{"id":73283,"date":"2017-10-02T12:19:59","date_gmt":"2017-10-02T15:19:59","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=73283"},"modified":"2017-10-02T12:19:59","modified_gmt":"2017-10-02T15:19:59","slug":"asas-cortadas-passaros-da-fauna-piauiense-sofrem-com-trafico-de-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/asas-cortadas-passaros-da-fauna-piauiense-sofrem-com-trafico-de-animais\/","title":{"rendered":"Asas cortadas: p\u00e1ssaros da fauna piauiense sofrem com tr\u00e1fico de animais"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/papagaio.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-73284\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/papagaio-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/papagaio-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/papagaio.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Os p\u00e1ssaros cantam de cabe\u00e7a baixa. S\u00e3o animais que foram mutilados por seres humanos e traficados como objetos de valor, ou melhor, como animais sem valor. Papagaios, jandaias e cardeais vivem em uma esp\u00e9cie de hospital, onde passam por tratamento para se recuperarem dos maus tratos. Muitos deles, no entanto, jamais ficar\u00e3o saud\u00e1veis. Entre os p\u00e1ssaros, h\u00e1 duas jandaias sol, a ave s\u00edmbolo de Teresina (PI).<\/p>\n<p>Lacerda mostra o viveiro dos passados mutilados. \u201cEles fazem o corte da asa para que o animal n\u00e3o voe mais. \u00c0s vezes, cortam as penas com uma tesoura. Nesses casos, demoram de um a dois anos para se recuperarem\u201d, explica o veterin\u00e1rio, apontando para o viveiro. Mas estes, eles seccionam a \u00faltima articula\u00e7\u00e3o, a ponta da asa. A\u00ed o animal est\u00e1 condenado pelo resto da vida a um cativeiro. Nunca mais vai voar\u201d.<\/p>\n<p><b>Com\u00e9rcio<\/b><\/p>\n<p>A rua Firmino Pires, no centro de Teresina, \u00e9 conhecida popularmente como a \u201cRua dos P\u00e1ssaros\u201d. A denomina\u00e7\u00e3o remonta a um per\u00edodo anterior \u00e0 lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, que proibiu o com\u00e9rcio dos animais. No entanto, a pr\u00e1tica ainda continua atrav\u00e9s do mercado negro, escondido por tr\u00e1s de lojas de produtos como gaiolas e ra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O canto de p\u00e1ssaros dom\u00e9sticos ainda cobre a rua: periquitos australianos, calopsitas e can\u00e1rios se amontoam em grandes gaiolas esperando compradores. S\u00e3o vendidos em casais.<\/p>\n<p>A reportagem entrou em uma dessas lojas e conversou com um vendedor, fingindo interesse em um papagaio. O rapaz de aparentemente 18 anos hesitou por um instante, mas confirmou que a venda acontece no final de semana. Segundo ele, os animais n\u00e3o ficam expostos na rua, mas escondidos em locais pr\u00f3ximos. S\u00e3o vendidos por at\u00e9 R$ 400, mas os vendedores s\u00e3o cautelosos.<\/p>\n<p>Em outra loja, o vendedor \u00e9 menos cuidadoso. \u201cNo domingo voc\u00ea encontra. Vem aqui e fala comigo, que eu te mostro quem \u00e9 o cara\u201d, fala.<\/p>\n<p>A primeira delegacia especializada em meio ambiente do Piau\u00ed foi fundada h\u00e1 apenas dois meses. A delegada Bruna Verana afirma que os primeiros trabalhos s\u00e3o de conscientiza\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o.\u00a0\u201c\u00c9 um crime cultural, mas a gente orienta a popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do impacto ambiental, os animais silvestres transmitem doen\u00e7as. \u00c9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica\u201d, comenta.<\/p>\n<p><b>Tr\u00e1fico<\/b><\/p>\n<p>Tr\u00e1fico de animais silvestres \u00e9 crime e a pena varia de seis meses a um ano. A multa \u00e9 de R$ 500 para cada animal encontrado, e de R$ 5 mil para cada animal presente na lista de amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o.