{"id":81483,"date":"2018-03-12T13:30:52","date_gmt":"2018-03-12T16:30:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=81483"},"modified":"2018-03-12T12:33:54","modified_gmt":"2018-03-12T15:33:54","slug":"poluicao-por-metais-pesados-atinge-ilhas-remotas-no-arquipelago-de-kerguelen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/poluicao-por-metais-pesados-atinge-ilhas-remotas-no-arquipelago-de-kerguelen\/","title":{"rendered":"Polui\u00e7\u00e3o por metais pesados atinge ilhas remotas no arquip\u00e9lago de Kerguelen"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-81484\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Bilh\u00f5es de toneladas de metais pesados s\u00e3o emitidos anualmente por chamin\u00e9s e esgotos das ind\u00fastrias. Tais elementos s\u00e3o nocivos aos seres vivos e atingem a hidrosfera, poluindo rios, lagos e mares. \u00c9 dif\u00edcil encontrar nos oceanos um lugar livre dessa polui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa o qu\u00e3o remoto ele esteja.<\/p>\n<p>Um estudo feito por\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/71619\/\" target=\"_blank\">Caio Vin\u00edcius Cipro<\/a><\/b>, p\u00f3s-doutorando no Instituto Oceanogr\u00e1fico da USP com Bolsa da FAPESP, identificou tra\u00e7os de metais pesados em diversos tipos de invertebrados, peixes e aves habitantes das ilhas Kerguelen, pertencentes \u00e0s Terras Austrais e Ant\u00e1rticas Francesas.<\/p>\n<p>O trabalho, produzido em parceria com pesquisadores franceses, foi feito em um dos locais mais isolados do planeta. Kerguelen re\u00fane 300 ilhas e ilhotas no sul do oceano \u00cdndico, a meio caminho entre a \u00c1frica e a Austr\u00e1lia, 4 mil quil\u00f4metros ao sul da \u00cdndia e 2 mil quil\u00f4metros ao norte da Ant\u00e1rtica.<\/p>\n<p>O arquip\u00e9lago, de origem vulc\u00e2nica, \u00e9 coberto por geleiras, rochas e lava solidificada h\u00e1 muito despejada por um vulc\u00e3o dormente, o monte Ross, ponto culminante do local. A vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 de tundra, a\u00e7oitada por um vento frio constante. No local h\u00e1 uma esta\u00e7\u00e3o de pesquisas que abriga 120 pessoas no ver\u00e3o e menos da metade no inverno.<\/p>\n<p>Em Kerguelen, a desola\u00e7\u00e3o em terra contrasta com a riqueza da vida marinha. As \u00e1guas s\u00e3o ricas em alimento para col\u00f4nias de pinguins-reais, elefantes-marinhos, le\u00f5es-marinhos, albatrozes, petr\u00e9is, golfinhos e baleias. \u00c1guas \u00e0 primeira vista isentas de qualquer tipo de polui\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>\u201cAp\u00f3s meu doutorado, passei quase cinco anos na Universidade de La Rochelle financiado por organismos franceses,\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/157077\/\" target=\"_blank\">pela FAPESP<\/a><\/b>\u00a0e pelo programa Ci\u00eancia sem Fronteiras. Em 2013, fui convidado pelo meu supervisor franc\u00eas, Paco Bustamante, a trabalhar com uma cole\u00e7\u00e3o de amostras e de dados levantados anos antes nas ilhas Kerguelen. Em 1998, Bustamante constatou ac\u00famulo de c\u00e1dmio, cobre e zinco em polvos de Kerguelen, mas havia muito a investigar\u201d, disse Cipro.<\/p>\n<p>\u201cNo programa ant\u00e1rtico franc\u00eas, o estudo do material coletado n\u00e3o precisa necessariamente ser realizado pelo profissional que vai a campo. No nosso caso, analisamos amostras de aves, de peixes e de diversos invertebrados. A ideia era verificar as concentra\u00e7\u00f5es de base para organismos de n\u00edvel tr\u00f3fico maior\u201d, disse.