{"id":78229,"date":"2018-01-06T16:58:52","date_gmt":"2018-01-06T19:58:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=78229"},"modified":"2018-01-06T16:58:52","modified_gmt":"2018-01-06T19:58:52","slug":"dialogos-com-o-eu-primitivo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/dialogos-com-o-eu-primitivo-2\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logos com o eu primitivo"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><\/h1>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content clearfix\">\n<p><em><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Navarro-2-copy-800x445.jpg\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"642\" height=\"357\" \/>Esta entrevista com<strong>\u00a0Eduardo Navarro<\/strong>\u00a0aborda as l\u00ednguas faladas pelos povos colonizados no Brasil.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O que pode levar engenheiros, m\u00e9dicos e executivos a frequentar aulas de tupi antigo, a l\u00edngua falada por grupos ind\u00edgenas que h\u00e1 milhares de anos viviam nestas terras? S\u00f3 a curiosidade seria uma explica\u00e7\u00e3o rasa. Para o mestre Eduardo Navarro, \u00e9 o caso de um desejo mais profundo: o de se reconectar a um Brasil selvagem que nos habita.<\/p>\n<p>Enquanto \u201ca civiliza\u00e7\u00e3o entristece o animal humano\u201d, diz Navarro, o tupi nos abre uma trilha para encontrar \u201caquilo que temos de mais pr\u00edstino, de mais primitivo dentro de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>E a\u00ed nos revelamos bem mais ind\u00edgenas do que o imaginado \u2013 das palavras herdadas ao comportamento generalizado. A impontualidade do brasileiro, a falta de planejamento, a despreocupa\u00e7\u00e3o e o viver o presente s\u00e3o tra\u00e7os do \u00edndio, do caboclo, do caipira, j\u00e1 que a natureza supria o necess\u00e1rio. S\u00e3o valores de uma sociedade n\u00e3o cumulativa e que se contentava com o simples. Vis\u00f5es que o mundo urbano, euroc\u00eantrico e capitalista tenta alterar \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem.<\/p>\n<p>Ge\u00f3grafo de forma\u00e7\u00e3o e doutor em Letras, Eduardo de Almeida Navarro ensina tupi na Universidade de S\u00e3o Paulo com base em um m\u00e9todo criado por ele e lan\u00e7ado em 1998. \u00c0s v\u00e9speras da celebra\u00e7\u00e3o dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, a primeira edi\u00e7\u00e3o de seu livro\u00a0<em>M\u00e9todo Moderno de Tupi Antigo<\/em>\u00a0ganhou patroc\u00ednio da Fiesp e ampla cobertura da m\u00eddia \u2013 com isso, a disciplina passou a ser muito procurada na USP. Hoje ele leciona Tupi Antigo e Tupi Moderno (nheengatu) para mais de 200 alunos<\/p>\n<p><strong>Na sua hist\u00f3ria de vida, o que o levou ao estudo da l\u00edngua tupi?<\/strong><\/p>\n<p>Desde muito cedo sempre fui um nacionalista, sabe? \u00c9 curioso. Quando adolescente, vivi na \u00e9poca dos militares. Havia um forte nacionalismo nas escolas, diversas comemora\u00e7\u00f5es c\u00edvicas\u2026 Eu tamb\u00e9m viajei bastante pelo Brasil rural, meus pais s\u00e3o do interior de S\u00e3o Paulo, eu mesmo sou de Fernand\u00f3polis \u2013 sou caipira, portanto. Ent\u00e3o vivi muito em fazendas, na \u00e9poca em que n\u00e3o havia o agroneg\u00f3cio, o \u201ccapitalismo\u201d ainda n\u00e3o tinha invadido o campo (<em>risos<\/em>). Meu av\u00f4 fundou uma cidade ao noroeste de Cuiab\u00e1 [<em>Nova Ol\u00edmpia<\/em>] e visit\u00e1vamos lugares muito