{"id":80733,"date":"2018-02-25T15:06:15","date_gmt":"2018-02-25T18:06:15","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=80733"},"modified":"2018-02-25T15:06:15","modified_gmt":"2018-02-25T18:06:15","slug":"entrevista-com-sergio-xavier-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-com-sergio-xavier-2\/","title":{"rendered":"Entrevista com S\u00e9rgio Xavier"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/2016-SERGIO-XAVIER-2-800x445.jpg\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"640\" height=\"356\" \/>Poder p\u00fablico e empresas desenham em Fernando de Noronha um prot\u00f3tipo de economia de baixo carbono<\/h1>\n<\/header>\n<p><strong>Por Am\u00e1lia Safatle<\/strong><\/p>\n<div class=\"entry-content clearfix\">\n<p>Com apenas 3 mil habitantes ilhados (ou 4 mil, considerando a popula\u00e7\u00e3o flutuante), est\u00e1 formado um laborat\u00f3rio a c\u00e9u aberto perfeito para prototipar a economia de baixo carbono. Mais perfeito ainda quando esse laborat\u00f3rio\u00a0\u00e9\u00a0tropical, aben\u00e7oado por sol e vento em profus\u00e3o. Fernando de Noronha pode at\u00e9 ser um para\u00edso tur\u00edstico, mas apresenta desafios enormes em termos de sustentabilidade, a come\u00e7ar da energia: grande parte cara e poluente, proveniente do diesel.<\/p>\n<p>Pois est\u00e1 em andamento um\u00a0projeto para que Noronha seja um lugar onde n\u00e3o se perde \u00e1gua, n\u00e3o se perde energia, n\u00e3o se perde res\u00edduo. O projeto para uma economia circular, replic\u00e1vel ao Recife e a outras cidades, envolve um banco e empresas do Brasil, dos Estados Unidos, da China e da Alemanha. Nesta entrevista concedida \u00e0\u00a0<strong>P\u00e1gina22<\/strong>, o secret\u00e1rio de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado de Pernambuco, S\u00e9rgio Xavier, conta o que est\u00e1 sendo planejado em termos de energia renov\u00e1vel, compartilhamento de ve\u00edculos el\u00e9tricos, gest\u00e3o de \u00e1gua, saneamento e res\u00edduos, e como isso se encaixa em uma vis\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o compartilhada do poder p\u00fablico \u2013 pensada e implementada em rede.<\/p>\n<blockquote><p>S\u00e9rgio Xavier \u00e9 secret\u00e1rio de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado de Pernambuco, jornalista, engenheiro eletr\u00f4nico e empreendedor de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do Porto Digital, no Recife. Coordena o Programa de Incentivo \u00e0 Economia de Baixo Carbono, uma parceria entre os governos de Pernambuco e\u00a0da Calif\u00f3rnia. Co-fundador da Rede Sustentabilidade, foi Secret\u00e1rio Nacional de Fomento do Minist\u00e9rio da Cultura, na primeira gest\u00e3o Lula (2003-2006). Em 2010, candidatou-se a governador de Pernambuco pelo Partido Verde e ficou em 3\u00ba lugar.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como secret\u00e1rio estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, qual o grande desafio que identifica?<\/strong><\/p>\n<p>O grande desafio hoje \u00e9 a economia, uma economia que puxe os processos para o baixo carbono, para a inclus\u00e3o, para o compartilhamento, para a colabora\u00e7\u00e3o. \u00c9 mexer na economia, incentivar os eixos que s\u00e3o priorit\u00e1rios: de energia, de \u00e1gua e saneamento, de res\u00edduos\u2026<\/p>\n<p><strong>O senhor diz incentivos econ\u00f4micos? Porque o Estado sozinho n\u00e3o d\u00e1 conta, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso juntar Estado, cidadania, academia, empreendedores e artistas. Os tr\u00eas pilares da sustentabilidade s\u00e3o o social, o econ\u00f4mico, o ambiental, mas isso \u00e9 apenas uma refer\u00eancia. O que faz acontecer s\u00e3o as pessoas, o cidad\u00e3o, o consumidor que define o futuro das empresas, a pol\u00edtica p\u00fablica, a academia \u2013 pois o conhecimento \u00e9 fundamental para inovar \u2013 os empreendedores e tamb\u00e9m os artistas. Os artistas conseguem despertar aten\u00e7\u00f5es de forma muito mais forte, intensa e r\u00e1pida do que mil aulas, do que mil discursos e tal.