{"id":79740,"date":"2018-02-04T19:31:25","date_gmt":"2018-02-04T22:31:25","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=79740"},"modified":"2018-02-05T19:34:41","modified_gmt":"2018-02-05T22:34:41","slug":"entrevista-com-mateus-paranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-com-mateus-paranhos\/","title":{"rendered":"Entrevista com Mateus Paranhos"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-14 col-sm-14 col-md-14 col-lg-14\">\n<h1 class=\"titulo-materia\">\u201cO maior problema \u00e9 que nossos animais s\u00e3o commodities\u201d<\/h1>\n<h2 class=\"sub-titulo\">Em entrevista, o especialista em bem-estar animal Mateus Paranhos fala sobre o pol\u00eamico embarque de 27 mil cabe\u00e7as de gado no Porto de Santos, proibido pela Justi\u00e7a na semana passada<\/h2>\n<p><span class=\"autor\">POR VINICIUS GALERA<\/span><\/p>\n<div class=\"sub-header\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-14 col-sm-9 col-md-10 col-lg-10\">\n<div class=\"ctx_content\">\n<section class=\"box-materia\">\n<article id=\"materia-parsed-corpo\" class=\"texto\">\n<div class=\"ctx_content\">\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-790\"><img loading=\"lazy\" class=\"img-responsive\" title=\"mateus_paranhos_costa_zootecnista_professor (Foto: Rogerio Cassimiro\/Ed. Globo)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/ZFcf22WpptddY6u3Ys401zDH5fk=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/02\/11\/mateus_paranhos_costa_zootecnista_professor.jpg\" alt=\"mateus_paranhos_costa_zootecnista_professor (Foto: Rogerio Cassimiro\/Ed. Globo)\" width=\"640\" height=\"324\" \/><label class=\"foto-legenda\">Mateus Paranhos: &#8220;o indiv\u00edduo ficou em terceiro plano&#8221; (Foto: Rogerio Cassimiro\/Ed. Globo)<\/label><\/div>\n<p><span class=\"intro\">A<\/span>tuando na \u00e1rea de bem-estar de animais de produ\u00e7\u00e3o desde os anos 1980, o professor Mateus Paranhos, da Unesp de Jaboticabal, \u00e9 um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Nesta entrevista \u00e0 Globo Rural, ele falou sobre a insufici\u00eancia da legisla\u00e7\u00e3o brasileira para o transporte de animais, respons\u00e1vel pela situa\u00e7\u00e3o quase ins\u00f3lita que confinou mais de 27 mil cabe\u00e7as de gado no Porto de Santos na \u00faltima semana.<\/p>\n<p>O rebanho, propriedade do frigor\u00edfico Minerva, tinha como destino a Turquia, mas, ap\u00f3s contesta\u00e7\u00f5es de entidades que atuam na defesa dos direitos dos animais, a Justi\u00e7a proibiu o transporte primeiro em Santos e depois em todo o Brasil. Agora, espera-se uma batalha judicial que pode prolongar ainda mais a agonia dos garrotes que ruminariam durante longos dias no por\u00e3o de um navio no oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Para o zootecnista, o momento \u00e9 ideal para que a quest\u00e3o seja discutida de fato. A solu\u00e7\u00e3o a ser encontrada seria a poss\u00edvel, n\u00e3o a ideal, e certamente n\u00e3o agradaria na \u00edntegra aos extremismos das ONGs ambientalistas e do poderio econ\u00f4mico da ind\u00fastria da carne, mas uma coisa \u00e9 certa. Deve-se respeitar, antes de tudo, o bem-estar dos animais. \u201cNa nossa produ\u00e7\u00e3o industrial o sujeito, o indiv\u00edduo ficou em terceiro plano, \u00e9 tudo uma condi\u00e7\u00e3o de escala\u201d.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor v\u00ea as decis\u00f5es que culminaram na proibi\u00e7\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o de gado vivo?