{"id":8037,"date":"2014-10-06T18:00:43","date_gmt":"2014-10-06T18:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=8037"},"modified":"2014-10-06T15:12:36","modified_gmt":"2014-10-06T15:12:36","slug":"poluicao-sonora-no-brasil-apenas-fortaleza-providenciou-uma-carta-acustica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/poluicao-sonora-no-brasil-apenas-fortaleza-providenciou-uma-carta-acustica\/","title":{"rendered":"Polui\u00e7\u00e3o sonora: no Brasil, apenas Fortaleza providenciou uma carta ac\u00fastica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/poluicao_sonora.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-8039\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/poluicao_sonora.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Um dos desafios de viver em ambientes urbanos \u00e9 o excesso de barulho. Locais silenciosos em cidades de m\u00e9dio e grande porte s\u00e3o cada vez mais raros. J\u00e1 existe inclusive um aplicativo, o <a href=\"http:\/\/www.stereopublic.net\/\" target=\"_blank\">stereopublic<\/a>, em que os usu\u00e1rios s\u00e3o chamados a encontrar e compartilhar lugares silenciosos e tranquilos em suas cidades.<\/p>\n<p>Quem pode paga caro para viver em condom\u00ednios distantes das regi\u00f5es centrais, com \u00e1reas verdes que garantam um m\u00ednimo de tranquilidade. E mesmo estes enfrentam diariamente a sina de ir e voltar do trabalho em congestionamentos cujo n\u00edvel de ru\u00eddo, n\u00e3o raro, bate os 100 decib\u00e9is <strong>[1]<\/strong>. O m\u00e1ximo que o ouvido humano consegue suportar s\u00e3o 120 db. Expostos por certo tempo a essa intensidade sonora, ou mais, estamos sujeitos \u00e0 dor e \u00e0 perda auditiva.<\/p>\n<blockquote><p>[1] Decibel (dB) \u00e9 uma unidade logar\u00edtmica que indica a propor\u00e7\u00e3o de uma quantidade f\u00edsica (neste caso, intensidade) em rela\u00e7\u00e3o a um n\u00edvel de refer\u00eancia especificado. Um decibel \u00e9 um d\u00e9cimo de um Bel, unidade raramente usada, e nomeada em homenagem a Alexander Graham Bell.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas o barulho nas grandes cidades n\u00e3o \u00e9 um problema contempor\u00e2neo. De acordo com a fonoaudi\u00f3loga e educadora ambiental M\u00e1rcia Correa, da Universidade Aberta de Meio Ambiente e Cultura da Paz (Umapaz), em 1867, havia no Brasil multas para carros de bois cujos eixos rangessem por falta de graxa. Em 1912, um ato municipal proibia o estalo de chicotes em cavalos que conduziam carruagens.<br \/>\nO engenheiro especializado em ac\u00fastica, Davi Akkerman, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira para a Qualidade Ac\u00fastica (ProAc\u00fastica), lembra que hoje a NBR n\u00ba 10.151, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Normas T\u00e9cnicas (ABNT), norteia todas as legisla\u00e7\u00f5es municipais sobre ru\u00eddo no Brasil. A norma foi referenciada em 1990 pela Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 01 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).<\/p>\n<p>\u201cAcontece que a \u00faltima vers\u00e3o dessa norma \u00e9 de 2000. E, como houve grande degrada\u00e7\u00e3o ac\u00fastica nas cidades, muitos dos padr\u00f5es que est\u00e3o na norma j\u00e1 n\u00e3o servem mais\u201d, resume Akkerman. Segundo ele, a norma est\u00e1 em revis\u00e3o h\u00e1 dois anos, mas h\u00e1 grande press\u00e3o de diversos setores, de ind\u00fastrias a concession\u00e1rias de rodovias. \u201cO conflito de interesses \u00e9 muito grande.