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A arte aciona outro gatilho, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Em 2015, por exemplo, a gente abriu o festival [Pernambuco no Clima, organizado em Recife] com Lenine cantando\u00a0<em>Quede \u00c1gua<\/em>, do \u00e1lbum\u00a0<em>Carbono<\/em>, m\u00fasica que diz tudo sobre \u00e1gua. Por uma coincid\u00eancia muito feliz ele estava lan\u00e7ando\u00a0<em>Carbono<\/em>. Ent\u00e3o o trouxemos para a abertura do evento. Veio para c\u00e1 e lan\u00e7ou a m\u00fasica e o clipe.<\/p>\n<p><strong>O movimento da sustentabilidade envolve um n\u00famero limitado de pessoas. Falta extrapolar esse c\u00edrculo, mostrando para as pessoas na verdade esse assunto diz respeito \u00e0s quest\u00f5es do dia a dia de todo mundo. Como voc\u00eas lidam com isso na secretaria?<\/strong><\/p>\n<p>A gente definiu que, para uma a\u00e7\u00e3o de sustentabilidade ser aprovada, precisa contemplar cinco eixos: cidadania, conhecimento, pol\u00edticas p\u00fablicas, cultura e arte, e neg\u00f3cios disruptivos. A inova\u00e7\u00e3o precisa ser disruptiva, pois a mesma economia que est\u00e1 a\u00ed \u00e9 a que criou os problemas [que estamos vivendo]. Se um projeto [proposto] na secretaria n\u00e3o tiver esses cinco elementos, eu n\u00e3o considero que seja com projeto com bases para avan\u00e7ar e ser sustent\u00e1vel. A ONU lista como um dos principais problemas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sustentabilidade o distanciamento entre a academia e a pol\u00edtica p\u00fablica. Tem pol\u00edtica p\u00fablica sendo feita por a\u00ed que desafia a Lei da Gravidade, n\u00e9? Como poder\u00e1 dar certo? O prefeito de uma cidade do interior virou motivo de piada: quando foi questionado sobre a dificuldade de levar \u00e1gua para cima do morro, respondeu que se mudasse, ent\u00e3o, a Lei da Gravidade (<em>risos<\/em>).<\/p>\n<p>Por essas e outras, a academia precisa estar perto, junto, porque a gente n\u00e3o tem mais tempo. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas exigem respostas muito r\u00e1pidas. Essa resposta s\u00f3 ser\u00e1 r\u00e1pida se tiver esses cinco eixos interconectados. Esse festival [uPlanet, que sucedeu o Pernambuco no Clima e foi realizado no fim de 2016] \u00e9 baseado nisso. Para essa conex\u00e3o funcionar, \u00e9 preciso criar novos sistemas de gest\u00e3o sintonizados com a nova vis\u00e3o de rede. Os instrumentos de gest\u00e3o que os governos e as empresas t\u00eam s\u00e3o piramidais, mec\u00e2nicos, muito hier\u00e1rquicos, enquanto na verdade a solu\u00e7\u00e3o tem de estar em rede. N\u00e3o d\u00e1 para dizer que a pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 mais importante que o investidor, nem que o investidor \u00e9 mais importante do que a popula\u00e7\u00e3o que deseja definir seu destino. Nem mais importante que o conhecimento que indica: \u201cAqui n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer isso\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>A proje\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 de que o mar vai cobrir esse lugar em que estamos fazendo esta entrevista agora. Voc\u00ea tem o empreendedor querendo construir aqui, o poder p\u00fablico dizendo que pode e o conhecimento dizendo que n\u00e3o pode. Ent\u00e3o tem que juntar essas pessoas. E a refer\u00eancia, nesse momento de crise, tem de ser a ci\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Por que a ci\u00eancia \u00e9 que chancela todo o movimento?