{"id":81978,"date":"2018-03-22T14:00:30","date_gmt":"2018-03-22T17:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=81978"},"modified":"2018-03-22T10:27:55","modified_gmt":"2018-03-22T13:27:55","slug":"como-um-mamifero-anfibio-australiano-o-ornitorrinco-mudou-a-historia-da-biologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/como-um-mamifero-anfibio-australiano-o-ornitorrinco-mudou-a-historia-da-biologia\/","title":{"rendered":"Como um mam\u00edfero-anf\u00edbio australiano, o ornitorrinco, mudou a hist\u00f3ria da biologia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/biologia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-81979\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/biologia-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/biologia-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/biologia.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>N\u00e3o era para ser uma entrada dram\u00e1tica. O ano \u00e9 1799. Uma mulher, cuja identidade \u00e9 desconhecida at\u00e9 hoje, est\u00e1 no cais de Newcastle-upon-Tyne, norte da Inglaterra. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 buscar um fr\u00e1gil tonel, rec\u00e9m-chegado de navio de uma tal\u00a0<em>terra australis incognita<\/em>\u00a0\u2013 a \u201cterra desconhecida do sul\u201d, hoje chamada Austr\u00e1lia. Ela ergue o barril, carregado de bebida alco\u00f3lica, com os dois bra\u00e7os, coloca-o na cabe\u00e7a e come\u00e7a a caminhada de volta para o pr\u00e9dio da Sociedade Liter\u00e1ria e Filos\u00f3fica da cidade, onde seus chefes, acad\u00eamicos e cientistas ansiosos, aguardam a encomenda.<\/p>\n<p>No caminho, o fundo do barril cede e ela leva um banho de destilado. Encharcada, olha para o ch\u00e3o e d\u00e1 um grito agudo: dois esp\u00e9cimes de uma \u201ccriatura estranha, meio p\u00e1ssaro, meio fera\u201d, ca\u00edram aos seus p\u00e9s. O ornitorrinco havia chegado \u00e0 Inglaterra.<\/p>\n<p>Por esp\u00e9cimes, \u00e9 claro, entenda pele e bico. A dupla de animais, j\u00e1 morta e sem seus \u00f3rg\u00e3os internos, havia sido despachada da Austr\u00e1lia um ano antes, em 1798, por John Hunter, oficial da Marinha e, \u00e0 \u00e9poca, governador de Nova Gales do Sul \u2013 nome oficial da col\u00f4nia rec\u00e9m-fundada pela coroa brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>O novo territ\u00f3rio estava cheio de bichos e plantas ex\u00f3ticos \u2013 quase todos desconhecidos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Sem saber por onde come\u00e7ar a classifica\u00e7\u00e3o desse parque de divers\u00f5es biol\u00f3gico, Hunter, entusiasta da ci\u00eancia, viu abor\u00edgenes ca\u00e7arem o que descreveu como um pequeno anf\u00edbio com jeito de toupeira. \u201cOs nativos se sentam \u00e0s margens do rio, com pequenas lan\u00e7as de madeira (\u2026), at\u00e9 que tenham uma boa oportunidade de atac\u00e1-los. Eles t\u00eam muita pr\u00e1tica. Quando j\u00e1 est\u00e1 na superf\u00edcie, o animal usa suas garras com tanta for\u00e7a que eles s\u00e3o obrigados a confin\u00e1-lo entre duas placas para impedir um ataque.\u201d<\/p>\n<p>Depois do incidente do barril, j\u00e1 secos e empalhados, os ornitorrincos seriam descritos, em 1800, pelo naturalista Thomas Bewick em seu livro\u00a0<em>Hist\u00f3ria Geral dos Quadr\u00fapedes<\/em>. \u201c\u00c9 um animal sui generis; com a natureza tr\u00edplice de peixe, p\u00e1ssaro e quadr\u00fapede, e n\u00e3o \u00e9 aparentado com nada que n\u00f3s j\u00e1 tenhamos visto.