{"id":70873,"date":"2017-08-17T12:00:36","date_gmt":"2017-08-17T15:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=70873"},"modified":"2017-08-17T11:33:21","modified_gmt":"2017-08-17T14:33:21","slug":"analise-de-sedimentos-de-cratera-reconstituira-1-milhao-de-anos-da-mata-atlantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/analise-de-sedimentos-de-cratera-reconstituira-1-milhao-de-anos-da-mata-atlantica\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise de sedimentos de cratera reconstituir\u00e1 1 milh\u00e3o de anos da Mata Atl\u00e2ntica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/perfuracao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-70875\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/perfuracao-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/perfuracao-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/perfuracao.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Parecia uma perfura\u00e7\u00e3o comum para a constru\u00e7\u00e3o de po\u00e7o artesiano em propriedade rural. No entanto, tratava-se da retirada de 50 metros de sedimentos, armazenados em longos tubos de a\u00e7o. Tudo para recontar o \u00faltimo 1 milh\u00e3o de anos da biosfera e din\u00e2mica da Mata Atl\u00e2ntica em uma \u00e1rea no extremo sul do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de agosto, uma equipe de pesquisadores das universidades de S\u00e3o Paulo (USP), de Campinas (Unicamp) e do Instituto Franc\u00eas de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) iniciou a perfura\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de sedimentos depositados na cratera de Col\u00f4nia, depress\u00e3o de 3,6 km de di\u00e2metro e at\u00e9 450 metros de profundidade que se estende por 10,2 km2 no bairro de Parelheiros, na cidade de S\u00e3o Paulo (<i>leia mais sobre em\u00a0<a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/22887\/\" target=\"_blank\"><b>http:\/\/agencia.fapesp.br\/22887<\/b><\/a><\/i>).<\/p>\n<p>A coleta do testemunho \u2013 termo usado para amostras coletadas do subsolo \u2013 vai permitir a an\u00e1lise de vest\u00edgios contidos no sedimento, tais como material microbiano, p\u00f3len, is\u00f3topos, gases do efeito estufa e algas. Com isso, ser\u00e1 poss\u00edvel identificar registros das varia\u00e7\u00f5es de insola\u00e7\u00e3o que causaram os v\u00e1rios ciclos glaciais e interglaciais na hist\u00f3ria do planeta, assim como o impacto que os per\u00edodos de chuva e estiagem tiveram na Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>\u201cPelo fato de a regi\u00e3o ser uma bacia, foi poss\u00edvel o ac\u00famulo de sedimentos ao longo do per\u00edodo Quatern\u00e1rio [\u00faltimos 2,6 milh\u00f5es de anos]. Os 50 metros de sedimentos que estamos retirando v\u00e3o mostrar registros dos \u00faltimos 800 mil anos a 1 milh\u00e3o de anos\u201d, disse Andr\u00e9 Oliveira Sawakuchi, integrante do projeto e coordenador do Laborat\u00f3rio de Espectrometria Gama e Luminesc\u00eancia do Instituto de Geoci\u00eancias da USP, \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>. O laborat\u00f3rio foi equipado\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/31409\/emu-aquisicao-de-sistema-de-datacao-por-luminescencia-e-de-microamostrador-de-precisao-para-o-estu\/\" target=\"_blank\">com apoio da FAPESP\u00a0<\/a><\/b>e ser\u00e1 um dos locais de an\u00e1lise do material.<\/p>\n<p>Para Sawakuchi, o estudo tem a import\u00e2ncia de servir como um registro da rela\u00e7\u00e3o entre as mudan\u00e7as na Mata Atl\u00e2ntica e as mudan\u00e7as no clima. Isso poder\u00e1 ser extrapolado tamb\u00e9m para outras florestas tropicais.<\/p>\n<p>\u201cExistem estudos desse tipo para florestas temperadas, mas s\u00e3o raros os realizados em \u00e1reas tropicais. As informa\u00e7\u00f5es obtidas n\u00e3o dizem respeito apenas \u00e0 floresta em si, mas tamb\u00e9m \u00e0 quantidade de chuva e aos per\u00edodos de estiagem e chuva mais intensa\u201d, disse Marie-Pierre Ledru, do Instituto Franc\u00eas de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), que divide a coordena\u00e7\u00e3o do projeto com Sawakuchi.