{"id":79915,"date":"2018-02-09T14:00:51","date_gmt":"2018-02-09T17:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=79915"},"modified":"2018-02-08T20:13:51","modified_gmt":"2018-02-08T23:13:51","slug":"descoberta-nova-familia-de-peixes-amazonicos-a-primeira-em-40-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/descoberta-nova-familia-de-peixes-amazonicos-a-primeira-em-40-anos\/","title":{"rendered":"Descoberta nova fam\u00edlia de peixes amaz\u00f4nicos, a primeira em 40 anos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-79916\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Um peixe fino e comprido, com um corpo que lembra vagamente o de uma enguia, por\u00e9m mais curto, como se estivesse sem a parte traseira. Acrescente dois pares de nadadeiras ventrais, uma nadadeira dorsal e uma cauda delicada e transparente, como aquela dos peixinhos de aqu\u00e1rio. Agora, reduza essa imagem fazendo-a caber na palma da sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>O peixe em quest\u00e3o tem cerca de 10 cent\u00edmetros. Seu nome \u00e9 Tarumania, e sua apar\u00eancia em nada lembra as piranhas ou lambaris, parentes seus que habitam os rios das bacias hidrogr\u00e1ficas sul-americanas. Ele s\u00f3 foi visto por um punhado de icti\u00f3logos brasileiros, os bi\u00f3logos que estudam peixes.\u00a0<em>Tarumania walkerae<\/em>\u00a0\u00e9 a \u00fanica esp\u00e9cie de uma nova fam\u00edlia que acaba de ser descrita. Isso mesmo, uma nova fam\u00edlia de peixes, Tarumaniidae.<\/p>\n<p>Esp\u00e9cies novas de peixes amaz\u00f4nicos s\u00e3o descritas todos os meses, por vezes duas ou tr\u00eas. Um novo g\u00eanero surge algumas vezes ao ano. Mas a descri\u00e7\u00e3o de uma nova fam\u00edlia inteira de peixes \u00e9 algo surpreendente e muito menos frequente.<\/p>\n<p>Apenas cinco novas fam\u00edlias de peixes foram descobertas nos \u00faltimos 50 anos. Dessas, apenas uma \u00e9 da Am\u00e9rica do Sul (Scoloplacidae, descrita em 1976). A descri\u00e7\u00e3o de Tarumaniidae \u00e9, portanto, a primeira de uma fam\u00edlia de peixes sul-americanos em mais de 40 anos.<\/p>\n<p>\u201cPor que levou tanto tempo para ele ser descoberto? H\u00e1 bi\u00f3logos coletando naquela regi\u00e3o h\u00e1 muito tempo\u201d, disse o icti\u00f3logo Mario Cesar Cardoso de Pinna, professor titular no Museu de Zoologia da Universidade de S\u00e3o Paulo. Nos idos de 1850, o naturalista brit\u00e2nico Alfred Russell Wallace (1823-1913) j\u00e1 havia coletado peixes no rio Negro.<\/p>\n<p>De Pinna explica que a Tarumania vive enterrada, \u00e0s vezes a metros de profundidade, em loda\u00e7ais preenchidos com a folhagem que cai das \u00e1rvores e vai se acumulando e apodrecendo.<\/p>\n<p>\u201cEle vive escondido. A esp\u00e9cie nunca foi coletada com rede, pela raz\u00e3o \u00f3bvia de que n\u00e3o habita as \u00e1guas abertas do rio, mas passa a sua vida inteiramente submersa nos po\u00e7os de folhas, e fundo, 1 a 2 metros abaixo da superf\u00edcie, podendo na \u00e9poca da cheia estar coberta por 6 a 7 metros de coluna d&#8217;\u00e1gua\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cEsses po\u00e7os, \u00e0s vezes muito profundos, preenchem as margens do igarap\u00e9 Tarum\u00e3-Mirim, um pequeno curso intermitente que, quando n\u00e3o est\u00e1 seco, desagua no rio Tarum\u00e3, um afluente da margem esquerda do rio Negro, distante poucos quil\u00f4metros de Manaus\u201d, explicou o pesquisador.<\/p>\n<p>De Pinna e seus colegas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), Jansen Zuanon e Lucia Py-Daniel, s\u00e3o autores da descri\u00e7\u00e3o da nova fam\u00edlia Tarumaniidae, que pertence \u00e0 ordem dos Caraciformes, um grupo com mais de 2 mil esp\u00e9cies, como piranhas, pirabas, pacus, lambaris e tra\u00edras, e distribu\u00eddo entre a Am\u00e9rica do Sul e a \u00c1frica.<\/p>\n<p>A pesquisa, com resultados publicados no\u00a0<em><a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/zoolinnean\/article-abstract\/182\/1\/76\/4080717\" target=\"_blank\">Zoological Journal of the Linnean Society<\/a><\/em>, tem apoio da FAPESP.<\/p>\n<p><strong>Exemplares coletados<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro exemplar de Tarumania, um indiv\u00edduo jovem, foi coletado em 1999 no igarap\u00e9 Tarum\u00e3-Mirim pela bi\u00f3loga su\u00ed\u00e7a Ilse Walker, pesquisadora do Inpa desde 1976. Walker doou o exemplar \u00e0 cole\u00e7\u00e3o de peixes do instituto em 1999.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se recordava com exatid\u00e3o em quais condi\u00e7\u00f5es aquele peixinho havia sido coletado. O exemplar era obviamente diferente de tudo o que os icti\u00f3logos do Inpa conheciam, mas faltavam elementos para descrever a esp\u00e9cie. Para tanto, era necess\u00e1rio um indiv\u00edduo adulto.