\u201d O engenheiro ressalta que o grande vil\u00e3o nas cidades \u00e9 o tr\u00e1fego de ve\u00edculos. E sentencia: \u201cSe as cidades forem deixadas sem controle, a qualidade ac\u00fastica tende a piorar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAs cidades est\u00e3o mais ruidosas. Todo mundo ouve mais alto e fala mais alto. Isso \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica, porque todos s\u00e3o atingidos, n\u00e3o importa a classe social\u201d, afirma M\u00e1rcia Corr\u00eaa, da Umapaz, que ajudou a organizar o primeiro curso sobre polui\u00e7\u00e3o sonora e os impactos na sa\u00fade, promovido em maio pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>Dados mais recentes da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estimam que 10% da popula\u00e7\u00e3o mundial est\u00e1 exposta a n\u00edveis de press\u00e3o sonora que podem causar perda auditiva induzida por ru\u00eddo.<\/p>\n<p>\u201cDo ponto de vista do enquadramento do problema, \u00e9 uma \u00e1rea interdisciplinar. E, para resolv\u00ea-lo, \u00e9 necess\u00e1rio o envolvimento de todos os setores: universidades, ONGs, pol\u00edticos, institui\u00e7\u00f5es\u201d, opina M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>Mesmo dentro de casa, parece que nossos par\u00e2metros se flexibilizaram com o tempo, a tecnologia, a modernidade e a facilidade de comprar qualquer coisa a qualquer pre\u00e7o. Quem foi crian\u00e7a nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960 ainda guarda lembran\u00e7as de como era a vida antes dos brinquedos eletr\u00f4nicos (e dos sons horr\u00edveis que eles fazem). Na d\u00e9cada de 1970, \u00e9poca do chamado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d<strong>[2]<\/strong>, quando o Brasil entrou no \u201cmapa\u201d como promissor mercado consumidor, os eletr\u00f4nicos passaram a fazer parte constante da vida dos pequeninos. Os que t\u00eam entre 40 e 45 anos pegaram bem essa transi\u00e7\u00e3o. Hoje, em qualquer lugar \u00e9 poss\u00edvel comprar brinquedos \u201cpiratas\u201d ensurdecedores, cujo barulho muitas vezes supera os padr\u00f5es estipulados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) <strong>[3]<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p><strong>[2] Per\u00edodo da ditadura militar que registrou crescimento da economia acima da m\u00e9dia<\/strong><\/p>\n<p><strong>[3] Segundo o Inmetro, o ru\u00eddo gerado por brinquedos, independente da faixa et\u00e1ria a qual se destinam, n\u00e3o deve ser maior que 85 decib\u00e9is, no caso de ru\u00eddo cont\u00ednuo, e 100 decib\u00e9is no caso de ru\u00eddo instant\u00e2neo<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Isso sem contar a \u201cevolu\u00e7\u00e3o\u201d da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, que d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada nos imp\u00f5e maior intensidade de volume sonoro. \u201cAs pessoas est\u00e3o se acostumando a achar que coisa boa \u00e9 aquilo que tem bastante volume\u201d, afirma o engenheiro de \u00e1udio Beto Mendon\u00e7a, dono de um est\u00fadio em S\u00e3o Paulo. Basta comparar o volume dos discos de 20 anos atr\u00e1s com os de hoje.<\/p>\n<p>\u201cA m\u00fasica vem sendo \u2018achatada\u2019. O som \u00e9 comprimido ao m\u00e1ximo para que o volume fique mais alto. Isso provoca uma fadiga auditiva no ouvinte. A pessoa n\u00e3o consegue chegar at\u00e9 o fim da m\u00fasica, ou do disco, e n\u00e3o sabe por qu\u00ea\u201d, resume Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele ressalta ainda a perda de din\u00e2mica que o excesso de compress\u00e3o provoca na m\u00fasica, o que se traduz em perda de qualidade do material final e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em \u201cdeseduca\u00e7\u00e3o\u201d dos ouvintes.