{"id":7590,"date":"2020-03-01T00:00:38","date_gmt":"2020-03-01T03:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=7590"},"modified":"2020-03-01T20:00:53","modified_gmt":"2020-03-01T23:00:53","slug":"afua-a-veneza-amazonica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/afua-a-veneza-amazonica\/","title":{"rendered":"Afu\u00e1, a Veneza amaz\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/afua.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7593\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/afua.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"383\" \/><\/a><\/p>\n<p><span class=\"autor\">Por Andr\u00e9 Juli\u00e3o<\/span><\/p>\n<p>\u00c0 media que ganho velocidade, o calor diminui. O inc\u00f4modo causado pelo suor se dissipa com o vento que bate no rosto. <strong>Pedalar <\/strong>ajuda a organizar as ideias, refresca os pensamentos. \u00c9 um exerc\u00edcio que minimiza minha condi\u00e7\u00e3o de forasteiro. Demorei a perceber isso. Para entender um pouco melhor das coisas do tr\u00e2nsito e da geografia locais, at\u00e9 aquele dia eu insistia em andar a p\u00e9, at\u00f4nito em meio ao rush de duas rodas e a algaravia de assobios, o c\u00f3digo usado pelos <strong>ciclistas <\/strong>para avisar aos transeuntes de sua passagem. Depois de sofrer por dias com o clima quente, o racioc\u00ednio traindo-me e o corpo sem querer sair debaixo do chuveiro frio, come\u00e7o a me sentir confort\u00e1vel. Por causa da <strong>bicicleta<\/strong>.<\/p>\n<p>O ve\u00edculo faz parte da identidade de <strong>Afu\u00e1<\/strong>, no noroeste da <strong>ilha de Maraj\u00f3<\/strong>, por cujas ruas pedalo cada vez mais r\u00e1pido. Nessa \u201c<strong>Veneza marajoara<\/strong>\u201d, a bicicleta \u00e9 uma resposta criativa a uma limita\u00e7\u00e3o da cidade \u2013 ou uma vantagem, a depender do ponto de vista. Como foi erguida sobre plataformas de madeira, de forma a n\u00e3o ser inundada pelas cheias dos tr\u00eas rios que a cercam, Afu\u00e1 provavelmente \u00e9 o \u00fanico munic\u00edpio brasileiro onde carros e motos s\u00e3o proibidos em toda sua extens\u00e3o. Isso a tornaria a \u00fanica cidade livre de emiss\u00f5es de gases de carbono, n\u00e3o fosse a energia el\u00e9trica gerada da queima de \u00f3leo diesel. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil crer que, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos beb\u00eas, cada um dos 35 mil habitantes de Afu\u00e1 tenha uma bike.<\/p>\n<p>A bicicleta \u00e9 protagonista da exist\u00eancia de um afuaense desde seu nascimento. Pelas ruas, a cena \u00e9 comum: uma m\u00e3e carrega seu beb\u00ea no colo enquanto, ela mesma, \u00e9 conduzida na garupa. Um garoto de 4 anos anda de p\u00e9 ali atr\u00e1s, apoiando-se no ombro do pai ou do irm\u00e3o mais velho. Aos 7, j\u00e1 pedala modelos grandes para ir \u00e0 escola ou ao jogo de futebol. Na adolesc\u00eancia, a bike o conduz a passeios com a primeira namorada. Adulto, segue para o trabalho ou para casa at\u00e9 sair para pedalar com a mulher gr\u00e1vida e, no futuro, com o filho, que, por sua vez, aos 4 anos&#8230;<\/p>\n<p>Essa era a doce vida do morador Sarito Souza, de 45 anos, que adorava carregar todos os filhos a bordo de sua Monark barra dupla circular. O problema \u00e9 que o n\u00famero de rebentos foi aumentando e, quando chegou a oito, a bicicleta j\u00e1 n\u00e3o dava conta. Premido pela necessidade, Souza teve a grande ideia: soldar duas delas \u2013 uma na outra. Instalou bancos mais confort\u00e1veis e uma cobertura para proteger do sol e da chuva, duas for\u00e7as que competem em intensidade na <strong>Amaz\u00f4nia<\/strong>. Nascia assim, em 1995, o \u201c<strong>bicit\u00e1xi<\/strong>\u201d. Quando os filhos estavam na escola, ele fazia corridas para quem n\u00e3o tivesse bicicleta. Durante a semana, faturava at\u00e9 40 reais por dia. Nos s\u00e1bados, domingos e feriados, a renda dobrava.