{"id":80623,"date":"2018-02-23T13:30:57","date_gmt":"2018-02-23T16:30:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=80623"},"modified":"2018-02-23T08:48:39","modified_gmt":"2018-02-23T11:48:39","slug":"o-agronegocio-brasileiro-e-uma-potencia-mas-se-tornou-uma-ameaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-agronegocio-brasileiro-e-uma-potencia-mas-se-tornou-uma-ameaca\/","title":{"rendered":"O agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 uma pot\u00eancia, mas se tornou uma amea\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/agrotoxico.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-80624\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/agrotoxico-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/agrotoxico-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/agrotoxico.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 uma pot\u00eancia. O pa\u00eds \u00e9 o quarto maior produtor mundial de alimentos. Colheu uma safra de 242 milh\u00f5es de toneladas no ano passado, o que ajudou a manter super\u00e1vit comercial no ano em que o pa\u00eds sa\u00eda de uma das piores recess\u00f5es de sua hist\u00f3ria. Direta e indiretamente, o agro responde por quase um quarto do PIB do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo, gra\u00e7as ao uso intensivo de tecnologia, obteve ganhos de produtividade e evitou maior desmatamento \u2013 de 1991 a 2017, a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e oleaginosas subiu 312%, mas a \u00e1rea plantada cresceu apenas 61%.<\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 uma amea\u00e7a. Somos o pa\u00eds que mais desmata no planeta \u2013 6.600 quil\u00f4metros quadrados na Amaz\u00f4nia s\u00f3 no ano passado, e 50% mais do que isso no cerrado. Em 2016, o pa\u00eds foi o s\u00e9timo maior emissor dos gases que causam o aquecimento da Terra. O setor agropecu\u00e1rio foi respons\u00e1vel por 74% das 2,3 bilh\u00f5es de toneladas de CO2 e outros gases que lan\u00e7amos no ar. Tamb\u00e9m \u00e9 o setor que torna o Brasil recordista mundial em viol\u00eancia no campo \u2013 65 assassinatos apenas em 2017, segundo a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 e alimenta a corrup\u00e7\u00e3o, com mais de R$ 600 milh\u00f5es pagos em propina a pol\u00edticos em 2014 somente pela JBS.<\/p>\n<p>Qual das duas vis\u00f5es sobre o agro est\u00e1 correta? Evidentemente, ambas. Como diz a propaganda na TV, o agro \u201c\u00e9 tudo\u201d: o bom e o ruim. O s\u00e9culo XXI e o s\u00e9culo XVI. A alta tecnologia e o trabalho escravo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, alguns ide\u00f3logos t\u00eam prestado um desservi\u00e7o \u00e0 agricultura brasileira, destilando estat\u00edsticas parciais sobre o agro \u201cbom\u201d e escondendo os problemas. Esses argumentos encontram eco em autoridades do governo e s\u00e3o trombeteados no Brasil e no exterior.<\/p>\n<p>No final do ano passado, por exemplo, comemoraram-se dados da Nasa sobre a \u00e1rea cultivada no Brasil que supostamente dariam ao pa\u00eds \u201cautoridade para enfrentar cr\u00edticas dos campe\u00f5es do desmatamento mundial\u201d. Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9, em si, problem\u00e1tica; voltaremos a ela. Vamos antes aos dados: segundo os ide\u00f3logos, a Nasa mostrou que o Brasil teria apenas 7,6% de sua \u00e1rea ocupada com agricultura, contra uma m\u00e9dia de 20% a 30% de outros pa\u00edses. Ainda segundo eles, o Brasil \u201cprotege e preserva a vegeta\u00e7\u00e3o nativa em mais de 66% de seu territ\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro dado \u00e9 um exemplo acabado do que os americanos chamam de \u201ccherry-picking\u201d, ou sele\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00f5es. Como mostrou um artigo recente, esse dado se refere somente ao que a Nasa chama de \u201ccroplands\u201d, ou cultivos agr\u00edcolas. Nenhuma palavra sobre a atividade que \u00e9 a maior \u2013 e pior \u2013 ocupante de terras no Brasil, a pecu\u00e1ria. O pa\u00eds tem cerca de 65 milh\u00f5es de hectares ocupados com agricultura, mas 230 milh\u00f5es em pasto. \u00c9 quase o territ\u00f3rio da Argentina, o 3\u00ba maior produtor global de soja. Incluindo as pastagens, o Brasil chega a 33% de seu territ\u00f3rio ocupado com agropecu\u00e1ria. Portanto, mais ou menos na m\u00e9dia dos grandes produtores de alimentos.