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Hoje nem a sabedoria popular d\u00e1 conta de fazer previs\u00f5es. Antes, as pessoas olhavam pro c\u00e9u e sabiam se ia chover daqui a um m\u00eas. Olhava o comportamento de algumas aves e sabia at\u00e9 a temperatura que viria. Luiz Gonzaga fez m\u00fasicas que falam muito bem disso. Hoje os meteorologistas n\u00e3o conseguem com precis\u00e3o dizer quando ter\u00e1 fim a seca que est\u00e1 ocorrendo no Nordeste h\u00e1 5 anos. Na m\u00e9dia mundial, a temperatura aumentou 1,2 grau em 2016, mas tem lugares no planeta em que o aumento \u00e9 de 5 graus, 6 graus. E tem lugar em que a temperatura caiu, porque chegou uma geleira que n\u00e3o tinha chegado antes.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, est\u00e1 tudo muito imprevis\u00edvel.<\/strong><\/p>\n<p>Por isso a pol\u00edtica p\u00fablica precisa ser constru\u00edda junto com a academia. A academia est\u00e1 pesquisando muita coisa, mas n\u00e3o consegue fazer chegar at\u00e9 as c\u00e2maras municipais, ao pr\u00f3prio Congresso. \u00c9 uma luta tremenda. \u00c9 de onde vem mais necessidade de inova\u00e7\u00f5es radicais e disruptivas. A gente precisa, por exemplo, criar um Congresso Nacional digital, colaborativo, em que a popula\u00e7\u00e3o participe mais diretamente. A gente deveria come\u00e7ar um teste virtual, em paralelo ao Congresso real, que existe a\u00ed. Seria um super aplicativo por meio do qual a popula\u00e7\u00e3o pode apresentar propostas, e t\u00e9cnicos e cientistas se colocariam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para discutir aquelas propostas em um n\u00edvel intermedi\u00e1rio. Depois de avaliadas do ponto de vista t\u00e9cnico e de viabilidade, as propostas seriam colocadas sob an\u00e1lise maior em vota\u00e7\u00e3o. Milh\u00f5es de pessoas votariam e aprovariam. Existem aplicativos de f\u00e1cil uso para isso, e em seguida a proposta \u00e9 aprovada.<\/p>\n<p><strong>Uma esp\u00e9cie de mandato compartilhado?<\/strong><\/p>\n<p>Algo assim. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um deputado representar todos os temas e votar sobre todos os temas. Na C\u00e2mara e no Congresso, existem as comiss\u00f5es formadas alguns especialistas, mas est\u00e1 dentro de um modelo que \u00e9 muito fechado. Nessa outro formato de participa\u00e7\u00e3o que estou apresentando, qualquer cidad\u00e3o pode apresentar uma ideia. Depois da aprova\u00e7\u00e3o, aquilo ganha uma legitimidade imensa, muito que mais que no nosso Congresso.<\/p>\n<p><strong>Por que mais gente participou?<\/strong><\/p>\n<p>Mais gente participou e essa foi uma discuss\u00e3o t\u00e9cnica muito mais rica, porque o processo seria aberto e qualquer pessoa poderia se inscrever para discutir tecnicamente as propostas levando em conta seu curr\u00edculo. A gente est\u00e1 discutindo a constru\u00e7\u00e3o de um modelo desses juntamente com algumas empresas no Porto Digital, para fazer uma esp\u00e9cie de piloto de C\u00e2mara Digital. Isso valeria para C\u00e2mara Municipal, Assembleia Legislativa, Congresso Nacional e, com adapta\u00e7\u00f5es, para o Terceiro Setor, para empresas. Enfim, para discutir solu\u00e7\u00f5es de forma compartilhada, incluindo ali todos segmentos que precisam ser envolvidos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma inova\u00e7\u00e3o em governan\u00e7a, neste momento em que estamos vivendo uma crise de representatividade?