<\/p>\n<p>Com o tempo, sua cria\u00e7\u00e3o virou mania nas ruas da cidade. Hoje, v\u00e1rias oficinas fabricam o ve\u00edculo, chamado por alguns afuaenses empolgados de \u201ccarro\u201d. Certos modelos chegam a ter carenagem de jipe em miniatura. Ningu\u00e9m, por\u00e9m, jamais sucumbiu aos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Nem aos pequenos motores el\u00e9tricos. Por mais elaborados que sejam, os bicit\u00e1xis usam apenas a energia f\u00edsica de seus donos. (Novos modelos servem para o transporte de a\u00e7a\u00ed, indiretamente seu combust\u00edvel, j\u00e1 que \u00e9 a base da alimenta\u00e7\u00e3o dos moradores, assim como o camar\u00e3o.)<\/p>\n<p>Por mais que tenha contribu\u00eddo para a economia local, Souza n\u00e3o det\u00e9m patente, apenas a fama pela inven\u00e7\u00e3o. Volta e meia \u00e9 visitado por equipes de TV, revistas e jornais para exibir a inovadora tecnologia marajoara. Uma de suas fontes de renda s\u00e3o os equipamentos de som que customiza para os bicit\u00e1xis. Os alto-falantes, depois de instalados, anunciam ofertas, produtos e aspirantes a pol\u00edticos em \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o. Mas a principal serventia \u00e9 permitir ao condutor ouvir, enquanto pedala, o tecnobrega, o zouk e as vers\u00f5es eletr\u00f4nicas da m\u00fasica sertaneja que ali s\u00e3o adaptadas ao ouvido local: ganham mais velocidade, mais graves, mais agudos, mais tudo. As m\u00fasicas s\u00e3o baixadas de gra\u00e7a da internet por uma popula\u00e7\u00e3o cada vez mais conectada.<\/p>\n<p><em>Um bicit\u00e1xi estacionado em um bar que s\u00f3 vende bebidas destiladas. A falta de emprego \u00e9 uma das raz\u00f5es do alcoolismo. A expans\u00e3o da cidade pode gerar mais postos de trabalho, assim como agravar os problemas sociais &#8211; Foto: Maur\u00edcio de Paiva<\/em><\/p>\n<p>Ve\u00edculo bonito, equipamento de som potente, computador mais atual: ambi\u00f5es como as de tantos brasileiros. Uma delas, apenas, \u00e9 imposta pela geografia. Em Afu\u00e1, as primeiras bicicletas apareceram nos anos 1970. At\u00e9 que, nos idos de 1990, vieram as motocicletas. \u201cQuem tinha uma n\u00e3o respeitava nem pedestre nem ciclista\u201d, lembra-se Souza. A proibi\u00e7\u00e3o veio logo. Al\u00e9m do risco de acidentes e da polui\u00e7\u00e3o, as motos \u2013 bem mais pesadas que as similares movidas a pedal \u2013 desgastavam as passarelas de madeira em menos tempo. N\u00e3o demoraram a ser banidas.<\/p>\n<p>Na <strong>cidade das bicicletas<\/strong>, os endere\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o nem avenidas nem ruas, mas sim rios, igarap\u00e9s, furos e outras bifurca\u00e7\u00f5es fluviais corriqueiras para aqueles que vivem \u00e0 margem dos rios \u2013 no caso, afluentes do Amazonas. Assim, em um s\u00e1bado ensolarado, Souza leva-me em uma jornada de voadeira (barco de alum\u00ednio com motor) ao \u201cinterior\u201d, como chamam as comunidades distantes da sede do munic\u00edpio. Tais lugares resumem-se a poucas casas \u00e0 beira de um rio de \u00e1gua cristalina. O tamanho dessas vilas contrasta com a magnitude do ambiente em que est\u00e3o inseridas, onde s\u00f3 cabem superlativos: Amazonas, a maior bacia hidrogr\u00e1fica do mundo; Maraj\u00f3, a maior ilha fluviomarinha do planeta. Tudo cercado pela maior floresta tropical da Terra.