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25baTrata-se de um conjunto de decis\u00f5es conflituosas que causam instabilidade para todos, para quem est\u00e1 envolvido no neg\u00f3cio da exporta\u00e7\u00e3o e para quem est\u00e1 fazendo campanha contra isso. No fim das contas, quem paga o pre\u00e7o com maior sofrimento s\u00e3o os animais. Precisamos de uma regulamenta\u00e7\u00e3o que minimize o risco de decis\u00f5es judiciais conflituosas, um juiz fala que sim, outro fala que n\u00e3o e baseado em qu\u00ea? \u00c9 muito inseguro, tem uma situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a jur\u00eddica. Ningu\u00e9m est\u00e1 seguro, nem quem est\u00e1 fazendo neg\u00f3cio, nem quem est\u00e1 militando contra.<\/p>\n<p><strong>O que gera essa inseguran\u00e7a?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25baIsso \u00e9 produto de uma falta de regulamenta\u00e7\u00e3o clara. Se voc\u00ea for ler a regulamenta\u00e7\u00e3o que existe vai ver que \u00e9 muito vaga. O juiz em um dos despachos questiona at\u00e9 a forma como o animal vai ser abatido no local de destino dele, se l\u00e1 se respeita a legisla\u00e7\u00e3o brasileira. Essa hist\u00f3ria est\u00e1 repetindo o que aconteceu na Austr\u00e1lia h\u00e1 alguns anos. A Austr\u00e1lia parou a exporta\u00e7\u00e3o para fazer uma autorregulamenta\u00e7\u00e3o. Todos os interessados envolvidos se reuniram. Estamos devendo isso. Nossa regulamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa o suficiente para deixar as coisas f\u00e1ceis para um juiz tomar uma decis\u00e3o, fica sempre uma coisa muito geral.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor v\u00ea o transporte de gado vivo?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Qualquer transporte de gado, seja terrestre, fluvial, mar\u00edtimo ou a\u00e9reo pode ser feito em boas ou em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es. O problema hoje \u00e9 que o valor dos animais em geral, n\u00e3o s\u00f3 o bovino, \u00e9 t\u00e3o baixo que o transporte, para diminuir custo por unidade de animal transportado, tem que trabalhar com densidades maiores (metros quadrados por animal). Isso est\u00e1 diluindo o custo. Tudo come\u00e7a com essa perspectiva. O problema n\u00e3o \u00e9 o transporte e sim as condi\u00e7\u00f5es em que \u00e9 feito. Isso implica em espa\u00e7o para o animal, o tempo que ele vai ficar no ve\u00edculo em que est\u00e1 sendo transportado. Se esse tempo for muito longo, se ele tem acesso principalmente \u00e0 \u00e1gua, como \u00e9 a parte do microclima dentro do ve\u00edculo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dentro do navio. Tudo isso vai ter um efeito no bem-estar dos animais. A qualidade do ar, a temperatura, umidade. E para viagem de longa dist\u00e2ncia toda essa preocupa\u00e7\u00e3o com o fornecimento de \u00e1gua, alimento e de espa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>E se as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o forem ideais?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25baAp\u00f3s oito horas os bovinos come\u00e7am deitar, eles se cansam de ficar em p\u00e9. Se n\u00e3o tiverem um espa\u00e7o adequado, se o meio tiver uma densidade muito alta fica dif\u00edcil pra ele se levantar porque os outros acabam ocupando o espa\u00e7o dele e a\u00ed tem o risco dele ser pisoteado e o problema ser mais grave.<\/p>\n<p><strong>No caso do navio, al\u00e9m do tempo de viagem, o fato de ser um ambiente inteiramente fechado pode tornar o transporte pior?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25baL\u00f3gico que pode. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o o navio que est\u00e1 embarcando em Santos, n\u00e3o vi o procedimento de embarque, n\u00e3o vi o alojamento de animais dentro do navio, portanto eu n\u00e3o posso fazer um julgamento do que eu n\u00e3o vi. Tudo vai depender dessas condi\u00e7\u00f5es que estou falando. As cr\u00edticas das ONGs s\u00e3o coerentes, os argumentos de defesa de quem est\u00e1 exportando tamb\u00e9m s\u00e3o coerentes. Agora, para quem n\u00e3o est\u00e1 acompanhando o dia a ida fica dif\u00edcil julgar.