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Temos uma crise de instrumentos de gest\u00e3o. Os nossos instrumentos de gest\u00e3o s\u00e3o muito limitados para a complexidade de hoje. Essa estrutura em pir\u00e2mide, que tem no topo algu\u00e9m que sabe tudo e decide, funcionava h\u00e1 um s\u00e9culo, ou no m\u00e1ximo at\u00e9 d\u00e9cadas atr\u00e1s. A velocidade das coisas era muito lenta, a comunica\u00e7\u00e3o levava dias.<\/p>\n<p><strong>E era uma comunica\u00e7\u00e3o elitizada, ou seja, quem detinha a informa\u00e7\u00e3o controlava o restante?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Hoje tem gente mais informado que o pr\u00f3prio chefe. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 mais para manter esse esquema piramidal. Tem que ser um processo em rede. Quem sabe mais sobre determinado assunto pode contribuir mais com a solu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o quem est\u00e1 no topo. Estamos vivendo a crise de dois paradigmas. Um, o mito do crescimento ilimitado, em que ningu\u00e9m considera os limites f\u00edsicos, por exemplo, a ideia de que se pode colocar carros na cidade ilimitadamente. Por outro lado, h\u00e1 a imagina\u00e7\u00e3o limitada. A imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ser limitada, voc\u00ea pode pensar o que quiser! Mas acaba sendo limitada, voc\u00ea acha que s\u00f3 pode fazer daquele jeito.<\/p>\n<p><strong>As coisas est\u00e3o trocadas.<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro desafio nosso \u00e9 desfazer essa invers\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>A Terra tem limite, mas a felicidade n\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o precisa ficar infeliz porque a Terra tem limite. A felicidade n\u00e3o depende disso, ao contr\u00e1rio, voc\u00ea pode ser feliz sem gastar nada. Ali\u00e1s, os momentos mais felizes da vida s\u00e3o intang\u00edveis, intraduz\u00edveis em um objeto.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o queremos discutir paradigmas, modelos de gest\u00e3o, instrumentos de gest\u00e3o. Vai muito al\u00e9m de pol\u00edtica ambiental, a pol\u00edtica ambiental \u00e9 s\u00f3 uma parte.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00eas est\u00e3o colocando isso em pr\u00e1tica na Secretaria? Como d\u00e1 para transpor essas ideias para sistemas que ainda operam como no s\u00e9culo XIX ou no s\u00e9culo XX?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o grande desafio. Fizemos esse desenho aqui e pedi para as equipes da pr\u00f3pria Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade estavam seguindo. Grande parte n\u00e3o estava. Ent\u00e3o dissemos: tem que encaixar, tem que ter isso aqui.<\/p>\n<p><strong>Ou se adequa ou o que acontece?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser considerado um projeto sustent\u00e1vel, inovador, que aponte para o futuro. A gente precisa criar rapidamente modelos para servirem de refer\u00eancia e serem aplicados em larga escala. A gente precisa de refer\u00eancia porque os modelos do passado j\u00e1 n\u00e3o servem mais e os novos ainda n\u00e3o existem. N\u00e3o tem um padr\u00e3o para seguir. Ent\u00e3o todos est\u00e3o perdidos. \u00c9 urgente criar modelos para serem vistos como refer\u00eancia e dali vai inventando em cima. A\u00ed tem o caso de [Fernando de] Noronha. Queremos transformar a ilha de Noronha em um modelo de sociedade sustent\u00e1vel [projeto Noronha Future City], j\u00e1 que s\u00e3o 4 mil habitantes, para ver como pode ser um lugar, mesmo que pequeno, onde n\u00e3o se perde \u00e1gua, n\u00e3o se perde energia, n\u00e3o se perde res\u00edduo.<\/p>\n<p><strong>Uma economia circular?