{"id":73569,"date":"2017-10-08T10:01:07","date_gmt":"2017-10-08T13:01:07","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=73569"},"modified":"2017-10-08T10:01:07","modified_gmt":"2017-10-08T13:01:07","slug":"os-impactos-sociais-das-novas-renovaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/os-impactos-sociais-das-novas-renovaveis\/","title":{"rendered":"Os impactos sociais das novas renov\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/pagina22.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Retrato_Elbia-Gannoum-800x445.png\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o ABEE\u00f3lica\" width=\"639\" height=\"355\" \/><\/h1>\n<\/header>\n<p>Os ganhos ambientais das fontes solar e e\u00f3lica s\u00e3o facilmente identificados: combatem a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a emiss\u00e3o de poluentes. Mas, e os benef\u00edcios sociais? Nesta entrevista \u00e0\u00a0<strong>P\u00e1gina 22<\/strong>, a economista\u00a0<strong>Elbia Gannoum<\/strong>\u00a0explica como essas fontes tamb\u00e9m geram impactos positivos no campo socioecon\u00f4mico, na medida em que descentralizam riquezas e pulverizam o desenvolvimento \u2013 especialmente no interior do Nordeste, regi\u00e3o carente onde,\u00a0segundo ela, sopra o melhor do vento do mundo para produ\u00e7\u00e3o de energia. Gannoum\u00a0ressalta que, no caso da espec\u00edfico da e\u00f3lica, o ganho \u00e9 ainda maior porque permite produzir\u00a0energia nas alturas sem impedir a atividade econ\u00f4micas \u201cao n\u00edvel do solo\u201d.<\/p>\n<div class=\"entry-content clearfix\">\n<blockquote><p>Elbia Gannoum \u00e9 presidente executiva da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Energia E\u00f3lica (ABEE\u00f3lica) e especialista em regula\u00e7\u00e3o e mercados de energia el\u00e9trica. Em 2014, foi eleita pela revista inglesa\u00a0<em>Recharges \u2013 Renewable Thought Leader Club<\/em>\u00a0como uma das personalidades mais influentes em energias renov\u00e1veis no cen\u00e1rio global. Foi economista-chefe do Minist\u00e9rio de Minas e Energia (2003-2006), coordenadora de Pol\u00edtica Institucional do Minist\u00e9rio da Fazenda (2001-2002), assessora de assuntos econ\u00f4micos no Minist\u00e9rio de Minas e Energia (2001) e assessora na Aneel (2000-2001).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O ganho ambiental causado pelo uso de fontes como a solar e a e\u00f3lica \u00e9 bem conhecido. Um aspecto menos comentado s\u00e3o as externalidades sociais positivas. Como essas fontes podem gerar benef\u00edcios sociais?<\/strong><\/p>\n<p>As novas renov\u00e1veis \u2013 e\u00f3lica, solar, biomassa e Pequenas Centrais Hidrel\u00e9tricas \u2013 s\u00e3o fontes mais flex\u00edveis e portanto mais pulverizadas. Como est\u00e3o distribu\u00eddas regionalmente, quando voc\u00ea vai explor\u00e1-las, pulveriza tamb\u00e9m o desenvolvimento. A energia e\u00f3lica instalada no Brasil \u00e9 de 12 gigawatts, o mesmo que uma Belo Monte, s\u00f3 que \u00e9 uma Belo Monte espalhada em todo o Nordeste e no Sul [ao contr\u00e1rio do senso comum, a maior gera\u00e7\u00e3o de e\u00f3lica se encontra no interior e n\u00e3o no litoral].<\/p>\n<p><strong>Estamos usando a express\u00e3o \u201cnovas renov\u00e1veis\u201d em vez de \u201cfontes alternativas\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Alternativas n\u00e3o \u00e9 um bom conceito.<\/p>\n<p><strong>\u201cAlternativas\u201d sugere algo marginal, n\u00e3o \u00e9? Ao mesmo tempo \u201crenov\u00e1veis\u201d inclui hidrel\u00e9tricas, que t\u00eam forte impacto socioambiental negativo.