{"id":81202,"date":"2018-03-07T12:00:41","date_gmt":"2018-03-07T15:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=81202"},"modified":"2018-03-06T22:07:56","modified_gmt":"2018-03-07T01:07:56","slug":"com-enorme-potencial-semiarido-brasileiro-luta-contra-desertificacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/com-enorme-potencial-semiarido-brasileiro-luta-contra-desertificacao\/","title":{"rendered":"Com enorme potencial, semi\u00e1rido brasileiro luta contra desertifica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intro\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/semiarido.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-81203\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/semiarido-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/semiarido-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/semiarido.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A\u00a0<\/span>primeira coisa mais importante no mundo \u00e9 Deus. A segunda \u00e9 a \u00e1gua. Sem \u00e1gua, ningu\u00e9m vive.\u201d Com a habilidade de um contador de hist\u00f3rias que sabe prender a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, o agricultor Ed\u00e9zio Melo interrompe o passeio em sua pequena propriedade, ergue uma mangueira e come\u00e7a a esguichar \u00e1gua para cima at\u00e9 se encharcar, sem conter o riso solto.<\/p>\n<p>A alegria de viver em um pequeno o\u00e1sis no sert\u00e3o n\u00e3o esconde as lembran\u00e7as \u00e1ridas registradas em um \u00e1lbum de fotografias antigas. Mais conhecido como Dedeco, o produtor rural de 63 anos \u00e9 morador do munic\u00edpio de S\u00e3o Jos\u00e9 da Tapera, no interior de Alagoas, que chegou a registrar o pior \u00edndice de desenvolvimento humano do Brasil no final da d\u00e9cada de 1990 por conta da seca end\u00eamica que atinge a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu costumava plantar s\u00f3 feij\u00e3o e milho, e isso apenas uma vez por ano, quando chovia. Na seca mais brava, andava sete l\u00e9guas at\u00e9 uma nascente de rio. Quando eu chegava tinha uma fila de gente esperando a \u00e1gua brotar da terra para levar um balde para casa\u201d, diz o agricultor. Foi a tecnologia que fez a \u00e1gua jorrar pela Caatinga: uma barragem subterr\u00e2nea constru\u00edda sob a propriedade de Dedeco represa at\u00e9 75 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Com a obra, foi poss\u00edvel implantar um sistema de irriga\u00e7\u00e3o por gotejamento que proporcionou o cultivo de 95 esp\u00e9cies diferentes de vegetais, entre alimentos e plantas medicinais nativas. Para melhorar a produtividade, o alagoano tamb\u00e9m conta com um biodigestor, que transforma fezes do gado em g\u00e1s de cozinha e fertilizante, al\u00e9m de um ecofog\u00e3o, que economiza lenha e produz menos fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>As iniciativas que mudaram a vida do agricultor foram implantadas pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), respons\u00e1vel por identificar e replicar tecnologias desenvolvidas pelos pr\u00f3prios moradores ou pesquisadores do semi\u00e1rido.<\/p>\n<p>\u201cAqui n\u00e3o se desperdi\u00e7a nada, n\u00e3o se queima nada, nem se envenenam as plantas\u201d, afirma Dedeco, ressaltando a aposta na agroecologia para melhorar a qualidade do solo e diversificar a produ\u00e7\u00e3o. A colheita tem destino certo: al\u00e9m de serem vendidos na feira da cidade, os produtos v\u00e3o para os pratos dos estudantes de escolas p\u00fablicas, por meio de um programa que compra alimentos para a merenda escolar dos pequenos produtores rurais.