{"id":80735,"date":"2018-02-25T15:25:51","date_gmt":"2018-02-25T18:25:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=80735"},"modified":"2018-02-25T15:25:51","modified_gmt":"2018-02-25T18:25:51","slug":"e-a-hora-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/e-a-hora-do-mar\/","title":{"rendered":"\u00c9 a hora do mar"},"content":{"rendered":"<p>Por Angela Kuczach<\/p>\n<div id=\"attachment_58172\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 651px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-58172\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mar-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mar-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mar-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mar-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mar-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mar.jpg 1152w\" alt=\"\" width=\"641\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Ilha de Trindade. Foto: Enrico Marcovaldi\/Projeto Baleia Jubarte.<\/p>\n<\/div>\n<p>Em fevereiro de 2017, o ministro do Meio Ambiente, Jos\u00e9 Sarney Filho, recebia uma comitiva de ambientalistas para discutir uma pauta t\u00e3o ambiciosa quanto necess\u00e1ria: um plano de a\u00e7\u00e3o para a amplia\u00e7\u00e3o e fortalecimento do conjunto de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (UCs) Marinhas no Brasil.<\/p>\n<p>Signat\u00e1rio da Conven\u00e7\u00e3o da Biodiversidade, e das Metas de Aichi, o Brasil est\u00e1 comprometido a proteger 10% do Bioma Marinho at\u00e9 2020. Na pr\u00e1tica, o mar brasileiro h\u00e1 tempos n\u00e3o estava para peixe, contando com p\u00edfios 1,6% de prote\u00e7\u00e3o. A maior parte em UCs de Uso Sustent\u00e1vel, aquelas que permitem a extra\u00e7\u00e3o direta de recursos.<\/p>\n<p>Dono da maior por\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica do Atl\u00e2ntico Sul, o pa\u00eds encontrava-se deitado em ber\u00e7o espl\u00eandido. Enquanto isso, no mundo todo uma corrida pelo ouro azul acontecia: entre 2011 e 2017 dezenas de pa\u00edses anunciaram a cria\u00e7\u00e3o de grandes por\u00e7\u00f5es de \u00e1reas protegidas marinhas. O assunto, ali\u00e1s, ganhou especial aten\u00e7\u00e3o com a lenta, por\u00e9m ineg\u00e1vel, assimila\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: apesar do que acredita o Trump, a temperatura da Terra est\u00e1 aumentando e a culpa \u00e9 nossa. Proteger a biodiversidade passou a ser mais do que um papo eco-chato. Tentar minimizar os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tornou-se nos \u00faltimos anos assunto de pol\u00edtica e de Estado em todo o mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, pa\u00edses como Estados Unidos e Reino Unido decretaram imensas \u00e1reas protegidas nos oceanos do mundo. Por outro lado, pa\u00edses pequenos do Pac\u00edfico, diretamente amea\u00e7ados pelos efeitos catastr\u00f3ficos dessas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como Palau, passaram a proteger imensas por\u00e7\u00f5es marinhas, chegando a 80% de sua\u00a0<a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/dicionario-ambiental\/29053-o-que-e-a-zona-economica-exclusiva\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Econ\u00f4mica Exclusiva (ZEE)<\/a>. Na Am\u00e9rica do Sul, surgia o exemplo que em pouco tempo ocuparia uma das primeiras posi\u00e7\u00f5es do ranking mundial: o Chile, que possui hoje cerca de 46% de sua \u00e1rea oce\u00e2nica protegida. Na Ilha de P\u00e1scoa, que pertence ao pa\u00eds, o povo ind\u00edgena Rapanui solicitou formalmente que o mar fosse protegido.<\/p>\n<p>Enquanto isso&#8230; o Brasil, nada!!!!<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201cRespons\u00e1vel pela gest\u00e3o de diversas \u00e1reas ao longo da costa, \u00e9 \u00e0 Marinha que pertencem outros dois tesouros: As ilhas oce\u00e2nicas de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo e Trindade e Martim Vaz\u201d.