{"id":72250,"date":"2017-09-12T15:00:31","date_gmt":"2017-09-12T18:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=72250"},"modified":"2017-09-12T08:19:30","modified_gmt":"2017-09-12T11:19:30","slug":"tem-macaco-novo-de-especie-considerada-localmente-extinta-na-floresta-da-tijuca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/tem-macaco-novo-de-especie-considerada-localmente-extinta-na-floresta-da-tijuca\/","title":{"rendered":"Tem macaco novo de esp\u00e9cie considerada localmente extinta na Floresta da Tijuca"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/bugio.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-72251\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/bugio-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/bugio-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/bugio.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por Giuliana Ferrari, Lu\u00edsa Genes, Tomaz Cezimbra*<\/p>\n<p>Por mais de 200 anos n\u00e3o se registrava na Floresta da Tijuca a presen\u00e7a de bugios, esp\u00e9cie considerada\u00a0<em>localmente extinta<\/em>\u00a0na cidade do Rio de Janeiro. At\u00e9 que os bugios Kala, Chico, Hanuman e Maia foram levados \u00e0 Floresta para mudar esse cen\u00e1rio e se tornar parte da\u00a0<strong>popula\u00e7\u00e3o fundadora<\/strong>\u00a0da esp\u00e9cie na cidade.<\/p>\n<p>Para quem nunca foi \u00e0 capital do Estado, o Parque Nacional da Tijuca \u00e9 uma grande mancha florestal ocupando as partes mais altas do meio da cidade, e pode ser acessada por caminhos cujo ponto em comum \u00e9 a incr\u00edvel quantidade de verde e sombra em meio ao clich\u00ea da selva de pedra do Rio. Subindo de carro ou a p\u00e9, \u00e9 patente a diferen\u00e7a na pureza do ar e na energia do lugar; cariocas gostam de subir a floresta pelas suas trilhas e cachoeiras, e n\u00e3o \u00e9 incomum encontrar um ou outro gringo apaixonado pelas florestas tropicais decidido a explorar os verdes eternos de uma das maiores florestas urbanas do mundo.<\/p>\n<div class=\"olho-direita\">&#8220;Hanuman n\u00e3o estava cumprindo nenhum papel ecol\u00f3gico e, assim, perdeu a chance de ficar livre junto a macacos de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie&#8221;<\/div>\n<p>Algumas pessoas, no entanto, sobem \u00e0 Floresta toda semana com um prop\u00f3sito bem diferente. N\u00e3o s\u00e3o turistas, alguns n\u00e3o s\u00e3o cariocas, mas todos compartilham de uma mesma dire\u00e7\u00e3o: s\u00e3o integrantes e volunt\u00e1rios do Laborat\u00f3rio de Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o de Popula\u00e7\u00f5es (LECP) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O objetivo de subir a floresta toda semana? Soltar e rastrear macacos.<\/p>\n<p>Para restaurar intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas h\u00e1 muito tempo perdidas e experimentar t\u00e9cnicas de reintrodu\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica, em um laborat\u00f3rio vivo, em 2009 o LECP deu o primeiro passo no que se tornaria um ambicioso projeto de\u00a0<strong>refauna\u00e7\u00e3o,\u00a0<\/strong>ou melhor dizendo, de reconstru\u00e7\u00e3o de toda a fauna extinta da Floresta da Tijuca. Esse passo foi a reintrodu\u00e7\u00e3o da cutia (<em>Dasyprocta leporina<\/em>) com 31 indiv\u00edduos soltos entre 2010 e 2014. A \u00faltima estimativa, feita em 2015, estimou um crescimento populacional de 100% ao ano e os 35 indiv\u00edduos capturados eram todos nascidos na floresta; a popula\u00e7\u00e3o vingou, cresceu e est\u00e1 saud\u00e1vel. A hist\u00f3ria das cutias merece uma cr\u00f4nica \u00e0 parte.<\/p>\n<div id=\"attachment_55572\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-55572 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Grupo-original.jpg\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Grupo-original.jpg 350w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Grupo-original-200x300.jpg 200w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Grupo-original-300x450.jpg 300w\" alt=\"grupo-original\" width=\"639\" height=\"959\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Primeiro grupo de bugios reintroduzidos: Hanuman, Kala, Chico e Maia. Os animais permanecem poucas semanas em um cercado para se aclimatarem