<\/p>\n<p>A vida de luta compartilhada no semi\u00e1rido brasileiro pelos conterr\u00e2neos de Dedeco melhorou na \u00faltima d\u00e9cada, com a instala\u00e7\u00e3o de mais de um milh\u00e3o de cisternas, al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o regular de \u00e1gua em caminh\u00f5es-pipa e dos programas do governo federal para seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Mas a economia do semi\u00e1rido \u2014 que abriga cerca de 25 milh\u00f5es de brasileiros \u2014 permanece vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Para especialistas que analisam a regi\u00e3o, as tradicionais atividades produtivas podem se tornar impratic\u00e1veis sem a utiliza\u00e7\u00e3o de tecnologias inovadoras. Paulo Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos maiores especialistas em ci\u00eancias clim\u00e1ticas do pa\u00eds, justifica a preocupa\u00e7\u00e3o. \u201cCom a prov\u00e1vel redu\u00e7\u00e3o da pluviosidade, em poucos anos a pr\u00e1tica agr\u00edcola convencional ser\u00e1 completamente invi\u00e1vel na regi\u00e3o\u201d, ressalta.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\"><img loading=\"lazy\" class=\"img-responsive\" title=\"Morador de S\u00e3o Jos\u00e9 da Tapera, em Alagoas, o agricultor Dedeco cultiva mais de 90 esp\u00e9cies de plantas gra\u00e7as a uma barragem de \u00e1gua subt\u00e2rrenea instalada em sua propriedade (Foto: Fl\u00e1vio Forner )\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/289amWVVpx9n1Q04rNtLEZvcpVQ=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2018\/03\/06\/fof_4618.jpg\" alt=\"Morador de S\u00e3o Jos\u00e9 da Tapera, em Alagoas, o agricultor Dedeco cultiva mais de 90 esp\u00e9cies de plantas gra\u00e7as a uma barragem de \u00e1gua subt\u00e2rrenea instalada em sua propriedade (Foto: Fl\u00e1vio Forner )\" width=\"639\" height=\"426\" \/><label class=\"foto-legenda\">MORADOR DE S\u00c3O JOS\u00c9 DA TAPERA, EM ALAGOAS, O AGRICULTOR DEDECO CULTIVA MAIS DE 90 ESP\u00c9CIES DE PLANTAS GRA\u00c7AS A UMA BARRAGEM DE \u00c1GUA SUBT\u00c2RRENEA INSTALADA EM SUA PROPRIEDADE (FOTO: FL\u00c1VIO FORNER )<\/label><\/div>\n<p><strong>Mandacuru na seca<\/strong><br \/>\nO alerta do cientista \u00e9 fundamentado em modelos matem\u00e1ticos que preveem um clima mais severo para a \u00e1rea nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. \u201cA previs\u00e3o \u00e9 de que haver\u00e1 um aumento da temperatura e uma diminui\u00e7\u00e3o do total anual de chuvas no Nordeste e na Amaz\u00f4nia\u201d, diz Nobre. \u201cEssas duas regi\u00f5es ser\u00e3o impactadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de forma mais expressiva do que o resto do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Embora as proje\u00e7\u00f5es sejam calculadas para a pr\u00f3xima d\u00e9cada, a situa\u00e7\u00e3o hoje j\u00e1 \u00e9 preocupante. Em Araripina, Pernambuco, a temperatura m\u00e9dia aumentou 4 graus nos \u00faltimos 40 anos \u2014 esse n\u00famero \u00e9 dez vezes maior do que o previsto pelas an\u00e1lises do Painel Intergovernamental para a Mudan\u00e7a de Clima, organiza\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Outro dado que chama a aten\u00e7\u00e3o dos climatologistas \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de precipita\u00e7\u00e3o na \u00faltima d\u00e9cada. Apesar de os moradores do sert\u00e3o nordestino j\u00e1 conviverem com longos per\u00edodos de estiagem intercalados por poucos meses chuvosos, h\u00e1 registros de intensifica\u00e7\u00e3o da seca. Agora, o per\u00edodo de precipita\u00e7\u00e3o dura menos do que quatro meses no ano e o balan\u00e7o h\u00eddrico \u00e9 negativo, ou seja, a evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 maior do que a chuva.