afastados\u2026<\/p>\n<p>Tudo isso foi me fazendo admirar o Brasil, justamente em um momento de desnacionaliza\u00e7\u00e3o da economia brasileira e quando a juventude estava muito empolgada pelos modelos de cultura que vinham dos Estados Unidos. Quando todo mundo queria usar um All Star, eu usava Vulcabr\u00e1s (<em>risos<\/em>)! Isso marca muito a nossa forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira faculdade em que entrei foi a S\u00e3o Francisco e logo vi que n\u00e3o era para mim: eu queria viver no interior. Fui para Rio Claro, na Unesp, estudar Geografia. Por meio da Geografia \u00e9 que foi nascendo meu interesse pela l\u00edngua tupi, dada a grande penetra\u00e7\u00e3o que a l\u00edngua tem nos lugares do Brasil.<\/p>\n<p>Depois voltei pra S\u00e3o Paulo e fiz doutorado em Letras. Em 1993 eu ingressei na USP como professor de l\u00edngua tupi. Foi uma forma de responder \u00e0queles meus anseios nacionalistas, aquele amor pelas coisas tradicionais do Brasil. Eu sei que \u00e9 dif\u00edcil entender uma postura dessas hoje em dia, mas \u00e9 o que eu vivi. Durante muito tempo fui muito recalcitrante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura americana, tinha um pouco de ojeriza pelo ingl\u00eas. Passei a ter um pouco mais de aceita\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos depois da elei\u00e7\u00e3o do Barack Obama.<\/p>\n<p><strong>Algo bem recente!<\/strong><\/p>\n<p>Sim, uma coisa bem recente. Eu tinha muita relut\u00e2ncia em aceitar a cultura americana.<\/p>\n<p><strong>Isso devido ao imperialismo americano, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p><strong>Mas os portugueses, quando vieram ao Brasil, tamb\u00e9m eram imperialistas.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 certo que foi um imp\u00e9rio, mas eu me sinto um ib\u00e9rico, um descendente de portugu\u00eas. E o Brasil \u00e9 esse encontro de Portugal com o mundo amer\u00edndio e a \u00c1frica. \u00c9 algo not\u00e1vel: o \u00fanico continente em que culturas de tr\u00eas continentes se encontraram foi a Am\u00e9rica. As col\u00f4nias portuguesas na \u00c1frica n\u00e3o tiveram o elemento amer\u00edndio. As col\u00f4nias portuguesas na \u00c1sia n\u00e3o tiveram o elemento africano. Essa riqueza daqui foi que me chamou a aten\u00e7\u00e3o muito cedo.<\/p>\n<p><strong>Os portugueses, quando chegaram, tiveram de aprender tupi para dominar?<\/strong><\/p>\n<p>Isso mesmo. A l\u00edngua tem tr\u00eas fases. A mais antiga, falada na costa brasileira, que podemos chamar de tupi antigo, foi necessariamente aprendida pelos portugueses e era falada pelos Tupinamb\u00e1, Tupiniquim, Tamoio, Potiguar, Tabajara, Caet\u00e9s, v\u00e1rios grupos. No s\u00e9culo XV, antes de os portugueses chegarem, esses grupos se instalaram na costa. Tinham a mesma origem, a mesma cultura, todos eram antrop\u00f3fagos e falavam a mesma l\u00edngua, que podemos chamar de tupi antigo. Com o passar do tempo, os portugueses aprenderam essa l\u00edngua e foi sendo criada a l\u00edngua geral \u2013 amaz\u00f4nica, paulista \u2013, que seguiu dominando o interior do Brasil. A\u00ed, no s\u00e9culo XIX, temos o nheengatu, \u00e9 a terceira etapa do desenvolvimento hist\u00f3rico do tupi antigo. Hoje, somente o nheengatu existe, ainda falado.<\/p>\n<p><strong>Quem s\u00e3o os interessados em aprender tupi antigo hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Temos alunos de Letras, de Hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de Engenharia da USP, m\u00e9dicos.