{"id":72639,"date":"2017-09-19T13:30:35","date_gmt":"2017-09-19T16:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=72639"},"modified":"2017-09-19T07:39:48","modified_gmt":"2017-09-19T10:39:48","slug":"no-tabuleiro-da-mudanca-do-clima-todos-arcam-com-o-prejuizo-da-jogada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/no-tabuleiro-da-mudanca-do-clima-todos-arcam-com-o-prejuizo-da-jogada\/","title":{"rendered":"No tabuleiro da mudan\u00e7a do clima, todos arcam com o preju\u00edzo da jogada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-72640\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O notici\u00e1rio internacional foi tomado nas \u00faltimas duas semanas pela cobertura da passagem dos furac\u00f5es Harvey e Irma pelo Caribe e, principalmente, pelos Estados Unidos. Em todas as m\u00eddias, a todo o tempo, informa\u00e7\u00f5es chegavam ao p\u00fablico sobre o dia-a-dia do desastre ao vivo, direto dos locais afetados pelas tempestades.<\/p>\n<p>As redes de TV noticiosas norte-americanas, como CNN, MSNBC e Fox News, dedicaram longas horas para registrar a prepara\u00e7\u00e3o das cidades para as tempestades, a destrui\u00e7\u00e3o causada no Texas (pelo Harvey) e na Fl\u00f3rida (pelo Irma) e o drama das v\u00edtimas ap\u00f3s o desastre. Nos jornais impressos e na internet, as imagens de Houston tomada pela \u00e1gua e do litoral sudeste da Fl\u00f3rida sendo varrido pela tempestade eram destaque nas primeiras p\u00e1ginas e nos portais web. Sem falar nas redes sociais, igualmente tomada por informa\u00e7\u00f5es (ora reais, ora inventadas) sobre a destrui\u00e7\u00e3o causada pelos furac\u00f5es.<\/p>\n<p>O poder destrutivo e os preju\u00edzos gerados por Harvey e Irma reacenderam o debate pol\u00edtico sobre mudan\u00e7a do clima nos Estados Unidos de Donald Trump. Em junho passado, com toda pompa e circunst\u00e2ncia, o presidente norte-americano anunciou a sa\u00edda do pa\u00eds do Acordo de Paris\u00a0<em><a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2017\/06\/01\/saida-a-americana\/\" target=\"_blank\">(saiba mais)<\/a>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>o principal (ainda que imperfeito) instrumento multilateral em prol da redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) e de combate \u00e0s altera\u00e7\u00f5es no clima global. A Casa Branca tamb\u00e9m interrompeu os repasses financeiros para os fundos associados \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima (UNFCCC, sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Os desastres causados pelos furac\u00f5es nas \u00faltimas semanas colocaram o governo Trump na defensiva no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o clim\u00e1tica. Para muitos cientistas, os desastres recentes no Texas e na Florida, ainda que n\u00e3o possam ser diretamente conectados com a mudan\u00e7a do clima em si, evidenciam o qu\u00e3o dram\u00e1tico ser\u00e1 o futuro caso a concentra\u00e7\u00e3o de GEE na atmosfera continue crescendo nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, levando ao aumento da temperatura dos oceanos \u2013\u00a0elemento crucial para a gera\u00e7\u00e3o de novas tempestades tropicais nos Oceanos Atl\u00e2ntico (furac\u00f5es) e \u00cdndico e Pac\u00edfico (tuf\u00f5es).<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, qualquer a\u00e7\u00e3o para reduzir as emiss\u00f5es de GEE pode ser ben\u00e9fica no longo prazo, pois reduz a probabilidade de termos tempestades tropicais t\u00e3o fortes como Harvey e Irma. O problema \u00e9 que, para o presidente dos Estados Unidos e para seus aliados pol\u00edticos, qualquer a\u00e7\u00e3o n\u00e3o vale a pena \u2013 ou porque, segundo eles, a mudan\u00e7a do clima em si n\u00e3o existe (se existe, n\u00e3o \u00e9 culpa do ser humano), \u00a0ou porque \u00e9 desvantajoso nas circunst\u00e2ncias atuais da economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o desastre dos furac\u00f5es Harvey e Irma, surge uma\u00a0ponta de esperan\u00e7a\u00a0de que a opini\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds, que vem reconhecendo cada vez mais a pertin\u00eancia e a necessidade de enfrentar a mudan\u00e7a do clima, pressione o governo Trump para agir mais nesta quest\u00e3o (ainda que a Casa Branca continue\u00a0rejeitando\u00a0qualquer cita\u00e7\u00e3o ao termo \u201cmudan\u00e7a do clima\u201d aplicada aos furac\u00f5es).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o custo de esperar por alguma defini\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e9 cada vez maior para as regi\u00f5es mais pobres e vulner\u00e1veis \u00e0 mudan\u00e7a do clima no mundo. Se os norte-americanos sofrem com as perdas pontuais de um Harvey ou Irma, pa\u00edses na \u00c1sia e na \u00c1frica s\u00e3o for\u00e7ados a enfrentar desastres clim\u00e1ticos de propor\u00e7\u00f5es similares de forma cada vez mais frequente, com efeitos negativos potencializados pela falta de recursos, condi\u00e7\u00f5es e capacidade de resposta e reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a do clima potencializa as desigualdades que marcam a economia global contempor\u00e2nea. Os maiores emissores hist\u00f3ricos de GEE do planeta \u2013 que s\u00e3o, n\u00e3o por coincid\u00eancia, as na\u00e7\u00f5es desenvolvidas atuais \u2013 est\u00e3o longe de ser aqueles que mais sofrem com os efeitos negativos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Coincidentemente, ao mesmo tempo em que as aten\u00e7\u00f5es globais estavam voltadas para as tempestades nos Estados Unidos, milh\u00f5es de pessoas sofriam com os efeitos da pior temporada de chuvas no sul da \u00c1sia em d\u00e9cadas. As fortes precipita\u00e7\u00f5es causaram inunda\u00e7\u00f5es e deslizamentos de terra em Bangladesh, na \u00cdndia e no Nepal, causando 1,2 mil mortes e afetando diretamente quase 20 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Mumbai, uma das principais cidades indianas e a 10\u00aa mais populosa do mundo, passou dias inteiros debaixo d\u2019\u00e1gua nas \u00faltimas semanas. Os distritos menos elevados, pr\u00f3ximos \u00e0 \u00e1rea costeira, ficaram debaixo de metros d\u2019\u00e1gua, invadindo casas e desalojando milh\u00f5es de pessoas apenas nesta cidade.