{"id":82775,"date":"2018-04-05T12:30:13","date_gmt":"2018-04-05T15:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=82775"},"modified":"2018-04-05T09:24:16","modified_gmt":"2018-04-05T12:24:16","slug":"a-caminhada-inaugural-de-uma-travessia-na-capital-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-caminhada-inaugural-de-uma-travessia-na-capital-do-pais\/","title":{"rendered":"A caminhada inaugural de uma travessia em floresta na capital do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-82776\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Quem visitou a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wikiparques.org\/wiki\/Floresta_Nacional_de_Bras%C3%ADlia\" rel=\"noopener\">Floresta Nacional (Flona) de Bras\u00edlia<\/a>\u00a0pela \u00faltima vez no in\u00edcio do ano passado, n\u00e3o a reconheceria agora. A floresta floresceu, com o perd\u00e3o do trava-l\u00edngua. E quem a regou foi a pr\u00f3pria sociedade encarnada na figura de volunt\u00e1rios e usu\u00e1rios: caminhantes, ciclistas e corredores. No s\u00e1bado, dia 24 de mar\u00e7o, em uma primavera fora de \u00e9poca no Distrito Federal, as trilhas da Flona desabrocharam e foram oficialmente inauguradas em um evento que reuniu dezenas de pessoas.<\/p>\n<p>Os Caminhos da Flona, como foram apelidados, s\u00e3o compostos de quatro trilhas que percorrem a \u00e1rea protegida. Cada uma com nome e dist\u00e2ncia pr\u00f3prias. A Jatob\u00e1, com 6 km; a Pequi, com 12; a Buriti, com 18; e a maior de todas, a Sucupira, com 36 km de extens\u00e3o e programada para ser feita em dois dias, com pernoite dentro da pr\u00f3pria Flona. O que todos os percursos t\u00eam em comum \u00e9 o ber\u00e7o: o voluntariado.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano n\u00e3o havia nenhuma destas trilhas nem mesmo rotas de\u00a0<i>mountain bike<\/i>. A Flona era um ambiente deserto e quase marginal, mesmo localizada a apenas 22 km do centro de Bras\u00edlia e seus gabinetes e minist\u00e9rios. Em junho de 2017, depois de 2 meses de trabalho, nasceu o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wikiparques.org\/programe-se-floresta-nacional-de-brasilia-inaugura-circuito-de-mountain-bike\/\" rel=\"noopener\">Circuito Flona<\/a>, uma rede de 45 km feita para os ciclistas e pelos ciclistas, que se engajaram como volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Depois do exemplo da turma do pedal, foi a vez dos caminhantes abra\u00e7arem a Flona. A iniciativa nasceu dentro do Grupo de Caminhadas Bras\u00edlia (GCB) e cresceu at\u00e9 ganhar a forma de pegada \u2013 a marca de sinaliza\u00e7\u00e3o utilizada nas trilhas \u2013 dividida em quatro cores, uma para cada percurso.<\/p>\n<div id=\"attachment_59298\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59298\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_2-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_2-1.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_2-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_2-1-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Grupo prega as \u00faltimas placas em ato simb\u00f3lico para inaugura\u00e7\u00e3o dos Caminhos da Flona. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>Na manh\u00e3 do s\u00e1bado, junto com um grupo de aproximadamente 20 caminhantes, eu iria seguir as de cor amarela,\u00a0como Dorothy na estrada dos tijolos amarelos, que indicavam a Trilha Sucupira e seus intimidadores 36 km de extens\u00e3o. A maioria do grupo era formado pelos pr\u00f3prios volunt\u00e1rios-caminhantes que fizeram nascer a travessia, mas nenhum deles havia realizado ainda o trajeto inteiro de dois dias de forma cont\u00ednua. Era uma aventura in\u00e9dita e cabia a n\u00f3s desbrav\u00e1-la pela primeira vez.<\/p>\n<p>A jornada come\u00e7ou em uma floresta que misturava esp\u00e9cies nativas de Cerrado com os troncos finos e altos dos eucaliptos (<i>Eucalyptus grandis<\/i>), uma esp\u00e9cie de \u00e1rvore ex\u00f3tica muito utilizada para explora\u00e7\u00e3o comercial de madeira. A categoria Floresta Nacional \u00e9 de uso sustent\u00e1vel e possui essa caracter\u00edstica de admitir o manejo florestal de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas para fins comerciais de explora\u00e7\u00e3o madeireira. Ironicamente, as planta\u00e7\u00f5es existentes, tanto de eucalipto quanto de pinheiro (<i>Pinus spp.