<\/p>\n<p>Em 2014, Cipro publicou na\u00a0<i><b><a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007%2Fs00300-014-1476-z\" target=\"_blank\">Polar Biology<\/a><\/b><\/i>\u00a0a primeira parte de sua pesquisa, na qual constatou a contamina\u00e7\u00e3o de petr\u00e9is pardela-preta (<i>Procellaria aequinoctialis<\/i>) por cobre, sel\u00eanio e zinco. A segunda parte, publicada agora na\u00a0<b><a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00300-017-2180-6\" target=\"_blank\">mesma revista<\/a><\/b>, demonstra contamina\u00e7\u00e3o por metais em peixes e em invertebrados marinhos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do c\u00e1dmio e do merc\u00fario de fontes naturais, h\u00e1 os metais resultantes do despejo de poluentes por f\u00e1bricas localizadas a mais de 10 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Micropart\u00edculas de metais pesados liberadas no meio ambiente chegam aos oceanos e, enquanto ficam em suspens\u00e3o em \u00e1guas superficiais, s\u00e3o absorvidas pelo zoopl\u00e2ncton, invertebrados microsc\u00f3picos que formam o esteio da cadeia alimentar oce\u00e2nica. O zoopl\u00e2ncton serve de alimento para os consumidores marinhos prim\u00e1rios: moluscos, crust\u00e1ceos, os menores peixes e tamb\u00e9m os maiores animais vivos, os cet\u00e1ceos misticetos como a baleia-azul.<\/p>\n<p>Lulas, mexilh\u00f5es, crust\u00e1ceos e peixes, por sua vez, s\u00e3o a fonte de alimento dos consumidores secund\u00e1rios. Cada part\u00edcula de metal pesado que penetra na base da cadeia alimentar oce\u00e2nica acaba acumulada em tecidos dos grupos de animais que ocupam os seus degraus mais altos: peixes como atum e tubar\u00f5es, aves e mam\u00edferos como focas, le\u00f5es-marinhos, golfinhos e orcas.<\/p>\n<p>De acordo com Cipro, h\u00e1 poucos trabalhos que mostram a contamina\u00e7\u00e3o por metais pesados em organismos dos n\u00edveis tr\u00f3ficos mais baixos da cadeia alimentar em ecossistemas remotos.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo de nossa nova pesquisa foi obter dados de ac\u00famulo de metais pesados em organismos de invertebrados como mexilh\u00f5es e lulas. Os dados que obtivemos podem apoiar estudos com n\u00edveis tr\u00f3ficos mais altos\u201d, disse.<\/p>\n<p>As esp\u00e9cies coletadas representam uma grande amostra dos grupos ecol\u00f3gicos de Kerguelen. O tamanho dos animais amostrados est\u00e1 dentro do alcance das presas dos predadores de topo daquela \u00e1rea e, mais especificamente, das diversas esp\u00e9cies de aves marinhas que habitam aquelas ilhas.<\/p>\n<p>\u201cComparando os dados de contamina\u00e7\u00e3o em todos os ecossistemas, apareceram resultados interessantes. Em uma grande ba\u00eda onde est\u00e3o localizadas as maiores col\u00f4nias de aves marinhas de Kerguelen, os mexilh\u00f5es t\u00eam concentra\u00e7\u00f5es de c\u00e1dmio maiores do que aquelas registradas entre os mexilh\u00f5es de outras partes das ilhas. Tudo indica que a fonte de c\u00e1dmio que contamina os mexilh\u00f5es s\u00e3o as col\u00f4nias de aves marinhas no golfo de Morbihan, onde fica Port-aux-Fran\u00e7ais, a maior comunidade daquelas ilhas, com uma popula\u00e7\u00e3o de 40 pessoas no inverno e 120 durante os meses de ver\u00e3o\u201d, disse Cipro.<\/p>\n<p>Os pesquisadores observaram uma correla\u00e7\u00e3o entre o tamanho dos mexilh\u00f5es coletados na mar\u00e9 baixa e a quantidade de c\u00e1dmio neles presente. \u201cNos mexilh\u00f5es, a correla\u00e7\u00e3o positiva entre c\u00e1dmio e o peso dos indiv\u00edduos sugere evidentemente a bioacumula\u00e7\u00e3o do metal pesado nos tecidos daqueles bivalves \u00e0 medida que crescem\u201d, disse.