<\/strong><\/p>\n<p>Usamos tamb\u00e9m a denomina\u00e7\u00e3o \u201crenov\u00e1veis n\u00e3o convencionais\u201d, enquanto o PDE [Plano Decenal de Expans\u00e3o de Energia] tem chamado de \u201cnovas renov\u00e1veis\u201d. Eu gosto de chamar de \u201crenov\u00e1veis complementares\u201d que, a meu ver, \u00e9 o que mais faz sentido no Brasil. A nossa matriz el\u00e9trica tem 65% de h\u00eddrica, e vamos manter essa fatia majorit\u00e1ria durante os pr\u00f3ximos 20, 30 anos. Assim, as fontes e\u00f3lica, solar, biomassa e PCH entram na matriz como complementares. Por defini\u00e7\u00e3o, pelo fato de serem pulverizadas, pulverizam o desenvolvimento econ\u00f4mico. Na e\u00f3lica, os ganhos socioecon\u00f4micos s\u00e3o at\u00e9 maiores que nas demais.<\/p>\n<p><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Porque a e\u00f3lica \u00e9 a \u00fanica forma de produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica que n\u00e3o concorre com demais atividades econ\u00f4micas. Quando se decide fazer solar, os pain\u00e9is ocupam o terreno e n\u00e3o sobra espa\u00e7o para mais nada. O mesmo ocorre nos casos de PCH e biomassa. No caso da e\u00f3lica, n\u00e3o. Voc\u00ea implanta o parque e, se tiver ali uma atividade agropecu\u00e1ria, essa atividade vai continuar sendo feita. Ent\u00e3o, em vez de retirar uma atividade econ\u00f4mica para gerar energia, voc\u00ea adiciona mais uma. Eu fui \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o de um parque e\u00f3lico no Rio Grande do Sul, na regi\u00e3o de Viam\u00e3o, e o dono do parque me disse assim: \u201cAqui, os fazendeiros produzem arroz, produzem gado e, no segundo andar, produzem vento!\u201d. Achei genial, porque \u00e9 isso: voc\u00ea instala a m\u00e1quina [o aerogerador] que gera energia l\u00e1 em cima e a vida continua aqui embaixo.<\/p>\n<p><strong>E quanto \u00e0quelas cr\u00edticas recorrentes, de que a e\u00f3lica produz barulho e mata p\u00e1ssaros?<\/strong><\/p>\n<p>Isso ficou no passado distante, est\u00e1 superado. Quanto ao barulho, foi desenvolvida tecnologia para que o ru\u00eddo do rotor diminu\u00edsse; hoje \u00e9 menor que 50 decib\u00e9is, \u00e9 baix\u00edssimo. Quanto aos p\u00e1ssaros, as torres antes tinham 50 metros de altura; hoje t\u00eam 100, 120 metros, ou seja, em geral os p\u00e1ssaros voam abaixo dessa altura. Al\u00e9m disso, no Brasil h\u00e1 um rigor ambiental segundo o qual os parques n\u00e3o podem ser constru\u00eddos nas rotas migrat\u00f3rias. A gente nunca teve problema com morte de p\u00e1ssaros, isso fica muito mais na lenda do que na realidade.<\/p>\n<p><strong>Como se d\u00e1 esse desenvolvimento socioecon\u00f4mico \u201cpulverizado\u201d pelas e\u00f3licas?<\/strong><\/p>\n<p>Geralmente essas propriedades s\u00e3o pequenas e as terras s\u00e3o arrendadas. Quem vai construir o parque faz um contrato de aluguel com os propriet\u00e1rios pelo prazo de 20 anos, com valores corrigidos pelo IPCA. O pagamento do arrendamento \u00e9 proporcional \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de energia, no valor m\u00e9dio mensal de R$ 800 por m\u00e1quina. As fam\u00edlias t\u00eam, em m\u00e9dia, duas ou tr\u00eas m\u00e1quinas no seu quintal.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o recebem uma renda fixa.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, uma renda fixa em uma regi\u00e3o em que as pessoas est\u00e3o acostumadas a viver do Bolsa Fam\u00edlia. Existe um segundo fator que \u00e9 empregar a m\u00e3o de obra local, para a constru\u00e7\u00e3o e depois para a manuten\u00e7\u00e3o do parque e\u00f3lico. Isso traz um movimento para a economia local. Assim, as fam\u00edlias podem investir mais na forma\u00e7\u00e3o dos filhos, reduzindo o \u00eaxodo rural. Muitos filhos acabam trabalhando nos parques.