{"id":71935,"date":"2017-09-06T13:30:52","date_gmt":"2017-09-06T16:30:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=71935"},"modified":"2017-09-06T08:21:55","modified_gmt":"2017-09-06T11:21:55","slug":"cabecas-de-gado-sao-abatidas-diariamente-na-amazonia-sem-qualquer-monitoramento-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/cabecas-de-gado-sao-abatidas-diariamente-na-amazonia-sem-qualquer-monitoramento-ambiental\/","title":{"rendered":"Cabe\u00e7as de gado s\u00e3o abatidas diariamente na Amaz\u00f4nia sem qualquer monitoramento ambiental"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-71936\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Enquanto voc\u00ea passa os olhos por esta reportagem, cerca de 60 mil bois criados na Amaz\u00f4nia aguardam enfileirados a hora do abate. O ritual se repete todos os dias, distribu\u00eddo por pelo menos 128 frigor\u00edficos espalhados pela regi\u00e3o. Antes do momento derradeiro, metade destes frigor\u00edficos faz uma varredura di\u00e1ria nos bancos de dados p\u00fablicos. O objetivo \u00e9 garantir que os animais n\u00e3o venham de fazendas com irregularidades ambientais e sociais. A outra metade dos abatedouros, por\u00e9m, n\u00e3o faz a mais vaga ideia da origem da boiada.<\/p>\n<p>Em um levantamento in\u00e9dito, o instituto de pesquisas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.imazon.org.br\/\">Imazon<\/a>\u00a0mostra que apenas 48% dos frigor\u00edficos presentes na Amaz\u00f4nia aderiram ao acordo que ficou conhecido como TAC da Carne. Firmado junto ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, o Termo de Ajustamento de Conduta tem implementa\u00e7\u00e3o complexa, mas princ\u00edpios simples: todo frigor\u00edfico que assinar o documento se compromete a monitorar as fazendas de onde compram gado. Se houver qualquer ind\u00edcio de desmatamento ilegal, invas\u00e3o de terra ind\u00edgena ou uso de trabalho escravo, por exemplo, o fornecedor deve ser imediatamente exclu\u00eddo.<\/p>\n<p>A iniciativa do TAC da Carne nasceu em 2009 pelas m\u00e3os do procurador Daniel Azeredo, que comandava a \u00e1rea ambiental do MPF no Par\u00e1. Numa minuciosa investiga\u00e7\u00e3o, ele provou que os maiores frigor\u00edficos do estado estavam adquirindo gado de fazendas envolvidas com crimes ambientais e sociais. Com as evid\u00eancias debaixo do bra\u00e7o, bateu \u00e0 porta dessas empresas e deu o ultimato: ou voc\u00eas encaram penas e multas milion\u00e1rias na Justi\u00e7a ou assinam este documento. Acabaram escolhendo a segunda op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDesde o in\u00edcio o objetivo era alcan\u00e7ar toda a ind\u00fastria que atua na Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o iniciamos em 2009 mesmo reuni\u00f5es com procuradores de todos os estados da regi\u00e3o e formamos o Grupo de Trabalho Amaz\u00f4nia Legal\u201d, conta Daniel Azeredo. \u201cCada procurador come\u00e7ou a fazer as investiga\u00e7\u00f5es em seus estados e a se reunir com os frigor\u00edficos para buscar a assinatura dos acordos\u201d.