<\/div>\n<p>Com o in\u00edcio da gest\u00e3o atual do MMA, um alento: a esperada e ansiosamente aguardada cria\u00e7\u00e3o do Ref\u00fagio de Vida Silvestre de Alcatrazes. Uma UC pequena, mas significativa, no litoral de S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m da incontest\u00e1vel riqueza em biodiversidade, a prote\u00e7\u00e3o de Alcatrazes trouxe outro elemento que, cerca de ano e meio depois de sua cria\u00e7\u00e3o, pode transformar a realidade brasileira no que tange a prote\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica: a alian\u00e7a com a Marinha do Brasil.<\/p>\n<p>Respons\u00e1vel pela gest\u00e3o de diversas \u00e1reas ao longo da costa, \u00e9 \u00e0 Marinha que pertencem outros dois tesouros: As ilhas oce\u00e2nicas de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo e Trindade e Martim Vaz. Localizadas a 1000 e 1200 quil\u00f4metros da costa, respectivamente, as ilhas marcam a fronteira leste do Brasil. Al\u00e9m de singulares para a biodiversidade, as \u00e1reas s\u00e3o tamb\u00e9m estrat\u00e9gicas para a defesa do territ\u00f3rio nacional. No que tange a prote\u00e7\u00e3o ambiental, no entanto, S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo \u00e9 hoje categorizada como uma APA, \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental. Para Trindade, nem isso&#8230;<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 ambiciosa proposta do grupo de ambientalistas ao ministro, dois pontos se destacavam: a cria\u00e7\u00e3o de um mosaico de UCs na cadeia Vit\u00f3ria-Trindade e a recategoriza\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo. Junto com o pedido, a sugest\u00e3o do pleito internacional por recursos, disponibilizados por grandes organiza\u00e7\u00f5es que dia ap\u00f3s dia vem anunciando investimento em prote\u00e7\u00e3o marinha em diversos pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica vai, des\u00e2nimo pol\u00edtico vem&#8230; no cen\u00e1rio inst\u00e1vel em que nos encontramos, o Brasil, mais do que nunca, \u00e9 para os fortes. Apesar disso, o apelo por uma maior prote\u00e7\u00e3o marinha crescia no meio ambiental. No embate que vem se tornando os tr\u00eas poderes, e os consequentes ataques a \u00e1rea ambiental, especialmente pela chamada Bancada Ruralista, a cada dia tornava-se claro que olhar para o oceano e proteg\u00ea-lo, mais do que um desejo, era tamb\u00e9m uma oportunidade estrat\u00e9gica.<\/p>\n<div id=\"attachment_58171\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-58171\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/jamanta.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/jamanta.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/jamanta-263x300.jpg 263w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/jamanta-300x343.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"731\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Raia-manta fotografada no rochedo de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo. Foto: Ronaldo Francini.<\/p>\n<\/div>\n<p>Parece que o brado dos ambientalistas foi ouvido na Esplanada. Foi com muita alegria que recebemos na \u00faltima semana a not\u00edcia da poss\u00edvel cria\u00e7\u00e3o de dois grandes mosaicos de UCs Marinhas, com a proposta de recategoriza\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo em Monumento Natural, al\u00e9m de amplia\u00e7\u00e3o da APA, e a cria\u00e7\u00e3o de UCs em Trindade e Martim Vaz, tamb\u00e9m com um Monumento Natural e uma APA. Juntas, as \u00e1reas podem somar cerca de 900 mil km\u00b2, praticamente uma Fran\u00e7a e meia. De 1,6%, o Brasil passar\u00e1 a proteger cerca de 25% de sua \u00e1rea marinha.