<\/p>\n<p>Em breve, ser\u00e1 lan\u00e7ado um document\u00e1rio que mostra o impacto social positivo da energia e\u00f3lica (<em>mais sobre o document\u00e1rio\u00a0<\/em>Ventos do Brasil<em>\u00a0ao final desta entrevista, assista ao trailer\u00a0<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/229801275\">aqui<\/a><\/em>). Uma das personagens ouvidas no filme conta que tinha medo do que poderia acontecer com a instala\u00e7\u00e3o das torres, ela achava que iam \u201croubar o vento\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ainda mais se fosse \u201cestocar\u201d, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>[Risos] E por fim h\u00e1 um terceiro fator do impacto positivo: as empresas de energia e\u00f3lica fazem espontaneamente projetos sociais para popula\u00e7\u00e3o. No Rio Grande do Norte h\u00e1 pelo menos tr\u00eas programas que conhe\u00e7o, mas tem v\u00e1rios outros, como no Cear\u00e1. No caso da CPFL, fizeram projetos de seguran\u00e7a h\u00eddrica, de parto humanizado e uma biblioteca. A gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica deve ter hoje cerca de 60 empreendedores.<\/p>\n<p><strong>O Brasil como um todo \u00e9 bom de vento?<\/strong><\/p>\n<p>O vento bom para e\u00f3lica est\u00e1 no Nordeste e no Sul, especificamente no Rio Grande do Sul. Em S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m tem um vento bom, igual ou melhor que o vento alem\u00e3o \u2013 a Alemanha tem 30 gigawatts de e\u00f3lica instalada. Mas o vento de S\u00e3o Paulo \u00e9 a metade do vento do Nordeste, ent\u00e3o n\u00e3o tem competitividade para ir a leil\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para fazer parque e\u00f3lico em S\u00e3o Paulo. O melhor vento do mundo est\u00e1 no Nordeste.<\/p>\n<p><strong>Os governantes no Nordeste est\u00e3o cientes dessa potencialidade toda?<\/strong><\/p>\n<p>Eles est\u00e3o sobrevivendo disso, j\u00e1. A e\u00f3lica come\u00e7ou a tomar for\u00e7a a partir de 2010, \u00e9 algo relativamente recente. O primeiro governador que teve essa sacada de investimento foi o Jaques Wagner [foi governador da Bahia de 2007 a 2014] e hoje a Bahia est\u00e1 em primeiro lugar, somando o que est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o e o que est\u00e1 sendo gerado. O segundo governador que sacou isso \u00e9 o do Piau\u00ed. Hoje, o Rio Grande do Norte, que tem a maior capacidade instalada, tinha petr\u00f3leo no passado, mas o petr\u00f3leo esgotou. A principal hoje fonte \u00e9 a e\u00f3lica. Eles sabem, sim, a import\u00e2ncia.<\/p>\n<blockquote><p>O Nordeste era praticamente abastecido pela hidrel\u00e9trica de Sobradinho, do Rio S\u00e3o Francisco. Os parques chegaram em 2011, e seca de Sobradinho veio em 2013. Se hoje n\u00e3o tivesse parque e\u00f3lico, o Nordeste estaria sem luz. J\u00e1 enfrentam falta de d\u2019\u00e1gua, e ficariam tamb\u00e9m sem luz.<\/p><\/blockquote>\n<p>Hoje a e\u00f3lica atende a 60% das necessidades de energia no Nordeste, em m\u00e9dia. Se n\u00e3o tivesse essa e\u00f3lica l\u00e1, o Brasil tamb\u00e9m teria passaria por dificuldade de abastecimento, porque j\u00e1 chegamos a atender 15% das necessidades do Pa\u00eds\u00a0\u00a0em determinados momentos.<\/p>\n<p><strong>A expans\u00e3o da fonte e\u00f3lica sofre hoje alguma dificuldade?<\/strong><\/p>\n<p>A dificuldade \u00e9 a mesma da economia como um todo. Se a economia n\u00e3o cresce, n\u00e3o tem demanda, logo n\u00e3o tem investimento. Mas fora isso, n\u00e3o tem empecilho.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o falta uma pol\u00edtica p\u00fablica, energ\u00e9tica, voltada para isso?