<\/p>\n<p>O sedimento retirado da cratera de Col\u00f4nia \u00e9 muito rico em informa\u00e7\u00f5es sobre o que se passou na regi\u00e3o e tamb\u00e9m sobre como o bioma da Mata Atl\u00e2ntica reagiu \u00e0s diversas mudan\u00e7as no clima. A partir da an\u00e1lise de componentes org\u00e2nicos contidos no sedimento e dos seus is\u00f3topos (varia\u00e7\u00e3o de elementos qu\u00edmicos), \u00e9 poss\u00edvel obter informa\u00e7\u00f5es sobre o tipo de vegeta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 da \u00e1gua da chuva que caiu h\u00e1 milhares de anos.<\/p>\n<p>\u201cA planta absorve os is\u00f3topos de hidrog\u00eanio da \u00e1gua da chuva. Assim, os vest\u00edgios de plantas preservados nos sedimentos representam um outro tipo de arquivo clim\u00e1tico\u201d, disse Sawakuchi. Outro bom ind\u00edcio sobre o passado da Mata Atl\u00e2ntica \u00e9 a an\u00e1lise do p\u00f3len disseminado no sedimento, que permite identificar a diversidade flor\u00edstica das plantas que existiam no local.<\/p>\n<p>Com a an\u00e1lise de gases presentes nos poros do sedimento ser\u00e1 poss\u00edvel tamb\u00e9m investigar como a comunidade de micr\u00f3bios que vive no subsolo atua na produ\u00e7\u00e3o de gases como di\u00f3xido de carbono e metano, gases causadores do efeito estufa.<\/p>\n<p>\u201cAs perguntas que tentamos responder est\u00e3o relacionadas com esses ciclos naturais que fazem parte do clima da Terra. Nos \u00faltimos 800 mil anos houve uma s\u00e9rie de glacia\u00e7\u00f5es em uma frequ\u00eancia de cerca de 100 mil anos. Em nosso projeto de pesquisa, temos diferentes frentes de estudos que permitir\u00e3o obter uma an\u00e1lise ampla desse per\u00edodo\u201d, disse Patricia Roeser, integrante do projeto e pesquisadora do Centro Europeu de Pesquisa e Ensino de Geoci\u00eancias Ambiental (Cerege), na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><b>Centros de pesquisa integrados<\/b><\/p>\n<p>A an\u00e1lise do material coletado ser\u00e1 feita em tr\u00eas etapas. A primeira consiste na perfura\u00e7\u00e3o e coleta de testemunhos, e a segunda, nas an\u00e1lises dos gases de efeito estufa, assim como da microbiologia no local.<\/p>\n<p>\u201cO\u00a0<i>drilling<\/i>\u00a0[local da perfura\u00e7\u00e3o] est\u00e1 a 100 metros de dist\u00e2ncia do minilaborat\u00f3rio. O material vem para o minilaborat\u00f3rio, onde s\u00e3o feitas amostragens. \u00c9 preciso fazer isso o quanto antes para evitar riscos de contamina\u00e7\u00e3o. Depois as amostras ser\u00e3o levadas para pesquisadores em diversos pa\u00edses\u201d, disse Roeser, respons\u00e1vel pela an\u00e1lise no local.<\/p>\n<p>Nesta terceira etapa ser\u00e3o feitas as an\u00e1lises em vest\u00edgios como is\u00f3topos, p\u00f3len e algas por especialistas espalhados em diversos centros de pesquisa no mundo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um projeto interdisciplinar com 17 pesquisadores, especialistas em diferentes \u00e1reas. Ser\u00e3o feitas an\u00e1lises em laborat\u00f3rios na USP e em pa\u00edses como Su\u00ed\u00e7a, Fran\u00e7a, Estados Unidos e Alemanha. Depois disso, o material do testemunho volta para o Brasil para ser arquivado na USP\u201d, disse Ledru.<\/p>\n<p><b>Cratera-lago-turfeira<\/b><\/p>\n<p>O projeto de pesquisa, chamado de Tropicol, n\u00e3o \u00e9 o primeiro estudo sobre a vegeta\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o da cratera de Col\u00f4nia. A \u00e1rea \u00e9 estudada desde a d\u00e9cada de 1960, no que se refere \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da cratera, resultado de prov\u00e1vel queda de um meteorito. Foi somente a partir da d\u00e9cada de 1980 que se iniciaram os estudos sobre clima e vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos muito esse tipo de pesquisa no mundo. Os estudos de sondagens profundas de atividade microbiana nos continentes \u2013 e n\u00e3o estou falando de pesquisa oce\u00e2nica \u2013 iniciaram h\u00e1 menos de 10 anos. E os primeiros resultados mostram que existe uma rela\u00e7\u00e3o do glacial ou interglacial com o tipo de comunidade microbiana. Vamos ver como \u00e9 no caso da cratera de Col\u00f4nia. Estamos curiosos para saber os resultados das an\u00e1lises\u201d, disse Roeser.