<\/p>\n<p>O tema \u00e9 caro entre profissionais de \u00e1udio na Europa e nos EUA, e leva a tag de <em>The loudness war<\/em> (<a href=\"http:\/\/dynamicrangeday.co.uk\/about\/\" target=\"_blank\">Saiba mais<\/a>). \u201cH\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o em discutir um padr\u00e3o\u201d, afirma Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>MAPA DE RU\u00cdDOS<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista das pol\u00edticas p\u00fablicas, uma das emerg\u00eancias apontadas por especialistas no tema \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o de mapas de ru\u00eddos das cidades mais populosas. Na Uni\u00e3o Europeia, a partir de 2002 as cidades com mais de 200 mil habitantes foram obrigadas a fazer suas \u201ccartas ac\u00fasticas\u201d (mapa de ru\u00eddos). Tiveram cinco anos para a elabora\u00e7\u00e3o dos mapas, e depois mais cinco para implementar a\u00e7\u00f5es julgadas necess\u00e1rias para corrigir problemas e manter a tranquilidade de espa\u00e7os considerados \u201cilhas\u201d de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia do qu\u00e3o longe estamos do n\u00edvel europeu, em S\u00e3o Paulo, considerada uma das metr\u00f3poles mais barulhentas do mundo, a primeira Confer\u00eancia Municipal sobre Ru\u00eddo, Vibra\u00e7\u00e3o e Perturba\u00e7\u00e3o Sonora aconteceu em abril deste ano, por ocasi\u00e3o do Dia Internacional da Conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o Ru\u00eddo, o <em>International Noise Awareness Day<\/em> (Inad). O evento, realizado na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo por iniciativa do vereador Andrea Matarazzo (PSDB), durou tr\u00eas dias e contou com a presen\u00e7a de diversos especialistas no tema.<br \/>\nNo Brasil, a \u00fanica cidade que tem um mapa de ru\u00eddos \u00e9 Fortaleza. De acordo com Aur\u00e9lio Brito, coordenador da Carta Ac\u00fastica na Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente da capital cearense, foi feito um prot\u00f3tipo com base em dados de 1995 \u2013 13 anos antes do in\u00edcio da formata\u00e7\u00e3o do mapa.<\/p>\n<p>\u201cEste prot\u00f3tipo serviu para definirmos a metodologia e tamb\u00e9m como base para um projeto mais s\u00f3lido. Os resultados obtidos foram pouco divulgados devido \u00e0 not\u00f3ria diferen\u00e7a entre a base de dados e a realidade da cidade, mas, em alguns casos e setores, foram feitas algumas avalia\u00e7\u00f5es\u201d, diz Brito. O projeto encontra-se em fase de atualiza\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o Plano Diretor Estrat\u00e9gico, que entrou em vigor no dia 1\u00ba de agosto e tra\u00e7a as diretrizes para o desenvolvimento da cidade, deixou de fora o mapa de ru\u00eddos, vetado pelo prefeito Fernando Haddad (PT). Entre os fatores que podem ter desestimulado o governo estaria o prazo de um ano, considerado insuficiente para a tarefa.<\/p>\n<p>\u201cUm ano, para uma cidade como S\u00e3o Paulo, \u00e9 realmente pouco tempo. Mas d\u00e1 para fazer um piloto em um bairro predeterminado. Apesar do veto do prefeito, n\u00f3s, da ProAc\u00fastica, em conjunto com a C\u00e2mara Municipal, a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), o IPT (Instituto Brasileiro de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas), a SPTrans (S\u00e3o Paulo Transporte), a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e o Sinduscon (Sindicato da Constru\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo), estamos batalhando para implementar um projeto piloto\u201d, afirma Akkerman.<\/p>\n<p>Segundo ele, para mapear por inteiro a S\u00e3o Paulo seriam necess\u00e1rios, no m\u00ednimo, cinco anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos desafios de viver em ambientes urbanos \u00e9 o excesso de barulho. 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