<\/p>\n<p><strong>Muitos v\u00e3o por curiosidade?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um curso fundamental para a compreens\u00e3o desse Brasil profundo, sabe? Esse Brasil anterior \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o europeia. Os caipiras de S\u00e3o Paulo falavam essa l\u00edngua. Os caboclos, os povos da Amaz\u00f4nia. Era uma l\u00edngua de coes\u00e3o. Entre outros fatores, permitiu ao Brasil manter sua coes\u00e3o territorial.<\/p>\n<p><strong>O senhor diz que estudar o tupi leva a um resgate do nosso inconsciente selvagem. O que isso significa e por que isso \u00e9 bom?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 bom porque a civiliza\u00e7\u00e3o entristece o animal humano, aquilo que temos de mais pr\u00edstino, de mais primitivo dentro de n\u00f3s. Esse macaco mal evolu\u00eddo que somos (<em>risos<\/em>). Hoje, por meio de estudos da gen\u00e9tica, da antropologia e da primatologia, estamos chegando \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o somos t\u00e3o humanos como pens\u00e1vamos. Essas ideias de que o homem n\u00e3o \u00e9 natureza, o homem \u00e9 cultura, isso est\u00e1 sendo revisto. Como fica essa dimens\u00e3o primata nossa? Totalmente distanciada da natureza, vivendo em adensamentos de milh\u00f5es de pessoas, sem contato com as \u00e1rvores, com a terra, com nada natural? O tupi tem essa propriedade de p\u00f4r em contato com esse Brasil natural. Quando eu come\u00e7o a revelar essa nossa camada ind\u00edgena, os alunos ficam boquiabertos.<\/p>\n<p><strong>Pode dar um exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu falo: vamos para com esse nhem-nhem-nhem, gente?\u00a0<em>Nhe\u2019eng<\/em>\u00a0em tupi \u00e9 falar. Ficar de nhem-nhem-nhem \u00e9 ficar falando sem parar. N\u00f3s podemos estar em um ambiente urbano, mas mantemos essas ra\u00edzes do tempo colonial. Do tempo em que a cara do paulistano era outra, era ind\u00edgena. N\u00e3o tinha o rosto branco. Era o mesti\u00e7o, o caboclo, o caipira. Tudo isso o tupi vai revelar: a nossa face ind\u00edgena que parece t\u00e3o distante, mas n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>O DNA ind\u00edgena \u00e9 o mais presente na popula\u00e7\u00e3o brasileira. Uma pesquisa do ano 2000 feita pelo geneticista S\u00e9rgio Pena, de Minas Gerais, mostrou que, de 200 brasileiros ditos brancos, 39% tinham, pela via materna, ascend\u00eancia ind\u00edgena e 22% de ascend\u00eancia africana. O que sobra? Dos brancos, boa parte n\u00e3o \u00e9 branca. Somos, sem d\u00favida alguma, um pa\u00eds mesti\u00e7o, isso \u00e9 que torna o Brasil um pa\u00eds interessante.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas era racista? Era. Era um dominador? Era. No entanto, n\u00e3o teve dificuldade no Brasil de se miscigenar. Nas demais col\u00f4nias, o portugu\u00eas buscava m\u00e3o de obra escrava e n\u00e3o se misturou, mas, no Brasil, as \u00edndias e africanas viviam dentro da casa-grande. Eram essas mulheres que criavam os filhos dos portugueses e com elas \u00e9 que eles tinham filhos bastardos.<\/p>\n<p><strong>O que o tupi simboliza ao n\u00e3o usar tempos verbais e nem uma matem\u00e1tica avan\u00e7ada \u2013 conta-se apenas at\u00e9 4? No que mais o tupi difere em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento das demais l\u00ednguas, como as greco-latinas, as anglo-sax\u00f4nicas, as sem\u00edticas?