<\/p>\n<p>Uma perfura\u00e7\u00e3o realizada em 2014 na cratera na zona Sul de S\u00e3o Paulo \u2013\u00a0no \u00e2mbito do Projeto Tem\u00e1tico &#8220;<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/82209\/dimensions-us-biota-sao-paulo-integrando-disciplinas-para-a-predicao-da-biodiversidade-da-floresta\/\" target=\"_blank\">Dimensions US-BIOTA S\u00e3o Paulo<\/a><\/b>&#8221;\u00a0\u2013 que produziu testemunhos de 14 metros de profundidade, portanto restritos aos \u00faltimos 250 mil anos \u2013 descobriu que por um longo per\u00edodo de tempo havia um lago dentro da cratera. A mudan\u00e7a de lago para \u00e1rea pantanosa teria acontecido h\u00e1 aproximadamente 120 mil anos.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 sabemos que os sedimentos aqui s\u00e3o ricos em p\u00f3len e mat\u00e9ria org\u00e2nica, um bom material para o estudo da evolu\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica, por exemplo. Outro fato curioso \u00e9 que, a partir de 11 metros de profundidade, encontramos sedimentos depositados em lago. A maioria dos sedimentos que preenchem a cratera \u00e9 desse tipo. Isso quer dizer que na maior parte do tempo de vida da cratera ela teria sido um lago\u201d, disse Sawakuchi.<\/p>\n<p>Sabe-se tamb\u00e9m que a cratera tem aproximadamente uma espessura m\u00e1xima de 450 metros de sedimentos acumulados<b>\u00a0<\/b>e<b>\u00a0<\/b>espessura m\u00e1xima de 450 metros, de acordo com o projeto de pesquisa &#8220;<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/90153\/investigacao-geofisica-da-estrutura-de-colonia-sao-paulo-sp\/\" target=\"_blank\"><b>Investiga\u00e7\u00e3o geof\u00edsica da estrutura de col\u00f4nia, S\u00e3o Paulo<\/b><\/a>&#8220;, apoiado pela FAPESP. \u201cO objetivo futuro \u00e9 fazer perfura\u00e7\u00f5es e amostras desses 450 metros. Com isso, ser\u00e1 poss\u00edvel amostrar a rocha da base da cratera para definir se houve realmente impacto de meteorito. As imagens de sat\u00e9lite da cratera n\u00e3o deixam d\u00favidas, mas esse estudo traria a confirma\u00e7\u00e3o na rocha\u201d, disse Ledru.<\/p>\n<p>Ledru afirma que material que acabou de ser coletado na cratera poder\u00e1 impulsionar novos estudos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>\u201cTemos interesse em estudar futuramente como a varia\u00e7\u00e3o da energia solar impacta a biodiversidade, criando processos de extin\u00e7\u00e3o e de aparecimento de esp\u00e9cies. Isso \u00e9 pouco conhecido ainda. N\u00e3o temos respostas para o processo natural de extin\u00e7\u00e3o e atualmente estamos em um processo de extin\u00e7\u00e3o em grande parte causado pelo homem\u201d, disse Ledru.<\/p>\n<p>Ela explica que o planeta est\u00e1 passando por uma nova fase do ciclo solar \u2013 quando a atividade do sol se torna mais intensa em frequ\u00eancia aproximada de 11 anos \u2013, ao mesmo tempo que os gases do efeito estufa est\u00e3o em altos n\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 importante conhecer esses efeitos de mudan\u00e7as de energia no substrato das florestas tropicais. Com isso, poderemos saber como as mudan\u00e7as de energia podem impactar futuras extin\u00e7\u00f5es e o aparecimento de esp\u00e9cies, fazendo um\u00a0<i>link<\/i>\u00a0entre o passado e o presente que sofre com a a\u00e7\u00e3o do homem, criando algo completamente novo na Terra. \u00c9 ainda apenas uma nova possibilidade de estudo. Pesquisas de clima, paleoclima e paleobiologia necessitam de v\u00e1rios indicadores como os captados na cratera de Col\u00f4nia\u201d, disse Ledru.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vNKNrVW4efU\" width=\"640\" height=\"320\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parecia uma perfura\u00e7\u00e3o comum para a constru\u00e7\u00e3o de po\u00e7o artesiano em propriedade rural. 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