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem pol\u00edtica, mas n\u00e3o creio que tenha de ter. Alguns v\u00edcios nossos precisam ser esquecidos. Ontem mesmo (dia 17\/8) eu estava aqui com a Dorothea Werneck [ex-ministra da Ind\u00fastria e do Com\u00e9rcio], e ela disse uma frase que eu sempre falo: \u201cA gente tem que parar com essa hist\u00f3ria de o governo \u2018tem que\u2019\u201d. O governo n\u00e3o \u201ctem que\u201d nada, o governo tem \u00e9 que sair da frente, para n\u00e3o atrapalhar, porque o governo atrapalha. A pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 importante quando \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver um certo segmento que custa caro e n\u00e3o tem competitividade.<\/p>\n<p><strong>Na Alemanha, o governo teve forte participa\u00e7\u00e3o para incentivar as renov\u00e1veis, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Mas \u00e9 muito diferente. A pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 importante quando voc\u00ea n\u00e3o tem outros instrumentos. O Brasil naturalmente tem a produ\u00e7\u00e3o de energia a partir de fontes renov\u00e1veis. \u00c9 mais barato que o f\u00f3ssil. Por que a Alemanha e os Estados Unidos fizeram pol\u00edtica? Porque l\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de energia de fonte f\u00f3ssil \u00e9 mais barata. L\u00e1, se voc\u00ea quiser renov\u00e1vel, tem de fazer pol\u00edtica, Mas aqui \u00e9 o contr\u00e1rio, se precisar expandir a matriz, ser\u00e1 por renov\u00e1veis, que s\u00e3o mais competitivas naturalmente, olha o hist\u00f3rico de hidrel\u00e9tricas.<\/p>\n<p><strong>Mas para expandir as \u201cnovas renov\u00e1veis\u201d n\u00e3o precisa de pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m acho que n\u00e3o precisa, sabe por qu\u00ea? O Brasil \u00e9 rico em recursos naturais para a produ\u00e7\u00e3o de energia. Voc\u00ea faz pol\u00edtica quando precisa de outra fonte, e neste momento n\u00e3o precisamos. A e\u00f3lica \u00e9 hoje a fonte de energia mais barata do Brasil. O potencial e\u00f3lico brasileiro conhecido hoje equivale a tr\u00eas vezes a necessidade de energia do Brasil. Ent\u00e3o por que o Pa\u00eds investiria em, por exemplo, gera\u00e7\u00e3o de energia de ondas do mar, que custa R$ 1.200 para produzir, enquanto a e\u00f3lica custa R$ 200?<\/p>\n<p><strong>Se a e\u00f3lica \u00e9 t\u00e3o competitiva, por que prospectar novas hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia, com todo o impacto socioambiental que causam? H\u00e1 v\u00e1rios projetos engatilhados l\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o sai. H\u00e1 uma press\u00e3o socioambiental muito forte contra as hidrel\u00e9tricas, e n\u00e3o faz sentido que saiam, sendo que as novas renov\u00e1veis est\u00e3o dispon\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Qual a previs\u00e3o de crescimento das e\u00f3licas?<\/strong><\/p>\n<p>Os contratos s\u00e3o feitos com 3 a 5 anos de anteced\u00eancia. Com base nisso, h\u00e1 uma curva de crescimento, desde 2009, de uma m\u00e9dia de 2 gigawatts por ano de venda e de instala\u00e7\u00e3o. Essa curva tem se mantido. Em 2016, n\u00e3o teve venda, n\u00e3o teve leil\u00e3o, porque n\u00e3o teve demanda. Em 2020, devemos chegar a 18 gigawatts, que \u00e9 o que est\u00e1 contratado.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, o crescimento depende de uma curva de PIB, mas n\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o de outras fontes por e\u00f3lica?<\/strong><\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o ocorre em pa\u00edses desenvolvidos, como os europeus. O consumo\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0de energia no Brasil est\u00e1 crescendo 0,7%, com potencial de chegar a 1,3%. J\u00e1 na Europa, o consumo estagnou h\u00e1 muitos anos e eles est\u00e3o fazendo substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mas aqui n\u00e3o \u00e9 o caso de fazer substitui\u00e7\u00e3o das termel\u00e9tricas, que v\u00e3o na contram\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, inclusive pelo que foi assumido pelo Brasil no Acordo de Paris?