<\/i>) nunca foram exploradas comercialmente pela Flona. Por isso, uma das metas dos volunt\u00e1rios \u00e9 recuperar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado e fazer o plantio de esp\u00e9cies como o jatob\u00e1-do-cerrado (<i>Hymenaea stigonocarpa<\/i>). Para isso, reativaram o viveiro de mudas da Flona que estava abandonado. \u201cFomos picados pelo mosquito de gostar da Flona e agora queremos cuidar e ver isso aqui melhorar cada vez mais\u201d, explica Jo\u00e3o Carlos Machado, membro do GCB e um dos idealizadores dos Caminhos.<\/p>\n<p>Os ambientes de Cerrado, entretanto, ainda resistem dentro da \u00e1rea protegida. Foi o que descobri, com surpresa, quando sa\u00ed debaixo do dossel dos eucaliptos depois de 5 km e me vi de frente para um vasto campo da savana brasileira. Separado do eucaliptal por uma \u00fanica e alaranjada estrada de terra batida, o Cerrado conseguiu aqui manter um territ\u00f3rio praticamente imaculado. Reinam as \u00e1rvores baixas de troncos retorcidos e cascas grossas, e a vegeta\u00e7\u00e3o arbustiva pontilhada por flores coloridas e diversas. Com direito at\u00e9 mesmo a algumas solit\u00e1rias sempre-vivas (<i>Paepalanthus spp.<\/i>), flor popularmente conhecida como chuveirinho e t\u00edpica do bioma. Uma grata surpresa coroada pelo visual de um pequeno vale que me fez esquecer por alguns minutos de que eu estava no meio de Bras\u00edlia!<\/p>\n<div id=\"attachment_59287\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59287\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_11.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_11.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_11-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_11-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">De repente, um campo de Cerrado t\u00edpico nos surpreende durante a travessia. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>Percorremos um trecho de aproximadamente 1.5 km no campo aberto, debaixo do c\u00e9u nublado, antes de adentrarmos novamente o pared\u00e3o de eucaliptos com seu perfume inconfund\u00edvel. Nesta parte da trilha a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais confusa porque o caminho rec\u00e9m-aberto ainda n\u00e3o foi muito pisoteado para ajudar a marc\u00e1-lo no solo, mas as pegadas amarelas nunca somem de vista e a sinaliza\u00e7\u00e3o se mostra impec\u00e1vel para evitar que algu\u00e9m fique perdido.<\/p>\n<p>Depois de trilhar 8 km em dire\u00e7\u00e3o ao limite norte da Flona, escutamos os barulhos de carros que indicam que estamos pr\u00f3ximos da rodovia BR-251, que faz fronteira com a floresta. Sinal de que \u00e9 hora de virar \u00e0 esquerda, para continuar com nossa travessia por dentro da \u00e1rea protegida onde as \u00fanicas estradas permitidas s\u00e3o as de terra.<\/p>\n<p>Os sons agitados da vida urbana n\u00e3o parecem afugentar os p\u00e1ssaros. \u00c0s vezes apenas uma cantoria vinda da mata, outras um vulto afugentado pela nossa aproxima\u00e7\u00e3o do qual distinguimos apenas o bater das asas. Dou a sorte de ver tr\u00eas em menos de 100 metros, um diminuto pica-pau e um casal colorido de sanha\u00e7os-de-fogo (<i>Piranga flava<\/i>). Uma amostra das mais de 200 esp\u00e9cies de aves que j\u00e1 foram registradas na Flona. A unidade de conserva\u00e7\u00e3o est\u00e1 a apenas uma rodovia do vizinho\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wikiparques.org\/wiki\/Parque_Nacional_de_Bras%C3%ADlia\" rel=\"noopener\">Parque Nacional de Bras\u00edlia<\/a>, uma dist\u00e2ncia intranspon\u00edvel para alguns animais, mas banal para aves de grande e m\u00e9dio porte, como araras e tucanos, o que facilita sua dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>Subitamente, os j\u00e1 familiares eucaliptos d\u00e3o lugar a uma paisagem diferente dominada por samambaias (<i>Pteridium arachnoideum<\/i>), outra ex\u00f3tica, estas sem a desculpa de explora\u00e7\u00e3o da madeira. Ainda assim, o matagal de samambaias, algumas da altura de nossas cabe\u00e7as, entrecortado apenas pelos troncos enegrecidos dos pinheiros forma um cen\u00e1rio belo. Uma beleza ecologicamente incorreta, por assim dizer, mas que n\u00e3o exclui o seu impacto c\u00eanico.<\/p>\n<div id=\"attachment_59288\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59288\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_16-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_16-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_16-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_16-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_16-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_16.jpg 1152w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A trilha segue por entre as samambaias, t\u00e3o ou mais altas que os pr\u00f3prios caminhantes. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>Me chamem de rom\u00e2ntica, mas por mais encantada que parecesse a floresta de pinheiros e samambaias, nada supera a renovada surpresa de estar novamente diante de uma pequena vastid\u00e3o de Cerrado. Dessa vez, a imensid\u00e3o se abria at\u00e9 o horizonte, onde os arranha-c\u00e9us de Taguatinga e Ceil\u00e2ndia \u2013 bairros do entorno \u2013 se impunham como paredes de concreto. Enquanto caminhava no meio da vegeta\u00e7\u00e3o arbustiva, percebi que era observada atentamente por uma coruja-buraqueira (<i>Athene cunicularia<\/i>). Comum em todo Distrito Federal, a esp\u00e9cie \u00e9 territorialista e me seguiu com os olhos enquanto eu passava pela trilha a poucos metros de onde ela estava pousada.<\/p>\n<p>Sem inten\u00e7\u00e3o de incomod\u00e1-la, segui meu caminho pela trilha at\u00e9 o ponto apelidado de Mirante das Pedras. O nome \u00e9 uma refer\u00eancia \u00e0 um pequeno aglomerado rochoso isolado que faz as vezes de mirador. Um bom local para sentar um pouco e contemplar a paisagem natural lim\u00edtrofe \u00e0 vida urbana e deixar cair a ficha: \u201cestamos trilhando no meio de Bras\u00edlia!\u201d.<\/p>\n<p>Eram 14:30 e j\u00e1 hav\u00edamos caminhado 15.5 km do percurso total do primeiro dia, podemos nos permitir um pequeno descanso antes de prosseguir a caminhada, que tem ainda 5 km pela frente at\u00e9 o ponto de pernoite. A trilha segue com uma ligeira descida pelo pequeno vale por onde desce um dos c\u00f3rregos que nascem na pr\u00f3pria Flona e abastecem a bacia do Descoberto. A Floresta Nacional abriga nascentes de quatro rios que ajudam a encher o reservat\u00f3rio do Descoberto, respons\u00e1vel por 60% do abastecimento de todo Distrito Federal.<\/p>\n<p>Cruzamos o rio e o acompanhamos por cerca de 1 km em meio \u00e0 frondosa mata de galeria. H\u00e1 inclusive um agrad\u00e1vel ponto de banho, mas eu s\u00f3 pensava em chegar ao camping e deixar desabar o peso da mochila cargueira no ch\u00e3o, ent\u00e3o prossegui inabal\u00e1vel rumo \u00e0 linha de chegada. A reta final do primeiro dia da travessia \u00e9 feita em uma estrada de terra e, quando o cansa\u00e7o j\u00e1 \u00e9 inevit\u00e1vel, o percurso nos oferece um \u00faltimo desafio com um raro momento de subida. Em uma caminhada no Planalto Central, a dificuldade n\u00e3o est\u00e1 no sobe e desce, mas sim na quilometragem (feita com peso nas costas).<\/p>\n<p>Quando cheguei no ponto conhecido como Bica de Lata, por volta das 16h, comemorei a conclus\u00e3o dos 20 km reservados ao primeiro dia da Trilha Sucupira. Com al\u00edvio me livrei da mochila e parti para a Bica, uma pequena cachoeira abastecida com \u00e1gua vinda direto da fonte. Uma pequena plataforma de madeira, permite que um de cada vez, as pessoas usufruir da Bica. Entre banhar e beber, me revigoro com as \u00e1guas limpas e geladas da queda d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<div id=\"attachment_59289\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59289\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_21.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_21.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_21-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_21-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A Bica de Lata, nascente e pequena cachoeira pr\u00f3xima ao ponto de pernoite. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>Com o corpo agradecido pela ducha, volto minha aten\u00e7\u00e3o ao camping. O ponto de pernoite ainda n\u00e3o \u00e9 oficial, segundo Geraldo, gestor da Flona, o acampamento definitivo ser\u00e1 em outro local e este ser\u00e1 apenas um ponto de apoio ao caminhante, como indica a instala\u00e7\u00e3o do banheiro seco e de duas longas mesas de madeira.