<\/strong><\/p>\n<p>O tupi \u00e9 uma l\u00edngua simples, mas que permite muitas combina\u00e7\u00f5es entre as palavras. Estamos diante de uma cultura que n\u00e3o reconhecia o Estado, nem a propriedade privada, nem o trabalho escravo. Estavam no in\u00edcio de uma cultura agr\u00edcola, mas muito incipiente, que n\u00e3o tinha levado ainda \u00e0 propriedade privada. Nessas condi\u00e7\u00f5es, um sistema de contagem era desnecess\u00e1rio. Era um pensamento mesmo diferente. Eles viviam o presente. O \u00edndio que est\u00e1 sem contato com o branco vive o agora, n\u00e3o tem a m\u00ednima preocupa\u00e7\u00e3o em acumular nada. N\u00e3o h\u00e1 planejamento. Isso vai influir muito na forma\u00e7\u00e3o do brasileiro. Onde vamos buscar as ra\u00edzes da nossa impontualidade, hein? N\u00e3o \u00e9 no europeu, embora o portugu\u00eas n\u00e3o seja nenhum brit\u00e2nico. Onde vamos buscar essa despreocupa\u00e7\u00e3o com o amanh\u00e3 do nosso caboclo, para quem o essencial est\u00e1 mais que suficiente? Onde vamos buscar esse esp\u00edrito de desorganiza\u00e7\u00e3o? Gente que n\u00e3o gosta do trabalho pesado? Isso tudo vamos encontrar no \u00edndio, que est\u00e1 presente na forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter nacional do brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Que n\u00e3o \u00e9 ruim nem bom?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, simplesmente \u00e9 assim. Voc\u00ea n\u00e3o vai julgar isso. Se voc\u00ea der para um grupo de \u00edndios 20 quilos de caf\u00e9, em vez de guardar para beber ao longo de dois meses, eles v\u00e3o fazer caf\u00e9 at\u00e9 acabar. Tem um lado bom de se levar a vida mais despreocupada, mais leve, mas tem um lado ruim porque voc\u00ea pode ficar \u00e0 merc\u00ea das injun\u00e7\u00f5es do tempo, da escassez, das dificuldades.<\/p>\n<p><strong>Em uma sociedade que vive sob condi\u00e7\u00f5es perfeitas da natureza, de fato n\u00e3o \u00e9 preciso planejar nem acumular, pois os recursos est\u00e3o ali o tempo todo. O problema \u00e9 que essas condi\u00e7\u00f5es foram diminuindo pela a\u00e7\u00e3o do homem branco, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Uma vez, um cacique perguntou a um franc\u00eas que estava na Guanabara: \u201cPor que voc\u00eas, ma\u00edras (<em>franceses<\/em>), v\u00eam buscar madeira de t\u00e3o longe para se aquecerem? N\u00e3o tem madeira na terra de voc\u00eas?\u201d O franc\u00eas respondeu: \u201cSim, temos, mas \u00e9 que viemos buscar essa madeira para fazer tintura.\u201d \u201cMas por acaso voc\u00eas precisam de muita madeira?\u201d \u201cSim, porque s\u00f3 um homem no meu pa\u00eds compra todo o carregamento de um navio.\u201d \u201cEnt\u00e3o esse homem \u00e9 muito rico?\u201d \u201cSim, ele \u00e9 muito rico, tem muitas coisas.\u201d \u201cE para quem ficam as coisas depois que ele morre?\u201d \u201cPara os filhos, ou parentes mais pr\u00f3ximos.\u201d \u201cAgora eu vejo que voc\u00eas, ma\u00edras, s\u00e3o todos uns loucos. Voc\u00eas atravessam o oceano, correm perigos enormes conforme voc\u00eas nos contam, passam necessidade na viagem\u2026 para qu\u00ea? Para ficar acumulando coisas para deixar pros filhos? Ser\u00e1 que a terra que alimentou voc\u00eas n\u00e3o consegue alimentar seus filhos tamb\u00e9m? Aqui n\u00f3s sabemos que a terra que nos nutriu vai nutrir nossos filhos, ent\u00e3o ficamos despreocupados.