\u201d<\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\">\n<div class=\"image\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-184541\" src=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site3.png?w=1024&amp;h=682\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site3.png?w=1024&amp;h=682 1024w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site3.png?w=2048&amp;h=1364 2048w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site3.png?w=150&amp;h=100 150w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site3.png?w=300&amp;h=200 300w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site3.png?w=768&amp;h=512 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" border=\"0\" data-image-title=\"Uma breve hist\u00f3ria do ornitorrinco\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Colagem: Diego Max\/Ilustra\u00e7\u00e3o: Evandro Bertol\" data-image-caption=\"Estados da Austr\u00e1lia com popula\u00e7\u00f5es de ornitorrincos: Queensland, New South Wales e Victoria\" \/>\u00a0Estados da Austr\u00e1lia com popula\u00e7\u00f5es de ornitorrincos: Queensland, New South Wales e Victoria<\/div>\n<p class=\"caption\">Estados da Austr\u00e1lia com popula\u00e7\u00f5es de ornitorrincos: Queensland, New South Wales e Victoria\u00a0(Colagem: Diego Max\/Ilustra\u00e7\u00e3o: Evandro Bertol\/Superinteressante)<\/p>\n<\/div>\n<p>Ainda faltavam mais de tr\u00eas d\u00e9cadas para a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Charles Darwin. Boa parte dos cientistas ainda defendia que as esp\u00e9cies haviam sido criadas por Deus da maneira como s\u00e3o, e o bicudo australiano desafiou todas as preconcep\u00e7\u00f5es. Sua exist\u00eancia foi questionada: zo\u00f3logos procuravam com afinco por marcas de costura no bico, convictos de que os exemplares rec\u00e9m-chegados \u00e0 Inglaterra eram uma farsa levada longe demais por colonos e nativos brincalh\u00f5es.<\/p>\n<p>Mortos e mergulhados em salmoura, os primeiros ornitorrincos do Velho Mundo n\u00e3o podiam esclarecer muito sobre a anatomia da nova esp\u00e9cie. Teorias sobre seu modo de reprodu\u00e7\u00e3o, boa parte delas sem bases emp\u00edricas, pipocaram \u2013 e o debate sobre sua classifica\u00e7\u00e3o, que duraria 80 anos, trouxe \u00e0 tona o pior da elite acad\u00eamica europeia.<\/p>\n<h3>A verdade tarda\u2026 e falha<\/h3>\n<p>No intermin\u00e1vel interior da Austr\u00e1lia, vale tudo. At\u00e9 militar saindo do posto para adotar ornitorrinco de estima\u00e7\u00e3o. \u201cDurante a primavera de 1831, eu tinha \u00e2nsias de saber as verdades por tr\u00e1s da cren\u00e7a aceita de forma geral, a saber, que o ornitorrinco f\u00eamea p\u00f5e ovos e amamenta seus filhotes\u201d, afirmou em uma carta Laurderdale Maule, tenente do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico destacado para a col\u00f4nia. \u201cNenhum ovo foi encontrado em perfeito estado, mas peda\u00e7os de uma subst\u00e2ncia que lembra casca de ovo foram coletados dos destro\u00e7os do ninho.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m das cascas, o tenente encontrou uma f\u00eamea, que levou para casa. Ele acertou em cheio o card\u00e1pio \u2013 apetitosas minhocas \u2013, mas a cobaia n\u00e3o aguentou a dist\u00e2ncia da \u00e1gua e, duas semanas depois, morreu. Dissecando-a \u201ccom o corpo ainda quente\u201d, o tenente viu leite jorrar das gl\u00e2ndulas mam\u00e1rias.<\/p>\n<p>A descoberta deu raz\u00e3o ao alem\u00e3o Johann Meckel, que alguns anos antes, em 1824, havia proposto que um bicho podia, sim, dar leite e p\u00f4r ovos \u2013 para o horror de franceses e brit\u00e2nicos, fi\u00e9is \u00e0 ideia de que o ornitorrinco n\u00e3o era um mam\u00edfero. \u201cSe essas gl\u00e2ndulas produzem leite, ent\u00e3o eu quero ver a manteiga!