<\/p>\n<p>Quando os metais pesados derivados de fontes naturais e da atividade industrial chegam \u00e0s \u00e1guas, s\u00e3o geralmente absorvidos por organismos marinhos. Alguns, como as lulas, absorvem muito metal pesado. Os cefal\u00f3podes, o grupo do qual fazem parte as lulas e os polvos, s\u00e3o not\u00f3rios bioacumuladores de diversos elementos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>\u201cAs concentra\u00e7\u00f5es do metal encontradas nas esp\u00e9cies de lula analisadas em Kerguelen estavam entre as mais altas para todas as esp\u00e9cies analisadas neste estudo\u201d, disse Cipro.<\/p>\n<p><b>Contamina\u00e7\u00f5es diferentes<\/b><\/p>\n<p>No trabalho anterior, Cipro e colegas observaram elevadas concentra\u00e7\u00f5es de merc\u00fario (em m\u00e9dia 58,4 microgramas por decigrama no f\u00edgado) e de c\u00e1dmio (m\u00e9dia de 65,7 microgramas por decigrama nos rins) em petr\u00e9is.<\/p>\n<p>\u201cUma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que tais aves seguem barcos de pesca. Como os barcos descartam os tecidos indesejados do pescado, isso pode expor as aves a maiores n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n<p>Foi constatada tamb\u00e9m uma concentra\u00e7\u00e3o muito elevada de metais pesados em algumas esp\u00e9cies de zoopl\u00e2ncton, o que \u00e9 bastante incomum entre as esp\u00e9cies analisadas. \u201cUm exemplo \u00e9 um pequeno crust\u00e1ceo do zoopl\u00e2ncton,\u00a0<i>Themisto gaudichaudii<\/i>, que apresentou concentra\u00e7\u00f5es de c\u00e1dmio muito superiores \u00e0s concentra\u00e7\u00f5es de diversas esp\u00e9cies de peixes que, em tese, deveriam ser mais expostos a esse metal pesado\u201d, disse Cipro.<\/p>\n<p>Segundo ele, as concentra\u00e7\u00f5es de metais pesados nos crust\u00e1ceos que vivem nas \u00e1guas da plataforma continental s\u00e3o muito superiores \u00e0quelas dos que vivem nas \u00e1guas costeiras de Kerguelen.<\/p>\n<p>\u201cO que se verifica ao longo do trabalho \u00e9 que, em n\u00edveis tr\u00f3ficos mais baixos, cada nicho de invertebrados, moluscos ou crust\u00e1ceos, apresenta contamina\u00e7\u00e3o em quantidades e perfis diferentes\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia do trabalho, Cipro e seus colegas franceses pretendem verificar quais aves est\u00e3o mais expostas ao ac\u00famulo de metais pesados. \u201cOs resultados dever\u00e3o ser publicados em breve, com an\u00e1lises de 26 esp\u00e9cies de aves marinhas\u201d, disse.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Trace elements in invertebrates and fish from Kerguelen waters, southern Indian Ocean<\/i>\u00a0(doi: 10.1007\/s00300-017-2180-6), de Caio V. Z. Cipro, Y. Cherel, P. Bocher, F. Caurant, P. Miramand e P. Bustamante, est\u00e1 publicado em\u00a0<b><a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00300-017-2180-6\" target=\"_blank\">https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00300-017-2180-6<\/a><\/b>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bilh\u00f5es de toneladas de metais pesados s\u00e3o emitidos anualmente por chamin\u00e9s e esgotos das ind\u00fastrias.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":81484,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/contaminacao.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Bilh\u00f5es de toneladas de metais pesados s\u00e3o emitidos anualmente por chamin\u00e9s e esgotos das ind\u00fastrias.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81483"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81483"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81483\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81484"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}