<\/strong><\/p>\n<p>Uma economia circular em que as pessoas s\u00e3o felizes. N\u00e3o precisam consumir tanto, colaboram, interagem. V\u00e1rias empresas est\u00e3o participando dessa discuss\u00e3o. Algumas vieram para c\u00e1, como Santander, BYD, Enel, Baterias Moura, Serttel e mais de 20 empresas americanas, brasileiras e alem\u00e3s em articula\u00e7\u00e3o. Estamos juntando v\u00e1rias empresas e buscando fazer um modelo. Porque as empresas inovam, mas inovam setorialmente, basicamente inventando o produto delas. E os governos criam, muitas vezes, incentivos fiscais para setores. Qual a grande inova\u00e7\u00e3o que a gente est\u00e1 fazendo? Juntando as inova\u00e7\u00f5es que j\u00e1 existem para fazer uma grande inova\u00e7\u00e3o.\u00a0Juntando carro el\u00e9trico, energia solar,\u00a0<em>smart grid<\/em>, aplicativos, internet das coisas, arquitetura e urbanismo verde,\u00a0<em>retrofit<\/em>, junta tudo isso e d\u00e1 uma coisa totalmente diferente.<\/p>\n<p><strong>Em que p\u00e9 isso\u00a0est\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos finalizando a primeira Plataforma Integradora de Mobilidade El\u00e9trica Compartilhada, interconectando empresas de energia renov\u00e1vel, de ve\u00edculos el\u00e9tricos, Apps de Compartilhamento, IoT, armazenamento de energia etc., para implantar o prot\u00f3tipo em Noronha [projeto Noronha Future City] e depois expandir para Recife e outras grandes cidades.<\/p>\n<blockquote><p>O modelo est\u00e1 sendo desenvolvido sem recursos p\u00fablicos. O governo est\u00e1 articulando parceiros e criando pol\u00edticas p\u00fablicas para fortalecer cadeias de neg\u00f3cios interconectados de baixo carbono. Em vez de criar incentivos setoriais, a ideia \u00e9 incentivar arranjos inovadores que possam alavancar o mercado de forma integrada e em larga escala, no rumo da economia de baixo carbono.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como surgiu a ideia do projeto Noronha Future City?<\/strong><\/p>\n<p>Surgiu em 2013 com o desafio de tornar Fernando de Noronha o primeiro territ\u00f3rio brasileiro a compensar plenamente a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa. Em parceria com a Celpe [Companha Energ\u00e9tica de Pernambuco], o governo do estado conseguiu implantar duas usinas solares e outras a\u00e7\u00f5es de efici\u00eancia energ\u00e9tica, mas percebemos que a solu\u00e7\u00e3o definitiva passa por um arranjo com v\u00e1rias empresas inovadoras, simultaneamente. N\u00e3o apenas aplicando tecnologias verdes, mas criando novos modelos colaborativos de mercado que possam ser replicados para outras localidades, em larga escala. Essa vis\u00e3o despertou o interesse de grandes empresas brasileiras e internacionais.<\/p>\n<p><strong>O que efetivamente caminhou at\u00e9 agora?<\/strong><\/p>\n<p>Foram instaladas duas usinas solares em Noronha, tendo como parceiros a Celpe, Governo de Pernambuco e a Aeron\u00e1utica. Isso possibilitou a redu\u00e7\u00e3o de 12% das emiss\u00f5es, com a diminui\u00e7\u00e3o no consumo de 375 mil litros\/ano de \u00f3leo diesel.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em curso a implanta\u00e7\u00e3o da Plataforma de Bioquerosene de Avia\u00e7\u00e3o (os avi\u00f5es representam 54% das emiss\u00f5es da ilha) que visa gerar biocombust\u00edvel para atender a demanda do setor a\u00e9reo. \u00c9 uma grande oportunidade para Pernambuco e para o Brasil, considerando que o setor de avia\u00e7\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 2% das emiss\u00f5es globais e tem metas de redu\u00e7\u00e3o a cumprir em pouco espa\u00e7o de tempo. Ou seja, um imenso mercado de baixo carbono do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>J\u00e1 estamos pr\u00f3ximos de implantar o primeiro arranjo multi-inovador \u2013 a Plataforma Integradora de Mobilidade El\u00e9trica Compartilhada.