\u201d, provocou o franc\u00eas Geoffrey St-Hilaire, com o apoio de Jean-Baptiste Lamarck. Sim, o mesmo que voc\u00ea conheceu no Ensino M\u00e9dio como inimigo n\u00ba1 da teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de Darwin \u2013 no caso do ornitorrinco, ele ficou mais uma vez do lado errado da pol\u00eamica.<\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\">\n<div class=\"image\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-184543\" src=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site4.png?w=1024&amp;h=682\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site4.png?w=1024&amp;h=682 1024w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site4.png?w=2048&amp;h=1364 2048w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site4.png?w=150&amp;h=100 150w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site4.png?w=300&amp;h=200 300w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site4.png?w=768&amp;h=512 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"420\" border=\"0\" data-image-title=\"Uma breve hist\u00f3ria do ornitorrinco\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Diego Max\" data-image-caption=\"\" \/>\u2013<\/div>\n<p class=\"caption\">\u00a0(Diego Max\/Superinteressante)<\/p>\n<\/div>\n<p>Para descreditar Meckel, o m\u00e9dico brit\u00e2nico Everard Home, um dos pioneiros no estudo dos ornitorrincos, \u201cencomendou\u201d tr\u00eas f\u00eameas para disseca\u00e7\u00e3o. Ele acreditava que ornitorrincos, como lagartos, seriam ovoviv\u00edparos \u2013 esp\u00e9cies cujos ovos eclodem dentro do corpo da m\u00e3e. Atualmente, sabe-se que os ornitorrincos p\u00f5em ovos, assim como patos e galinhas (ov\u00edparos).<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1840, evid\u00eancias \u00e0 parte, a quest\u00e3o orgulhosa ainda n\u00e3o estava resolvida. O militar Thomas Mitchell ordenou que, num per\u00edodo de tr\u00eas meses, uma f\u00eamea deveria ser morta toda semana at\u00e9 que um ovo fosse encontrado em seu ventre. A carnificina n\u00e3o deu resultado: em 1863, o bi\u00f3logo John Gould admitiu que a academia ainda n\u00e3o havia chegado a um consenso, e registrou sua preocupa\u00e7\u00e3o no livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u00a0<em>Os Mam\u00edferos da Austr\u00e1lia<\/em>.<\/p>\n<p>\u201c[Houve uma queda na popula\u00e7\u00e3o] pela destrui\u00e7\u00e3o indiscriminada promovida pelos colonizadores, que, se n\u00e3o for contida, levar\u00e1 mais adiante \u00e0 extirpa\u00e7\u00e3o desse animal inofensivo.\u201d<\/p>\n<h3>Animais fant\u00e1sticos e onde habitam<\/h3>\n<p>Agora estamos em 2017. Gilad Bino literalmente n\u00e3o dorme em servi\u00e7o: \u00e9 uma esp\u00e9cie de salva-vidas de ornitorrincos, ca\u00e7adores noturnos que s\u00f3 come\u00e7am a sair da toca no crep\u00fasculo. \u00c9 sob a luz do p\u00f4r do sol que ele sobe em um SUV modificado, mistura de ambul\u00e2ncia e laborat\u00f3rio, e parte com uma equipe de quatro pessoas rumo \u00e0s margens repletas de \u00e1rvores dos rios australianos. Na lateral do carro, uma ins\u00edgnia curiosa: Iniciativa de Conserva\u00e7\u00e3o de Ornitorrincos. Ao lado, a sigla da Universidade de New South Wales, uma das maiores da Austr\u00e1lia, onde Bino \u00e9 professor de ecologia.<\/p>\n<p>Volta e meia ele encontra o animal de 45 cm \u2013 menor que um gato dom\u00e9stico, em m\u00e9dia \u2013 com a pele machucada ou o bico amarrado por uma linha de pescar. Resgat\u00e1-lo \u00e9 arriscado: os machos t\u00eam esporas venenosas de 1,5 cm nas patas traseiras. Bino explica que eles n\u00e3o deitam de barriga para cima nem pedem carinho, mas s\u00e3o d\u00f3ceis. E adverte: \u201cS\u00f3 n\u00e3o tentaria fazer cafun\u00e9 em um macho. A dor do veneno dura meses. A \u00e1rea atingida atrofia e n\u00e3o d\u00e1 para mover os m\u00fasculos.