<\/p>\n<p><strong>O tamanho do rebanho potencializa os riscos?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25baEm um movimento de 27 mil animais em condi\u00e7\u00f5es normais, onde tudo est\u00e1 dando certo, j\u00e1 existe risco, at\u00e9 nos confinamentos \u00e0s vezes o animal n\u00e3o se adapta. No movimento desse n\u00famero de animais em uma situa\u00e7\u00e3o conflituosa como essa que voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai acontecer, o risco \u00e9 muito maior. Por exemplo, os animais que n\u00e3o foram embarcados, os que estavam l\u00e1 no porto e tiveram que voltar voltaram para onde? Eu n\u00e3o sei, mas imagino que o estresse foi muito maior do que se eles estivessem l\u00e1. E por que eles estavam l\u00e1? Por que at\u00e9 aquele momento podia. Eu n\u00e3o estou discutindo a quest\u00e3o \u00e9tica ou moral. Estavam l\u00e1 porque podia, de repente n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>&#8220;O problema n\u00e3o \u00e9 o transporte e mais como ele \u00e9 feito, as condi\u00e7\u00f5es em que ele \u00e9 feito. Isso implica em espa\u00e7o&#8221;<\/p>\n<p><strong>Os animais podem sofrer mais com o impasse?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba\u00c9 preciso reconhecer que uma viagem como essa que dura tanto tempo \u00e9 estressante para o animal e a\u00ed tem muitas implica\u00e7\u00f5es. Quanto tem de comida? Quantas pessoas est\u00e3o l\u00e1 para alimentar? Quantos veterin\u00e1rios est\u00e3o cuidando dos animais? Essas perguntas precisam ser respondidas por aqueles que est\u00e3o interessados na exporta\u00e7\u00e3o. Eu diria que quanto mais honestidade tiver nessa rela\u00e7\u00e3o melhor fica a solu\u00e7\u00e3o do problema. Um diretor do minist\u00e9rio [Guilherme Henrique Figueiredo, diretor do Departamento de Sa\u00fade Animal do Mapa e delegado do Brasil na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade Animal] disse, e eu concordo com ele, que os animais que est\u00e3o embarcados esperando est\u00e3o pagando um pre\u00e7o alto por essa indefini\u00e7\u00f5es. A perman\u00eancia deles no navio ou no caso de serem obrigados a embarcar ou desembarcar tamb\u00e9m causa estresse. No fim das contas quem est\u00e1 pagando o pato s\u00e3o os bovinos.<\/p>\n<p><strong>Mas a viagem n\u00e3o seria mais estressante?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25baQualquer transporte causa estresse, s\u00f3 o fato de voc\u00ea tirar um animal do lugar onde ele est\u00e1 e p\u00f4r no embarcadouro dentro do caminh\u00e3o e come\u00e7ar uma viagem causa estresse. \u00c0s vezes no navio \u00e9 igual, esse estresse pode ser prolongado, quando voc\u00ea tem uma viagem muito longa como \u00e9 o caso dessa para Turquia. O estrese se prolonga por um per\u00edodo maior, os animais t\u00eam que se adaptar a essa situa\u00e7\u00e3o e alguns n\u00e3o se adaptam. No trasnporte de animais de confinamento como vacas, por exemplo, a porcentagem de animais que chamamos &#8220;refugo ao cocho&#8221; chega a at\u00e9 10%. \u00c9 menor esse n\u00famero quando voc\u00ea est\u00e1 trabalhando com bois ou com bezerros. No caso do navio eu n\u00e3o sei qual \u00e9 esse n\u00famero, ele tamb\u00e9m deveria estar dispon\u00edvel e tamb\u00e9m ter um plano estrat\u00e9gico para sabermos o que eles fazem quando o animal n\u00e3o se adapta. \u00c9 o tipo de informa\u00e7\u00e3o que falta.