<\/p>\n<p>O momento \u00e9 de celebra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m os ambientalistas se mostram preocupados com o alto percentual de UCs de Uso Sustent\u00e1vel dentro dos dois mosaicos. Sabe-se que, por exemplo, na regi\u00e3o de Trindade, a biodiversidade mal come\u00e7ou a ser descoberta. O pesquisador Jo\u00e3o Luis Gaspirini, do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, catalogou pelo menos 13 esp\u00e9cies end\u00eamicas l\u00e1. Submersa nas \u00e1guas do Atl\u00e2ntico est\u00e1 tamb\u00e9m uma imensa cordilheira, cujos picos servem de trampolim para esp\u00e9cies que se deslocam a grandes dist\u00e2ncias, servindo de ber\u00e7\u00e1rio e banco de alimenta\u00e7\u00e3o. Gasparini, em entrevista \u00e0 BBC, cita que \u201cmal come\u00e7amos a arranhar a casca de ovo\u201d da regi\u00e3o, que com 270 esp\u00e9cies de peixes recifais, sendo 24 amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, promete ser um dos maiores tesouros nacionais. J\u00e1 ao redor de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, especialistas afirmam que a profundidade alcan\u00e7ada, de cerca de dois mil metros, \u00e9 absolutamente importante para a fauna pel\u00e1gica e esp\u00e9cies altamente amea\u00e7adas, como os tubar\u00f5es, hoje ca\u00e7ados \u00e0s centenas na regi\u00e3o. Al\u00e9m disso, apesar de ultrapassar a meta internacional de prote\u00e7\u00e3o do bioma, pela maior parte das \u00e1reas estarem representadas em APAs, h\u00e1 a correta preocupa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o haja representatividade suficiente para a biodiversidade. N\u00e3o obstante, apesar do desejo pelo \u00f3timo, a not\u00edcia est\u00e1 sendo aplaudida de p\u00e9 e \u00e9 desejo un\u00e2nime que se concretize.<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">\u201c\u00c9 preciso dizer que esse \u00e9 o grande momento da prote\u00e7\u00e3o marinha brasileira, algo que talvez n\u00e3o se repita a esse n\u00edvel num futuro pr\u00f3ximo. Se tudo acontecer como o esperado, o Brasil deixa de ser a vergonha mundial para ter papel de proemin\u00eancia. \u00c9 o legado de uma era\u201d.<\/div>\n<p>\u00c9 preciso ainda destacar o essencial aporte da Marinha, cujo ministro da Defesa, Raul Jungmann, tem agido de forma impec\u00e1vel. Talvez por entender o momento crucial do pa\u00eds, a oportunidade para a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade e o indiscut\u00edvel fortalecimento da soberania nacional, ao decretar essas \u00e1reas, Jungmann, dentro de suas atribui\u00e7\u00f5es como ministro de Estado, tem colaborado imensamente no entendimento dos processos, buscando sempre manter o di\u00e1logo e a porta aberta com o ministro de Meio Ambiente, Sarney Filho.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, um longo caminho a seguir. Na pr\u00f3xima semana est\u00e3o marcadas as consultas p\u00fablicas, no dia 07 em Recife, para S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo e no dia 08 em Vit\u00f3ria, para Trindade e Martim Vaz.<\/p>\n<p>O assunto mal foi lan\u00e7ado e j\u00e1 est\u00e1 causando burburinho no cen\u00e1rio internacional. Casada com a proposta de cria\u00e7\u00e3o dessas UCs, a chamada Iniciativa Azul, idealizada pelo MMA e ICMBio \u2013 a partir do embri\u00e3o entregue no Plano de A\u00e7\u00e3o \u2013 deve atrair recursos dos grandes apoiadores para a implementa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o das \u00e1reas, especialmente se ampliadas as zonas no-take, ou seja, sem uso.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer que esse \u00e9 o grande momento da prote\u00e7\u00e3o marinha brasileira, algo que talvez n\u00e3o se repita a esse n\u00edvel num futuro pr\u00f3ximo. Se tudo acontecer como o esperado, o Brasil deixa de ser a vergonha mundial para ter papel de proemin\u00eancia. \u00c9 o legado de uma era.<\/p>\n<p>Para tornar poss\u00edvel, no entanto, mais do que nunca o papel da sociedade \u00e9 decisivo. \u00c9 essencial que entidades ambientalistas tomem conhecimento e apoiem a iniciativa, se posicionem e defendam esse grande passo que o Brasil est\u00e1 dando.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a hora do mar.<\/p>\n<p>E \u00e9 nossa obriga\u00e7\u00e3o defend\u00ea-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Angela Kuczach Ilha de Trindade. Foto: Enrico Marcovaldi\/Projeto Baleia Jubarte. Em fevereiro de 2017,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Angela Kuczach Ilha de Trindade. Foto: Enrico Marcovaldi\/Projeto Baleia Jubarte. 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