\u201d<\/p>\n<p>O jeito \u00e9 lev\u00e1-lo pendurado pela ponta do rabo rechonchudo, que serve de dep\u00f3sito de energia. Assim, ele n\u00e3o consegue atacar. Ap\u00f3s aplicar curativos, Bino tira uma amostra de sangue do bico. O l\u00edquido revela se o peludo foi afetado pela polui\u00e7\u00e3o e uma an\u00e1lise gen\u00e9tica posterior ajuda a mapear as fam\u00edlias em cada rio. Depois, basta devolv\u00ea-lo \u00e0 margem de que foi tirado.<\/p>\n<p>O monitoramento ajuda a preservar a esp\u00e9cie. Estima-se que haja entre 10 mil e 100 mil ornitorrincos na costa leste da Austr\u00e1lia, amea\u00e7ados n\u00e3o s\u00f3 pela polui\u00e7\u00e3o, mas pelas barragens que modificam os rios que eles habitam. \u201cA Austr\u00e1lia \u00e9 o pa\u00eds com mais represas no mundo\u201d, diz Bino.<\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\">\n<div class=\"image\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-184544\" src=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site5.png?w=1024&amp;h=620\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site5.png?w=1024&amp;h=620 1024w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site5.png?w=2048&amp;h=1240 2048w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site5.png?w=150&amp;h=91 150w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site5.png?w=300&amp;h=182 300w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site5.png?w=768&amp;h=465 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"420\" border=\"0\" data-image-title=\"Uma breve hist\u00f3ria do ornitorrinco\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Evandro Bertol\" data-image-caption=\"A entrada da toca, constru\u00edda pela f\u00eamea, fica pr\u00f3xima ao n\u00edvel da \u00e1gua, \u00e0s margens do rio. Quando os filhotes est\u00e3o a caminho, ela passa quatro ou cinco dias reformando a casa.\" \/>\u00a0A entrada da toca, constru\u00edda pela f\u00eamea, fica pr\u00f3xima ao n\u00edvel da \u00e1gua, \u00e0s margens do rio. Quando os filhotes est\u00e3o a caminho, ela passa quatro ou cinco dias reformando a casa.<\/div>\n<p class=\"caption\">A entrada da toca, constru\u00edda pela f\u00eamea, fica pr\u00f3xima ao n\u00edvel da \u00e1gua, \u00e0s margens do rio. Quando os filhotes est\u00e3o a caminho, ela passa quatro ou cinco dias reformando a casa.\u00a0(Evandro Bertol\/Superinteressante)<\/p>\n<\/div>\n<p>Perigos \u00e0 parte, o ornitorrinco sobreviveu \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o e virou \u00edcone nacional. Est\u00e1 no d\u00f3lar australiano e em placas de tr\u00e2nsito que indicam sua travessia. Perry, um ornitorrinco detetive, estrela o cartoon\u00a0<em>Phineas e Ferb<\/em>.<\/p>\n<p>Mesmo com a fama, ele continua recluso, e s\u00f3 cria filhotes em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de reproduzir em zoos.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 participei da cria\u00e7\u00e3o de ornitorrincos em cativeiro, mas nunca vi um ovo ou mesmo um rec\u00e9m-nascido\u201d, conta a bi\u00f3loga Margaret Hawkins, especialista na reprodu\u00e7\u00e3o do animal.<\/p>\n<p>Hoje, o ornitorrinco tem sua pr\u00f3pria classifica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica: ele divide com a equidna, tamb\u00e9m exclusiva da Oceania, a ordem dos monotremados (mam\u00edferos que p\u00f5em ovos). Eles foram as primeiras esp\u00e9cies a se separarem do ramo principal dos mam\u00edferos na \u00e1rvore da vida \u2013 isso se explica pelos ovos e por outras caracter\u00edsticas de r\u00e9pteis.