\u00a0Implantamos e testamos o sistema, que usou 5 ve\u00edculos durante 3 anos e est\u00e1 apto para iniciar a fase de expans\u00e3o. Re\u00fane os seguintes parceiros: Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, Porto Digital, as empresas Serttel e ZD \u2013 Xindayang, da China, e a Prefeitura do Recife.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos carros el\u00e9tricos, a ideia \u00e9 que haja uma rede de pontos na cidade onde quem tem carro el\u00e9trico tenha prioridade para estacionar. Sabe aqueles sensores de estacionamento no shopping que indicam se a vaga est\u00e1 ocupada? Nesse projeto, funciona pelo celular. Se voc\u00ea estiver usando carro el\u00e9trico e deseja estacionar aqui perto, verifica onde tem estacionamento com reserva para carro el\u00e9trico. Os estacionamentos s\u00e3o todos privados \u2013 em restaurantes, supermercados, shoppings, farm\u00e1cias. Isso \u00e9 para tirar o carro da rua, n\u00e3o ter\u00e1 estacionamento na rua. Nossa ideia \u00e9 que, no futuro, 90% dos carros sejam compartilhados e que estacione em local que n\u00e3o atrapalha o pedestre. Com um movimento desses, que junta ind\u00fastria automobil\u00edstica, arquitetos e urbanistas para pensar a cidade e uma rede de parceiros f\u00edsicos, voc\u00ea come\u00e7a a redesenhar a cidade de uma maneira muito forte, porque re\u00fane muitos participantes e j\u00e1 \u00e9 neg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>O carro el\u00e9trico precisa ser abastecido com energia proveniente de fontes renov\u00e1veis. N\u00e3o adianta a fonte ser uma termel\u00e9trica, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Preferencialmente, sim, que sejam fontes renov\u00e1veis. Mas mesmo que fosse fonte f\u00f3ssil, j\u00e1 tem o benef\u00edcio de gerar menos poluentes no ar da cidade. A ideia \u00e9 que seja de fonte solar ou e\u00f3lica, at\u00e9 porque as novas tecnologias permitir\u00e3o que os pr\u00f3prios carros se recarreguem, por exemplo, por meio de pel\u00edculas de gera\u00e7\u00e3o de energia fotovoltaica e pelo aproveitamento da energia cin\u00e9tica dos freios.<\/p>\n<p><strong>Ao mesmo tempo em que estamos falando aqui sobre inova\u00e7\u00e3o de ponta, chama aten\u00e7\u00e3o no Recife, assim como na maioria das cidades brasileiras, a quest\u00e3o do saneamento (<em>mais sobre\u00a0<a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/P22_Edicao_103.pdf\">saneamento aqui<\/a><\/em>). Ou seja, tem uma quest\u00e3o importante a resolver que \u00e9 anterior. Qual a proposta da secretaria para o saneamento?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o do saneamento tamb\u00e9m est\u00e1 na inova\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso dar um salto. O modelo do passado n\u00e3o est\u00e1 servindo mais, ele vai fazer com que a gente precise de 100 anos para atingir o pleno saneamento. Eu fiz uma visita recente a alguns estados americanos para discutir a quest\u00e3o da \u00e1gua e vi que j\u00e1 em muita inova\u00e7\u00e3o chegando.<\/p>\n<blockquote><p>Como se sabe, a Calif\u00f3rnia tem um problema s\u00e9rio de \u00e1gua, mas o gr\u00e1fico de \u00e1gua deles \u00e9 impressionante: a popula\u00e7\u00e3o aumentando e o consumo caindo, porque est\u00e3o investindo muito em combate ao desperd\u00edcio, novos equipamentos e modelos, re\u00faso de \u00e1gua, dessaniliza\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Enfim, tem sa\u00edda, mas precisa ter pol\u00edtica p\u00fablica, com conhecimento e empreendedorismo, para que esse processo seja r\u00e1pido e consistente. Se fizer s\u00f3 pol\u00edtica p\u00fablica, n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p><strong>O que temos no Brasil \u00e9 um sistema de saneamento majoritariamente dependente do Estado e o Estado sem dinheiro?