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, os invernos, que concentram o per\u00edodo de maior precipita\u00e7\u00e3o no Nordeste, tiveram dias empoeirados, com poucas e r\u00e1pidas pancadas de chuva. \u201cTem sete anos que a gente n\u00e3o tem inverno para colher verdura\u201d, afirma Everaldo Rodrigues, que vive na zona rural de Piranhas, em Alagoas. Assim como ele, muitos moradores da regi\u00e3o passam o ano esperando a safra de culturas de subsist\u00eancia, como milho, feij\u00e3o e mandioca, e chegam ao ver\u00e3o sem colher praticamente nada, permanecendo dependentes dos programas de assist\u00eancia p\u00fablica.<\/p>\n<p>Para o agricultor, a natureza est\u00e1 diferente e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel interpretar antigos sinais da din\u00e2mica clim\u00e1tica. As mudan\u00e7as s\u00e3o tantas que, se Luiz Gonzaga estivesse vivo, teria de reeditar um dos maiores sucessos do cancioneiro nordestino. Ao contr\u00e1rio do que o rei do bai\u00e3o dizia, quando o mandacaru \u201cfulora\u201d na seca, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais sinal de que a chuva chega no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que Gonzaga n\u00e3o consultou modelos clim\u00e1ticos para cantar O Xote das Meninas, mas os sertanejos continuam esperando sinais da natureza para iniciarem o plantio: quando se faz ro\u00e7a e n\u00e3o chove, a mandioca morre seca embaixo da terra.<\/p>\n<p>Enquanto os moradores observam as flores do mandacaru, Paulo Nobre analisa os cen\u00e1rios futuros produzidos em supercomputadores de simula\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica e tamb\u00e9m n\u00e3o vislumbra bons pren\u00fancios. De acordo com o cientista, a intensifica\u00e7\u00e3o dos extremos clim\u00e1ticos na regi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 causada pelas mudan\u00e7as relacionadas apenas \u00e0 emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, mas tamb\u00e9m ao desmatamento da Caatinga. Nas margens do S\u00e3o Francisco, que corta boa parte do semi\u00e1rido, sobraram somente 4% de mata ciliar, que nasce pr\u00f3xima ao rio.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\"><img loading=\"lazy\" class=\"img-responsive\" title=\"O sertanejo Benedito de Jesus pesquisa de maneira intuitiva as propriedades de diferentes plantas da Caatinga, como a emburana e a aroeira (Foto: Fl\u00e1vio Forner)\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/t3Ji7Xf1WNFcUmh_0BEVhyhWdYE=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2018\/03\/06\/fof_3454.jpg\" alt=\"O sertanejo Benedito de Jesus pesquisa de maneira intuitiva as propriedades de diferentes plantas da Caatinga, como a emburana e a aroeira (Foto: Fl\u00e1vio Forner)\" width=\"639\" height=\"426\" \/><label class=\"foto-legenda\">O SERTANEJO BENEDITO DE JESUS PESQUISA DE MANEIRA INTUITIVA AS PROPRIEDADES DE DIFERENTES PLANTAS DA CAATINGA, COMO A EMBURANA E A AROEIRA (FOTO: FL\u00c1VIO FORNER)<\/label><\/div>\n<p><strong>Novos neg\u00f3cios<\/strong><br \/>\nApesar dos desafios trazidos pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o sol n\u00e3o \u00e9 um vil\u00e3o para o desenvolvimento de novos modelos econ\u00f4micos. De acordo com o cientista Paulo Nobre, o caminho para superar a pobreza no sert\u00e3o passa justamente pelo incompar\u00e1vel