\u00a0\u201cA gente tamb\u00e9m orienta a popula\u00e7\u00e3o que entregue os animais para o Ibama, de forma volunt\u00e1ria. Se devolver n\u00e3o \u00e9 crime, mas se a gente fizer o resgate a partir de uma den\u00fancia, \u00e9\u201d, disse a delegada.<\/p>\n<p>Este tipo de crime acontece desde o descobrimento do Brasil, como destaca o superintendente R\u00f4mulo Pedrosa, chefe da divis\u00e3o t\u00e9cnica do Ibama. \u201cO primeiro caso foi registrado em 1500. Quando os europeus chegaram aqui, se deslumbraram com os animais coloridos, diferentes, e levaram para seus pa\u00edses. Isso acabou se tornando, com o passar dos anos, uma falsa cultura de que \u00e9 saud\u00e1vel ter um animal silvestre em casa\u201d, contextualiza.<\/p>\n<p>As principais v\u00edtimas desse crime s\u00e3o as aves, por serem mais f\u00e1ceis de transportar e vender. Entre as esp\u00e9cies da fauna piauiense que s\u00e3o mais encontradas em poder traficantes est\u00e3o as araras, os papagaios, as jandaias, o xex\u00e9u, o chico preto, o curi\u00f3, o sabi\u00e1.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos p\u00e1ssaros, jabutis, macacos e tatus tamb\u00e9m s\u00e3o sequestrados de seus habitats para serem comercializados. \u201cPelas nossas a\u00e7\u00f5es, existe uma prefer\u00eancia pelos p\u00e1ssaros de canto, como curi\u00f3, e pelo papagaio, por que imita a voz humana. Mas o canto de um p\u00e1ssaro engaiolado n\u00e3o \u00e9 um canto de alegria, \u00e9 um canto de tristeza\u201d, disse R\u00f4mulo.<\/p>\n<p>Os animais retirados da natureza s\u00e3o transportados de forma cruel e at\u00e9 90% dos p\u00e1ssaros morrem antes de alcan\u00e7ar o destino. Quando sobrevivem, s\u00e3o vendidos de forma ilegal e escondida. Muitos s\u00e3o transportados entre estados do Brasil e at\u00e9 mesmo para o exterior, onde um papagaio pode ser vendido por valores altos, que atingem a casa dos milhares de reais.<\/p>\n<div id=\"attachment_696288\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-696288      ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed    ed   lazyloaded\" src=\"https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2.jpg\" sizes=\"(max-width: 850px) 100vw, 850px\" srcset=\"https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2.jpg 850w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-250x167.jpg 250w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-100x67.jpg 100w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-177x118.jpg 177w\" alt=\"Na rua Firmino Pires, a venda de animais amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o acontece aos finais de semana\" width=\"850\" height=\"567\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2.jpg\" data-lazy-srcset=\"https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2.jpg 850w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-250x167.jpg 250w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-100x67.jpg 100w, https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/traf2-177x118.jpg 177w\" data-lazy-sizes=\"(max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Na rua Firmino Pires, a venda de animais amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o acontece aos finais de semana. (Foto: Assis Fernandes\/O Dia)<\/p>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 casos at\u00e9 de animais usados como moeda de troca para a compra de drogas em bocas de fumo. O com\u00e9rcio de animais, em escala global, \u00e9 a terceira atividade il\u00edcita que mais movimenta dinheiro, atr\u00e1s apenas do tr\u00e1fico de drogas e do tr\u00e1fico de armas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do sofrimento imposto para os animais, o tr\u00e1fico tamb\u00e9m gera impactos para o meio ambiente. Uma esp\u00e9cie retirada de uma regi\u00e3o deixa de praticar seu papel na natureza. Ao espalhar sementes por onde passam, os p\u00e1ssaros fazem a arboriza\u00e7\u00e3o natural das florestas.