<\/strong><\/p>\n<p>Temos algumas PPP (parcerias p\u00fablico-privadas), mas s\u00e3o modelos que n\u00e3o trazem uma inova\u00e7\u00e3o radical. Eu sou do Conselho da empresa de \u00e1gua aqui de Pernambuco e defendo que a empresa mude o neg\u00f3cio, n\u00e3o venda s\u00f3 \u00e1gua, mas efici\u00eancia, solu\u00e7\u00f5es para economia de \u00e1gua, solu\u00e7\u00f5es para re\u00faso. Tem aquela contradi\u00e7\u00e3o: quando a empresa faz campanha para reduzir o consumo, ela perde receita. Se ningu\u00e9m consumir \u00e1gua, a empresa vai \u00e0 fal\u00eancia. Ent\u00e3o, como vai lidar com isso?<\/p>\n<p>Tem que vender o servi\u00e7o de economia de \u00e1gua. A \u00e1gua economizada pode ser vendida para outros lugares, atender a pessoas que hoje n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua, \u00e9 um ganha-ganha. S\u00f3 que a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite isso. Ent\u00e3o precisa sentar todo mundo para debater e rever o modelo, n\u00e3o d\u00e1 para esperar que algum deputado iluminado tenha essa ideia e for\u00e7as para convencer todo mundo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, estamos criando em Noronha as plataformas \u2013 de mobilidade, de \u00e1gua, arquitetura e urbanismo, educa\u00e7\u00e3o, energia, lixo, mobilidade, gest\u00e3o sist\u00eamica \u2013 s\u00e3o as cadeias produtivas em que estamos entrando. Para cada uma delas, existe uma plataforma integradora, que seria um modelo em que as empresas v\u00e3o l\u00e1 e se \u201cplugam\u201d. \u00c9 uma forma nova de mover a economia. Quem quiser trabalhar com solu\u00e7\u00f5es vem pra c\u00e1. Assim, as empresas grandes v\u00e3o arrastando a economia para determinado polo.<\/p>\n<p><strong>Isso permite incluir as pequenas empresas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Temos alguns crit\u00e9rios para isso. Estamos trazendo empresas dos Estados Unidos, de outros pa\u00edses, mas sempre acoplando com as empresas locais e criando subprodutos, como aplicativo para compartilhamento de carros p\u00fablicos.<\/p>\n<p><strong>Qual s\u00e3o as maiores dificuldades (internas e externas) que s Secretaria encontra para o projeto avan\u00e7ar? E quais for\u00e7as (for\u00e7as econ\u00f4micas, for\u00e7as da sociedade, da opini\u00e3o p\u00fablica, do poder p\u00fablico etc) agem em favor do projeto?<\/strong><\/p>\n<p>As maiores dificuldades s\u00e3o burocracia, legisla\u00e7\u00e3o ultrapassada e falta de incentivos no \u00e2mbito federal. Infelizmente, o Brasil, diferentemente da Calif\u00f3rnia e da Alemanha, ainda n\u00e3o incluiu na sua vis\u00e3o estrat\u00e9gica a mobilidade el\u00e9trica integrada com Internet das Coisas, aplicativos de compartilhamento e fontes renov\u00e1veis de abastecimento dos ve\u00edculos. Os setores empresariais mais criativos e ousados s\u00e3o as for\u00e7as que agem a favor da implanta\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poder p\u00fablico e empresas desenham em Fernando de Noronha um prot\u00f3tipo de economia de baixo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Poder p\u00fablico e empresas desenham em Fernando de Noronha um prot\u00f3tipo de economia de baixo","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80733"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80733"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80733\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}