\u201d Essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de vida enorme. Isso foi narrado no livro\u00a0<em>Hist\u00f3ria de Uma Viagem \u00e0 Terra do Brasil<\/em>, de Jean de L\u00e9ry.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o voc\u00ea pode ser descendente de europeus, de \u00e1rabes, de japoneses, mas a cultura cabocla vai permear essa forma\u00e7\u00e3o. Os europeus chegaram ao Brasil e se acaipiraram. Quem era Adoniran Barbosa? Um s\u00edmbolo da S\u00e3o Paulo do S\u00e9culo XX, da S\u00e3o Paulo industrial, filho de italiano. E o que ele cantava? Ele usava o dialeto caipira:\u00a0<em>O Arnesto nos convidou\/ Prum samba\/ Ele mora no Br\u00e1s\/ N\u00f3is fumo e num encontremo ningu\u00e9m\/ N\u00f3is vortemo cuma baita duma reiva\/ Da outra vez\/ N\u00f3is num vai mais.<\/em><\/p>\n<p><strong>O quanto a civiliza\u00e7\u00e3o dominante no Brasil est\u00e1 aberta aos valores e \u00e0s vis\u00f5es de mundo de povos ind\u00edgenas?<\/strong><\/p>\n<p>Existe com rela\u00e7\u00e3o ao \u00edndio duas posturas b\u00e1sicas. O mundo urbano industrial n\u00e3o v\u00ea o \u00edndio com bons olhos e existe muito preconceito. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 um outro aspecto: existe uma romantiza\u00e7\u00e3o do \u00edndio, uma idealiza\u00e7\u00e3o. Isso aconteceu no s\u00e9culo XIX. Os \u00edndios que estavam vivos naquela \u00e9poca n\u00e3o eram interessantes para os escritores e para os ide\u00f3logos do Romantismo \u2013 mas sim os \u00edndios do passado. O Romantismo idealizava esse passado das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O bom selvagem [mito desenvolvido pelo fil\u00f3sofo Jean-Jacques Rousseau] \u00e9 um exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Isso mesmo. Na Fran\u00e7a, na Alemanha, voc\u00ea vai ver isso. A busca das ra\u00edzes nacionais. Isso aconteceu no Brasil tamb\u00e9m. Mas quem vai ser o objeto desse interesse? O \u00edndio que estava no passado, e n\u00e3o o \u00edndio vivo que est\u00e1 l\u00e1\u2026<\/p>\n<p><strong>\u2026 competindo pelas terras onde o branco quer explorar min\u00e9rio, fazer agricultura e hidrel\u00e9trica.<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00edndio n\u00e3o atrai, n\u00e3o. Mas temos um outro aspecto. Vivemos em um mundo cada vez mais polu\u00eddo, urbanizado. Nesse contexto massacrante de vida urbana, ca\u00f3tica e muitas vezes sem sentido, em que voc\u00ea passa horas no tr\u00e2nsito para poder chegar ao trabalho, existe uma m\u00edstica em torno desses que vivem de outra maneira. Quando sonhamos com uma vida mais tranquila, em contato com a natureza, estamos dialogando com o primitivo que est\u00e1 dentro de n\u00f3s. Estamos dialogando com os \u00edndios. A\u00ed vem uma admira\u00e7\u00e3o, um encantamento. Voc\u00ea veja, eu j\u00e1 tive alunos do mundo corporativo. De vez em quando aparecem pessoas que est\u00e3o em busca de um sonho, mesmo. Eles pensam: \u201cJ\u00e1 que n\u00e3o posso ter essa vida livre, pelo menos eu vou estud\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o que a vida mais selvagem seja f\u00e1cil.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Por isso \u00e9 uma romantiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O n\u00famero populacional de \u00edndios tende a crescer. Mas a cultura ind\u00edgena tende a enfraquecer?