<\/p>\n<p>Oito anos depois, 63 frigor\u00edficos est\u00e3o sob as regras do TAC da Carne \u2013 por envolver os maiores, eles representam 70% da capacidade de abate na regi\u00e3o. Os outros 30% est\u00e3o nas m\u00e3os de 65 frigor\u00edficos que permanecem alheios \u00e0 iniciativa. Isso significa que, todos os dias, cerca de 18 mil cabe\u00e7as de gado s\u00e3o abatidas na Amaz\u00f4nia sem qualquer monitoramento ambiental. E sem restri\u00e7\u00e3o de mercado. \u201cO maior comprador da carne brasileira \u00e9 o pr\u00f3prio Brasil\u201d, diz o pesquisador do Imazon, Paulo Barreto, apontando o principal destino deste produto. \u201cA Amaz\u00f4nia fica com apenas 12% da carne produzida na regi\u00e3o. A maioria vai para os outros estados\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-55463\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/frigorificos-comxsem-tac-e1504632806938.png\" sizes=\"(max-width: 834px) 100vw, 834px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/frigorificos-comxsem-tac-e1504632806938.png 834w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/frigorificos-comxsem-tac-e1504632806938-300x160.png 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/frigorificos-comxsem-tac-e1504632806938-600x321.png 600w\" alt=\"frigorificos-comxsem-tac\" width=\"640\" height=\"342\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>\u201cNenhum boi morre no pasto\u201d<\/b><\/p>\n<p>Para garantir que a carne produzida na Amaz\u00f4nia esteja livre de irregularidades, 100% dos frigor\u00edficos da regi\u00e3o precisariam se comprometer com o monitoramento de seus fornecedores. Mas isso est\u00e1 longe de se tornar realidade. E o motivo \u00e9 simples: os frigor\u00edficos que n\u00e3o aderiram aos acordos nunca deixaram de vender seus produtos por conta disso. Pelo contr\u00e1rio, em alguns casos at\u00e9 levam vantagem no mercado.<\/p>\n<p>\u201cO cumprimento das medidas estipuladas pelo TAC gera custos para as empresas. Quem n\u00e3o se submete a isso est\u00e1 livre desses custos, ent\u00e3o passa a ter vantagens comerciais\u201d, diz Francisco Victer, fundador e ex-presidente da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.uniec.com.br\/\">Uni\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria da Carne (Uniec)<\/a>, que representa os frigor\u00edficos. \u201cTem um frigor\u00edfico em Xinguara (PA), por exemplo, que assinou o TAC e \u00e9 de primeiro mundo. Mas n\u00e3o consegue vender um quilo de carne no munic\u00edpio, porque l\u00e1 tem empresas que n\u00e3o seguem os acordos e conseguem vender ao varejo por um pre\u00e7o muito mais barato\u201d.<\/p>\n<p>A desvantagem comercial das empresas que assinaram o TAC tamb\u00e9m acontece no momento da compra do gado para abate. Ao abrir m\u00e3o de fornecedores com irregularidades, muitas vezes o frigor\u00edfico precisa buscar a mat\u00e9ria-prima em locais mais distantes, aumentando seus custos. O fazendeiro rejeitado, no entanto, facilmente encontra outros compradores. \u201cA pessoa atravessa a rua e vende para o frigor\u00edfico que n\u00e3o assumiu compromissos\u201d, diz Victer. \u201cA JBS no Par\u00e1, por exemplo, tem uma lista de mais de 2500 rejei\u00e7\u00f5es de compra. Mas nenhum boi morre no pasto. Algu\u00e9m comprou aquele gado\u201d.<\/p>\n<p>O exemplo dado por Victer \u00e9 corroborado pelo Imazon. No estudo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.imazon.org.br\/PDFimazon\/Portugues\/livros\/Frigorificos%20e%20o%20desmatamento%20da%20Amaz%C3%B4nia.pdf\"><i>\u201cOs frigor\u00edficos v\u00e3o ajudar a zerar o desmatamento?\u201d<\/i><\/a>, o instituto mapeou as \u00e1reas potenciais de compra de 128 frigor\u00edficos ativos na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/dicionario-ambiental\/28783-o-que-e-a-amazonia-legal\/\">Amaz\u00f4nia Legal<\/a>. Chegou \u00e0 conclus\u00e3o que as empresas comprometidas com o TAC operam no mesmo territ\u00f3rio comercial que as n\u00e3o signat\u00e1rias, abrindo caminho para o chamado\u00a0<i>vazamento\u00a0<\/i>do acordo. \u201cAs zonas de compra est\u00e3o sobrepostas, o que gera uma competi\u00e7\u00e3o injusta e desleal. Tem que incluir todo mundo no TAC, sen\u00e3o teremos sempre o vazamento\u201d, diz Paulo Barreto.