{"id":78001,"date":"2018-01-02T12:06:12","date_gmt":"2018-01-02T15:06:12","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=78001"},"modified":"2018-01-02T12:06:12","modified_gmt":"2018-01-02T15:06:12","slug":"pesquisa-revela-falta-de-mobilidade-urbana-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisa-revela-falta-de-mobilidade-urbana-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Pesquisa revela falta de mobilidade urbana no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mobilidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-78002\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mobilidade-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mobilidade-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/mobilidade.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por\u00a0<a class=\"gui-color-primary-link\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/natureza\/blog\/nova-etica-social\/autor\/amelia-gonzalez\/\">Amelia Gonzalez<\/a><\/p>\n<p>Grandes cidades podem ser um celeiro de ideias, um estrondo de criatividade. Esta \u00e9 a maior vantagem de se morar em lugares que nem sempre oferecem o conforto e a tranquilidade de regi\u00f5es mais afastadas, onde se tem mais contato com a natureza e tranquilidade para ir e vir. Segundo Edward Glaeser, de \u201cOs Centros Urbanos\u201d (Ed. Campus), o conv\u00edvio mais estreito com o outro \u00e9 capaz de enriquecer grandes projetos e solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201cSeja nas galerias comerciais enfeitadas de Londres, seja nas ingovern\u00e1veis favelas do Rio, seja nos arranha-c\u00e9us de Hong Kong, seja nos ambientes de trabalho empoeirados de Dharavi, nossa cultura, nossa prosperidade e nossa liberdade s\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, d\u00e1divas obtidas pelo fato de as pessoas viverem, trabalharem e pensarem em conjunto: elas representam o triunfo definitivo da cidade\u201d, escreveu o norte-americano, que passou a vida estudando a economia das cidades.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Para isso, por\u00e9m, para que estejamos juntos, \u00e9 muito importante que as cidades ofere\u00e7am condi\u00e7\u00f5es para os moradores circularem livremente. Se n\u00e3o puderem se locomover, os cidad\u00e3os n\u00e3o podem trocar. N\u00e3o h\u00e1 como descobrir e permutar h\u00e1bitos e culturas, se o habitante ficar confinado entre pessoas que circulam exatamente pelos mesmos locais e vivam as mesmas situa\u00e7\u00f5es que a sua. D\u00e1 para notar, caro leitor, que o cap\u00edtulo mobilidade urbana merece, assim, uma aten\u00e7\u00e3o especial no amplo chap\u00e9u do desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Vou come\u00e7ar dando um exemplo pr\u00f3prio. Moro em Laranjeiras, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, cont\u00edguo a Botafogo. Por mais que sejam bem pr\u00f3ximos, a dificuldade de deslocamento entre eles, usando transporte p\u00fablico, \u00e9 imensa. Temos not\u00edcias de que os trabalhadores da Empresa S\u00e3o Silvestre, dona das duas \u00fanicas linhas que fazem o trajeto, est\u00e3o quase sempre paralisados por falta de pagamento. Sendo assim, n\u00e3o se espera menos do que uma hora para pegar o \u00f4nibus que far\u00e1 o trajeto que se consegue percorrer em quinze minutos sem tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim e mereceria uma aten\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. No entanto, n\u00e3o se compara ao drama que vivem os moradores de comunidades perif\u00e9ricas da cidade, sobretudo aqueles que precisam se deslocar diariamente para trabalhar.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Recebi em casa, por esses dias, uma pesquisa assinada por Sergio Veloso e Vin\u00edcius Santiago, pesquisadores e doutores em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do Brics Policy Center, publicada pela\u00a0<a style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\">Funda\u00e7\u00e3o Heinrich B\u00f6ll Brasil,\u00a0<\/a>que teve como objetivo apresentar a situa\u00e7\u00e3o da \u201cMobilidade Urbana como Direito \u00e0 Cidade\u201d no Complexo do Alem\u00e3o. Trata-se de um conjunto composto por 15 comunidades que, segundo o \u00faltimo Censo do IBGE, realizado h\u00e1 oito anos, tinha cerca de 60 mil moradores e 18 mil domic\u00edlios. Imagino que esses n\u00fameros j\u00e1 estejam subestimados.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A pesquisa foi feita em parceria com o Coletivo Papo Reto, formado por pessoas da comunidade. Essa associa\u00e7\u00e3o enriqueceu a pesquisa e foi, tamb\u00e9m, um jeito que os pesquisadores deram para conseguirem superar a reatividade dos moradores em responder \u00e0s perguntas. \u00c9 que um sem-n\u00famero de pesquisadores costumam frequentar o local para questionar um sem-n\u00famero de coisas para estudos diversos. E, no fim das contas, ningu\u00e9m volta para dar retorno, situa\u00e7\u00e3o que tem deixado os moradores, legitimamente, avessos a perguntas.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Contornado o problema, por\u00e9m, foram a campo. E mais um desafio precisou ser enfrentado: a viol\u00eancia. A partir das orienta\u00e7\u00f5es de Thain\u00e3 de Medeiros e Renata Trajano, do Coletivo Papo Reto, o question\u00e1rio deveria abordar o tema da viol\u00eancia como um dado a ser levado em conta: em dias de conflito, como se movem os moradores?