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. A cultura tende a enfraquecer, os valores tendem a mudar. Os jovens passam a n\u00e3o aceitar mais o que seus pais e av\u00f3s ensinaram, n\u00e3o querem mais aquela vida, querem acesso aos aparelhos tecnol\u00f3gicos mais avan\u00e7ados etc. Isso produz um questionamento s\u00e9rio de seus valores e tradi\u00e7\u00f5es. Essa situa\u00e7\u00e3o dificilmente ser\u00e1 favor\u00e1vel aos \u00edndios.<\/p>\n<p><strong>Mas essa \u00e9 uma quest\u00e3o de inser\u00e7\u00e3o e de troca cultural, n\u00e3o? Isolar a cultura ind\u00edgena seria o melhor caminho? Essa conflu\u00eancia pode criar uma cultura mesti\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Nenhuma cultura \u00e9 pura, toda cultura \u00e9 fruto de encontros, isso pode ser enriquecedor. Mas \u00e9 um desafio, e para muitos \u00e9 algo realmente traum\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>E que acontece desde 1500.<\/strong><\/p>\n<p>Ah, sim, essa hist\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 antiga\u2026<\/p>\n<p><strong>Por que a l\u00edngua geral que j\u00e1 era falada em grande parte do territ\u00f3rio, inclusive pelos colonizadores, n\u00e3o se tornou a l\u00edngua oficial do Brasil em vez do portugu\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p>Por v\u00e1rios fatores, um deles a imigra\u00e7\u00e3o europeia do s\u00e9culo XIX, que foi maci\u00e7a. At\u00e9 ent\u00e3o, a l\u00edngua geral era falada no interior de S\u00e3o Paulo. E na Amaz\u00f4nia o fator foi a migra\u00e7\u00e3o nordestina. Com o ciclo da borracha, milhares de nordestinos que foram viver na Amaz\u00f4nia para fugir da seca levaram a l\u00edngua portuguesa. Os nordestinos n\u00e3o tiveram uma l\u00edngua geral. Al\u00e9m disso, a l\u00edngua geral n\u00e3o era escrita, era s\u00f3 falada. A falada tem menos prest\u00edgio, a gente chama isso de diglossia. A de prest\u00edgio \u00e9 ensinada nas escolas, a sem prest\u00edgio \u00e9 falada em casa, \u00e9 a l\u00edngua do pov\u00e3o. A\u00ed fica essa ambival\u00eancia, isso acontece em muitos lugares do mundo. No \u00e1rabe, por exemplo, tem uma l\u00edngua que se escreve e as l\u00ednguas que se falam, que s\u00e3o v\u00e1rios dialetos.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o uma forma de preservar uma l\u00edngua \u00e9 escrev\u00ea-la?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, para haver algum fortalecimento, uma escolariza\u00e7\u00e3o. Os alunos na USP est\u00e3o traduzindo obras da literatura universal, por exemplo,\u00a0<em>O Pequeno Pr\u00edncipe<\/em>, que ser\u00e1 traduzido para o nheengatu e distribu\u00eddo na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>Escrever n\u00e3o contradiz a ess\u00eancia dessas l\u00ednguas, que \u00e9 a oralidade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Claro que n\u00e3o \u00e9 o ideal, o ideal \u00e9 que elas pudessem se manter pela fala. Mas essas s\u00e3o as l\u00ednguas-testemunho, s\u00e3o rel\u00edquias que precisam ser conhecidas para n\u00f3s mesmos nos conhecermos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta entrevista com\u00a0Eduardo Navarro\u00a0aborda as l\u00ednguas faladas pelos povos colonizados no Brasil.\u00a0 O que pode<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Esta entrevista com\u00a0Eduardo Navarro\u00a0aborda as l\u00ednguas faladas pelos povos colonizados no Brasil.\u00a0 O que pode","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78229"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78229"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78229\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}