<\/p>\n<p>Durante a elabora\u00e7\u00e3o do estudo, os pesquisadores do Imazon foram a campo e ouviram dos pr\u00f3prios fazendeiros exemplos desta pr\u00e1tica. \u201cPecuaristas boicotados por empresas que assinaram o TAC no Par\u00e1 informaram que conseguiram vender seu gado para frigor\u00edficos sem TAC no Tocantins\u201d, diz. Isso pode explicar o aumento de 144% no n\u00famero de animais oriundos do Par\u00e1 abatidos no estado vizinho ap\u00f3s a assinatura do acordo em 2009. O Tocantins \u00e9 um dos estados com menor n\u00famero de frigor\u00edficos signat\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-55464\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/percentual-frigorificos-tac-e1504633163386.png\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/percentual-frigorificos-tac-e1504633163386.png 780w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/percentual-frigorificos-tac-e1504633163386-300x172.png 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/percentual-frigorificos-tac-e1504633163386-600x343.png 600w\" alt=\"percentual-frigorificos-tac\" width=\"640\" height=\"366\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Mercado aberto<\/b><\/p>\n<p>Se as vendas dos fazendeiros irregulares seguem sem barreiras, o mesmo pode ser dito sobre as transa\u00e7\u00f5es comerciais feitas pelas empresas do ramo sem TAC. E n\u00e3o se trata s\u00f3 do mercado interno: somente em 2016, nove frigor\u00edficos localizados nos estados do Par\u00e1, Tocantins, Rond\u00f4nia e Mato Grosso exportaram mais de 48 mil toneladas de carne bovina para outros pa\u00edses, de acordo com informa\u00e7\u00f5es levantadas na plataforma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.trase.earth\/\">Trase<\/a>, que traz dados comerciais de commodities brasileiras.<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, a lista de importadores que compraram carne dessas empresas \u00e9 formada principalmente por pa\u00edses asi\u00e1ticos, africanos e sul-americanos, como Hong Kong, Egito, Angola, Peru e Chile. Estes mercados costumam ser menos r\u00edgidos em suas exig\u00eancias comerciais. No entanto, tamb\u00e9m foi poss\u00edvel identificar vendas em menor quantidade para pa\u00edses europeus, al\u00e9m dos Estados Unidos. \u201cNa atual l\u00f3gica de mercado, o pre\u00e7o continua sendo um diferencial, tornando a carne vinda de frigor\u00edficos sem TAC mais atrativa. Os problemas relacionados com sua produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o considerados por esses pa\u00edses importadores\u201d, diz Maria Rosa Darrigo, do Greenpeace.<\/p>\n<p>O motivo disto \u00e9 que a exporta\u00e7\u00e3o de produtos agropecu\u00e1rios n\u00e3o est\u00e1 condicionada ao cumprimento de compromissos socioambientais. Os protocolos hoje \u2013 tanto do Brasil como dos pa\u00edses importadores \u2013 costumam ser apenas sanit\u00e1rios. \u201cN\u00e3o conhe\u00e7o pa\u00eds que deixe de comprar carne brasileira porque veio de \u00e1rea desmatada\u201d, diz Victer. E quando se trata do mercado interno, o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 muito diferente. \u201cO setor do varejo ainda n\u00e3o est\u00e1 engajado no processo. Os supermercados assinaram termos de coopera\u00e7\u00e3o, fizeram marketing, mas continuam comprando carne de frigor\u00edficos que n\u00e3o t\u00eam compromissos socioambientais\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table