{"id":70612,"date":"2017-08-12T10:27:02","date_gmt":"2017-08-12T13:27:02","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=70612"},"modified":"2017-08-12T10:27:02","modified_gmt":"2017-08-12T13:27:02","slug":"em-abelhas-sem-ferrao-rainhas-controlam-reproducao-de-operarias-sem-castracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/em-abelhas-sem-ferrao-rainhas-controlam-reproducao-de-operarias-sem-castracao\/","title":{"rendered":"Em abelhas sem ferr\u00e3o, rainhas controlam reprodu\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rias sem castra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-70613\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>As raz\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o e do funcionamento das col\u00f4nias de insetos sociais s\u00e3o tema de estudo e de encantamento de cientistas desde os tempos de Charles Darwin (1809 \u20131882), que investigou com a ajuda de seus cinco filhos as colmeias de abelhas pr\u00f3ximas a sua casa, em Kent, na Inglaterra.<\/p>\n<p>Instigados pela teoria da evolu\u00e7\u00e3o, desde ent\u00e3o pesquisadores dissecaram os mais diversos aspectos da vida das abelhas. Descobriram h\u00e1 d\u00e9cadas, por exemplo, que em muitas esp\u00e9cies de abelhas mel\u00edferas europeias (g\u00eanero\u00a0<i>Apis<\/i>), nas colmeias onde h\u00e1 rainhas jovens e saud\u00e1veis pondo ovos regularmente, estas fazem uso de compostos qu\u00edmicos chamados ferom\u00f4nios para inibir a reprodu\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Desse modo, as oper\u00e1rias ter\u00e3o que cuidar principalmente dos filhos das rainhas e n\u00e3o de seus pr\u00f3prios. Nos casos em que as rainhas envelhecem, adoecem ou ent\u00e3o morrem, na aus\u00eancia do ferom\u00f4nio oper\u00e1rias especializadas geram novos zang\u00f5es que ir\u00e3o fecundar as ninfas que se tornar\u00e3o futuras rainhas.<\/p>\n<p>\u201cUm tema importante no estudo dos insetos sociais \u00e9 entender como fazem para resolver conflitos dentro das col\u00f4nias, em especial conflitos de interesses reprodutivos. Em algumas esp\u00e9cies de abelhas, as oper\u00e1rias s\u00e3o capazes de gerar zang\u00f5es, mas tal adapta\u00e7\u00e3o poderia gerar conflito entre rainha e oper\u00e1ria para ver quem gera zang\u00f5es\u201d, disse o bi\u00f3logo\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/64870\" target=\"_blank\">T\u00falio Marcos Nunes<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Nunes, que fez p\u00f3s-doutoramento no Departamento de F\u00edsica e Qu\u00edmica da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas de Ribeir\u00e3o Preto (FCFRP) da Universidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 o primeiro autor de um trabalho publicado no peri\u00f3dico\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-017-0185\/\" target=\"_blank\"><i>Nature Ecology &amp; Evolution<\/i><\/a><\/b>, que procura responder se essa adapta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ocorre entre as cerca de 600 esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o (tribo Meliponini), distribu\u00eddas pelas regi\u00f5es tropicais e subtropicais do planeta.<\/p>\n<p>\u201cO conflito ocorre como resultado da rela\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica diferencial entre os filhos das rainhas e os filhos das oper\u00e1rias. Para as oper\u00e1rias, \u00e9 mais interessante, do ponto de vista evolutivo, produzir os pr\u00f3prios filhos [com os quais elas se relacionam geneticamente em cerca de 50%]do que cuidar dos filhos da rainha [rela\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de 25%]\u201d, disse .