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 vila Tessal\u00f4nica. Ali, o movimento de avan\u00e7o e recuo do rio, com frequ\u00eancia, revela fragmentos de cer\u00e2mica marajoara, como vasos com grafismos complexos concebidos por povos ancestrais. Sem resgate apropriado, as pe\u00e7as acabam destru\u00eddas pela a\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e do sol. Os guardi\u00f5es desse tesouro s\u00e3o apenas os moradores \u2013 assim como em tantos lugares na ilha de Maraj\u00f3, onde se encontram vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos. Logo avisto a parte exposta da boca de uma urna, suficiente para comprovar que ali caberia um cr\u00e2nio e outros ossos humanos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso nenhuma rel\u00edquia dessas, por\u00e9m, para entrar em contato com um modo de vida antigo. O a\u00e7a\u00ed \u00e9 pe\u00e7a viva do quebra-cabe\u00e7a hist\u00f3rico da ocupa\u00e7\u00e3o humana na Amaz\u00f4nia. O fruto, consumido em toda a regi\u00e3o ainda hoje, j\u00e1 servia de alimento a civiliza\u00e7\u00f5es que tiveram seu apogeu na Amaz\u00f4nia por volta do ano 1000.<\/p>\n<p>No retorno \u00e0 vila onde passado e presente se sobrep\u00f5em, paramos na casa de Caetano Gon\u00e7alves, coletor que mora t\u00e3o pr\u00f3ximo do rio quanto dos p\u00e9s da fruta, em um arranjo perfeito para colher e vender a mercadoria \u00e0s grandes embarca\u00e7\u00f5es que chegam \u00e0 porta de sua casa. Ele nos recebe com alegria, embora lamente n\u00e3o estar a nossa espera. \u201cSe tivessem avisado que viriam, eu teria batido a\u00e7a\u00ed para todo mundo\u201d, diz.<\/p>\n<p>A polpa roxa de textura aveludada e sabor marcante \u00e9 comprada em qualquer esquina de Afu\u00e1, em m\u00e9dia, a 2 reais o litro. Em 2010, o munic\u00edpio produziu mais de 4 mil toneladas do fruto, movimentando cerca de 4,5 milh\u00f5es de reais. Fonte de nutrientes como c\u00e1lcio, ferro e pot\u00e1ssio, o alimento \u00e9 ainda mais farto e barato que o camar\u00e3o de \u00e1gua doce, que alguns moradores v\u00e3o ao rio, eles pr\u00f3prios, pescar com matapi, uma armadilha feita em fundo de quintal.<\/p>\n<p>Assim como o a\u00e7a\u00ed, o crust\u00e1ceo est\u00e1 arraigado na cultura local. H\u00e1 30 anos a cidade promove o Festival do Camar\u00e3o. No fim de julho, a popula\u00e7\u00e3o dobra por causa da chegada de turistas, \u00e1vidos pelas atra\u00e7\u00f5es musicais e pela \u201cbatalha camaroeira\u201d \u2013 uma cria\u00e7\u00e3o mais recente. Nesse embate, as agremia\u00e7\u00f5es de camar\u00e3o Convencido e Pavulagem disputam quem faz a melhor apresenta\u00e7\u00e3o, com base em v\u00e1rios crit\u00e9rios, nos moldes da festa amazonense do boi de Parintins.<\/p>\n<p>Como camar\u00e3o, a\u00e7a\u00ed e divers\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o problema, outras demandas sociais est\u00e3o transformando <strong>Afu\u00e1<\/strong>. A cidade recebe um fluxo cada vez maior de pessoas vindas de munic\u00edpios vizinhos e de comunidades ribeirinhas em busca de emprego e melhores condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Para abrigar toda essa gente, o munic\u00edpio cresce de maneira perigosa. Por volta de 20% da \u00e1rea urbanizada j\u00e1 tem passarelas de concreto, a maior parte no trecho em que atracam os barcos vindos de Bel\u00e9m e Macap\u00e1, que fica a apenas quatro horas de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>As oficinas e lojas de acess\u00f3rios para bicicleta s\u00e3o um indicador de como anda a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica local. Nos per\u00edodos que antecedem as elei\u00e7\u00f5es municipais, os lojistas sentem uma freada nas vendas. Como a principal fonte de emprego \u00e9 o funcionalismo p\u00fablico, ningu\u00e9m compra um pedal sequer at\u00e9 saber se ter\u00e1 emprego garantido no pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/afua1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7594\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/afua1.