<\/p>\n<div class=\"olho componente_materia\">\n<div>&#8220;A perman\u00eancia dos animais no navio ou no caso de serem obrigados a embarcar ou desembarcar tamb\u00e9m causa estresse&#8221;<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Falta uma defini\u00e7\u00e3o de um apol\u00edtica p\u00fablica. Porque esse tema envolve quest\u00f5es econ\u00f4micas, envolve quest\u00f5es pol\u00edticas, for\u00e7as pol\u00edticas pr\u00f3 e contra dentro do Congresso e em outros n\u00edveis, envolve uma legisla\u00e7\u00e3o que pra mim n\u00e3o \u00e9 satisfat\u00f3ria. Envolve quest\u00f5es culturais e de princ\u00edpios. Ent\u00e3o eu acho que precisava uma discuss\u00e3o ampla com todos os interessados para ver se chega a um bom termo.<\/p>\n<p><strong>A discuss\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Honestamente eu n\u00e3o sei se \u00e9 poss\u00edvel porque a press\u00e3o econ\u00f4mica sempre se imp\u00f5e. Se voc\u00ea olhar o Riispoa (Regulamento de Inspe\u00e7\u00e3o Industrial e Sanit\u00e1ria de Produtos de Origem Animal), a legisla\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio da Agricultura que regulamenta os animais nos frigor\u00edficos, eu n\u00e3o sei se mudaram isso, mas era 2,5m por animal adulto que deveria ter no curral do frigorifico, onde o animal n\u00e3o passa 24 horas. Dentro dos caminh\u00f5es essa metragem \u00e9 muito menor, espera-se que a viagem seja mais curta poss\u00edvel. Ai se come\u00e7a a criar essa confus\u00e3o. Uma viagem mar\u00edtima n\u00e3o \u00e9 curta.<\/p>\n<p><strong>Entidades de produtores se posicionaram repudiando a decis\u00e3o judicial.<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Eu j\u00e1 sentei \u00e0 mesa com os dois lados, com ativistas, das ONGs, e com representa\u00e7\u00f5es do setor pecu\u00e1rio. As posturas s\u00e3o radicais. Voc\u00ea leva uma proposta de concilia\u00e7\u00e3o e ela n\u00e3o \u00e9 bem vista nem por um lado nem por outro. Tenta encontrar um meio termo, se \u00e9 que ele \u00e9 poss\u00edvel, mas n\u00e3o se n\u00e3o abre nem a discuss\u00e3o. Da mesma forma que eles est\u00e3o se defendendo, as ONGs est\u00e3o atacando. Tem mais uma coisa importante, a lei ou a regulamenta\u00e7\u00e3o, seja ela qual for, pode tamb\u00e9m n\u00e3o ser seguida. A ideia de atacar a exporta\u00e7\u00e3o de animais vivos pode ser injusta para aquele que faz direito e perfeitamente cab\u00edvel ou at\u00e9 suave demais praquele que est\u00e1 fazendo de uma forma ilegal. O abate clandestino \u00e9 proibido no Brasil, mas n\u00e3o significa que ele n\u00e3o existe. \u00c9 a mesma coisa. O discurso fica no geral em vez de atacar o problema.<\/p>\n<p><strong>O senhor n\u00e3o acredita que esse caso pode tornar a discuss\u00e3o mais aprofundada?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos\u00a0<\/strong>\u25ba Eu espero que sim, para o bem dos animais. Porque se em cada embarque for acontecer esse impasse, voc\u00ea imagina, n\u00f3s n\u00e3o estamos falando de uma opera\u00e7\u00f5es que se resolve facilmente. Como \u00e9 que vai desembarcar mais de 27 mil animais? N\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que voc\u00ea vai l\u00e1, encontra um s\u00edtio e p\u00f5e os bichos como se fosse um caminh\u00e3o. Como \u00e9 que voc\u00ea vai fazer isso com 27 mil bichos? Imposs\u00edvel. Essa emerg\u00eancia, que \u00e9 produto de interpreta\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o, produto de press\u00f5es de certo e errado baseado na nossa legisla\u00e7\u00e3o ou em princ\u00edpios \u00e9ticos, ela n\u00e3o deveria causar transtorno dessa ordem nesse momento.