<\/p>\n<p>\u201cOs monotremados n\u00e3o est\u00e3o em risco de extin\u00e7\u00e3o, mas a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 diminuindo\u201d, afirma o geneticista Frank Gutzer, da Universidade de Adelaide. \u201cPrecisamos tomar cuidado com seu futuro em um pa\u00eds t\u00e3o seco. Sua posi\u00e7\u00e3o evolutiva e a biologia fora de s\u00e9rie tornam fascinante o trabalho com esses animais\u201d, completa. Um brinde a esse ilustre desconhecido que revelaremos melhor abaixo.<\/p>\n<h3>Bicho estranho com jeito esquisito<\/h3>\n<p><em>Pelo isolante t\u00e9rmico, gl\u00e2ndulas de veneno, radar no bico e p\u00eanis bifurcado. O ornitorrinco tem um pouco de r\u00e9ptil, de mam\u00edfero e at\u00e9 de tubar\u00e3o em sua receita \u2013 e mais uma por\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas exclusivas.<\/em><\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\" style=\"width: 649px;\">\n<div class=\"image\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-184545\" src=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site6.png?w=1024&amp;h=682\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site6.png?w=1024&amp;h=682 1024w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site6.png?w=2048&amp;h=1364 2048w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site6.png?w=150&amp;h=100 150w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site6.png?w=300&amp;h=200 300w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_site6.png?w=768&amp;h=512 768w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" border=\"0\" data-image-title=\"Uma breve hist\u00f3ria do ornitorrinco\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Lambuja\" data-image-caption=\"\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>1. Bico<\/strong><br \/>\nFlex\u00edvel e com textura de couro, \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o mais sens\u00edvel. Ele cont\u00e9m 60 mil receptores e tato, que detectam diferen\u00e7as de press\u00e3o na \u00e1gua, e 40 mil gl\u00e2ndulas mucosas, que identificam presas por meio de sinais el\u00e9tricos emitidos por elas. Ou seja, o bico \u00e9 o guia do bicho nas longas sess\u00f5es de ca\u00e7a, que duram 12 horas \u2013 um ornitorrinco come entre 13% e 28% de seu peso diariamente.<\/p>\n<p><strong>2. C\u00e9rebro<\/strong><br \/>\nA porcentagem do c\u00e9rebro associada \u00e0 vis\u00e3o \u00e9 menor que a m\u00e9dia dos mam\u00edferos. O grande foco dele \u00e9 mesmo o tato\/recep\u00e7\u00e3o de eletricidade, que ocupa mais espa\u00e7o cerebral que a vis\u00e3o ou o olfato.<\/p>\n<p><strong>3. \u201cOlhouvido\u201d<\/strong><br \/>\nOs ouvidos t\u00eam 4 cm de profundidade e ficam embutidos no mesmo sulco dos olhos. Quando submersos, eles ficam selados. Ou seja, embaixo d\u2019\u00e1gua \u2013 cego e quase surdo \u2013 ele usa o bico como GPS.<\/p>\n<p><strong>4. Pelo<\/strong><br \/>\nO pelo imperme\u00e1vel, em duas camadas, forma um bols\u00e3o de ar que auxilia o isolamento t\u00e9rmico \u2013 a temperatura m\u00e9dia do ornitorrinco \u00e9 32 oC.<\/p>\n<h3>Ca\u00e7a e dieta<\/h3>\n<p><strong>5. Placas de mastiga\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nComo perde os dentes na inf\u00e2ncia, usa duas placas r\u00edgidas de queratina para triturar a comida \u2013 composta essencialmente de: 71% larvas, 17% vermes, 12% camar\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>6. Est\u00f4mago<\/strong><br \/>\nUm est\u00f4mago comum produz subst\u00e2ncias \u00e1cidas para digerir. A dieta do ornitorrinco, rica em itens anti\u00e1cidos, fez o \u00f3rg\u00e3o ficar sem fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p><strong>7. \u00dateros<\/strong><br \/>\nA f\u00eamea tem dois, cada um associado a um ov\u00e1rio. Na hora da reprodu\u00e7\u00e3o, s\u00f3 um deles produz ovos \u2013 o outro \u00e9 atrofiado.