<\/p>\n<p>Em Bangladesh, que lida h\u00e1 meses com um grande fluxo de refugiados Rohingya fugidos de Myanmar, as chuvas pioraram a situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que agora as autoridades tamb\u00e9m precisam lidar com os desabrigados bengalis. De acordo com o departamento meteorol\u00f3gico nacional, no\u00a0auge das chuvas, em 11 de agosto passado, o equivalente a uma semana de precipita\u00e7\u00e3o m\u00e9dia durante a temporada de mon\u00e7\u00f5es desabou sobre partes de Bangladesh em um intervalo de poucas horas. No final de agosto, 1\/3 do territ\u00f3rio bengali estava debaixo d\u2019\u00e1gua, matando 142 pessoas e desalojando 8,5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 na \u00c1frica, o problema \u00e9 o contr\u00e1rio: a seca. Na regi\u00e3o do Sahel, na parte central do continente, a forte estiagem que se arrasta h\u00e1 seis anos afetou diretamente a subsist\u00eancia de milh\u00f5es de pessoas, o que alimentou tens\u00f5es sociais e pol\u00edticas em diversos pa\u00edses, como Chade, Mali e Niger.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na bacia do Lago Chade \u00e9 desesperadora. At\u00e9 50 anos atr\u00e1s, o lago era um dos maiores corpos d\u2019\u00e1gua do mundo. No entanto, neste per\u00edodo, ele perdeu entre 90% e 95% de sua extens\u00e3o. Dentre os fatores respons\u00e1veis por essa redu\u00e7\u00e3o significativa do Chade\u00a0<a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2017\/04\/17\/chade-uma-crise-silenciada\/\" target=\"_blank\"><em>(saiba mais)<\/em><\/a>, a mudan\u00e7a do clima tem um papel importante: nas \u00faltimas d\u00e9cadas,\u00a0o cintur\u00e3o de chuva tropical que incidia sobre o Sahel e a regi\u00e3o do Chade se moveu para o sul, resultando em menor precipita\u00e7\u00e3o sobre o lago e seus arredores.\u00a0A degrada\u00e7\u00e3o da bacia do Chade afeta diretamente a subsist\u00eancia de 20 milh\u00f5es de pessoas, que hoje s\u00e3o afligidas por desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, sendo que muitas delas sofrem efetivamente com a fome.<\/p>\n<p>Na Som\u00e1lia, afligida por secas e guerras civis sucessivas, a situa\u00e7\u00e3o consegue ser ainda mais dram\u00e1tica. Nos \u00faltimos dois anos, as chuvas est\u00e3o caindo bem abaixo da m\u00e9dia na regi\u00e3o do Chifre da \u00c1frica (Puntl\u00e2ndia e Somalil\u00e2ndia) e no sul do pa\u00eds (Jubal\u00e2ndia).\u00a0De acordo\u00a0com o Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Coordena\u00e7\u00e3o Humanit\u00e1ria (OCHA, sigla em ingl\u00eas), at\u00e9 meados de junho passado, mais de 730 mil pessoas estavam desalojadas no pa\u00eds por conta da seca. Desse total, quase 65% era composto por jovens com at\u00e9 18 anos de idade.<\/p>\n<p>Tanto na \u00c1sia quanto na \u00c1frica, na\u00e7\u00f5es pobres j\u00e1 est\u00e3o enfrentando os efeitos negativos da mudan\u00e7a do clima na pele, de modo mais intenso e custoso do que seus contrapartes mais ricos, como os Estados Unidos ou os pa\u00edses europeus. Se a concentra\u00e7\u00e3o de GEE na atmosfera terrestre continuar subindo e elevando a temperatura m\u00e9dia do planeta, a ocorr\u00eancia de eventos clim\u00e1ticos extremos poder\u00e1 aumentar exponencialmente nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, o que pressionar\u00e1 ainda mais\u00a0as regi\u00f5es mais pobres e vulner\u00e1veis do globo.<\/p>\n<p>Enquanto o cen\u00e1rio for de incerteza sobre o enfrentamento efetivo da mudan\u00e7a do clima e a disponibilidade de recursos financeiros para apoiar estas na\u00e7\u00f5es mais pobres na recupera\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de desastre e na constru\u00e7\u00e3o de resili\u00eancia para crises futuras, n\u00e3o h\u00e1 motivos para otimismo. As cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas se intensificar\u00e3o, causando perdas humanas e materiais incalcul\u00e1veis. Para as na\u00e7\u00f5es mais ricas, as perdas acontecer\u00e3o, mas a recupera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais f\u00e1cil; para as mais pobres, ser\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O notici\u00e1rio internacional foi tomado nas \u00faltimas duas semanas pela cobertura da passagem dos furac\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":72640,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/furacao-1.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O notici\u00e1rio internacional foi tomado nas \u00faltimas duas semanas pela cobertura da passagem dos furac\u00f5es","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72639"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72639"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72639\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72640"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72639"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72639"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72639"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}