{"id":70151,"date":"2017-08-03T13:00:52","date_gmt":"2017-08-03T16:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=70151"},"modified":"2017-08-03T11:49:34","modified_gmt":"2017-08-03T14:49:34","slug":"pesquisa-altera-arvore-genealogica-dos-cupins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisa-altera-arvore-genealogica-dos-cupins\/","title":{"rendered":"Pesquisa da Universidade de S\u00e3o paulo altera \u00e1rvore geneal\u00f3gica dos cupins"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/cupim.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-70152\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/cupim-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/cupim-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/cupim.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Estudar cupins \u00e9 estudar diversidade. Diferente do senso comum, eles fazem parte de uma ordem de insetos muito diversificada. S\u00e3o cerca de 3 mil esp\u00e9cies no mundo, sendo mais de 300 s\u00f3 no Brasil. Para espanto dos leigos no assunto, apenas uma minoria, cerca de 10%, \u00e9 considerada praga e a maioria n\u00e3o se alimenta de madeira.<\/p>\n<p>Recentemente, uma equipe de pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (MZUSP), que tem estudado cupins h\u00e1 v\u00e1rios anos, causou uma reviravolta na classifica\u00e7\u00e3o taxon\u00f4mica de algumas esp\u00e9cies de cupim e acabou tamb\u00e9m por reconstruir parte da hist\u00f3ria evolutiva desses insetos.<\/p>\n<p>Os resultados foram publicados na\u00a0<b><a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0174366#pone-0174366-g022\" target=\"_blank\"><i>PLOS ONE<\/i><\/a><\/b>. O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de um\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/84494\" target=\"_blank\">Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa<\/a><\/b>\u00a0conduzido por Eliana Marques Cancello, do MZUSP, e de uma\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/133303\" target=\"_blank\">Bolsa de P\u00f3s-Doutorado<\/a><\/b>\u00a0para Maur\u00edcio Martins da Rocha, orientado por Cancello.<\/p>\n<p>A altera\u00e7\u00e3o na \u00e1rvore geneal\u00f3gica dos cupins foi resultado de um estudo mais a fundo na morfologia de soldados e oper\u00e1rios. Os pesquisadores constataram que, embora \u00fatil para a classifica\u00e7\u00e3o taxon\u00f4mica, a morfologia da casta dos soldados \u2013 que sempre foi considerada muito importante para a diagnose \u2013 revelou v\u00e1rios casos de converg\u00eancia, quando os animais que n\u00e3o t\u00eam muito parentesco acabam adquirindo forma parecida. Por outro lado, o h\u00e1bito de alimenta\u00e7\u00e3o de cada esp\u00e9cie mostrava indica\u00e7\u00f5es de signific\u00e2ncia evolutiva.<\/p>\n<p>De acordo com Rocha, os taxonomistas no passado se apegavam muito a semelhan\u00e7as na morfologia externa para a classifica\u00e7\u00e3o taxon\u00f4mica e, por isso, foram verificadas tantas converg\u00eancias.<\/p>\n<p>Antes do estudo, era esperado que a morfologia dos cupins da casta dos soldados refletisse o parentesco entre os in\u00fameros g\u00eaneros de cupins. Desta forma, um soldado com mand\u00edbula perfurante deveria ser mais aparentado com esp\u00e9cies que tivessem a mesma caracter\u00edstica em compara\u00e7\u00e3o com outras de mand\u00edbulas cortantes. Mas n\u00e3o foi o que os pesquisadores verificaram.<\/p>\n<p>Os cupins est\u00e3o divididos atualmente em nove fam\u00edlias, sendo Termitidae a maior e mais diversa de todas, com quase 2 mil esp\u00e9cies descritas. A fam\u00edlia Termitidae tem, por sua vez, oito subfam\u00edlias, das quais Syntermitinae \u2013 com 18 g\u00eaneros e 101 esp\u00e9cies de cupins descritas at\u00e9 o momento \u2013 inclui algumas das esp\u00e9cies mais abundantes nos ambientes naturais do Brasil, como \u00e9 o caso dos\u00a0<i>Cornitermes cumulans<\/i>, que t\u00eam grande import\u00e2ncia ecol\u00f3gica, sendo consideradas esp\u00e9cies-chave do Cerrado.<\/p>\n<p>Os cupins estudados da subfam\u00edlia Syntermitinae, por exemplo, n\u00e3o comem madeira de \u00e1rvores vivas. \u201cS\u00e3o as esp\u00e9cies que fazem aqueles ninhos grandes e alteram as paisagens. Os ninhos, que abrigam uma grande biomassa, tamb\u00e9m refletem a import\u00e2ncia dos cupins no solo, que ao ser remexido sofre mudan\u00e7as qu\u00edmicas e f\u00edsicas. Eles servem tamb\u00e9m de abrigo para outras esp\u00e9cies de cupim, para outros artr\u00f3podes, cobras e at\u00e9 aves, que usam o ninho para demarcar territ\u00f3rio\u201d, disse Cancello, curadora da cole\u00e7\u00e3o de Isoptera do Museu.