style=\"height: 680px;\" border=\"0\" width=\"640\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"10\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"4\" align=\"center\" bgcolor=\"#999999\"><b>Exporta\u00e7\u00e3o dos frigor\u00edficos sem TAC na Amaz\u00f4nia (2016)<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#aaaaaa\"><b>Frigor\u00edficos Sem TAC da Carne<br \/>\n<\/b><\/td>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#aaaaaa\"><b>Estado<\/b><\/td>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#aaaaaa\"><b>Volume Exportado<br \/>\n(toneladas) 2016<br \/>\n<\/b><\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\" bgcolor=\"#aaaaaa\"><b>Pa\u00edses importadores<br \/>\n<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#CCCCCC\">\n<td valign=\"top\">VPR Brasil Importa\u00e7\u00f5es e Exporta\u00e7\u00f5es Ltda<\/td>\n<td valign=\"top\">MT<\/td>\n<td valign=\"top\">1,328.90<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong, R\u00fassia, Egito, Angola, Vietn\u00e3, Paraguai, Ghana<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\">Mataboi Alimentos Ltda<\/td>\n<td valign=\"top\">MT<\/td>\n<td valign=\"top\">57,113.20<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong, Egito, China, R\u00fassia, Iran, Chile, Reino Unido, It\u00e1lia, Holanda, Ar\u00e1bia Saudita<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#CCCCCC\">\n<td valign=\"top\">Total S\/A<\/td>\n<td valign=\"top\">RO<\/td>\n<td valign=\"top\">146.30<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\">Frigon &#8211; Frigor\u00edfico Irm\u00e3os Gon\u00e7alves<\/td>\n<td valign=\"top\">RO<\/td>\n<td valign=\"top\">31,030.20<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#CCCCCC\">\n<td valign=\"top\">Masterboi Ltda<\/td>\n<td valign=\"top\">PA<\/td>\n<td valign=\"top\">2,932.10<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong, R\u00fassia, Tail\u00e2ndia, Ucr\u00e2nia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\">Frigor\u00edfico Fortefrigo Ltda<\/td>\n<td valign=\"top\">PA<\/td>\n<td valign=\"top\">114.10<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#CCCCCC\">\n<td valign=\"top\">Frigor\u00edfico Para\u00edso Ltda<\/td>\n<td valign=\"top\">TO<\/td>\n<td valign=\"top\">376.40<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\">Coop. dos Prod de Carne e Derivados de Gurupi<\/td>\n<td valign=\"top\">TO<\/td>\n<td valign=\"top\">10,053.00<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong, R\u00fassia, Egito, Ar\u00e1bia Saudita, Angola, Peru<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#CCCCCC\">\n<td valign=\"top\">Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio de Carne e Derivados Boi Brasil<\/td>\n<td valign=\"top\">TO<\/td>\n<td valign=\"top\">3,965.50<\/td>\n<td colspan=\"2\" valign=\"top\">Hong Kong, Egito, Angola, Congo, Mal\u00e1sia, Coreia do Sul<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><b>Sil\u00eancio dos inocentes<\/b><\/p>\n<p>Para confirmar esta informa\u00e7\u00e3o, ((o)) eco entrou em contato com as tr\u00eas maiores redes de supermercados do Brasil \u2013 Carrefour, GPA (antigo Grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar) e Walmart \u2013, pedindo a lista dos frigor\u00edficos da Amaz\u00f4nia que lhes fornecem carne e o volume m\u00e9dio mensal comprado da regi\u00e3o. Apenas o Walmart abriu o jogo. \u00a0Luiz Herrisson, diretor de sustentabilidade do grupo, n\u00e3o divulga a quantidade, mas afirma que 40% da carne vendida nas 485 lojas da rede v\u00eam da Amaz\u00f4nia. De l\u00e1, o produto vai parar nas prateleiras do sudeste, nordeste e centro-oeste.