{"id":72928,"date":"2017-09-25T13:04:59","date_gmt":"2017-09-25T16:04:59","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=72928"},"modified":"2017-09-25T13:06:08","modified_gmt":"2017-09-25T16:06:08","slug":"o-fim-do-inverno-nos-campos-naturais-do-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-fim-do-inverno-nos-campos-naturais-do-parana\/","title":{"rendered":"O fim do inverno nos Campos Naturais do Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<h2><span class=\"author_alias\">Por Cl\u00f3vis Borges<\/span><\/h2>\n<div class=\"post-content\">\n<div id=\"attachment_56023\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-56023\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Lobo-Guar%C3%A1-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Lobo-Guar\u00e1-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Lobo-Guar\u00e1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Lobo-Guar\u00e1-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Lobo-Guar\u00e1-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Lobo-Guar\u00e1.jpg 1152w\" alt=\"Lobo-guar\u00e1 fotografado na \u00e1rea da APA da Escarpa Devoniana. Foto: Romulo C\u00edcero da Silva.\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Lobo-guar\u00e1 fotografado na \u00e1rea da APA da Escarpa Devoniana. Foto: Romulo C\u00edcero da Silva.<\/p>\n<\/div>\n<p>Nasci h\u00e1 tr\u00eas anos, num pequeno c\u00e2nion, ao longo da Escarpa Devoniana, essa forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica que separa o primeiro e o segundo planalto do Paran\u00e1. Nos meus primeiros meses de vida, aquele local parecia um espa\u00e7o ideal, suficiente para um privilegiado per\u00edodo de conviv\u00eancia com meus dois irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Receb\u00edamos a aten\u00e7\u00e3o cuidadosa de nossa m\u00e3e, que se mantinha uma parte do tempo \u00e0 dist\u00e2ncia, em busca de ca\u00e7a para nossa subsist\u00eancia. Um desafio e tanto que, de alguma maneira, propiciou a condi\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o da nossa pequena fam\u00edlia. S\u00f3 muito tempo depois passei a descobrir que o espa\u00e7o imediatamente seguinte ao local onde viv\u00edamos era cercado de planta\u00e7\u00f5es que praticamente tomavam conta da paisagem.<\/p>\n<p>Quando passamos a buscar nosso pr\u00f3prio alimento \u00e9 que descobrimos o qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 conseguir sobreviver num ambiente com altera\u00e7\u00f5es t\u00e3o intensas. Os Campos Naturais, que nos d\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de acesso ao alimento, baseado em diversas esp\u00e9cies nativas de pequenos roedores e marsupiais, n\u00e3o existem mais. A n\u00e3o ser em pequenas bordas de afloramentos rochosos, onde aparentemente o ser humano ainda n\u00e3o conseguiu encontrar alguma forma de explora\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A realidade de nosso dia a dia, na pr\u00e1tica, envolve um complexo processo de esquiva, no qual a presen\u00e7a de ca\u00e7adores deve ser constantemente parte de nossa aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta encontrar alimento. Temos que evitar a presen\u00e7a humana de todas as maneiras, uma vez que ainda existe uma cont\u00ednua a\u00e7\u00e3o de preda\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies que ocorrem nas \u00e1reas nativas do Paran\u00e1, muito pouco protegidas, submetidas sistematicamente a a\u00e7\u00f5es hostis e contr\u00e1rias \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">\u201cOs Campos Naturais e as Florestas com Arauc\u00e1ria, que um dia cobriram todo o segundo planalto, se esgueiram em fra\u00e7\u00f5es cada vez menores do territ\u00f3rio\u201d.<\/div>\n<p>H\u00e1 dois anos n\u00e3o encontro mais minha m\u00e3e e meus irm\u00e3os. Seguiram destino pr\u00f3prio, buscando espa\u00e7os poss\u00edveis para a constante luta para manter uma popula\u00e7\u00e3o m\u00ednima de nossa esp\u00e9cie na regi\u00e3o. Mas j\u00e1 representamos uma raridade, frente \u00e0 pequena densidade de indiv\u00edduos que ainda subsistem, a despeito das press\u00f5es existentes. Mesmo assim, o futuro \u00e9 claramente incerto. Os Campos Naturais e as Florestas com Arauc\u00e1ria, que um dia cobriram todo o segundo planalto, se esgueiram em fra\u00e7\u00f5es cada vez menores do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u00c9 no inverno que a situa\u00e7\u00e3o fica mais complicada para n\u00f3s. A falta de chuvas, queimadas frequentes e a car\u00eancia de alimento nos castigam duramente. Encontrar ca\u00e7a selvagem em condi\u00e7\u00f5es assim t\u00e3o adversas pode ser quase imposs\u00edvel, limitando drasticamente a sobreviv\u00eancia de toda nossa popula\u00e7\u00e3o. Aos que conseguiram subsistir, o in\u00edcio da primavera e a perspectiva de chuvas pode trazer de volta uma possibilidade de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Mas as limita\u00e7\u00f5es extremas que esse per\u00edodo nos imp\u00f5e, inevitavelmente preconizam uma aproxima\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel. \u00c9 quando buscamos alimento a partir de alternativas n\u00e3o convencionais. E \u00e9 quando nossa presen\u00e7a \u00e9 constatada em locais alterados pela presen\u00e7a humana, at\u00e9 mesmo nas proximidades das cidades. S\u00e3o mais frequentes as visualiza\u00e7\u00f5es de elementos de nossa esp\u00e9cie nessa \u00e9poca, erroneamente interpretadas como um fen\u00f4meno inusitado, que suscita a curiosidade das pessoas.<\/p>\n<p>De fato, nos entregamos a esse tipo de viol\u00eancia, a ponto de nossa caracter\u00edstica arredia ser deixada de lado, em fun\u00e7\u00e3o do desespero em obter algum tipo de alimento. Essa condi\u00e7\u00e3o em nada reflete uma conviv\u00eancia equilibrada com essa outra esp\u00e9cie, respons\u00e1vel pela ocupa\u00e7\u00e3o exacerbada dos espa\u00e7os naturais. Aquela que nos tirou praticamente todas as \u00e1reas nativas que poderiam propiciar uma condi\u00e7\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o de nossos pares. E de tantas outras esp\u00e9cies, caracter\u00edsticas dessa regi\u00e3o, nossa verdadeira casa, hoje desfigurada.<\/p>\n<p>N\u00f3s, os lobos-guar\u00e1s, ainda subsistimos. Somos j\u00e1 poucos indiv\u00edduos resistindo \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de insalubridade violentamente impostas pelos humanos. Perto de uma elimina\u00e7\u00e3o definitiva, ficamos \u00e0 espreita de menos persegui\u00e7\u00e3o e menos festejos equivocados, em nossas apari\u00e7\u00f5es em locais err\u00e1ticos. Quem sabe a insol\u00eancia de tantos anos, que nos pressiona ao limite, gere alguma dor de consci\u00eancia da esp\u00e9cie humana, t\u00e3o tristemente pobre de valores. Inconsequente e ego\u00edsta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cl\u00f3vis Borges Lobo-guar\u00e1 fotografado na \u00e1rea da APA da Escarpa Devoniana. 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