<\/p>\n<p>A extin\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de p\u00e1ssaros pode, por exemplo, gerar o fim de uma esp\u00e9cie de \u00e1rvore. \u201cImpacto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o p\u00e1ssaro ou o animal que est\u00e1 engaiolado, enjaulado, ou indo para a panela. S\u00e3o impactos em cadeia, que passam despercebidos\u201d, comenta R\u00f4mulo Pedrosa.<\/p>\n<p><b>Sofrimento<\/b><\/p>\n<p>Ao comentar a crueldade que os p\u00e1ssaros traficados sofrem, Lacerda relembra a letra de \u201cAssum Preto\u201d, do compositor pernambucano Lu\u00eds Gonzaga: \u201cTalvez por ignor\u00e2ncia \/ Ou maldade das piores \/ Furaram os olhos do Assum Preto \/ Pra ele assim, ai, cantar melhor\u201d.<\/p>\n<p>Alguns p\u00e1ssaros, segundo Lacerda, t\u00eam os olhos expostos \u00e0 luz forte e direta, at\u00e9 ficarem cegos, para que sejam incapazes de fugir. Outros s\u00e3o feridos para que sejam transportados sem fazer barulho. Lacerda lembra um caso em que muitas aves foram enroladas em jornais molhados de \u00e9ter para que ficassem anestesiadas. Todas chegaram mortas.<\/p>\n<p><b>Recupera\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Quando s\u00e3o resgatadas, o primeiro destino \u00e9 o Cetas, que possui\u00a0corredores de voo. S\u00e3o viveiros compridos, onde alguns animais ficam para recuperar a capacidade de voar e de se relacionar com outros p\u00e1ssaros. Animais que s\u00e3o engaiolados ficam com as asas atrofiadas e precisam de at\u00e9 dois anos em tratamento para conseguir recuperar os movimentos. \u201cEles recuperam tamb\u00e9m a quest\u00e3o social, j\u00e1 que s\u00e3o animais que vivem em grupo. J\u00e1 tivemos at\u00e9 um acasalamento, o que \u00e9 muito raro\u201d, conta Lacerda.<\/p>\n<p>Quando est\u00e3o aptos a serem soltos, os p\u00e1ssaros s\u00e3o enviados para locais espec\u00edficos, onde exista uma esp\u00e9cie determinada. Se forem soltas em um local onde ele n\u00e3o s\u00e3o capazes de se adaptarem, as aves podem ser mortas ou mesmo matar outras esp\u00e9cies, causando desequil\u00edbrio no ambiente.<\/p>\n<p>Por conta desse crit\u00e9rio, muitos animais salvos no Piau\u00ed, mas que s\u00e3o de outras regi\u00f5es, t\u00eam de ser \u201crepatriados\u201d para seus estados de origem e vice-versa. Recentemente, papagaios encontrados em estados do Sul do pa\u00eds foram enviados pelo Ibama local de volta para o Piau\u00ed e est\u00e3o em tratamento.<\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio de sofrimento, \u00e9 nos corredores de voo que mora a esperan\u00e7a dentro do Cetas. Na \u00faltima semana, cerca de 10 papagaios conclu\u00edram seus tratamentos e foram soltos pelos fiscais do Ibama. H\u00e1 casos, ainda, em que os animais s\u00e3o encontrados em bom estado de sa\u00fade e podem ser soltos logo.<\/p>\n<p>Lacerda relembra um caso recente, em que cerca de 2600 p\u00e1ssaros foram salvos pela Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal na cidade de Floriano. \u201cHaviam sido pegos h\u00e1 uns quatro dias, todos ainda em estado saud\u00e1vel. Observei os animais, uns ainda estavam trocando penas.\u00a0Havia caixotes com 50 animais. S\u00f3 soltamos eles e sa\u00edram todos voando\u201d, comemora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os p\u00e1ssaros cantam de cabe\u00e7a baixa. 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