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio sobre o local onde se encontrariam outros esp\u00e9cimes durou at\u00e9 2006, quando finalmente descobriu-se onde o peixinho se escondia. Zuanon coletou um exemplar adulto em uma piscina cheia de folhas nas margens do Tarum\u00e3-Mirim. Era o per\u00edodo da seca na Amaz\u00f4nia e a po\u00e7a se encontrava no meio da mata e a centenas de metros do igarap\u00e9 \u2013 durante a \u00e9poca da cheia, toda aquela \u00e1rea permanece inundada.<\/p>\n<p>\u201cTarumania \u00e9 uma descoberta rara e muito instigante. Trata-se de uma esp\u00e9cie extraordin\u00e1ria, sob diversos sentidos. O ambiente em que vive, por exemplo, \u00e9 inusitado\u201d, disse De Pinna.<\/p>\n<p>O peixe vive em um ambiente de \u00e1gua intersticial, coberto por metros e metros de folhas e material em decomposi\u00e7\u00e3o. Na cheia, esse tapete encharcado tem muitos metros de profundidade. Na seca, a \u00e1gua \u00e9 absorvida pelo subsolo ou ent\u00e3o evapora, de modo que a por\u00e7\u00e3o encharcada onde vive o peixe acaba reduzida a uns 2 metros.<\/p>\n<p>Diversas outras coletas foram feitas em 2010 e 2016. Por que levou tanto tempo para descrever a nova esp\u00e9cie e a nova fam\u00edlia Tarumaniidae? \u201cPara propor uma fam\u00edlia nova, voc\u00ea precisa demonstrar que ela \u00e9 filogeneticamente equivalente a outros grupos de peixes\u201d, disse De Pinna.<\/p>\n<p>Segundo o professor, foi preciso fazer uma nova filogenia dos caraciformes, um empreendimento trabalhoso e demorado, pois significou reestudar dezenas de esp\u00e9cies, comparando a sua morfologia com a dos taruman\u00eddeos. S\u00f3 assim se p\u00f4de identificar quais s\u00e3o as semelhan\u00e7as que eles guardam com os restantes dos caraciformes, bem como distinguir quais s\u00e3o as suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, aquelas que n\u00e3o dividem com nenhum outro grupo, e que justificam a nomea\u00e7\u00e3o de uma nova fam\u00edlia. \u201cEncontramos o lugar de Tarumania na \u2018\u00c1rvore da Vida\u2019. O peixe est\u00e1 claramente pr\u00f3ximo das tra\u00edras\u201d, disse De Pinna.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o ora publicada foi baseada em filogenia morfol\u00f3gica. Um segundo trabalho, desta vez mergulhando na biologia molecular do grupo, est\u00e1 em prepara\u00e7\u00e3o. \u201cOs resultados preliminares sustentam a nova fam\u00edlia\u201d, disse De Pinna.<\/p>\n<p>Agora que se sabe que\u00a0<em>Tarumania walkerae<\/em>\u00a0habita piscinas de folhas nas margens do Tarum\u00e3, tal ambiente passar\u00e1 a fazer parte dos locais de coletas dos icti\u00f3logos que trabalham na Amaz\u00f4nia. Sim, porque piscinas de folhas encharcadas n\u00e3o s\u00e3o de forma alguma exclusividade das margens do Tarum\u00e3. Elas existem por toda a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 praticamente certo que a fam\u00edlia dos taruman\u00eddeos vai crescer. A descoberta de uma esp\u00e9cie t\u00e3o distinta em um local de relativamente f\u00e1cil acesso \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o do quanto ainda temos a aprender sobre a diversidade de peixes no Brasil\u201d, disse De Pinna.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<em>A new family of Neotropical freshwater fishes from deep fossorial Amazonian habitat, with a reappraisal of morphological characiform phylogeny (Teleostei: Ostariophysi),<\/em>\u00a0de M\u00e1rio de Pinna Jansen Zuanon, Lucia Rapp Py-Daniel e Paulo Petry, publicado no\u00a0<em>Zoological Journal of the Linnean Society<\/em>\u00a0(volume 182, 14\/12\/2017, p\u00e1ginas 76 a 106), pode ser lido em\u00a0<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/zoolinnean\/article-abstract\/182\/1\/76\/4080717\" target=\"_blank\">https:\/\/academic.oup.com\/zoolinnean\/article-abstract\/182\/1\/76\/4080717<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um peixe fino e comprido, com um corpo que lembra vagamente o de uma enguia,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":79916,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/peixe.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Um peixe fino e comprido, com um corpo que lembra vagamente o de uma enguia,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79915"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79915"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79915\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}