9cada de 1950 mostraram que\u00a090% dos bugios infectados morremapenas 1-2 dias depois de contrair a doen\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cO Brasil do povo cordial que mata 60 mil pessoas por ano conhece bem a heran\u00e7a do tronco e da senzala\u201d.<\/div>\n<p>Estabelecida no \u201csert\u00e3o\u201d, no s\u00e9culo XIX a febre amarela silvestre era um problema para quem desmatava a regi\u00e3o de Campinas, no interior de S\u00e3o Paulo, para plantar caf\u00e9. E, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, para projetos como a\u00a0famosa Fordl\u00e2ndia paraense.<\/p>\n<p>Os surtos de febre amarela dizimaram os bugios em muitas regi\u00f5es. H\u00e1 registros de bugios morrendo da febre em Minas Gerais em 1936-37 e 1945.\u00a0No Parque Nacional de Itatiaia, um surto ocorrido em 1939\u00a0exterminou os bugios a ponto de, em 2017, haver\u00a0apenas cinco indiv\u00edduos. Densidades muito baixas em \u00e1reas protegidas e com habitat adequado, vistas em muitos lugares, parecem ser heran\u00e7a de epidemias ocorridas d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Em 2000, bugios contaminados por febre amarela come\u00e7aram a morrer\u00a0no sul do Brasil e Argentina, uma epidemia que\u00a0continuou nos anos seguintes. No Rio Grande do Sul, mais de 2 mil bugios foram encontrados mortos (e 7 pessoas morreram) entre outubro de 2008 e julho de 2009, e v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es foram extintas. Levar\u00e1 s\u00e9culos para estas esp\u00e9cies se\u00a0recuperarem.<\/p>\n<p>De 308 bugios mortos que foram examinados, 180 foram confirmados como v\u00edtimas do\u00a0<em>Flavivirus.<\/em>\u00a0Mas 40% foi morto a pauladas, pedradas, etc. Jornalistas divulgaram que a doen\u00e7a era causada pelos macacos, encorajando o linchamento \u2013 que \u00e9 uma\u00a0tradi\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>H\u00e1 boa correla\u00e7\u00e3o entre a viol\u00eancia de uma sociedade e seu passado escravista, mesmo entre regi\u00f5es\u00a0dentro de um mesmo pa\u00eds. Falta de empatia, coer\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia s\u00e3o b\u00e1sicos para controlar a popula\u00e7\u00e3o escravizada e\u00a0deixam suas marcas nas normas sociais. O Brasil do povo cordial que mata 60 mil pessoas por ano conhece bem a heran\u00e7a do tronco e da senzala.<\/p>\n<p><strong>E o Pr\u00eamio Darwin vai para&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Escrevo durante um surto de febre amarela que\u00a0afeta todo o sudeste\u00a0e exterminou macacos de\u00a0MG a SP. Surto causado por uma cepa do v\u00edrus\u00a0trazida da Amaz\u00f4nia, que muito provavelmente chegou no corpo de turistas ou imigrantes n\u00e3o vacinados. Humanos espalhando o v\u00edrus tamb\u00e9m s\u00e3o a explica\u00e7\u00e3o mais razo\u00e1vel para saguis morrendo em parques urbanos\u00a0longe de qualquer floresta.<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cEmbora mais da metade dos casos recentes de febre amarela no Brasil terminem em morte, h\u00e1 muita gente recusando a vacina\u00e7\u00e3o, como na Revolta da Vacina\u201d.<\/div>\n<p>Seja como for, esse surto poderia ter sido evitado se os respons\u00e1veis (sic) tivessem decidido pela vacina\u00e7\u00e3o em massa quando bugios come\u00e7aram a morrer na d\u00e9cada passada. O barato est\u00e1 saindo caro.<\/p>\n<p>A biologia molecular avan\u00e7ou muito desde 1937 e essa d\u00e9cada e meia tamb\u00e9m poderia ter sido usada em pesquisas para uma vacina oral \u2013 mais pr\u00e1tica e segura que a injet\u00e1vel \u2013 para proteger\u00a0tanto humanos como macacos\u00a0e criar uma barreira sanit\u00e1ria. Pesquisas como as que criaram vacinas orais contra o ebola para\u00a0proteger chimpanz\u00e9s e gorilas\u00a0e contra raiva para\u00a0raposas e outros carn\u00edvoros selvagens. Que tamb\u00e9m protegem as pessoas.<\/p>\n<p>Embora mais da metade dos casos recentes de febre amarela no Brasil terminem em morte, h\u00e1 muita gente recusando a vacina\u00e7\u00e3o, como na Revolta da Vacina.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Flavivirus<\/em>\u00a0agradece. N\u00e3o precisa mais ter inveja do v\u00edrus do sarampo, feliz gra\u00e7as \u00e0 credulidade de\u00a0quem acredita que vacinas causam autismo, guia-se no esp\u00edrito do\u00a0Pr\u00eamio Darwin\u00a0e busca reverter a tend\u00eancia atual de genes associados ao desempenho intelectual serem\u00a0selecionados negativamente. Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de n\u00e3o se vacinar seria mera quest\u00e3o individual se afetasse apenas quem a toma. A quest\u00e3o \u00e9 que\u00a0pessoas contaminadas espalham os v\u00edrus, podem reativar o ciclo urbano da doen\u00e7a e colocam em risco quem realmente n\u00e3o pode usar vacinas \u2013 humanos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O limite entre o direito individual e o risco coletivo d\u00e1 boas discuss\u00f5es. Mas Einstein e os macacos devem achar a mesma coisa.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabio Olmos Navio negreiro, de Rugendas (1830). 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