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"380\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ainda assim, novos moradores chegam sem parar. Encontro Jos\u00e9 Alves de Moraes no bairro Capim Marinho. Com lama no meio das canelas, ele constr\u00f3i uma pequena ponte que ligar\u00e1 a casa da filha com a rua. Moraes veio de Breves, munic\u00edpio vizinho. Comprou um terreno por 500 reais ao lado da filha, onde pretende construir o pr\u00f3prio lar. \u201cMeus filhos e genro t\u00eam emprego aqui, na prefeitura e em serrarias. Como este bairro vai melhorar, resolvi vir\u201d, diz. Logo atr\u00e1s, a floresta continua a ser derrubada a machado e fac\u00e3o para dar espa\u00e7o a moradias.<\/p>\n<p>\u201cPreciso me apoiar na \u00e1rvore que me faz sombra, n\u00e3o na que est\u00e1 pelada\u201d, filosofa o vigilante Pedro Sandis dos Santos, tamb\u00e9m morador do bairro. Ele exalta a constru\u00e7\u00e3o de escolas e um posto da Pol\u00edcia Militar e a melhoria nos servi\u00e7os de sa\u00fade \u2013 se ficar doente, o afuaense pode chamar uma \u201cbicil\u00e2ncia\u201d para lev\u00e1-lo ao ambulat\u00f3rio local. Se o caso for grave, vai a Macap\u00e1 de \u201cambulancha\u201d. Com tantas casas novas, o movimento nas serrarias \u00e9 intenso, o que gera muitos empregos e bastante moinha, res\u00edduo da plaina da madeira que se torna excelente cobertura dos campos de futebol da cidade.<\/p>\n<p>Outros dejetos n\u00e3o t\u00eam fim t\u00e3o l\u00fadico. Muito do que n\u00e3o chega ao lix\u00e3o para nos rios. Como em Afu\u00e1 rio e lar se confundem, \u00e9 comum ver latas e embalagens de pl\u00e1stico, entre outros produtos, boiando nas ruas durante a mar\u00e9-cheia. O saneamento b\u00e1sico \u00e9 prec\u00e1rio; n\u00e3o h\u00e1 rede de esgoto. Portanto, quem n\u00e3o tem fossa no fundo de casa \u00e9 obrigado a despejar os dejetos direto no solo e, por consequ\u00eancia, no rio. O prefeito Odimar Wanderley Salom\u00e3o me diz que a cidade \u00e9 baixa em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel do mar (at\u00e9 8 metros), o que dificulta a instala\u00e7\u00e3o de um sistema de esgotos. Mazinho Salom\u00e3o, como \u00e9 conhecido, fala ainda que est\u00e1 em estudo a implanta\u00e7\u00e3o de um sistema semelhante ao usado em algumas cidades europeias com topografia parecida, mas n\u00e3o sabe dizer quando Afu\u00e1 ter\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para o caso.<\/p>\n<p>Se for, de fato, instalada uma rede de esgotamento sanit\u00e1rio, ser\u00e1 um dia t\u00e3o importante quanto aquele, em 1871, em que foi inaugurada a Igreja de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o do Afu\u00e1, epicentro da vila que havia sido fundada 30 anos antes \u2013 apenas em 1890, com a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, Afu\u00e1 se tornou munic\u00edpio.<\/p>\n<p>A religiosidade continua intensa. Sou envolvido por ela durante uma prociss\u00e3o da Festividade de Nossa Senhora do Perp\u00e9tuo Socorro. Quando dou por mim, estou cantando no meio de uma multid\u00e3o conduzida por um belo <strong>bicit\u00e1xi <\/strong>verde, cujas caixas de som liberam a voz afinada de Eliz\u00e2ngela, mulher de Sarito Souza, que puxa os outros fi\u00e9is. Sigo o p\u00e9riplo e me sinto parte da cultura local. Depois de ter chegado dias antes a Afu\u00e1 a bordo do barco Virgem Maria, parto naquela noite no F\u00e9 em Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Juli\u00e3o \u00c0 media que ganho velocidade, o calor diminui. 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