<\/p>\n<p><strong>Qual seria a solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos\u00a0<\/strong>\u25ba A solu\u00e7\u00e3o mais adequada seria suspender definitivamente a exporta\u00e7\u00e3o at\u00e9 que se regulamente de uma forma que seja considerada razo\u00e1vel, que tenha indicadores concretos que deem a possibilidade de fazer essas medidas. Para saber se est\u00e1 tudo bem l\u00e1. Agradar todo mundo n\u00e3o vai mesmo. Precis\u00e1vamos de uma regulamenta\u00e7\u00e3o com maior detalhamento, que definisse objetivamente o que se entende por bem-estar animal ou maus-tratos. Um despacho de um dos ju\u00edzes estava relacionado a maus-tratos. O que s\u00e3o maus-tratos? Isso precisaria estar definido. Como est\u00e1 definido no caso dos frigor\u00edficos precisaria tamb\u00e9m estar definido no transporte de cargas vivas, n\u00e3o importa seja em navio ou onde for.<\/p>\n<p><strong>Para os frigor\u00edficos a regulamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 adequada?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos \u25ba<\/strong>\u00a0Eu diria que \u00e9 melhor do que aquela que est\u00e1 relacionada ao transporte.<\/p>\n<p><strong>Por que para o transporte \u00e9 ineficiente?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Ela n\u00e3o existia at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, as portarias s\u00e3o bem recentes. Tudo isso vai para consulta p\u00fablica, reuni\u00f5es, comit\u00ea para discutir etc. E as for\u00e7as est\u00e3o l\u00e1 um puxando para um lado, puxando para outro e sai uma normativa que \u00e9 a poss\u00edvel. Geralmente elas n\u00e3o t\u00eam detalhamento suficiente para dar confian\u00e7a a quem est\u00e1 analisando se as coisas est\u00e3o sendo feitas corretamente ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como seria poss\u00edvel fazer a coisa certa?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Uma das coisas \u00e9 que o bem-estar, do ponto de vista cient\u00edfico, tem que ser medido. N\u00e3o pode ser o que eu acho, n\u00e3o pode ser intuitivo. Ele deveria ser medido. Eu me refiro \u00e9 isso, a legisla\u00e7\u00e3o devia trazer algum elemento que permitisse essa abordagem objetiva, essa medida.<\/p>\n<p>&#8220;Com\u00a0a forma como tratamos os animais fica dif\u00edcil colocar a quest\u00e3o de respeito ao bem-estar&#8221;<\/p>\n<p><strong>O que pode acontecer agora?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Eu quero enfatizar que esse acontecimento, que \u00e9 muito estressante para os animais, causa preju\u00edzo econ\u00f4mico para empresa que est\u00e1 exportando e causa perplexidade na sociedade como um todo. Acho que era um momento para chamar para um conversa, um debate p\u00fablico, pra uma coisa mais coerente e consciente das pessoas quererem fazer o melhor. Porque levantar a bandeira do n\u00e3o pode, que \u00e9 o que a ONG faz, no meu modo de entender cai no mesmo erro de quem tem interesse econ\u00f4mico por tr\u00e1s disso, que acha que tudo pode. Eu acho que tinha que ter regras, limites, e muito bem definidos. Eles n\u00e3o est\u00e3o bem definidos. N\u00e3o est\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Em uma situa\u00e7\u00e3o ideal haveria dist\u00e2ncias t\u00e3o longas para os animais percorrerem?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Eu acho que o ideal era que essa atividade n\u00e3o acontecesse. O ideal \u00e9 que nosso mercado tivesse uma estabilidade n\u00e3o s\u00f3 estacional, ao longo do ano, mas regional, o que acontece em S\u00e3o Paulo, no Par\u00e1 ou no Maranh\u00e3o ou em qualquer lugar fosse relativamente pr\u00f3ximo em termos econ\u00f4micos. Uma condi\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o precisasse exportar mat\u00e9ria-prima. Da mesma forma que exportamos min\u00e9rio de ferro, ao exportar gado estamos exportando mat\u00e9ria-prima. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o para quem est\u00e1 insatisfeito com o pre\u00e7o mercado? \u00c9. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o que tirou o estado do Par\u00e1 de uma condi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil h\u00e1 alguns anos, quando a arroba era quase 20% mais baixa que no resto do pa\u00eds sendo que hoje ela praticamente se igualou por causa da exporta\u00e7\u00e3o do animal vivo? \u00c9. Ent\u00e3o a gente n\u00e3o controla essas coisas. O ideal era exportar carne e carne de primeira. O problema maior \u00e9 que nossos animais s\u00e3o commodities, o valor deles n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea ou o dono do animal que imp\u00f5e, \u00e9 um valor que o mercado imp\u00f5e e a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 essa. A pessoa tem que fazer um esfor\u00e7o danado para conseguir ter lucro. Qualquer oportunidade que surge acaba se tornando um neg\u00f3cio melhor. N\u00e3o estou dizendo que \u00e9 um bom neg\u00f3cio, \u00e9 um neg\u00f3cio melhor. E a consequ\u00eancia para o bicho nem sempre \u00e9 boa. Hoje, por exemplo, \u00e9 dif\u00edcil algu\u00e9m chamar um veterin\u00e1rio para cuidar de um bezerro, para cuidar de um rebanho comercial porque o tratamento acaba custando mais caro que o animal. Se pensar em su\u00edno e frango ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>A substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 mais barata?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos<\/strong>\u00a0\u25ba Na verdade nessa produ\u00e7\u00e3o industrial o sujeito, o indiv\u00edduo ficou em terceiro plano, \u00e9 tudo uma condi\u00e7\u00e3o de escala, de produ\u00e7\u00e3o e tal. Eu acho que o problema est\u00e1 a\u00ed. Com essa forma de tratar os animais fica dif\u00edcil colocar essa quest\u00e3o de respeito ao bem-estar. Porque vamos deixar bem claro: bem-estar \u00e9 tudo: \u00e9 sa\u00fade, \u00e9 nutri\u00e7\u00e3o, se o animal est\u00e1 com estresse ou sem estresse, \u00e9 ambiente confort\u00e1vel e quando eu falo em conforto \u00e9 conforto t\u00e9rmico, um lugar confort\u00e1vel pra deitar, higiene, tudo isso \u00e9 bem-estar. H\u00e1 alguns anos quando o frango n\u00e3o estava valendo nada o pessoal estava matando pintinho. At\u00e9 apareceu um produtor de Santa Catarina jogando pintinho numa valeta e enterrando vivo, ent\u00e3o como \u00e9 que a gente chega nessa situa\u00e7\u00e3o? \u00c9 um produto desse sistema.<\/p>\n<p><strong>A vida dos animais n\u00e3o tem valor?<\/strong><br \/>\n<strong>Mateus Paranhos \u25ba<\/strong>\u00a0Ele \u00e9 um neg\u00f3cio, ele \u00e9 um bem. Tem um custo e um valor de mercado segundo a \u00f3tica do sistema industrial de produ\u00e7\u00e3o animal, onde s\u00e3o tratados como objetos. Isso \u00e9 completamente diferente do meu entendimento sobre a atribui\u00e7\u00e3o de valor a um animal, que entendo ter valor intr\u00ednseco como ser vivo e senciente. Da\u00ed, a minha reflex\u00e3o sobre equ\u00edvoco de tratarmos os animais de produ\u00e7\u00e3o como commodities. N\u00e3o h\u00e1 como reconhecer o valor intr\u00ednseco dos animais em um contexto como esse. A\u00ed est\u00e1 um grande desafio a ser enfrentado.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO maior problema \u00e9 que nossos animais s\u00e3o commodities\u201d Em entrevista, o especialista em bem-estar<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cO maior problema \u00e9 que nossos animais s\u00e3o commodities\u201d Em entrevista, o especialista em bem-estar","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79740"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79740"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79740\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}