<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201cEm fevereiro de 2017, at\u00e9 o m\u00eas de setembro do mesmo ano, houve tiroteios em aproximadamente 200 dias, ou seja, uma m\u00e9dia de 70% de dias com tiroteio em alguma \u00e1rea do Complexo. Mais especificamente, de acordo com o Coletivo Papo Reto, no m\u00eas de janeiro 48,39% dos dias tiveram tiroteios todos os dias. O cotidiano de tiroteios manteve o padr\u00e3o nos meses seguintes: 90,32% em mar\u00e7o; 70% em abril; 67,74% em maio; 83,33% em junho; em 74,19% em julho; 64,52% em agosto e em 56,67% em setembro\u201d, diz a pesquisa.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Em situa\u00e7\u00f5es como essa, em que mesmo os pesquisadores n\u00e3o puderam subir \u00e0s comunidades por causa do risco, \u201co tr\u00e2nsito pelas ruas e becos, a sa\u00edda dos moradores de casa para o trabalho, a entrada de trabalhadores na regi\u00e3o oriundos de outros locais da cidade e, enfim, o estado de normalidade do dia a dia da comunidade s\u00e3o suspensos, bem como os direitos b\u00e1sicos \u00e0 vida, \u00e0 moradia e ao acesso \u00e0 cidade\u201d. Neste cen\u00e1rio, a avalia\u00e7\u00e3o dos moradores \u00e9 de que o Estado entra com a for\u00e7a, diferentemente daquilo que ele deveria estar fazendo, que seria garantir o direito de locomo\u00e7\u00e3o dos moradores.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Antes de serem impossibilitados de trabalhar por causa dos tiroteios intensos, os pesquisadores conseguiram concluir que o \u00f4nibus \u00e9 o meio de transporte mais utilizado (52,2%) pela popula\u00e7\u00e3o entrevistada \u2013 84 mulheres, 76 homens e tr\u00eas pessoas que se autodeclararam de outro g\u00eanero, um total de 163 pessoas \u2013 para acessar o Centro da cidade. Em segundo lugar s\u00e3o usados os moto-t\u00e1xis e, em terceiro, as vans. Desses 52,2%, 46,6% disseram utilizar apenas um \u00f4nibus para chegar ao destino, enquanto 35% responderam que utilizam dois \u00f4nibus ou um \u00f4nibus e um metr\u00f4. Quase 30% criticaram bastante o estado dos \u00f4nibus.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Aqui, \u00e9 necess\u00e1rio fazer um link que n\u00e3o est\u00e1 na pesquisa. \u00c9 que, na hora de contratar um funcion\u00e1rio, sobretudo as pequenas empresas preferem aqueles que precisam utilizar apenas um transporte p\u00fablico para ir e outro para voltar de casa, pois o pre\u00e7o das passagens aumenta bastante o custo com empregados.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Ao serem perguntados para quais regi\u00f5es da idade o(a) entrevistado(a) se locomove com frequ\u00eancia, apenas 5,1% responderam que v\u00e3o at\u00e9 bairros da Zona Sul. A grande maioria \u2013 84,9% &#8211; transitam somente pela Zona Norte\/Centro e, mais especificamente, pelos arredores do Complexo do Alem\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Este dado \u201crevela a precariza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cidade por parte de sua popula\u00e7\u00e3o e reflete um aspecto caracter\u00edstico da segrega\u00e7\u00e3o social carioca, que divide a popula\u00e7\u00e3o e cria muros invis\u00edveis entre as v\u00e1rias zonas que comp\u00f5em o espa\u00e7o urbano do Rio de Janeiro\u201d, concluem os pesquisadores.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">J\u00e1 que estamos come\u00e7ando um novo calend\u00e1rio, pe\u00e7o licen\u00e7a aos leitores para voltar bastante no tempo. Vamos a 1933, quando aconteceu o IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (Ciam) realizado em Atenas. Dali resultou um produto chamado<span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u00a0\u00a0<\/span>\u201cCarta de Atenas\u201d, que aqui no Brasil s\u00f3 chegou em 1993 (Ed. USP), assinada\u00a0<span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u00a0<\/span>pelo famoso arquiteto Le Corbusier. O texto do documento re\u00fane sugest\u00f5es e propostas para uma cidade que funcionasse adequadamente para todos os seus habitantes, proporcionando qualidade de vida e bem-estar.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O texto \u00e9 separado em cap\u00edtulos e cada um tem as observa\u00e7\u00f5es dos arquitetos quanto aos problemas existentes e as sugest\u00f5es de mudan\u00e7as que deveriam ser endere\u00e7adas aos governantes. No cap\u00edtulo que nos interessa aqui, no documento descrito como \u201cCircula\u00e7\u00e3o\u201d, a exist\u00eancia de uma segrega\u00e7\u00e3o j\u00e1 se fazia sentir, criada pelas estradas de ferro.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201c&#8230; foram constru\u00eddas antes da prodigiosa expans\u00e3o industrial que elas mesmas provocaram. Penetrando nas cidades, elas seccionam arbritariamente zonas inteiras&#8230; elas isolam uns dos outros setores que viram-se privados de contatos para eles indispens\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A sugest\u00e3o dos arquitetos? \u201cRemediar, por meio de medidas adequadas, uma situa\u00e7\u00e3o que caminha para o desastre\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Deixo os leitores com essa possibilidade de reflex\u00e3o. Se tudo j\u00e1 foi dito e pensado, o que ainda falta dizer e pensar?<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Feliz 2018!<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Amelia Gonzalez Grandes cidades podem ser um celeiro de ideias, um estrondo de criatividade. 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