e ganharem peso antes da soltura. Foto: Lu\u00edsa Genes<\/p>\n<\/div>\n<p>Em 2015, um segundo passo foi dado com a reintrodu\u00e7\u00e3o do pequeno grupo de quatro bugios ruivos (<em>Alouatta guariba<\/em>). Esses primatas se alimentam de folhas e frutos, dispersando as sementes das \u00e1rvores nativas e possibilitando, assim, a cont\u00ednua regenera\u00e7\u00e3o da Floresta. Al\u00e9m disso, suas fezes atraem besouros rola-bostas, que as enterram no solo florestal, preenchendo com nutrientes e tornando o terreno favor\u00e1vel para o crescimento das \u00e1rvores. Eles s\u00e3o respons\u00e1veis por toda uma inimagin\u00e1vel rede de intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que at\u00e9 ent\u00e3o estava desaparecida do Parque da Tijuca.<\/p>\n<p>Kala, Chico, Hanuman e Maia foram equipados com radiotransmissores para serem localizados na floresta, mas os r\u00e1dios de alguns deles falharam poucos meses ap\u00f3s a soltura. Ainda no ano passado, Chico deixou de ser visualizado ap\u00f3s a falha de dois equipamentos.<\/p>\n<p>Ainda antes dessas complica\u00e7\u00f5es, Hanuman passou a descer das copas das \u00e1rvores, onde bugios passam a maior parte do tempo, e a andar pelo ch\u00e3o pr\u00f3ximo a estradas recebendo aten\u00e7\u00e3o e alimento de visitantes do Parque. Ap\u00f3s tentativas mal-sucedidas de evitar que os visitantes se aproximassem do animal, Hanuman teve que ser retirado da Floresta, j\u00e1 que a sua proximidade de estradas e turistas encantados com a oportunidade de alimentar um animal selvagem colocavam em risco sua sa\u00fade e vida. Al\u00e9m disso, ele n\u00e3o estava cumprindo nenhum papel ecol\u00f3gico e, assim, perdeu a chance de ficar livre junto a macacos de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Kala \u00e9 uma estrela dessa hist\u00f3ria, pois faz parte do grupo original que ainda permanece na floresta e \u00e9 monitorada com sucesso, duas a tr\u00eas vezes na semana. Sabemos que Kala veio do CETAS-RJ, o Centro de Triagem de Animais Silvestres, em Serop\u00e9dica, mas sua origem\u00a0 antes disso \u00e9 incerta. Provavelmente era uma bugia selvagem resgatada de algum acidente ou encontro com humanos, por exemplo, atropelamento, um dos males mais frequentes que vitima animais silvestres. De qualquer modo, Kala \u00e9 arredia, evita contato com os primatas menos peludos do que ela que insistem em caminhar pelas trilhas da Floresta. Uma \u00f3tima caracter\u00edstica de personalidade para ela e o projeto.<\/p>\n<div class=\"olho-esquerda\">&#8220;Kala e Juvenal continuam na floresta, um lindo casal que nos enche de energias positivas e determina\u00e7\u00e3o. E finalmente, m\u00eas passado, uma incr\u00edvel not\u00edcia: um filhote&#8221;<\/div>\n<p>Novos macacos foram levados \u00e0 floresta: Juvenal, em 2016, que logo foi visto em par com Kala. O casal permanece junto at\u00e9 hoje. C\u00e9sar, outro macaco da segunda leva, em 2017, foi levado \u00e0 floresta em uma tentativa de reintrodu\u00e7\u00e3o. Infelizmente\u00a0 por ter passado muito tempo em cativeiro antes da reintrodu\u00e7\u00e3o, teve problemas semelhantes ao de Hanuman ap\u00f3s a sua soltura e foi tamb\u00e9m retirado do Parque.<\/p>\n<p>Um evento inesperado foi a s\u00fabita epidemia de febre amarela, que adoeceu moradores do Estado. A vida do bugio-ruivo no Rio de Janeiro n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil; esses animais s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 febre amarela e, para piorar, mais uma vez a ignor\u00e2ncia humana leva a comportamentos destrutivos: not\u00edcias publicadas de pessoas atacando bugios e outros primatas por medo de serem contaminados com febre amarela demonstra o qu\u00e3o longe chegamos na total dissocia\u00e7\u00e3o com a natureza: n\u00e3o somos mais parte dela. Em vez disso, \u00e9 costume v\u00ea-la como um problema a ser exterminado.