<\/p>\n<p><strong>8. Ovos<\/strong><br \/>\nA gesta\u00e7\u00e3o dura 21 dias, com um a tr\u00eas ovos (de 17 mm de comprimento).Os filhotes demoram quatro meses para sair da toca e a amamenta\u00e7\u00e3o termina um m\u00eas depois.<\/p>\n<p><strong>9. Cloaca<\/strong><br \/>\nAssim como nas aves, \u00e9 multifuncional \u2013 uma sa\u00edda s\u00f3 para tr\u00eas sistemas: excretor, digestivo e reprodutor.<\/p>\n<p><strong>10. Gl\u00e2ndulas mam\u00e1rias<\/strong><br \/>\nElas secretam o leite por estruturas do abd\u00f4men chamadas aur\u00e9olas. Como n\u00e3o h\u00e1 mamilos ou protuber\u00e2ncias, o l\u00edquido escorre nos pelos.<\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\" style=\"width: 649px;\">\n<div class=\"image\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-184561\" src=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_macho.png?w=1024&amp;h=682\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_macho.png?w=1024&amp;h=682 1024w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_macho.png?w=2048&amp;h=1364 2048w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_macho.png?w=150&amp;h=100 150w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_macho.png?w=300&amp;h=200 300w, https:\/\/abrilsuperinteressante.files.wordpress.com\/2017\/07\/ornitorrinco_macho.png?w=768&amp;h=512 768w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" border=\"0\" data-image-title=\"Uma breve hist\u00f3ria do ornitorrinco\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Evandro Bertol\" data-image-caption=\"\" \/><\/div>\n<\/div>\n<h3>Locomo\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p><strong>11. Ombros<\/strong><br \/>\nAo contr\u00e1rio da maioria dos mam\u00edferos, que tem quatro ossos na regi\u00e3o dos ombros, o ornitorrinco tem cinco \u2013 anatomia t\u00edpica de r\u00e9pteis. Isso explica seu caminhar desengon\u00e7ado, rastejante.<\/p>\n<p><strong>12. Patas traseiras<\/strong><br \/>\nServem como leme, direcionando o bicho na \u00e1gua. Na parte de tr\u00e1s, o macho tem esporas\u00a0<em>[veja desenho acima]<\/em>\u00a0para autodefesa. Elas est\u00e3o ligadas a gl\u00e2ndulas produtoras de veneno. A subst\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 letal para o ser humano, mas causa incha\u00e7o, dorm\u00eancia e dor intensa por at\u00e9 um m\u00eas.<\/p>\n<p><strong>13. Patas dianteiras<\/strong><br \/>\nS\u00e3o arqueadas como as de r\u00e9pteis, mas a forma como os membros rodam nos \u201csoquetes\u201d \u00e9 t\u00edpica de mam\u00edferos. Na \u00e1gua, o ornitorrinco usa as membranas para propuls\u00e3o. Como elas s\u00e3o dobr\u00e1veis, ficam viradas para baixo quando ele precisa usar as garras.<\/p>\n<p><strong>14. Rabo<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m de dar estabilidade ao nado, \u00e9 um dep\u00f3sito de gordura - o rabo da f\u00eamea cresce na gesta\u00e7\u00e3o, e indiv\u00edduos de regi\u00f5es frias t\u00eam rabos mais gordos. Sua pelagem \u00e9 mais \u00e1spera, esparsa e fina, do que a do restante do corpo e, por isso, n\u00e3o isola t\u00e3o bem o calor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong>\u00a0Livros\u00a0<em>Platypus<\/em>, de Tom Grant;\u00a0<em>Platypus: the Amazing Story of How a Curious Creature Baffled the World<\/em>, de Ann Moyal;\u00a0<em>Biology of Monotremes<\/em>, de Mervyn Griffiths; e\u00a0<em>Hist\u00f3ria Geral dos Quadr\u00fapedes<\/em>, de Thomas Bewick.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o era para ser uma entrada dram\u00e1tica. O ano \u00e9 1799. 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