<\/strong><\/p>\n<p>Mas a conta de emiss\u00e3o do Brasil \u00e9 muito boa, o Brasil ainda tem espa\u00e7o para queimar combust\u00edvel. E tem um conceito muito importante na matriz el\u00e9trica que \u00e9 o conceito da seguran\u00e7a de suprimento. Voc\u00ea n\u00e3o pode fazer uma matriz voltada s\u00f3 para uma fonte, precisa diversificar. No caso do Brasil, que usa muita renov\u00e1vel, precisa que parte venha de termel\u00e9tricas, para garantir o suprimento, porque a natureza \u201cfalha\u201d e voc\u00ea n\u00e3o estoca vento, n\u00e3o estoca sol, a despeito de muita gente achar.<\/p>\n<p>No passado, a gente estocava \u00e1gua [nos grandes reservat\u00f3rios], mas, na medida em que a demanda foi crescendo, o reservat\u00f3rio\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0caiu. Ent\u00e3o precisa manter termel\u00e9tricas como\u00a0<em>backup<\/em>. Nos \u00faltimos dois, tr\u00eas anos, estamos vivendo uma conjuntura n\u00e3o agrad\u00e1vel. Contratamos para servir de\u00a0<em>backup<\/em>, mas elas est\u00e3o sendo usadas com muita frequ\u00eancia, e isso tem trazido toda essa discuss\u00e3o de bandeira vermelha etc. Isso foi uma falha de planejamento. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso: tem acontecido um fen\u00f4meno que n\u00f3s, especialistas, estamos percebendo fortemente agora, que \u00e9 o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. A gente tinha um c\u00e1lculo de previs\u00e3o de reservat\u00f3rio, de chuva, mas, desde 2013, a hidrologia est\u00e1 nos surpreendendo. Sobradinho j\u00e1 est\u00e1 no limite e n\u00e3o volta nunca mais. Sabe quando a gente percebeu isso?<\/p>\n<p><strong>Agora?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 seis meses. Ent\u00e3o n\u00f3s, brasileiros, que conhecemos tanto de h\u00eddrica, n\u00e3o estamos sabendo lidar com o fen\u00f4meno da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. E \u00e9 esse fen\u00f4meno que est\u00e1 levando ao uso exagerado das termel\u00e9tricas.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o d\u00e1 para substituir o uso das termel\u00e9tricas pelo maior uso de e\u00f3licas porque n\u00e3o existe uma regularidade de ventos que garantisse a seguran\u00e7a energ\u00e9tica, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje eu poderia facilmente substituir essa termel\u00e9trica pela e\u00f3lica do ponto de vista t\u00e9cnico, mas n\u00e3o do ponto de vista comercial, porque j\u00e1 contratei essa termel\u00e9trica. Existe um contrato e o Brasil tem de pagar, com o dinheiro do consumidor.<\/p>\n<p><strong>Esse \u00e9 o motivo, ent\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da seguran\u00e7a energ\u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<p>Existe um percentual m\u00ednimo de termel\u00e9trica que garante a seguran\u00e7a, mas hoje estamos usando al\u00e9m desse n\u00edvel, por causa do c\u00e1lculo da hidrologia. Se eu fizer o c\u00e1lculo correto hoje, no lugar do reservat\u00f3rio de \u00e1gua que n\u00e3o existe mais, eu consigo colocar mais e\u00f3lica. Mas o que vou fazer com o contrato?<\/p>\n<p><strong>O contrato vai at\u00e9 quando? N\u00e3o pode ser rescindido?<\/strong><\/p>\n<p>Vai at\u00e9 2022. A rescis\u00e3o \u00e9 muito cara. O Brasil n\u00e3o parece um pa\u00eds s\u00e9rio, mas \u00e9 s\u00e9rio sob v\u00e1rios aspectos, e cumpre esse tipo de contrato. A Espanha em 2014 cancelou um monte de contratos. O Brasil nunca fez isso e n\u00e3o deve fazer mesmo, contrato \u00e9 contrato. O que v\u00e3o fazer \u00e9 uma substitui\u00e7\u00e3o gradual. E construir um parque gerador, seja de solar ou e\u00f3lica, leva pelo menos dois, tr\u00eas anos. Como a gente percebeu esse problema da mudan\u00e7a clim\u00e1tica tamb\u00e9m h\u00e1 dois, tr\u00eas anos, est\u00e1 aplicando os mecanismos de corre\u00e7\u00e3o, mas isso toma um tempo.