<\/p>\n<p>Ao cruzar dados sobre 92 caracter\u00edsticas em 42 esp\u00e9cies de Syntermitinae e seis esp\u00e9cies de Termitinae (outra subfam\u00edlia de cupins), a pesquisa levou a uma mudan\u00e7a na compreens\u00e3o desses insetos da ordem Isoptera e \u00e0 reclassifica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da an\u00e1lise de caracter\u00edsticas da anatomia externa (como mand\u00edbulas) e da anatomia interna, especialmente do tubo digestivo das castas de soldado e oper\u00e1rio, tamb\u00e9m foram analisadas 117 sequ\u00eancias de DNA. Para tanto, foi preciso ir a campo e obter material de esp\u00e9cies pouco representadas nos 28 mil lotes armazenados no Museu de Zoologia, a maior cole\u00e7\u00e3o de cupins na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Para conseguir trabalhar com um tamanho t\u00e3o grande de informa\u00e7\u00f5es, os dados morfol\u00f3gicos e moleculares foram combinados em uma an\u00e1lise de infer\u00eancia bayesiana, que descreve as incertezas sobre quantidades de forma probabil\u00edstica. Os aspectos importantes da biologia dos cupins, defesa e h\u00e1bitos alimentares foram discutidos com base na \u00e1rvore filogen\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u201cDurante meu doutorado realizei a revis\u00e3o do g\u00eanero\u00a0<i>Armitermes<\/i>, e quase \u2018extinguimos\u2019 o g\u00eanero na Am\u00e9rica do Sul. Estudando mais a fundo a anatomia de todas as esp\u00e9cies que eram classificadas como\u00a0<i>Armitermes<\/i>, verifiquei que a maioria apresentava diferen\u00e7as marcantes na anatomia interna, embora seus soldados fossem externamente semelhantes. Por isso, foi preciso realocar a maioria em novos g\u00eaneros\u201d, disse Rocha \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>.<\/p>\n<p>Atualmente no p\u00f3s-doutorado, Rocha ampliou a an\u00e1lise para outros g\u00eaneros da subfam\u00edlia Syntermitinae, fazendo uma an\u00e1lise filogen\u00e9tica para reconstruir a hist\u00f3ria evolutiva desses insetos.<\/p>\n<p><b>Vida secreta dos cupins<\/b><\/p>\n<p>O estudo indicou que, na hist\u00f3ria evolutiva de Syntermitinae, houve uma divis\u00e3o muito precoce entre linhagens que se alimentam de material n\u00e3o humificado (ou pouco degradado), como gram\u00edneas mortas e madeira, e aquelas que se alimentam de recursos vegetais muito humificados, como madeira bastante apodrecida, h\u00famus e material da parede de ninhos de outros cupins, que em grande parte s\u00e3o constru\u00eddos de material estercoral (uma mistura de fezes e saliva dos cupins com a terra).<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, a mudan\u00e7a na dieta n\u00e3o deve ter se refletido apenas na forma da mand\u00edbula dos oper\u00e1rios, mas tamb\u00e9m na conforma\u00e7\u00e3o do aparelho digestivo e na complexa fauna de simbiontes associados.<\/p>\n<p>\u201cExistem classifica\u00e7\u00f5es dentro desses tipos de comportamento e \u00e9 importante tentar entend\u00ea-las em termos de evolu\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que esses insetos tinham originalmente uma \u00fanica dieta espec\u00edfica e depois foram diversificando?\u201d, disse Cancello.<\/p>\n<p>Os pesquisadores estimam que os Syntermitinae pertencem a uma linhagem mais recente da hist\u00f3ria evolutiva. \u201cTudo indica que o grupo se diversificou quando a Am\u00e9rica do Sul j\u00e1 estava separada dos outros continentes, no Oligoceno [entre 36 milh\u00f5es e 23 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s], mas n\u00e3o h\u00e1 f\u00f3ssil para estudar. O Crato [s\u00edtio paleontol\u00f3gico no Cear\u00e1], por exemplo, \u00e9 do Cret\u00e1ceo [entre 145 milh\u00f5es e 66 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s], quando esses cupins ainda n\u00e3o existiam\u201d, disse Cancello.<\/p>\n<p><b>Segredo guardado no est\u00f4mago<\/b><\/p>\n<p>No processo de an\u00e1lise, os pesquisadores encontraram v\u00e1rias estruturas que n\u00e3o haviam sido descritas.<\/p>\n<p>\u201cO tubo digestivo dos cupins \u00e9 bastante compartimentalizado. Um dos compartimentos \u00e9 a pan\u00e7a, onde ficam os simbiontes que ajudam na digest\u00e3o, mas existem outros compartimentos que at\u00e9 hoje n\u00e3o se compreende muito bem que papel t\u00eam na digest\u00e3o. Em um destes encontramos na parede uma ornamenta\u00e7\u00e3o muito diversificada, que nunca tinha sido descrita antes \u201d, disse Rocha.<\/p>\n<p>A ornamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o era igual para todas as esp\u00e9cies. \u201cEla deve estar relacionada com a digest\u00e3o, mas, independentemente de entendermos a fun\u00e7\u00e3o, podemos comparar morfologicamente e refinar quem \u00e9 mais parente de quem. A partir desses detalhes finos da anatomia, podemos recuperar a filogenia, fugindo daquilo que consideram intuitivo\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Phylogenetic reconstruction of Syntermitinae (Isoptera, Termitidae) based on morphological and molecular data<\/i>, de Mauricio M. Rocha , Adriana C. Morales-Corr\u00eaa e Castro, Carolina Cuezzo e Eliana M. Cancello, pode ser lido em<b><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0174366\" target=\"_blank\">https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0174366<\/a><\/b>.\u00a0<i><br \/>\n<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudar cupins \u00e9 estudar diversidade. 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