potencial de gera\u00e7\u00e3o de energia solar, al\u00e9m da valoriza\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies nativas da flora. \u201cEstamos calcinando um bioma com centenas de tipos diferentes de plantas que poderiam ser usadas como alimento, rem\u00e9dio ou cosm\u00e9tico\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Em parceria com Nobre, o f\u00edsico e doutor em geoci\u00eancia \u00canio Bueno trabalha em um estudo sobre o potencial energ\u00e9tico da regi\u00e3o. \u201cJ\u00e1 existem 11 mil quil\u00f4metros quadrados de \u00e1rea em estado avan\u00e7ado de desertifica\u00e7\u00e3o no semi\u00e1rido. Se cobr\u00edssemos esse territ\u00f3rio com pain\u00e9is solares, produzir\u00edamos 100% da energia necess\u00e1ria para abastecer o pa\u00eds\u201d, afirma o f\u00edsico, que integra o Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia para Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Bueno lembra que a incid\u00eancia de sol \u00e9 maior no ver\u00e3o, justamente quando a agricultura \u00e9 invi\u00e1vel no semi\u00e1rido. \u201cEm um hectare de terra que rende cerca de R$ 300 por ano com plantio de milho ou feij\u00e3o, voc\u00ea poderia produzir 2,3 mil megawatts de eletricidade, o que significa nada menos que R$ 575 mil.\u201d<\/p>\n<p>Para transformar essa proje\u00e7\u00e3o em realidade, por\u00e9m, seria necess\u00e1rio um alto investimento inicial em placas solares, o que \u00e9 invi\u00e1vel para os moradores locais. Por isso, os pesquisadores acreditam que um modelo ideal de neg\u00f3cio deveria envolver o governo, a iniciativa privada e a comunidade. \u201cPrecisamos mudar radicalmente nossa matriz energ\u00e9tica e desenhar uma nova pol\u00edtica p\u00fablica que leve em considera\u00e7\u00e3o o desenvolvimento local e n\u00e3o apenas a demanda de energia\u201d, diz Bueno.<\/p>\n<p>Mas a energia solar n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel apenas pela produ\u00e7\u00e3o de eletricidade. No munic\u00edpio de S\u00e3o Jos\u00e9 da Tapera, dezenas de fam\u00edlias sa\u00edram da mis\u00e9ria gra\u00e7as \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da pimenta da Tapera, uma iguaria produzida com o aux\u00edlio da ONG Instituto Ecoengenho. O projeto de planta\u00e7\u00e3o hidrop\u00f4nica utiliza a energia solar para bombear a \u00e1gua e faz\u00ea-la circular pelas mudas da pimenta, cultivadas em garrafas pet.<\/p>\n<p>\u201cEm uma regi\u00e3o t\u00e3o pobre, o segredo \u00e9 investir em produtos de alto valor agregado, como especiarias, corantes, cosm\u00e9ticos ou rem\u00e9dios, e trabalhar com nichos especiais de mercado\u201d, afirma o engenheiro Jos\u00e9 Roberto Fonseca, que participa do projeto. Al\u00e9m de plantarem a pimenta, os moradores passaram por um curso de capacita\u00e7\u00e3o, aprendendo a fabricar um vinagrete especial com a iguaria \u2014 que hoje \u00e9 encontrada em se\u00e7\u00f5es gourmet de supermercados alagoanos.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\"><img loading=\"lazy\" class=\"img-responsive\" title=\"Os turistas t\u00eam oportunidade de conhecer o Mirante na Trilha do P\u00f4r do Sol (Foto: Fl\u00e1vio Forner)\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/1bEFOSmiKA6npuaxrfgE2ga1cQ4=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2018\/03\/06\/fof_4253.jpg\" alt=\"Os turistas t\u00eam oportunidade de conhecer o Mirante na Trilha do P\u00f4r do Sol (Foto: Fl\u00e1vio Forner)\" width=\"639\" height=\"426\" \/><label class=\"foto-legenda\">OS TURISTAS T\u00caM OPORTUNIDADE DE CONHECER