<\/p>\n<p>O investigador respons\u00e1vel pela pesquisa \u00e9 o supervisor de Nunes, o professor\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/1007\" target=\"_blank\">Norberto Peporine Lopes<\/a><\/b>, chefe do N\u00facleo de Pesquisa em Produtos Naturais e Sint\u00e9ticos da FCFRP, e coordenador do Projeto Tem\u00e1tico\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/90533\" target=\"_blank\">\u201cMetabolismo e distribui\u00e7\u00e3o de xenobi\u00f3ticos naturais e sint\u00e9ticos\u201d<\/a><\/b>, apoiado pela FAPESP.<\/p>\n<p>Peporine Lopes explica que a pesquisa buscou investigar se o comportamento observado (oper\u00e1rias n\u00e3o botando ovos na presen\u00e7a da rainha) \u00e9 positivo do ponto de vista gen\u00e9tico para a oper\u00e1ria \u2013 os compostos que indicam a presen\u00e7a da rainha no ninho s\u00e3o chamados de sinais de rainha.<\/p>\n<p>\u201cSe esse comportamento for negativo para a oper\u00e1ria, ou seja, caso ela tenha maior retorno gen\u00e9tico botando e est\u00e1 sendo impedida quimicamente de fazer, nesse caso \u00e9 um ferom\u00f4nio de castra\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n<p>As abelhas mel\u00edferas europeias s\u00e3o um exemplo claro de castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e o trabalho buscou responder se, no caso das abelhas sem ferr\u00e3o, tratava-se de castra\u00e7\u00e3o ou de sinaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para tanto, os pesquisadores trabalharam com 23 esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o. Algumas poucas j\u00e1 estavam presentes no melipon\u00e1rio (criadouro de abelhas sem ferr\u00e3o) da FCFRP. Outras, Nunes teve que ir a campo coletar, no Brasil e tamb\u00e9m na Austr\u00e1lia. As col\u00f4nias geralmente ficam em buracos de troncos ou dentro de troncos ca\u00eddos na floresta.<\/p>\n<p>Foi preciso abrir os troncos, localizar as col\u00f4nias e coloc\u00e1-las dentro de caixas para transporte. \u201cApesar de n\u00e3o possu\u00edrem ferr\u00e3o, elas sabem se defender. Mordem, depositam resina e algumas esp\u00e9cies expelem \u00e1cido f\u00f3rmico em alta concentra\u00e7\u00e3o\u201d, disse Nunes.<\/p>\n<p>As 23 esp\u00e9cies estudadas foram divididas em tr\u00eas categorias: esp\u00e9cies nas quais as oper\u00e1rias s\u00e3o est\u00e9reis e nunca botam ovos (quatro esp\u00e9cies); esp\u00e9cies nas quais as oper\u00e1rias sempre botam ovos, mesmo na presen\u00e7a da rainha (14); e esp\u00e9cies nas quais as oper\u00e1rias botam ovos somente em col\u00f4nias onde a rainha est\u00e1 ausente (tr\u00eas). Esta \u00faltima categoria difere das outras pelo fato de as oper\u00e1rias responderem diante da presen\u00e7a da rainha com a n\u00e3o ativa\u00e7\u00e3o de seus ov\u00e1rios.<\/p>\n<p>A pesquisa foi feita em duas frentes. Os pesquisadores primeiro procuraram entender como se deu a evolu\u00e7\u00e3o do comportamento reprodutivo das oper\u00e1rias na presen\u00e7a ou aus\u00eancia da rainha. Al\u00e9m disso, buscaram descobrir qual ou quais seriam os compostos qu\u00edmicos respons\u00e1veis pela sinaliza\u00e7\u00e3o das rainhas \u00e0s oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>O comportamento reprodutivo das oper\u00e1rias de 21 esp\u00e9cies era conhecido da literatura cient\u00edfica. Das outras duas,\u00a0<i>Lestrimelitta limao<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Plebeia m\u00ednima<\/i>, Nunes e colegas estabeleceram no melipon\u00e1rio tr\u00eas col\u00f4nias de cada.<\/p>\n<p>O comportamento das oper\u00e1rias f\u00e9rteis foi observado diariamente ao longo de tr\u00eas meses em presen\u00e7a da rainha nas colmeias. A seguir, retirada a rainha, o comportamento foi investigado por mais tr\u00eas meses. \u201cQuando retiramos a rainha do ninho, as oper\u00e1rias come\u00e7am a botar\u201d, disse Nunes.