<\/p>\n<p>A t\u00e9rmica sempre far\u00e1 parte da matriz, a discuss\u00e3o \u00e9 qual combust\u00edvel usar e qual pre\u00e7o vai pagar, porque hoje a gente est\u00e1 usando o combust\u00edvel mais poluente [diesel] e caro. O g\u00e1s natural, \u00e9 o mais indicado entre os f\u00f3sseis, porque \u00e9 menos poluente \u2013 sua emiss\u00e3o \u00e9 50% menor que a do carv\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A microgera\u00e7\u00e3o de e\u00f3lica, em condom\u00ednios, por exemplo, tamb\u00e9m \u00e9 eficiente?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. A microgera\u00e7\u00e3o faz sentido para a fonte solar. Enquanto o Sol \u00e9 para todos, o vento \u00e9 localizado. Os microaerogeradores funcionam somente a partir de uma determinada velocidade de vento, dependem de posicionamento da torre, ent\u00e3o n\u00e3o faz tanto sentido.<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode influenciar os ventos, por exemplo, mudar sua dire\u00e7\u00e3o, sua intensidade?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma pergunta importante, mas os cientistas ainda n\u00e3o trouxeram uma resposta satisfat\u00f3ria. Ningu\u00e9m tem d\u00favida que causa influ\u00eancia, mas n\u00e3o se sabe o grau nem como essa influ\u00eancia ocorre. A gente sabe que tem uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre chuva e vento, em geral quando est\u00e1 chovendo n\u00e3o venta. Estamos percebendo que nos \u00faltimos anos tem ventado mais, e estamos produzindo mais energia e\u00f3lica.<\/p>\n<p><strong>Existe uma diferen\u00e7a entre o vento do Nordeste e o do Sul?<\/strong><\/p>\n<p>No Nordeste, o vento \u00e9 mais constante, \u00e9 mais, digamos assim, rotineiro. No Sul, o vento apresenta umas subidas, umas varia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote><p>No Sul, as pessoas sabem tudo sobre vento, o vento tem nome, o vento tem at\u00e9 rosto! [risos] Tem o Sul, o Nordest\u00e3o, o Sudeste, o Minuano. O Minuano, que sopra mais na fronteira, \u00e9 um vento gelado, um vento que assovia. Tem muita poesia e literatura no Sul girando em torno do vento.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>O Tempo e o Vento<\/em>\u00a0[s\u00e9rie liter\u00e1ria de \u00c9rico Ver\u00edssimo]\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Sim! Eu morava em Florian\u00f3polis para estudar doutorado e alugava a casa da senhorinha que morava em frente. Ela me acordava para a faculdade batendo na janela: \u201cMinha filha, minha filha, acorda! Bota um casaquinho porque \u00e9 vento Sul, \u00e9 vento Sul!\u201d [risos]<\/p>\n<p><strong><em>Saiba mais:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O document\u00e1rio\u00a0<em>Ventos do Brasil,<\/em>\u00a0com dire\u00e7\u00e3o executiva de F\u00e1tima Lins e Tereza Farias, da 3M Editora e Comunica\u00e7\u00e3o, deve ser lan\u00e7ado em outubro. Ser\u00e1 exibido em tev\u00ea aberta no primeiro semestre de 2018 e estar\u00e1 dispon\u00edvel no site da 3M Editora.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os ganhos ambientais das fontes solar e e\u00f3lica s\u00e3o facilmente identificados: combatem a mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Os ganhos ambientais das fontes solar e e\u00f3lica s\u00e3o facilmente identificados: combatem a mudan\u00e7a clim\u00e1tica","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73569"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73569\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}