<\/p>\n<div id=\"attachment_55573\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-55573 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Kala-Filhote-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Kala-Filhote-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Kala-Filhote-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Kala-Filhote-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Kala-Filhote-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Kala-Filhote.jpg 1152w\" alt=\"kala-filhote\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Kala e o filhote ainda n\u00e3o nomeado, Agosto de 2017. O filhote, ainda pequeno, necessita da presen\u00e7a e aconchego da m\u00e3e para sobreviver. Ele se esconde embaixo de sua barriga ou \u00e0s vezes tenta escal\u00e1-la, se segurando com firmeza no pelo de Kala para n\u00e3o despencar das \u00e1rvores. Foto: Lu\u00edsa Genes<\/p>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o existe, no entanto, motivo para desistir.\u00a0 O projeto, por mais atribulado com problemas internos e externos ao processo da reintrodu\u00e7\u00e3o, pode dar certo, e faremos o poss\u00edvel para que continue avan\u00e7ando. Mais do que o compromisso com ci\u00eancia de qualidade, existe um compromisso \u00e9tico na base da biologia da conserva\u00e7\u00e3o que move os integrantes do LECP para frear a mancha de destrui\u00e7\u00e3o que n\u00f3s humanos espalhamos pelo globo.<\/p>\n<p>Kala e Juvenal continuam na floresta, um lindo casal que nos enche de energias positivas e determina\u00e7\u00e3o. E finalmente, m\u00eas passado, fomos agraciados com uma incr\u00edvel not\u00edcia: um filhote! \u00c9 uma grande not\u00edcia, e entusiasmo e anima\u00e7\u00e3o s\u00e3o atitudes muito positivas ao projeto, mas deve-se evitar assediar a m\u00e3e e o beb\u00ea neste momento delicado. \u00c9 sempre importante lembrar que n\u00e3o se deve tentar alimentar os macacos e, caso os encontre no meio do mato, prosseguir em sil\u00eancio e em cautela, nunca saindo das trilhas para persegui-los.<\/p>\n<p>O que \u00e0s vezes pode parecer um\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%ADsifo#Trabalho_de_S.C3.ADsifo\">trabalho de S\u00edsifo<\/a>, em outros momentos pode ser visto pelos olhos de Eduardo Galeano ao descrever o que \u00e9 utopia: \u201c<em>A utopia est\u00e1 l\u00e1 no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcan\u00e7arei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu n\u00e3o deixe de caminhar<\/em>.\u201d De forma alguma pretendemos representar reintrodu\u00e7\u00f5es como intermin\u00e1veis ou ut\u00f3picas, mas \u00e9 decerto um trabalho cont\u00ednuo e complexo, motivado pela inspira\u00e7\u00e3o de lutar contra a correnteza da extin\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, enfrentando os desafios e incertezas que isso implica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Agradecimentos<\/strong>: Este projeto n\u00e3o seria poss\u00edvel sem o envolvimento direto do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro; do Centro de Reabilita\u00e7\u00e3o de Animais Silvestres (CRAS-Est\u00e1cio); do Ibama, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz e a parceria do Parque Nacional da Tijuca.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table class=\" aligncenter\" cellpadding=\"5\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-55591\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Giuliana-300x300.png\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Giuliana-300x301.png 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Giuliana-150x150.png 150w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Giuliana.png 500w\" alt=\"giuliana\" width=\"250\" height=\"251\" \/><\/td>\n<td><strong>Giuliana Ferrari<\/strong>\u00a0\u00e9 bi\u00f3loga da conserva\u00e7\u00e3o e uma sonhadora na crise do Antropoceno<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table class=\" aligncenter\" cellpadding=\"5\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Lu\u00edsa Genes<\/strong>\u00a0\u00e9 ec\u00f3loga procurando reverter a defauna\u00e7\u00e3o e seus efeitos em processos ecol\u00f3gicos<\/td>\n<td><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-55590\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Luisa-300x300.png\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" 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natureza<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Giuliana Ferrari, Lu\u00edsa Genes, Tomaz Cezimbra* Por mais de 200 anos n\u00e3o se 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