<\/p>\n<p><b>Castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica<\/b><\/p>\n<p>Com respeito aos ferom\u00f4nios, foram analisados os hidrocarbonetos cuticulares produzidos pela rainha. S\u00e3o os ferom\u00f4nios usados para a sinaliza\u00e7\u00e3o qu\u00edmica com as oper\u00e1rias. Foram identificados 128 compostos qu\u00edmicos diferentes.<\/p>\n<p>\u201cOs hidrocarbonetos cuticulares s\u00e3o ferom\u00f4nios ou sinalizadores qu\u00edmicos. S\u00e3o ceras n\u00e3o vol\u00e1teis, n\u00e3o se dispersam no ar. Conseguimos mapear no corpo da rainha onde est\u00e3o essas subst\u00e2ncias. Est\u00e3o principalmente na cabe\u00e7a. Da\u00ed se concluir que a sinaliza\u00e7\u00e3o qu\u00edmica entre a rainha e as oper\u00e1rias f\u00e9rteis s\u00f3 pode ocorrer por contato f\u00edsico entre elas\u201d, disse Peporine Lopes.<\/p>\n<p>Nas tr\u00eas esp\u00e9cies nas quais isso foi observado,\u00a0<i>Friesella schrottkyi<\/i>,\u00a0<i>Leurotrigona muelleri<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Plebeia lucii<\/i>, as oper\u00e1rias f\u00e9rteis passaram a botar ovos quando a rainha foi removida do ninho.<\/p>\n<p>\u201cA conclus\u00e3o a que se chega \u00e9 que as oper\u00e1rias dessas esp\u00e9cies n\u00e3o foram castradas quimicamente pela rainha. A presen\u00e7a do sinal qu\u00edmico da rainha desestimula a ovula\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias\u201d, disse Peporine Lopes.<\/p>\n<p>Nunes conta que a seguir foi mapeado esse comportamento reprodutivo das oper\u00e1rias ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, para saber como era o comportamento ancestral das abelhas sem ferr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPudemos, com isso, inferir que a modula\u00e7\u00e3o da esterilidade das oper\u00e1rias em resposta ao ferom\u00f4nio da rainha [ou \u00e0 presen\u00e7a e \u00e0 aus\u00eancia da rainha] evoluiu de modo independente ao menos tr\u00eas vezes, nas linhagens que resultaram nas esp\u00e9cies\u00a0<i>F. schrottkyi<\/i>,\u00a0<i>L. muelleri<\/i>\u00a0e\u00a0<i>P. lucii<\/i>\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cO que eu acho importante neste trabalho \u00e9 que ele vem estabelecer um contraponto na vis\u00e3o tradicional da castra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada das oper\u00e1rias pela rainha. \u00c9 por isso que conseguimos publicar em um peri\u00f3dico da Nature\u201d, disse Peporine Lopes.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Evolution of queen cuticular hydrocarbons and worker reproduction in stingless bees<\/i>\u00a0(doi:10.1038\/s41559-017-0185), de T\u00falio M. Nunes, Benjamin P. Oldroyd, Larissa G. Elias, Sidnei Mateus, Izabel C. Turatti e Norberto P. Lopes, est\u00e1 dispon\u00edvel para assinantes em:\u00a0<b><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-017-0185\" target=\"_blank\">www.nature.com\/articles\/s41559-017-0185<\/a>.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As raz\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o e do funcionamento das col\u00f4nias de insetos sociais s\u00e3o tema de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":70613,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/abelhas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"As raz\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o e do funcionamento das col\u00f4nias de insetos sociais s\u00e3o tema de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70612"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70612\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}