<\/p>\n<p>\u201cHoje a gente tem um n\u00famero bem restrito de fornecedores que atuam na Amaz\u00f4nia. S\u00e3o apenas quatro: JBS, Marfrig, Boiforte e Masterboi\u201d, diz Herrisson, para confirmar em seguida: \u201cNem todos assinaram o TAC\u201d. Ele se refere \u00e0s duas \u00faltimas empresas, Masterboi e Boiforte, que t\u00eam unidades no estado de Tocantins. De acordo com o mapeamento feito pelo Imazon, os dois frigor\u00edficos compram gado de uma regi\u00e3o que soma mais de 420 mil hectares de \u00e1reas embargadas e desmatamento recente.<\/p>\n<p>Para driblar este problema, o Walmart afirma ter criado um sistema pr\u00f3prio de monitoramento de fazendas fornecedoras. Al\u00e9m disso, o grupo diz que desde 2016 s\u00f3 fecha neg\u00f3cios com frigor\u00edficos que sigam as mesmas exig\u00eancias feitas pelo TAC. \u201cTodo frigor\u00edfico que vende carne para o Walmart precisa ter sistema de monitoramento dos fornecedores e fazer auditoria anual. Isso est\u00e1 em contrato\u201d, diz Herrisson, garantindo que o Boiforte e o Masterboi j\u00e1 t\u00eam seus sistemas implementados. No entanto, ((o)) eco entrou em contato com os dois frigor\u00edficos, mas as empresas n\u00e3o atenderam \u00e0s repetidas solicita\u00e7\u00f5es de entrevista.<\/p>\n<p>L\u00edder em faturamento no setor do varejo, o Grupo GPA \u2013 controlador das redes Extra, Assa\u00ed e P\u00e3o de A\u00e7\u00facar \u2013 tamb\u00e9m preferiu o sil\u00eancio. Afirmou que, \u201cpor pol\u00edticas internas\u201d, sua lista de fornecedores n\u00e3o \u00e9 p\u00fablica. Uma fonte ouvida por ((o)) eco, por\u00e9m, afirma que aproximadamente dez frigor\u00edficos na Amaz\u00f4nia Legal fornecem carne para as mais de duas mil lojas que o grupo tem espalhado pelo Brasil.<\/p>\n<p>Segundo essa fonte, apenas os tr\u00eas maiores frigor\u00edficos do pa\u00eds \u2013 JBS, Marfrig e Minerva \u2013 est\u00e3o entre os fornecedores do GPA que assinaram o TAC. Todos os outros est\u00e3o fora do acordo. Haveria frigor\u00edficos que n\u00e3o t\u00eam nada ou muito pouca informa\u00e7\u00e3o sobre as fazendas fornecedoras. Em alguns casos, t\u00eam apenas uma caderneta com o nome e o telefone do pecuarista de quem costumam comprar gado. Nenhum sistema ou planilha organizada com dados sobre o produtor.<\/p>\n<p>Desde outubro de 2016, o GPA iniciou uma parceria com a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.aliancadaterra.org\/\">ONG Alian\u00e7a da Terra<\/a>\u00a0para tentar mudar este cen\u00e1rio. De l\u00e1 para c\u00e1, a empresa tem exigido dos seus fornecedores que repassem informa\u00e7\u00f5es sobre as fazendas de onde compram gado. A partir da\u00ed, o pr\u00f3prio GPA faz a checagem para saber se o pecuarista est\u00e1 nas listas de desmatamento ilegal, trabalho escravo ou se est\u00e1 dentro de \u00e1reas protegidas. \u201cAcaba sendo um TAC informal, porque s\u00e3o as mesmas condi\u00e7\u00f5es\u201d, explica Aline Locks, da Alian\u00e7a da Terra, que tem ajudado o grupo varejista neste processo.<\/p>\n<p>Segundo Aline, o GPA j\u00e1 excluiu fornecedores que n\u00e3o concordaram em abrir seus dados de compra. \u201cAssim como o Greenpeace e o Minist\u00e9rio P\u00fablico t\u00eam poder de press\u00e3o sobre o varejo, os supermercados t\u00eam poder de press\u00e3o comercial junto aos frigor\u00edficos\u201d, diz ela. O problema \u00e9 que esta influ\u00eancia ainda \u00e9 pouco exercida pelo setor, observa Maria Rosa, do Greenpeace. \u201cCom certeza o varejo pode ajudar a aumentar a ades\u00e3o dos frigor\u00edficos ao TAC. Mas para que haja uma mudan\u00e7a significativa, \u00e9 necess\u00e1rio que mais supermercados e outros tipos de varejo intensifiquem a press\u00e3o sobre essas empresas. Caso contr\u00e1rio, vai continuar existindo o vazamento na compra de gado\u201d.