<\/p>\n<p>Enquanto conversamos, descansamos as pernas e montamos nossas barracas, o sol se p\u00f5e e o c\u00e9u ganha infinitas tonalidades at\u00e9 se recobrir com o manto escuro da noite. No horizonte, em disputa ou dueto com as estrelas e a lua crescente, est\u00e1 a cidade iluminada. Mais uma vez, veio a percep\u00e7\u00e3o quase conflitante de que est\u00e1vamos no meio de Bras\u00edlia. A alguns quil\u00f4metros dali talvez algum ministro estivesse prestes a assinar um projeto \u2013 ou uma dela\u00e7\u00e3o \u2013 o que talvez seja mais prov\u00e1vel no nosso cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Gabinetes \u00e0 parte, no acampamento todos os volunt\u00e1rios comemoravam o sucesso do projeto Flona. Na fala de cada um era poss\u00edvel notar o sentimento apaixonado e orgulhoso de quem doou seu tempo e seu dinheiro para fazer aquilo acontecer. Jo\u00e3o contabilizou: foram mais de 4 mil horas de trabalho e aproximadamente 4 mil reais desembolsados pelos volunt\u00e1rios do Grupo de Caminhadas Bras\u00edlia para fazer as placas, comprar as tintas, enfim, fazer nascer os Caminhos da Flona. Uma volunt\u00e1ria define \u201cN\u00e3o \u00e9 o que a gente d\u00e1, \u00e9 o que a gente recebe\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem um prego do ICMBio. Tudo veio do voluntariado. N\u00f3s apoiamos apenas com a viatura e as horas de trabalho dos servidores\u201d, ressalta o gestor com a gratid\u00e3o de quem sabe que ganhou o maior aliado poss\u00edvel para a \u00e1rea protegida: a sociedade.<\/p>\n<p>Ao menos durante a travessia, o clima tamb\u00e9m foi um aliado. Esperou todos montarem suas barracas, jantarem e se recolherem para ent\u00e3o desabar uma pesada chuva que testou a real impermeabilidade das barracas.<\/p>\n<div id=\"attachment_59290\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59290\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_20.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_20.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_20-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_20-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Ao anoitecer, as estrelas n\u00e3o eram as \u00fanicas fontes de luz. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>No amanhecer do dia seguinte, sobrou da chuva apenas o solo \u00famido e as gotas no exterior das tendas. Apesar do dia ainda nublado, o tempo estava a nosso favor. \u00c0s 9 horas da manh\u00e3, j\u00e1 est\u00e1vamos com o p\u00e9 de novo na trilha, para garantir que ir\u00edamos manter nossa impermeabilidade at\u00e9 o final da caminhada.<\/p>\n<p>O percurso cruza a Bica de Lata e segue em uma rota compartilhada com os ciclistas, afinal, a Flona tamb\u00e9m \u00e9 deles. E dos corredores de montanhas que em grupos ou solit\u00e1rios nos ultrapassam facilmente ao longo do dia, num ritmo que ser\u00edamos incapazes de manter com as mochilas cargueiras nas costas.<\/p>\n<p>Passamos pela Geladeira, ponto por onde passa o Ribeir\u00e3o das Pedras, outro dos c\u00f3rregos que comprovam a import\u00e2ncia h\u00eddrica da Flona e de l\u00e1 enfrentamos uma subida que nos levou de volta ao cerrad\u00e3o. Morro acima, \u00e9 poss\u00edvel ver o pared\u00e3o de \u00e1rvores que marcam o talh\u00e3o do eucaliptal, que se estende como uma fronteira ex\u00f3tica atr\u00e1s e \u00e0 frente em contraste com a vegeta\u00e7\u00e3o rasteira e arbustiva da savana nativa, que sobrevive espremida no meio.<\/p>\n<p>Menos de 1 km depois voltamos ao dossel do invasor soberano e, an\u00e1logo \u00e0 met\u00e1fora de invas\u00e3o, entramos no que seria um campo de batalha com troncos nus, finos, sem folhas e sem galhos. A apar\u00eancia dos eucaliptos rendeu a este trecho o apelido de Paliteiro, uma zona mista de \u00e1rvores mortas e rec\u00e9m-nascidas ainda sem folhagem. O trecho \u00e9 concomitante \u00e0 Trilha Buriti, sinalizada por pegadas na cor azul, e na bifurca\u00e7\u00e3o entre ela e a Sucupira, escolho seguir alguns metros adiante para ver melhor esse cemit\u00e9rio de eucaliptos. No meio do caminho deste meu r\u00e1pido desvio, passo por uma \u00fanica caliandra (<i>Calliandra dysantha<\/i>), flor s\u00edmbolo do Cerrado. Em flor, suas delicadas p\u00e9talas vermelhas contrastam com o cen\u00e1rio monocrom\u00e1tico ao seu redor como se fosse a prova viva de que o Cerrado ainda pode florescer por aqui.<\/p>\n<div id=\"attachment_59292\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59292\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_Flora_4-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_Flora_4-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_Flora_4-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_Flora_4-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_Flora_4-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_Flora_4.jpg 1152w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A bela e delicada Caliandra, flor s\u00edmbolo do Cerrado. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_59293\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59293\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_25-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_25-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_25-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_25-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_25-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_25.jpg 1152w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Os campos de eucaliptos despidos ganharam o apelido de Paliteiro. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>De volta \u00e0 Sucupira, seguimos por 800 metros at\u00e9 uma estrada de terra, por onde segue a travessia. Segundo Jo\u00e3o, a expectativa \u00e9 futuramente colocar todo o percurso dentro da mata para melhorar a experi\u00eancia da caminhada. Por enquanto, nossa rota \u00e9 pela estrada mesmo, com a cidade \u00e0 nossa direita mostrando que est\u00e1vamos no limite da Flona.<\/p>\n<p>Da estrada ampla entramos em uma menor, j\u00e1 tomada pela vegeta\u00e7\u00e3o e bloqueada por alguns eucaliptos ca\u00eddos que se tornam pequenos obst\u00e1culos aos caminhantes. Pernas por cima, agachamentos por baixo, nada que impe\u00e7a nossa passagem tranquila. Percorremos 1.2 km at\u00e9 voltarmos para a estrada principal, pela qual a trilha segue pelos pr\u00f3ximos 3.3 km. Caminhar em uma via larga tem suas vantagens pr\u00e1ticas, mas n\u00e3o se compara ao sentimento prazeroso de andar mata adentro. Foi com alegria, portanto, que segui as pegadas amarelas quando elas sa\u00edram do leito de terra batida e indicaram o caminho por dentro da floresta de pinheiros.<\/p>\n<p>Os\u00a0<i>pinus<\/i>\u00a0possuem uma dispers\u00e3o muito mais agressiva do que o eucalipto e sua presen\u00e7a n\u00e3o admite concorr\u00eancia arb\u00f3rea. O alinhamento retil\u00edneo e perfeitamente espa\u00e7ado entre as \u00e1rvores revela a m\u00e3o do homem por detr\u00e1s do plantio daquela pequena floresta com ares de bosque europeu. Independente dos valores ecol\u00f3gicos, a beleza da floresta \u00e9 inquestion\u00e1vel e nos confere sombra e frescor para aplacar o calor, esse sim tipicamente brasileiro.<\/p>\n<div id=\"attachment_59294\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-59294\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras%C3%ADlia_28.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_28.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_28-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Travessia_Flona-Bras\u00edlia_28-278x185.jpg 278w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">O bosque de pinheiro d\u00e1 ares europeus \u00e0 caminhada. Foto: Duda Menegassi.<\/p>\n<\/div>\n<p>Nesse talh\u00e3o de pinheiro est\u00e3o alguns dos atrativos rec\u00e9m-instalados da Flona: um espa\u00e7o de medita\u00e7\u00e3o, um red\u00e1rio e uma \u00e1rea de teatro ao ar livre, que recebeu o nome Marielle Franco, em homenagem \u00e0 deputada estadual assassinada no Rio de Janeiro em mar\u00e7o de 2018.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos da aura m\u00e1gica do bosque para um curto trecho de Cerrado, seguido por uma mata de galeria no ribeir\u00e3o Currais, uma amostra em apenas 2 km da rica diversidade de cen\u00e1rios florestais que podem ser vistos na Flona. E assim, depois de aproximadamente 4 horas de caminhada, conclu\u00edmos nossa travessia do lado da sede, a poucos metros de onde hav\u00edamos iniciado a jornada no dia anterior. As pegadas amarelas haviam terminado, mas as dos volunt\u00e1rios \u2013 tenho certeza \u2013 est\u00e3o apenas come\u00e7ando.<\/p>\n<table class=\" aligncenter\" style=\"height: 171px;\" width=\"639\" cellpadding=\"5\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><b>Trilha Sucupira<\/b>Onde: Floresta Nacional de Bras\u00edlia (DF)<\/p>\n<p>Dist\u00e2ncia: 36 quil\u00f4metros<\/p>\n<p>Pernoite? Sim. O pernoite \u00e9 feito em acampamento dentro da pr\u00f3pria Flona, mediante agendamento pr\u00e9vio.<em>.<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem visitou a\u00a0Floresta Nacional (Flona) de Bras\u00edlia\u00a0pela \u00faltima vez no in\u00edcio do ano passado, n\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":82776,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cerrado.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Quem visitou a\u00a0Floresta Nacional (Flona) de Bras\u00edlia\u00a0pela \u00faltima vez no in\u00edcio do ano passado, n\u00e3o","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82775"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82775"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82775\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}