O MIRANTE NA TRILHA DO P\u00d4R DO SOL (FOTO: FL\u00c1VIO FORNER)<\/label><\/div>\n<p><strong>O sert\u00e3o vai virar o que quiser<\/strong><br \/>\nPara a cientista M\u00e1rcia Vanusa da Silva, doutora em biologia celular e professora da Universidade Federal de Pernambuco, a Caatinga, \u00fanico bioma exclusivamente brasileiro, esbanja possibilidades de explora\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00f5es ainda pouco estudadas. Para investigar as propriedades de cem plantas nativas ela conta com o aux\u00edlio dos moradores, que conhecem h\u00e1 tempos as potencialidades dos vegetais.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Benedito de Jesus, de 53 anos, uma lideran\u00e7a local na zona rural de Piranhas, no estado de Alagoas, e uma esp\u00e9cie de mago da Caatinga. Com um palavreado que parece sa\u00eddo de um livro de Guimar\u00e3es Rosa e chap\u00e9u com estrela de couro na cabe\u00e7a, ele garante que o rem\u00e9dio para qualquer aperreio \u00e9 feito com folha, caule e raiz. \u201cQuando algu\u00e9m est\u00e1 doente, a gente dorme e reza pro m\u00e9dico alumi\u00e1 o rem\u00e9dio. Da\u00ed a gente sonha com uma planta e, quando acorda, vai procurar no mato.\u201d<\/p>\n<p>Apesar do conte\u00fado m\u00edstico, a sabedoria intuitiva tem muito a contribuir com o desenvolvimento de medicamentos de comprovada efic\u00e1cia. A pesquisa conduzida por Silva identificou benzedeiras, curandeiros e outras refer\u00eancias de sabedoria popular do semi\u00e1rido e realizou entrevistas sobre a utiliza\u00e7\u00e3o das plantas. Com as informa\u00e7\u00f5es coletadas, a professora levou os exemplares das esp\u00e9cies para an\u00e1lise, a fim de estudar os princ\u00edpios ativos dos vegetais em laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>De acordo com a cientista, em 90% dos casos analisados at\u00e9 agora, o uso tradicional dos moradores \u00e9 validado pela pesquisa. A aroeira, por exemplo, tem propriedade anti-inflamat\u00f3ria, e a catingueira funciona como cicatrizante. Silva explica que, como a Caatinga \u00e9 adaptada \u00e0s altas temperaturas do semi\u00e1rido, esse \u00e9 um celeiro de novas mol\u00e9culas muito resistentes e interessantes do ponto de vista gen\u00e9tico. Se Guimar\u00e3es Rosa dizia que \u201co sert\u00e3o \u00e9 do tamanho do mundo\u201d, todas as possibilidades da regi\u00e3o tamb\u00e9m t\u00eam o tamanho da luta, da sabedoria e dos sonhos de seus moradores.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\"><img loading=\"lazy\" class=\"img-responsive\" title=\"Vendida como artigo gourmet nos mercados alagoanos, a produ\u00e7\u00e3o de pimenta \u00e9 uma das novas atividades econ\u00f4micas desenvolvidas pelos moradores da regi\u00e3o (Foto: Fl\u00e1vio Forner)\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/EW_gfFoy31nSyRS4k9bsdnbSUlU=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2018\/03\/06\/fof_4843.jpg\" alt=\"Vendida como artigo gourmet nos mercados alagoanos, a produ\u00e7\u00e3o de pimenta \u00e9 uma das novas atividades econ\u00f4micas desenvolvidas pelos moradores da regi\u00e3o (Foto: Fl\u00e1vio Forner)\" width=\"639\" height=\"426\" \/><label class=\"foto-legenda\">VENDIDA COMO ARTIGO GOURMET NOS MERCADOS ALAGOANOS, A PRODU\u00c7\u00c3O DE PIMENTA \u00c9 UMA DAS NOVAS ATIVIDADES ECON\u00d4MICAS DESENVOLVIDAS PELOS MORADORES DA REGI\u00c3O (FOTO: FL\u00c1VIO FORNER)<\/label><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0primeira coisa mais importante no mundo \u00e9 Deus. 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