<\/p>\n<p>Segundo colocado no ranking das varejistas com maior faturamento no pa\u00eds, o Grupo Carrefour tamb\u00e9m n\u00e3o informou quem s\u00e3o seus fornecedores de carne na Amaz\u00f4nia. No final de 2015, o Greenpeace\u00a0<a href=\"http:\/\/carneaomolhomadeira.org.br\/docs\/relatorio_greenpeace_carne_ao_molho_madeira_nov2015.pdf\">fez um levantamento<\/a>\u00a0com os maiores supermercados do pa\u00eds, para saber como andavam suas pol\u00edticas de desmatamento zero para a carne bovina que vendem em suas lojas. De acordo com Maria Rosa Darrigo, membro da ONG, apesar dos recentes avan\u00e7os anunciados pelo Walmart e GPA, ainda hoje nenhum supermercado no pa\u00eds \u201cpode garantir que a carne que vende est\u00e1 totalmente livre de desmatamento, trabalho escravo ou invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p><b>\u201c\u00c9 um trabalho que n\u00e3o tem fim\u201d<\/b><\/p>\n<p>Dos nove estados da Amaz\u00f4nia Legal, nenhum at\u00e9 hoje conseguiu fazer com que 100% dos frigor\u00edficos locais aderissem ao TAC da Carne. Como se trata de um acordo, o engajamento \u00e9 volunt\u00e1rio. E o que tem colocado a ind\u00fastria contra a parede s\u00e3o as investiga\u00e7\u00f5es, que, segundo o procurador Daniel Azeredo, n\u00e3o pararam um minuto depois que a porteira se abriu em 2009. \u201c\u00c9 um trabalho cont\u00ednuo, pesado, que n\u00e3o tem fim\u201d, diz ele, citando a import\u00e2ncia da coopera\u00e7\u00e3o de outros \u00f3rg\u00e3os como o Ibama para acelerar este processo.<\/p>\n<p>No \u00faltimo m\u00eas de mar\u00e7o, oito anos depois que o TAC da Carne ganhou vida, o Ibama deflagrou sua primeira opera\u00e7\u00e3o de grande porte em cima dos frigor\u00edficos da Amaz\u00f4nia, fechando plantas e distribuindo milh\u00f5es em multas. Os principais alvos da Carne Fria, por\u00e9m, foram as empresas que j\u00e1 haviam assinado o acordo, o que gerou uma enorme revolta do setor.<\/p>\n<p>\u201cChegaram aqui, chamaram imprensa e embargaram justamente as empresas que mais est\u00e3o ralando para reduzir o desmatamento\u201d, critica Francisco Victer. \u201cEnquanto isso, os frigor\u00edficos que n\u00e3o est\u00e3o envolvidos no processo continuaram funcionando livremente. Por que n\u00e3o foram atr\u00e1s deles?\u201d.<\/p>\n<p>Coordenador geral de fiscaliza\u00e7\u00e3o do Ibama, Ren\u00ea Luiz de Oliveira n\u00e3o se abala com as cr\u00edticas, e diz que aquele foi apenas um epis\u00f3dio de muitos que ainda est\u00e3o por vir. \u201cA opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o acabou. Ainda teremos a Carne Fria 2\u201d, diz ele. E garante: \u201cEstamos com um olhar especial para os frigor\u00edficos que n\u00e3o assinaram o TAC\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto voc\u00ea passa os olhos por esta reportagem, cerca de 60 mil bois criados na<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":71936,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/carne.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Enquanto voc\u00ea passa os olhos por esta reportagem, cerca de 60 mil bois criados na","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71935"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71935"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71935\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}