<\/p>\n<p>O segundo dado traz outra artimanha. V\u00e1rios comentaristas do agro dizem de boca cheia que o pa\u00eds tem 66% de terras preservadas com vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Mas olham o retrato, quando o que importa mesmo \u00e9 o filme. Segundo o projeto MapBiomas, uma iniciativa multi-institucional da qual o OC faz parte, em 2016 o pa\u00eds tinha 64,1% de vegeta\u00e7\u00e3o nativa remanescente. Mas, na virada do s\u00e9culo, tinha quase 67,3%. Em 16 anos, perdemos o equivalente a um Estado de S\u00e3o Paulo em vegeta\u00e7\u00e3o nativa. O cerrado, nosso segundo maior bioma, est\u00e1 reduzido \u00e0 metade. O Pantanal perdeu 7% em 15 anos. O pampa, 13%. Essa vegeta\u00e7\u00e3o sumiu dizimada pela agropecu\u00e1ria. O espa\u00e7o para ganhos de efici\u00eancia \u00e9 monumental.<\/p>\n<p>Mesmo esses cerca de 66%, que alguns ruralistas insistem em chamar de maior percentual de florestas protegidas no mundo, n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o extraordin\u00e1rios. Quem se der ao trabalho de olhar a excelente p\u00e1gina de estat\u00edsticas do Banco Mundial na internet vai ver que v\u00e1rios pa\u00edses do mundo t\u00eam coberturas florestais semelhantes \u00e0 do Brasil ou maiores que as nossas como propor\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio. Para ficar apenas na vizinhan\u00e7a: 98,3% no Suriname, 84% na Guiana e 57,8% no Peru. Na \u00c1frica, o Gab\u00e3o tem 89% preservados, o Congo, 67,3% e a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, 65%. Na \u00c1sia, o Jap\u00e3o tem mais florestas que o Brasil (68,5%) e a Coreia do Sul, quase o mesmo tanto (63,4%). Na Europa, a Eslov\u00eania tem 62% e a insuspeita Su\u00e9cia, cabal\u00edsticos 69%.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ser\u00e1 que o Brasil tem mesmo \u201cautoridade\u201d para enfrentar as cr\u00edticas dos \u201ccampe\u00f5es de desmatamento\u201d? E, a prop\u00f3sito, \u00e9 poss\u00edvel botar na mesma balan\u00e7a, digamos, a Holanda (maior exportadora de alimentos do mundo), que perdeu quase toda a sua vegeta\u00e7\u00e3o original desde os tempos do Imp\u00e9rio Romano, e o Brasil, que apenas na Amaz\u00f4nia desmatou em 50 anos o equivalente a mais de dez vezes o territ\u00f3rio da Holanda e o da B\u00e9lgica somados?<\/p>\n<p>Falando em Europa, enquanto os propagandistas do agropop vendem a parte boa da produ\u00e7\u00e3o brasileira em Bruxelas e Berlim, dentro de casa o setor toca uma agenda pol\u00edtica do tempo da Companhia das \u00cdndias. Ao longo de 2017, em troca de votos no Congresso, a bancada ruralista pediu ao presidente Michel Temer \u2013 e recebeu \u2013 a legaliza\u00e7\u00e3o da grilagem em grandes \u00e1reas, o afrouxamento do conceito de trabalho escravo e a retirada dos direitos de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que foram expulsas de suas terras antes da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. E vem \u00e0 carga total j\u00e1 neste in\u00edcio de 2018 para afrouxar o licenciamento ambiental, legalizar o agroneg\u00f3cio dentro de territ\u00f3rios ind\u00edgenas e permitir a venda de grandes extens\u00f5es de terras brasileiras ao capital estrangeiro.<\/p>\n<p>Qualquer discuss\u00e3o adulta sobre a import\u00e2ncia e os desafios do agroneg\u00f3cio brasileiro precisa abandonar a seletividade na escolha de n\u00fameros e encarar com coragem o agro inteiro. Dourar a p\u00edlula pode fazer bem ao ego e ajudar a justificar barbaridades no Congresso que s\u00f3 atrapalham a banda modernizadora do setor produtivo. Mas, num mundo em que sustentabilidade e baixo carbono deixaram de ser pauta ambientalista e passaram a estrat\u00e9gias de neg\u00f3cios, malabarismos estat\u00edsticos n\u00e3o enganam mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><em><strong>Raoni Raj\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 professor em Estudos Sociais da Ci\u00eancia e da Tecnologia no Departamento de Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o da UFMG e membro do Observat\u00f3rio do C\u00f3digo Florestal.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Carlos Rittl<\/strong>\u00a0\u00e9 secret\u00e1rio-executivo do Observat\u00f3rio do Clima<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 uma pot\u00eancia. 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